poesia, tradução

“A traição da moendeira”, de Goethe, por Mauricio Mendonça Cardozo

Este poema, também conhecido como “A traição da moleira” [Der Müllerin Verrat], é parte do conto “La folle en pèlerinage“, publicado anonimamente em 1789 nos Cahiers de lecture, revista alemã que veiculava apenas textos em língua francesa. Sua autoria até hoje permanece desconhecida. Tomando algumas liberdades poéticas, Goethe traduz para o alemão o conto e o poema, inserindo o conjunto, sob o título de “A disparatada peregrina” [Die pilgernde Törin], no quinto capítulo do primeiro livro de sua obra Os anos de peregrinação de Wilhelm Meister (1821-1829). Nesse contexto, Goethe não atribui ao poema um título próprio.

Segundo anota uma das edições críticas da obra de Goethe (Hamburger AusgabeRomane und Novellen III, volume 8, p.569), o autor alemão não traduz a novela a partir da versão publicada em 1789, mas, sim, a partir de uma cópia manuscrita, com pequenas variações, até hoje disponível no Goethe- und Schiller-Archiv, em Weimar. Uma versão dita mais “literal”, traduzida para o alemão por seu secretário Riemer, pode também ter servido de base para a versão final de Goethe.

Seguindo a tradição das baladas populares e dos dramas musicais, o poema, em alemão, é uma canção formada por 10 oitavas, em tetrâmetros (octossilábicos) de pés jâmbicos. As estrofes, o padrão rímico e a predominância estrutural de células jâmbicas são reproduzidos nesta versão em português, que, no entanto, acomoda essa romança burlesca em versos dodecassílabos.

Mauricio Mendonça Cardozo (Curitiba, 1971) é professor de teoria da tradução e tradução literária na Universidade Federal do Paraná, em Curitiba (Brasil). É tradutor de autores como E. E. Cummings, Rainer Maria Rilke, Paul Celan, Heinrich Heine, Theodor Storm, entre outros, com destaque à tradução da autobiografia Poesia e Verdade, de Goethe, contemplada com o Prêmio Paulo Rónai de Tradução, em 2018. É autor do livro de poemas quarentaequatro (Circuito, 2016).

* * *

A traição da moendeira

D’onde ele vem com seu mantô e tão ligeiro,
Nem bem o dia alvoreceu no oriente?
Será que o vento frio o fez de passageiro
E edificou o nosso amigo penitente?
Quem foi, me digam: quem roubou o seu chapéu?
Será que anda a pés descalços por que gosta?
Por que caminhos, revirando terra e céu,
Chegou à mata regelada da alta encosta?

Estranhamente abandonou o seu chatô,
Onde ele sempre diversão pôde encontrar,
E se ele não tivesse em mãos o seu mantô,
Mas que vergonha que ele então iria passar!
Pois foi assim que alguém, pregando-lhe uma peça,
Pegou-lhe a roupa, pegou trouxa, pegou tudo:
O pobre amigo desvestido até a cabeça,
Por pouco não virou um Adão de tão desnudo.

Por que arriscar-se pela vida tão faceiro
Por uma fruta, fruto ensejo do dessiso,
Que de tão bela, no quintal do moendeiro,
Iguala àquela nos jardins do paraíso?
Não vai fazer mais uma destas outra vez;
Saiu correndo, ali não volta mais tão cedo!
Na noite fria, remoendo o seu revés,
Vai lamentando amargamente o desenredo:

– Não pude ler em seu olhar de fogo ardente
Uma só sílaba que fosse de traição!
Quando comigo, parecia tão contente,
Mas já tramava o negro intento de sua ação.
Pod’ria eu já ter sonhado nos seus braços
Quão traiçoeiro o coração dela batia?
Até o Cupido ela mandou deter o passo,
Que, demorando-se, brindou-nos com alegria.

– Aproveitou-se da paixão que me inebriava,
E aquela noite se estendeu sem mais ter fim,
Mas de manhã, raiando o dia, toda brava,
Saiu gritando por sua mãe, sem dó de mim!
Aí surgiu de uma só vez a parentada.
Foi tanta gente, mal cabiam num só quarto!
E veio irmão, irmã e a tia adoentada,
E veio primo, prima e um tio já tendo infarto!

– A gritaria furibunda estava feita!
Cada parente virou um bicho diferente.
“Flor e grinalda, só assim é que se ajeita!”,
É o que exigia ali de mim toda essa gente.
“Mas o que é isso? Vocês todos estão loucos?
Por que a pressão sobre esse moço tão ingênuo?
Não é nada fácil conquistar esses tesouros,
Isso demanda certo tato e algum engenho.

Saibam vocês que se o Cupido faz seus jogos,
Ele só joga quando chega o tempo certo:
Se no moinho a floração começa logo,
O fim dos anos em botão já está bem perto” –.
Roubaram então a trouxa e as roupas do rapaz
E até o mantô já estavam prestes a pegar.
Como é que toda aquela gente tão falaz
Foi se encovar numa casinha tão vulgar.

– Pois eu saltei e disparei trovões e raios,
Abri passagem pela turba alvoroçada;
E ainda pude olhar p’ra ela de soslaio,
Mas, ai de mim, como era bela a desgraçada!
O povo todo se rendeu à minha ira,
Mas sem deixar de desfiar o xingatório;
Dizendo coisas que é melhor que eu não refira,
Eu finalmente me livrei daquela escória.

– Dessas mocinhas do interior e da cidade,
Eu delas fujo como um gato rescaldado!
Que tal deixarem às damas d’alta sociedade
Esse prazer de desvestir os seus criados!?
Mas se vocês também são hábeis nessas artes
E não se atêm às sempiternas ligações,
Ao menos lembrem de variar o seu comparte,
E não me venham com essas suas delações –.

Cantava assim na noite fria o tremebundo,
Nem um só ramo em pleno inverno enverdecia.
Mas eu me rio de suas mágoas mais profundas,
Já que no fundo elas são mais que merecidas;
É o que acontece a qualquer um que, à luz do dia,
Engana a amada que o acompanha a vida inteira,
E à noite sem temer Cupido, em quem se fia,
Vai rastejando para os braços da moendeira.

Der Müllerin Verrat

Woher im Mantel so geschwinde,
Da kaum der Tag in Osten graut?
Hat wohl der Freund beim scharfen Winde
Auf einer Wallfahrt sich erbaut?
Wer hat ihm seinen Hut genommen?
Mag er mit Willen barfuß gehn?
Wie ist er in den Wald gekommen
Auf den beschneiten, wilden Höhn?

Gar wunderlich von warmer Stätte,
Wo er sich bessern Spaß versprach,
Und wenn er nicht den Mantel hätte,
Wie gräßlich wäre seine Schmach!
So hat ihn jener Schalk betrogen
Und ihm das Bündel abgepackt:
Der arme Freund ist ausgezogen,
Beinah wie Adam bloß und nackt.

Warum auch ging er solche Wege
Nach jenem Apfel voll Gefahr,
Der freilich schön im Mühlgehege
Wie sonst im Paradiese war!
Er wird den Scherz nicht leicht erneuen;
Er drückte schnell sich aus dem Haus,
Und bricht auf einmal nun im Freien
In bittre, laute Klagen aus:

»Ich las in ihren Feuerblicken
Doch keine Silbe von Verrat!
Sie schien mit mir sich zu entzücken
Und sann auf solche schwarze Tat!
Konnt ich in ihren Armen träumen,
Wie meuchlerisch der Busen schlug?
Sie hieß den raschen Amor säumen,
Und günstig war er uns genug.

Sich meiner Liebe zu erfreuen,
Der Nacht, die nie ein Ende nahm,
Und erst die Mutter anzuschreien
Jetzt eben, als der Morgen kam!
Da drang ein Dutzend Anverwandten
Herein, ein wahrer Menschenstrom!
Da kamen Brüder, guckten Tanten,
Da stand ein Vetter und ein Ohm!

Das war ein Toben, war ein Wüten!
Ein jeder schien ein andres Tier.
Da forderten sie Kranz und Blüten
Mit gräßlichem Geschrei von mir.
›Was dringt ihr alle wie von Sinnen
Auf den unschuld’gen Jüngling ein!
Denn solche Schätze zu gewinnen,
Da muß man viel behender sein.

Weiß Amor seinem schönen Spiele
Doch immer zeitig nachzugehn:
Er läßt fürwahr nicht in der Mühle
Die Blumen sechzehn Jahre stehn.‹ –
Da raubten sie das Kleiderbündel
Und wollten auch den Mantel noch.
Wie nur so viel verflucht Gesindel
Im engen Hause sich verkroch!

Da sprang ich auf und tobt’ und fluchte,
Gewiß, durch alle durchzugehn.
Ich sah noch einmal die Verruchte,
Und ach! sie war noch immer schön.
Sie alle wichen meinem Grimme,
Doch flog noch manches wilde Wort;
So macht’ ich mich mit Donnerstimme
Noch endlich aus der Höhle fort.

Man soll euch Mädchen auf dem Lande
Wie Mädchen aus den Städten fliehn!
So lasset doch den Fraun von Stande
Die Lust, die Diener auszuziehn!
Doch seid ihr auch von den Geübten
Und kennt ihr keine zarte Pflicht,
So ändert immer die Geliebten,
Doch sie verraten müßt ihr nicht.«

So singt er in der Winterstunde,
Wo nicht ein armes Hälmchen grünt.
Ich lache seiner tiefen Wunde,
Denn wirklich ist sie wohlverdient;
So geh’ es jedem, der am Tage
Sein edles Liebchen frech belügt
Und nachts, mit allzu kühner Wage,
Zu Amors falscher Mühle kriecht.

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