poesia, tradução

Mary Oliver, por Yuri Amaury

Mary Oliver foi uma poeta norte-americana nascida em Maple Highs, Ohio. Apesar de ter tido uma infância conturbada no seio de uma família disfuncional (negligenciada pela mãe, abusada pelo pai, vítima de pesadelos recorrentes), Oliver guardou boas lembranças da vizinhança semi-rural da zona suburbana de Cleveland, onde adquiriu desde cedo o hábito de perambular pelos bosques (geralmente, com um volume de poesia na mochila). Publicou seu primeiro livro de poemas, No Voyage and other poems, em 1963, um ano antes de mudar-se para a cidade costeira de Provincetown, Massachusetts, com a fotógrafa Molly Malone Cook, que conhecera no final dos anos 50 e que permaneceu sua companheira até sua morte em 2005. Nos últimos anos de sua vida, Oliver mudou-se para a Flórida, onde veio a morrer em decorrência de um linfoma em 17 de janeiro de 2019.

Em sua extensa obra poética, transparece a influência de Ralph Waldo Emerson, Henry David Thoreau e Walt Whitman – principalmente devido à presença da natureza como tema privilegiado. Largamente baseados em lembranças da infância e reflexões sobre o tempo e a paisagem natural observada em suas caminhadas diárias, os poemas de Oliver não podem, no entanto, ser acusados de ingenuidade romântica (como fizeram alguns críticos): as observações imagéticas e os raciocínios pontuados em seus versos se encaixam na tradição do Transcendentalismo, apresentando-se como uma espécie de desdobramento contemporâneo dos impulsos poéticos de Emerson. Alguns críticos detratores de Oliver denunciam o caráter inofensivo e auto-ajuda de determinados poemas de sua obra (por exemplo, Wild Geese – provavelmente, o mais célebre da poeta); o conjunto de sua poesia, porém – como os poemas abaixo bem mostram -, revela uma sensibilidade madura e um olhar atento e profundo, expressos em uma linguagem simples e direta.

Yuri Amaury é licenciado em Letras Português-Inglês pela UTFPR e mestrando em Estudos Literários pela UFPR.

* * *

At Black River

All day
   its dark, slick bronze soaks
     in a mossy place,
         its teeth,

a multitude
   set
     for the comedy
         that never comes –

its tail
   knobbed and shiny,
     and with a heavy-weight’s punch
         packed around the bone.

In beautiful Florida
   he is king
     of his own part
         of the black river,

and from his nap
   he will wake
     into the warm darkness
         to boom, and thrust forward,

paralyzing
   the swift, thin-waisted fish,
     or the bird
         in its frilled, white gown

that has dipped down
   from the heaven of leaves
     one last time,
         to drink.

Don’t think
   I’m not afraid.
     There is such an unleashing
         of horror.

Then I remember:
   death comes before
     the rolling away
         of the stone.

No Rio Negro

Todo o dia
   seu bronze escuro e liso se banha
     num lugar musgoso,
         seus dentes,

multidão
   a postos
     pra comédia
         que nunca vem –

sua cauda
   nodosa e brilhante,
     e com um soco de peso-pesado
         guardado em volta do osso.

Na beleza da Flórida
   ele é rei
     da sua própria parte
         do rio negro,

e da sua sesta
   ele vai acordar
     no morno da escuridão
         pra troar, e arremeter adiante,

paralisando
   o peixe ágil, de cintura fina,
     ou a ave
         de robe branco rufado

que mergulhou
   de um céu de folhas
     uma última vez,
         pra beber.

Não ache
   que não tenho medo.
     Tamanha é a liberação
         de horror.

Aí eu lembro:
   a morte vem antes
     de rolar pra longe
         a pedra.

§

Breakage

I go down to the edge of the sea.
How everything shines in the morning light!
The cusp of the whelk,
the broken cupboard of the clam,
the opened, blue mussels,
moon snails, pale pink and barnacle scarred—
and nothing at all whole or shut, but tattered, split,
dropped by the gulls onto the gray rocks and all the moisture gone.
It’s like a schoolhouse
of little words,
thousands of words.
First you figure out what each one means by itself,
the jingle, the periwinkle, the scallop
       full of moonlight.

Then you begin, slowly, to read the whole story.

Rebentação

Eu desço até a beira do mar.
Tudo brilha tanto na luz da manhã!
A ponta do búzio,
o armarinho quebrado da amêijoa,
os mexilhões abertos, azuis,
litorinas, rosa-pálidas e riscadas de craca –
e nada disso inteiro ou fechado, mas em frangalhos, fendido,
largado pelas gaivotas sobre as rochas cinzas e toda umidade                                                                                              [perdida.
É como uma escola
de pequenas palavras,
milhares de palavras.
Primeiro você descobre o significado de cada uma em si,
o tatuí, a pervinca, a vieira
repleta de luar.

Aí você começa, lentamente, a ler a história inteira.

§

Beside the waterfall

At dawn
   the big dog –
     Winston by name –
         reached down

into the leaves – tulips and willows mostly –
   beside the white
     waterfall,
         and dragged out,

into plain sight,
   a fawn;
     it was scarcely larger
         than a rabbit

and, thankfully,
   it was dead.
     Winston
         looked over the

delicate, spotted body and then
   deftly
     tackled
         the beautiful flower-like head,

breaking it and
   breaking it off and
     swallowing it.
         All the while this was happening

it was growing lighter.
   When I called to him
     Winston merely looked up.
         Grizzled around the chin

and with kind eyes,
   he, too, if you’re willing,
     had a face
         like a flower; and then the red sun,

which had been rising all the while anyway,
   broke
     clear of the trees and dropped its wild, clawed light
         over everything.

Do lado da cachoeira

Ao amanhecer
   o grande cão –
     de nome Winston –
         se abaixou

entre as folhas – tulipas e salgueiros, na maioria –
   do lado da cachoeira
     branca,
         e arrastou pra fora,

à luz do dia,
   uma corça;
     era pouco maior
         que um coelho

e felizmente,
   estava morta.
     Winston
         examinou o

delicado corpo pintado e aí
   com perícia
     atacou
         a bela cabeça, que lembrava uma flor,

partindo-a e
   arrancando-a e
     engolindo-a.
         Enquanto isso estava acontecendo

estava ficando mais claro.
   Quando eu o chamei
     Winston só ergueu o olhar.
         Grisalho perto do queixo

e com olhos gentis,
   ele também, pensando bem,
     tinha uma cara
         como flor; e aí o sol, rubro,

que continuou nascendo enquanto isso,
   se
     desprendeu das árvores e derrubou sua luz selvagem,
                                                                                     [dentada
         sobre toda coisa.

§

Fall

the black oaks
fling their bronze fruit
into all the pockets of the earth
            pock pock

they knock against the thresholds
the roof the sidewalk
fill the eaves
            the bottom line

of the old gold song
of the almost finished year
what is spring all that tender
            green stuff

compared to this
falling of tiny oak trees
out of the oak trees
            then the clouds

gathering thick along the west
then advancing
then closing over
            breaking open

the silence
then the rain
dashing its silver seeds
            against the house

Outono

os carvalhos pretos
lançam frutos brônzeos
pra dentro de todos os bolsos da terra
            poc poc

eles se chocam com os umbrais
com o teto a calçada
enchem as calhas
            o fechamento

da velha canção dourada
do ano quase terminado
o que é a primavera toda aquela tenra
            coisa verde

comparada com esse
cair de pequenos carvalhos
de cima dos carvalhos
            aí as nuvens

acumulando-se grossas no oeste
aí avançando
aí fechando em volta
            rompendo ao meio

o silêncio
aí a chuva
atirando sementes de prata
            contra a casa

§

Death at a great distance

The ripe, floating caps
   of the fly amanita
     glow in the pinewoods.
         I don’t even think
           of the eventual corruption of my body,

but of how quaint and humorous they are,
   like a collection of doorknobs,
     half-moons,
         then a yellow drizzle of flying saucers.
           In any case

they won’t hurt me unless
   I take them between my lips
     and swallow, which I know enough
         not to do. Once, in the south,
           I had this happen:

the soft rope of a water moccasin
   slid down the red knees
     of a mangrove, the hundreds of ribs
         housed in their smooth, white
           sleeves of muscle moving it

like a happiness
   toward the water, where some bubbles
     on the surface of that underworld announced
         a fatal carelessness. I didn’t
           even then move toward the fine point

of the story, but stood in my lonely body
   amazed and full of attention as it fell
     like a stream of glowing syrup into
         the dark water, as death
           blurted out of that perfectly arranged mouth.

Morte em grande distância

Os flutuantes gorros maduros
   do agário-das-moscas
     fosforescem nos pinhais.
         Eu nem chego a pensar
           no eventual apodrecimento do meu corpo,

mas no quanto eles são cômicos e esquisitos,
   como uma coleção de maçanetas,
     meias-luas,
         aí um chuvisco amarelo de discos voadores.
           Em todo caso

eles não vão me fazer mal a não ser
   que eu os pegue entre os lábios
     e engula, o que eu sei bem que
         não devo fazer. Uma vez, no sul,
           foi acontecer comigo:

o cordão macio duma cobra-d’água
   desceu deslizando pelos joelhos rubros
     dum mangue, as centenas de costelas
         alojadas nas suas lisas capas
           brancas de músculo movendo-as

como uma felicidade
   em direção à água, onde umas bolhas
     na superfície daquele submundo anunciavam
         um descuido fatal. Eu não
           fui nem nessa hora até o ponto alto

da história, mas fiquei com meu corpo solitário
   maravilhada e cheia de atenção enquanto ela caía
     como um riacho de melado brilhante
         na água escura, enquanto morte
           escapava por aquela boca perfeitamente arrumada.

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