tradução

Arquíloco de Paros (fr. 128 West), por Matheus Mavericco

archilochus1A poesia antiga nos encanta com quitutes tais como as peripécias homéricas ou os fragmentos de Safo, mas, se querem saber, nem sempre é fácil degustá-los da maneira devida. Precisamos despir praticamente toda a nossa indumentária conceitual antes de perambularmos pelas veredas da Hélade. O que hoje, por exemplo, nos apetece encontrar em poemas líricos, toda aquela de paz de espírito em saber que para além das fronteiras geográficas existem homens e mulheres que também padecem de um amor não correspondido, se num primeiro momento parece ser encontrável em restolhos poéticos antigos, numa análise mais detida revela-se como um verdadeiro baile de máscaras e personas regido pelo compasso do que a tradição e as convenções retóricas do tempo ditavam.

Com Arquíloco a armadilha permanece. Não são poucos os estudiosos que louvam em sua figura uma individualidade muito próxima da nossa, uma coisa pelo jeito mais aberta e franca do que a literatura grega até então tinha pra mostrar. Se a primeira impressão causada por sua poesia pode e deve ser debatida e contestada até que sintonizemos nossas antenas na frequência dos gregos, por outro lado, de maneira análoga ao que sentimos quando lemos o nosso árcade Tomás Antônio Gonzaga, no qual, como notou o Antonio Candido num texto certeiro sobre sua poesia, conseguimos ver, por trás de todas as convenções e lugares-comuns que acinzelavam a poesia do período, uma coisa mais palpável, mais direta, a figura de Marília recostada na janela e cruzando olhares ao acaso com os do poeta; de maneira análoga, eu diria, ao que parecemos sentir quando lemos o nosso Gonzaga, eu penso que podemos sentir lendo Arquíloco, este soldado nascido em Paros que conseguia mesclar o cotidiano militar a requintes de sensibilidade no mínimo desconcertantes. Vejam o caso de seu fragmento 13 W, de tonalidade muito próxima do 128 W, para o qual tomo a liberdade de fornecer ao leitor duas traduções:

fr. 13 W
κήδεα μὲν στονόεντα, Περίκλεες, οὔτε τις ἀστῶν
μεμφόμενος θαλίῃς τέρψεται οὐδὲ πόλις·
τοίους γὰρ κατὰ κῦμα πολυφλοίσβοιο θαλάσσης
ἔκλυσεν, οἰδαλέους δ᾿ ἀμφ᾿ ὀδύνῃς ἔχομεν
πνεύμονας. ἀλλὰ θεοὶ γὰρ ἀνηκέστοισι κακοῖσιν,
ὦ φίλ᾿, ἐπὶ κρατερὴν τλημοσύνην ἔθεσαν
φάρμακον. ἄλλοτε ἄλλος ἔχει τόδε· νῦν μὲν ἐς ἡμέας
ἐτράπεθ᾿, αἱματόεν δ᾿ ἕλκος ἀναστένομεν,
ἐξαῦτις δ᾿ ἑτέρους ἐπαμείψεται. ἀλλὰ τάχιστα
τλῆτε, γυναικεῖον πένθος ἀπωσάμενοι.

Hoje aos festins não vai folgar, ó Péricles,
Nem a cidade ou cidadão: prantos sem fim
Vertemos pelos náufragos que o cavo pélago
Tragou, e inchados os pulmões temos de dor.
Mas por consolo os deuses põem um fim ao mal
Que agora impõem a nós, depois aos outros.
Vai amanhã sentir alguém o mal que agora sentes,
Abandonemos fêmeo pranto, olhando em frente.

(trad. Antonio Medina Rodrigues)

Nosso pranto, Péricles, não será malvisto,
pois nas festas ninguém terá prazer:
bravos homens a onda do mar polissonante
levou, e a dor inflou-nos os pulmões.
Mas os deuses, meu amigo, aos males sem cura
deram por remédio a firme paciência.
O mal vem ora a uns, ora a outros: a nós
voltou-se, e a sangrenta chaga choramos;
mas logo cairá noutra parte. Vamos, deixe
o feminino choro e seja forte.

(trad. Marcelo Tápia)

O leitor encontrará uma reflexão ótima sobre a poesia de Arquíloco lendo o ensaio que o Guilherme dedicou ao poeta, publicado ano passado pela Zazie (clique aqui), no qual o ensaísta se vê diante do incômodo ético de traduzir, dentre outros, um fragmento recém-descoberto de Arquíloco que narra um estupro. No fragmento que trago abaixo pra vocês, de uma beleza e sabedoria aptas a serem destiladas em palestras motivacionais, existe uma construção curiosa que faz de um poema armado até os dentes de espírito bélico em uma conclamação suave dirigida ao coração, essa parte do corpo que corriqueiramente nos coloca para fora do prumo e que, para Arquíloco, é o nosso guerreirinho (<3).

Agradeço a Rafael Brunhara por, além de gentilmente ter transcrito as traduções de Aluízio Coimbra e Paula Corrêa (esta última dona, ao que me consta, de um finíssimo ensaio sobre Arquíloco), ceder sua primeira versão para o fragmento.

ARQUÍLOCO, fr. 128 West

θυμέ, θύμ’, ἀμηχάνοισι κήδεσιν κυκώμενε,
†ἀναδευ δυσμενῶν† δ’ ἀλέξεο προσβαλὼν ἐναντίον
στέρνον †ἐνδοκοισιν ἐχθρῶν πλησίον κατασταθεὶς
ἀσφαλέως· καὶ μήτε νικέων ἀμφάδην ἀγάλλεο,
μηδὲ νικηθεὶς ἐν οἴκωι καταπεσὼν ὀδύρεο,
ἀλλὰ χαρτοῖσίν τε χαῖρε καὶ κακοῖσιν ἀσχάλα
μὴ λίην, γίνωσκε δ’ οἷος ῥυσμὸς ἀνθρώπους ἔχει.

*

trad. Aluízio Coimbra [1941]

Coração, que insanáveis males cercam,
teus inimigos, peito a peito, enfrenta,
de perto e firme contra os seus embustes.
Vencedor, não blasones; nem, vencido,
no lar te prostres; mas desfruta, alegre,
o que é bom, sem que as penas te consumam,
e aprende que tal é da vida o ritmo.

*

trad. José Cavalcante de Souza [1978]
Coração, coração de imediatos nojos agitado,
levanta, às aflições resiste lançado em contrário
peito, a embustes de inimigos de perto contraposto
cim firmeza; e nem vencendo abertamente exultes
nem derrotado em casa abatido te lamentes,
mas com alegrias te alegra e com reveses te aflige
sem excesso; e conhece qual ritmo regra os homens.

*

trad. Paula Corrêa [1998 e 2009]

Coração, coração, por inelutáveis males conturbado,
ergue-te e, sendo hostil, defende-te lançando um peito
adverso, perto de inimigos emboscados permanecendo
firme, nem vencendo, abertamente exultes,
ou vencido, em casa caído lamentes,
mas com alegrias alegra-te e os males lastima
sem excesso, pois reconhece qual ritmo regra os homens.

*

trad. Maria Helena da Rocha Pereira [2003]
Coração, meu coração, que afligem penas sem remédio,
eia! Afasta os inimigos, opondo-lhes um peito
adverso. Mantém-te firme ao pé das ciladas
dos contrários. Se venceres, não exultes abertamente.
Vencido, não te deites em casa a gemer.
Mas goza as alegrias, dói-te com as desgraças,
sem exagero. Aprende a conhecer o ritmo que governa os homens.

*

trad. Carlos A. Martins de Jesus [2008]

Coração, ó coração, por males sem remédio derrubado,
ergue-te! Defende-te dos inimigos, opondo-lhes um peito
adverso, firme suportando as ciladas dos que te são hostis!
Se venceres, em demasia não rejubiles,
nem, vencido, em casa te deites em pranto.
Alegra-te antes com as alegrias, dói-te com as tristezas,
sem exagero. Aprende bem o ritmo que domina os homens.

*

trad. Rafael Brunhara [2008; 1ª versão]
Ânimo, ânimo, convulso por aflições sem cura,
Levanta, protege-te dos inimigos volvendo adverso
peito em infensas traições próximo postado
firme; E vencendo não exultes abertamente
nem vencido em casa caído lamentes,
Mas com alegrias alegra-te e deplora males
Sem excesso: conhece qual ritmo rege os homens.

*

trad. Glória Onelley e Shirley Peçanha [2013]

Coração, coração, perturbado por dores irremediáveis, levanta com coragem,
defende-te, lançando teu peito contra os inimigos,
colocando-te firmemente perto deles em emboscada!
Se venceres, não te enalteças publicamente,
nem, se vencido, te lamentes, deixando-te abater em casa.
Vamos, alegra-te com os prazeres e não te irrites em demasia com as infelicidades!
Reconhece que tal ritmo governa os homens.

*

trad. Leonardo Antunes [2014]
Alma minha, perturbada por tristezas incuráveis,
Põe-te em pé, defende-te dos que se lançam contra ti;
Peito firme frente as emboscadas dos teus inimigos.
Na vitória, não exultes em triunfo abertamente,
Nem te deixes abater em casa, sendo derrotada;
Mas alegra-te nas alegrias e lamenta os males
Sem excesso, conhecendo o ritmo que rege os homens.

Gravação: https://www.youtube.com/watch?v=cqqfGzvwVks

*

trad. Trajano Vieira [2017]

Coração, coração, turbado pela dor
incontornável, reage! Arroja o peito contra
o inimigo: estático, na expectativa
do ataque. Se venceres, nada de exultar
aos quatro ventos. Nada de gemer em casa,
se perdes. Goza do que apraz, modera a dor
no revés! Sabe o ritmo que domina os vivos!

*

trad. Guilherme Gontijo Flores [2018]
Peito, peito, combalido de imbatíveis aflições,
anda, avança, enfrenta frente a frente a força hostil e traz
todo o seio contra a horrenda multidão feroz de ardis,
firme, força! E não exultes caso acabes por vencer,
nem vencido vás tombar gemendo no teu próprio lar,
mas em teus deleites goza e em teus revezes chora, sim,
sem excessos, saibas: cada ritmo age em cada ser.

*

trad. Rafael Brunhara [2019; 2ª versão]

Coração, coração, por lutos inelutáveis agitado,
levanta, protege-te dos oponentes, volvendo adverso
peito, nas emboscadas inimigas próximo postado
firme; e vencendo, não exultes abertamente,
nem vencido, em casa caído lamentes,
mas com alegrias alegra-te e deplora males,
sem excesso: aprende que ritmo rege a humanidade.

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