poesia, tradução

Cecilia Pavón (1973—), por Danilo Diógenes

Cecilia Pavón é uma poeta argentina, nascida em Mendoza, em 1973. Vive em Buenos Aires, onde licenciou-se em Letras pela Universidade de Buenos Aires. Em 1999 fundou, junto com Fernanda Laguna, a editora e galeria Belleza y Felicidad, espaço que serviu de plataforma para a difusão de novos artistas e escritores.

Danilo Diógenes nasceu no Espírito Santo, em 1990. Vive no Rio de Janeiro. Licenciou-se em Letras (Português-Literaturas) pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde cursa o mestrado em Ciência da Literatura e atua como coordenador adjunto do Núcleo Poesia do Programa Avançado de Cultura Contemporânea (PACC).

* * *

Gonçalo

Nem em um milhão de anos

Volto a escrever entre drogados, mas
sem me drogar.
Junto a Gonçalo, vestido de jeans
ele tomou droga para cavalos, me pede
que o acompanhe para falar ao telefone
(com o hospital?) está atordoado, coitadinho
parece um pobre anjo ferido,
um pobre animal indefeso.
Por que você usou isso, Gonçalo?

Para provar, só para provar.

Estamos num shopping,
somos amigos do dono,
está fechado porque já é de madrugada
e há uma festa.

Caminhamos por este lugar tão grande
cheio de glamour, luxo, sofisticação.
O piso de parquet brilha.
Quando chegamos em sua casa ele se deita
como um peso morto
Deixa-se cair e tira a roupa.
Pare de escrever mentalmente,
ele me diz,
e me mostra
uma revista pornô que um amigo lhe deu de presente.
Não é uma revista vulgar,
é pornografia estetizada,
e agradeço aos céus por ter um
amante tão sutil esta noite

Uma mulher com oito picas na cara,
nunca tinha visto
algo parecido,
mas ela é bonita,
verdadeiramente bonita,
e parece muito segura do que está fazendo.

Fazemos amor e conversamos.
Estou cansada de tanto falar,
as letras misturam-se com qualquer coisa,
Minha mente e minha garganta se perdem.
Gonçalo me fala sobre a praia.
A praia é seu lugar favorito,
quer morrer na praia,
quer deixar tudo e ir para uma ilha deserta.
Eu,
não posso parar de olhar
as portas do armário,
vai de uma parede a outra,
não tem nada dentro.
Lindo armário,
lhe digo,
e como está bem decorada
a tua casa.
E ao escutar isso ele me abraça
com tanta paixão
e me dá milhões de beijos
os melhores beijos que recebi
os beijos que eu estava esperando

milhões de anos.

Gonzalo

No en un millón de años

Vuelvo a escribir entre drogados, pero
sin drogarme.
Junto a Gonzalo, vestido de jeans
tomó drogas para caballos, me pide que
lo acompañe a hablar por teléfono
(al hospital?) está mareado, pobrecito
parece un pobre ángel herido,
un pobre animal desamparado.
¿Por qué tomaste eso, Gonzalo?

Para probar, sólo para probar.

Estamos en un shopping,
somos amigos del dueño,
está cerrado porque ya es la madrugada
y hay una fiesta.

Caminamos por este lugar tan grande
lleno de glamour, lujo, sofisticación.
El piso de parquet brilla.
Cuando llegamos a su casa se acuesta
como un peso muerto
Se deja caer y se desviste.
Dejá de escribir con la mente
me dice,
y me muestra
una revista porno que le regaló un amigo
No es una revista vulgar,
es pornografía estetizada,
y le agradezco al cielo tener un
amante tan sutil esta noche

Una mujer con ocho pijas en la cara,
nunca había visto
algo parecido,
pero ella es hermosa,
verdaderamente hermosa,
y parece muy segura de lo que hace.

Hacemos el amor y conversamos.
Estoy exhausta de tanto hablar,
las letras se mezclan con cualquier cosa,
se me pierde la mente y la garganta.
Gonzalo habla sobre la playa.
La playa es su lugar preferido,
quiere morir en la playa,
quiere dejar todo e irse a una isla desierta.
Yo,
no puedo parar de mirar
las puertas del placard.
Va de pared a pared,
Adentro no hay nada.
Qué lindo placard,
le digo,
y qué bien decorada
está tu casa.
Y al escuchar esto me abraza
con tanta pasión
y me da millones de besos
los mejores besos que he recibido
los besos que estaba esperando
hace
millones de años.

[De Un hotel con mi nombre, 2012]

§ 

Balas de anis

Fecharam os shoppings, os bancos, os cinemas
você só pensa em se deixar levar como
essa vagabunda do filme
vanguardista, sem argumento, de que te falou
um amigo numa festa
Nunca foi a lugar nenhum
e quando pôde sair
só chegou a um país em que te roubaram
a imaginação.
E de volta
no aeroporto
os empregados da linha aérea tiveram que amarrar
com uma corda a sua mala
que explodiu por estar cheia de coisas.
Você ama as bicicletas ou a dança:
pensa que só elas poderiam te dar
um sentimento de mudança concreto
sai para buscar amigos
volta sozinha
os dias passam e você não liga para os telefones
anotados com letra tão pequena
em pedaços de papel
deixa-os na sacada
e o sol apaga os números.

Caramelos de anís

Cerraron los shoppings, los bancos, los cines
sólo pensás en dejarte llevar como
esa vagabunda de la película
vanguardista, sin argumento, de la que te habló
un amigo en un baile
Nunca fuiste ninguna parte
y cuando pudiste salir
sólo llegaste a un país en el que te robaron
la imaginación.
Y de vuelta
en el aeropuerto
los empleados de la aerolínea tuvieron que rodear
con una cuerda tu valija
que explotó por estar llena de cosas.
Amás las bicicletas o la danza:
pensás que sólo ellas podrían darte
un sentimiento de cambio concreto
salís a buscar amigos
volvés sola
pasan los días y no llamás a los teléfonos
anotados con letra tan pequeña
en papelitos
los dejás en el balcón
y el sol le borra los números.

[De Un hotel con mi nombre, 2012]

§

Desejo

Quantas formas de desejo existem? é possível haver tantas?
Não poderia haver um milagre, através do qual eu fechasse
os olhos e simplesmente te encontrasse me beijando e isso
trouxesse sobre si a marca da eternidade ou o infinito?

Mas deve haver tantos desejos quanto formas: quadrado,
com forma de flecha, redondo, triangular, com pontas,
com arestas, vertical, desfeito, inanimado.

Ainda lembro o momento em que o amor parecia
possível: mês de novembro, ar luminoso, um cara
dormia comigo,
conversávamos na cama enquanto fumávamos maconha
misturada com tabaco, ele segurava minha mão
por debaixo dos lençóis.

Faz seis meses que não beijo ninguém.
Seis meses sem fazer amor. Tenho 27 anos,
desde os 18 isso nunca tinha me acontecido.

Meu corpo em estado de alerta, poderia usar muitos verbos
para descrevê-los paredes que se levantam
e que são povoadas por espécies de hidras mentais.

É outono, lamento que o inverno se aproxime.
Sinto que me devem um verão.

Deseo

¿Cuántas formas de deseo existen? ¿puede ser que tantas?
¿No podría llegar un milagro, a través del cual yo cerrara
los ojos y simplemente te encontrara besándome y eso
cargara sobre sí la marca de la eternidad o el infinito?

Pero debe haber tantos deseos como formas: cuadrado,
con forma de flecha, redondo, triangular, con puntas,
con aristas, vertical, deshecho, inanimado.

Todavía recuerdo el momento en que el amor parecía
posible: mes de noviembre, aire luminoso, un muchacho
dormía conmigo,
hablábamos en la cama mientras fumábamos marihuana
y tabaco mezclados, él me tomaba la mano
bajo las sábanas.

Hace seis meses que no he besado a nadie.
Seis meses sin hacer el amor. Tengo 27 años,
desde los 18, nunca antes me había pasado.

Mi cuerpo en estado de alerta, podría usar muchos verbos
para describirlo paredes que se levantan
y que vienen a poblar especies de hiedras mentales.

Es otoño, lamento que se acerque el invierno.
Siento que me deben un verano.

[De Un hotel con mi nombre, 2012]

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