poesia

“o sistema prende luiz inácio”, por Dirceu Villa

Não era um escritor político; não sou um escritor político. Mas desde o golpe de Estado de 2016, qualquer indiferença da minha parte, qualquer ficção confortável de deixar o tempo passar, e que o tempo decidisse — uma vez que nada tenho com isso e as instâncias políticas me superam em muito, mero poeta —, seria uma falsidade que teria de recitar para mim mesmo todo dia, sem esperança de absolvição da minha própria consciência.

Vivemos tempos extremos, nem todos sabem; e menos ainda têm suficiente clareza de quão extremos. Mas mesmo que não fosse esse o caso, mesmo que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fosse somente um troféu político isolado para aqueles que o perseguem por motivos deixados explícitos desde o capítulo 3 de O Povo Brasileiro, de Darcy Ribeiro, intitulado “Classe, cor e preconceito”, eu teria de abdicar da minha dignidade, como Lula não abdicou da dele, para ficar quieto.

Tive de escrever sobre política desde 2016, a contragosto. Em 2018 deixei a constância desses escritos para me dedicar apenas a um eventual horror novo que ultrapassasse a medida já alta dos nossos horrores. A indignidade Ética, do Direito, da História, da própria decência comum que significa a prisão de Lula, assim como significou a execução de Marielle (a respeito da qual a pergunta sobre o mandante do crime não passa de gesto retórico, porque todos sabem a resposta, em silêncio), ultrapassou todos os limites.

Não escrevi poema sobre, porque poemas não se escrevem sobre: o poema me ocorreu, parte da vida. É registro meu, do desgosto que deveria ser o de cada cidadão e cidadã deste país, assim como tem sido o desgosto de numerosas pessoas, mesmo no estrangeiro. A poesia, como qualquer outra arte, não é um enfeite para a distração dominical: está dentro de tudo o que há, e tem responsabilidade por tudo o que diz.

E eu digo: Lula livre.

Dirceu Villa

* * *

o sistema prende luiz inácio

ungido de flores, lágrimas, foi levado por braços que
mais queriam escondê-lo, escudá-lo do mal a que ele
enfim concordou se entregar. oceano humano impedia
ao grande homem afundar naquela sua noite sombria,

em fumaça de bombas, no fogo das ruas, na farsa da lei.
o mártir apaga o algoz que o mata; voz, mesmo calada,
intacta; as vozes ouvidas agora, amadas agora: de um
horror assassino; e a nação insensata traz nêmesis viva

do fundo escuro de seu sono trágico. posam sorrindo
em armas e efígies de gente enforcada, e o novo prazer
é a morte de tudo o que não é a morte. o homem no
calabouço sorri em sua máscara, sólido ferro; aguarda

sem ódio passar a noite da terra, transe de morte. gregos
antigos se agitam no coro, os deuses apertam as lanças
nas mãos e as parcas se põem a fiar e cortar; poder do
pai ao filho, o da pedra ao ferro, o do cimento ao sangue.

* * *

Dirceu Villa (1975, São Paulo) é autor de 5 livros publicados de poesia, MCMXCVIII (1998), Descort (2003, prêmio Nascente), Icterofagia (2008, ProAC), Transformador (antologia, 2014), speechless tribes: três séries de poemas incompreensíveis (2018) e 1 inédito, couraça (2017). É tradutor de Um anarquista e outros contos, de Joseph Conrad (2009), Lustra, de Ezra Pound (2011) e Famosa na sua cabeça, de Mairéad Byrne (2015). Escreveu ensaios sobre poesia contemporânea e revisão do cânone de poesia de língua portuguesa. Foi o curador da exposição de livros de Ezra Pound, a Ezpo, da biblioteca de Haroldo de Campos, na Casa das Rosas (2008). Organizou uma antologia de poetas brasileiros contemporâneos para a revista La Otra, do México, em 2009, e escreveu apresentações para obras de Stéphane Mallarmé, Charles Baudelaire, Christopher Marlowe, além de autores contemporâneos, como Alfredo Fressia, Fabiano Calixto, Ricardo Aleixo e Jeanne Callegari. Foi convidado para o PoesieFestival de Berlim em 2012 e em 2015 foi escolhido para residência literária em Norwich e Londres, promovida pelo British Council, a FLIP e o Writers’ Centre Norwich. Participou também do Festival Internacional de Poesía de Granada, na Nicarágua, em 2018, e do Festival Policromia Poetry & Co., em Siena, Itália, 2019. Sua poesia já foi traduzida para o espanhol, o inglês, o francês, o italiano e o alemão, publicada em antologias ou revistas especializadas. Tem doutorado em Literaturas de Língua Inglesa pela USP (com estágio de doutorado em Londres), estudando o Renascimento na Inglaterra e na Itália, e pós-doutorado em Literatura Brasileira, também da USP, revisando o cânone de poesia de língua portuguesa. Ensinou literatura na pós lato-sensu da Universidade de São Paulo (USP), na graduação da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) e é há cinco anos professor da Oficina de Tradução Poética da Casa Guilherme de Almeida (Centro de Estudos de Tradução Literária). 

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poesia, tradução

Ernesto Cardenal, por Mariana Ruggieri

Cardenal on boat (Foto by Sandra Eleta, 1974)

Fotografia: Sandra Eleta, 1974

Ernesto Cardenal, poeta nicaraguense nascido em 1925, foi padre, participou da luta sandinista – para depois criticá-la face ao horror – e é devoto da teologia da libertação. Segue vivendo na sua ilha comunitária em Solentiname, reinventando cristianismos e marxismos e também a língua. Seu poema “Viaje a Nueva York” é um poema-documentário ou um poema-reportagem de fôlego e descreve uma visita sua a Nova Iorque no início dos anos 70.

O professor Amalfitano, personagem de Roberto Bolaño, diz em Los sinsabores del verdadero policía que “Viaje a Nueva York” é um dos dois maiores poemas modernos da América Latina, ao lado de “El soliloquio del individuo” de Nicanor Parra. Independentemente do que se possa pensar a respeito de tais formas de hierarquizar e categorizar a poesia, ler “Viaje a Nueva York” é dar um rolê pela cidade de mãos dadas com um padre austero nos hábitos mas gentil nos gestos, encontrar ex-monges e gente cumprindo pena por opor-se à Guerra do Vietnã, editores e escritores, além lésbicas no parque e cubanos nas lojas e amigos da Nicarágua. É também quase acreditar na possibilidade da revolução e da poesia – e na sua necessária relação.

Mariana Ruggieri

*

VIAGEM A NOVA YORK

Eu parecia estar ainda essa tarde na minha ilha de Solentiname
e não colado à uma janela sobre a baía de Nova Iorque,
Barcos lá embaixo apenas mexendo-se, o avião também lento
O aeroporto Kennedy congestionado a essa hora
era preciso por um tempo dar voltas sobre Nova Iorque
Que milagre me colocou sobre Manhattan nesse entardecer
girando ao redor de arranha-céus pintados de rubro?
No assento ao lado (vazio) peguei um New Yorker
“Washington essa semana despertou de um torpor — Watergate.”
O senador Fullbright teme que desemboquem em um sistema totalitário.
Ladies and Gentlemen: o aeroporto Kennedy segue congestionado
recostando-me contra a janela a água da baía de Nova Iorque
o avião como se ancorado a uma nuvem, não se move
Anúncio de uma ilha — piscina tennis cabanas water sports
The Island Company Ltd., 375 Park Avenue
Caricatura de homem obeso com jornal dizendo à sua esposa
“Lutei tanto e o Times me chama apenas de suposto chefe da Máfia”
Ladies and Gentlemen… agora fomos acionados pelo radar e
vamos diretamente ao aeroporto Kennedy em pouso automático
fábricas, trens, casinhas suburbanas idênticas, carros de brinquedo
e já na pista. Com mais cem aviões, como tubarões.
Gerard me esperava, de barba e jovem, me trouxe
milagrosamente a Nova Iorque, prefere que eu o chame de Tony
vamos em seu velho carro até New York, rios de carros
me chamou para a arrecadação pelos desabrigados de Manágua
sem ter quem pagasse a passagem, diz,
Já conseguiu, Deus tudo conserta. Trabalha
com os órfãos, dependentes químicos, porto-riquenhos pobres
andava por uma quebrada e lhe ocorreu uma arrecadação por Manágua
não havia local, fracassou em Columbia, olhando o céu
viu a catedral episcopal de St. John The Divine, entrou
e o bispo lhe disse “Por que não?”
Presidiários de Nova Iorque deram quadros pintados por eles
índios das grandes planícies também doaram tecidos e cerâmicas
mais rios de carros trens caminhões, as pistas se cruzam
é católico me diz e também zen
antes trabalhou na catedral de São Patrício, não pôde seguir lá
o cardeal atual pior que Spellman
pela rodovia surgem mensagens postos de gasolina drive-ins motéis
um cemitério de automóveis melancólico no crepúsculo
uns hippies estão acampados no mosteiro de Gethsemani, diz
meninos e meninas, o abade permitiu
os mosteiros nos Estados Unidos estão ficando vazios
os jovens preferem pequenas comunas. Conto a ele
que Merton me dizia que essas ordens desapareceriam
e ficariam apenas as pequenas comunas
o céu smog e anúncios
blocos retangulares entre a fumaça
e os contemplativos têm quase todos diz Tony uma mentalidade
burguesa     middle-class
Indiferentes à questão da guerra. E à Revolução.
LIQUORS —- DRUG-STORE
“Te parece muito mudada Nova Iorque?”
Eu estive aqui há 23 anos. Digo: “É a mesma”.
As filas de semáforos vermelhos e verdes
e as luzes dos taxis e dos ônibus.
“Madison Avenue” diz Tony. E rindo:
“É curioso: Ernesto Cardenal em Madison Avenue”. E olho
o cânion fundo, o profundo desfiladeiro de edifícios
onde se escondem detrás de seus vidros the hidden persuaders
     vendem automóveis de Felicidade, Consolo em lata (a 30 cts)
*** The Coca Cola Company ***
atravessamos o cânion de vidros e Bilhões de Dólares.
“Por séculos não comeram carne; agora que muitos somos vegetarianos
eles comem carne”, diz. Desde uma travessa o Empire State
(sua base apenas). Nas entranhas do Imperialismo.
“Chegam monges famosos para dar conferências sobre ascetismo e
se hospedam em hotéis luxuosos” E já no West Side
CafeteríaDelicatessenDry Cleaning
Chegamos ao apartamento de Napoleón, 50 e 10a Av.
Na calçada, teen-agers, blue-jeans e olhos azuis
ao redor de bicicletas, ou sentados nas grades.
A campainha não funciona mas Napoleón e Jacquie nos esperavam.
Napoleón Chow de ascendência chinesa e nicaraguense
E Jacquie é antropóloga especializada em Turquia.
Monástico o pequeno apartamento, mas com tapeçarias persas.
Ligo para Laughlin na sua casa de Connecticut.
Surpreso: “Que raios estou eu fazendo aqui em Nova York?”
Ri lá de Connecticut. Virá no sábado para que nos encontremos,
na sua casa no Village.
Napoleón e Jacquie fazem yoga. Muitos dias jejuam
completamente, em outros cozinham muito bem, comida
chinesa, turca, nicaraguense.
(“o alimento como alegria; sacramento”)
Eles têm uma gata Angorá que caga como gente na privada.

Terça à noite, a catedral de St. John The Divine
Rua 110, abriu suas portas de bronze para o evento
leio meu ORÁCULO SOBRE MANÁGUA (o do Terremoto)
entre quadros de presidiários, cerâmicas dos índios das grandes planícies.
Um rabino proclama, barbas compridas: “A culpabilidade nossa
nessas tragédias…” e o Decano da Catedral: “Nosso Sistema
Senhor, que agrava essas catástrofes…” (E penso: Os Somoza
um terremoto de 40 anos). Brother David
beneditino: “E é em Nova Iorque Senhor quem diria
onde nos congregamos de diversos países e religiões
para rezar por Manágua, e meditar
sobre quanto daqui deveria ser destruído”
Dorothy Day doente, não pôde vir.
María José, y Clemencia, nicaraguenses interessantes (eu conheci o pai delas)
me perguntam como ficaram aquelas ruas (o conheci uma vez
naquela noite de abril
em que íamos tomar de assalto a Casa Presidencial —
Chema, foi torturado e assassinado)
Só consigo dizer: “Eu conheci o pai de vocês”
No coro, slides (as cores radiantes) dos Escombros.
Corita (ex-sister Corita) deu 6 quadros para Manágua.
Daniel Berrigan me espera amanhã

Central Park (up town): E me digo: por ali estão os cisnes.
Me lembro de minha Liana, e dos cisnes.
Casou-se. Os cisnes ainda estarão ali.
Louis, uma vez, querendo pegar um cisne, um dia de fome.
Voltei a ver outra vez as pessoas na rua falando sozinhas.
“The Lonely Crowd”.
Com Napoleón e Jacquie em Times Square, nada a ver
e pela rua 48 entre os cinemas pornôs titilosos
Uma loja vazia, 2 policiais tomando notas
A vitrine estilhaçada, e ninguém olha (na Broadway)

Com Daniel Berrigan no Thomas Merton Center
Daniel (Dan) de blue-jeans e sandálias como eu, seu cabelo
“o de um malandro da rua depois de uma briga”
e o sorriso com que saiu nas fotos quando foi capturado
pelo FBI (jubiloso entre os policiais sombrios do FBI)
havia lido meus Salmos na prisão.
E também está Jim Forest (pacifista) com um grande bigode,
mais jovem do que eu pensava. Me escreveu uma vez
Dizia que Merton lhe deu um Cristo que eu fiz no mosteiro trapista.
Vem chegando de Washington, de uma marcha de protesto
que foi do edifício do Watergate até o Departamento de Justiça.
E Berrigan sentado em cima de uma escrivaninha, o rosto delgado
sobre o joelho e pelo ralo na cara. Está apenas se recuperando
da prisão, me dizem. E uma moça:
“As torturas que se supõe não haver nos Estados Unidos”
Esse é um grupo de contemplativos e resistentes, diz Berrigan.
Reunidos uma noite em um convento do Harlem
ocorreu a eles fundar o Merton Center.
Estudam o misticismo de diversas religiões
também dos índios das grandes planícies.
“Merton sofreu horrores no mosteiro” diz Dan
e todos sabemos. E Jim se lembra de
quando lhe proibiram de escrever contra a guerra nuclear
porque não era tema monástico.
Dan: “Me disse que não voltaria a ser monge outra vez
mas que já o sendo, continuaria sendo-o”.
“Ia chegar em Solentiname depois da Ásia, não? Diz Jim.
E Dan: “E está segurou que não chegou?”
E também Dan:
“É uma droga terrível a que aqui temos: a ‘Contemplação’
Meditam. Sem pensar nunca na guerra. Sem pensar
nunca na guerra. Não se pode estar com Deus e ser neutro.
A verdadeira contemplação é resistência. E a poesia,
olhar as nuvens é resistência, descobri na prisão”.
Digo a ele para ir a Cuba, e ele: ainda está em liberdade condicional.
Também digo a ele “Na América Latina
estamos integrando o cristianismo com o marxismo”.
E ele: “Já sei. Aqui não.
Aqui é o cristianismo com o budismo.
Jim, já somos todos budistas, não?
Não tem budismo na América Latina?”
“Não”.
Amanhã será comemorado no Merton Center
o casamento de seu irmão Philip o outro sacerdote,
e a ex-monja Elizabeth McAlister — e nos convida.
Philip jogou sangue em Maryland sobre os arquivos de recrutamento
depois Philip e Daniel queimaram os arquivos em Catonsville
com napalm de fabricação caseira (sabão em pó com gasolina)
e Jim queimou também com napalm os arquivos em Milwaukee
(e estão recém-saídos da prisão)
Diz-se que Merton certa vez também pensou ação semelhante
Tem uma moça em greve de fome pelo bombardeio do Camboja.
Na parede um poema de Berrigan sobre o Vietnam
em grandes folhas juntadas como um mural.
Quando estou de saída Dan me dá um pão enorme
um enorme pão redondo, assado ali, de trigo puro.

Com Napoleón e Jacquie ao cinema para um filme cubano
MEMÓRIAS DO SUBDESENVOLVIMENTO
não idealizam a Revolução
uma peça documental — um encontro de escritores —
E creio ver Roque Dalton no documentário
Fidel em um discurso (e parte da sala aplaude Fidel)
Um monte de gente na calçada levava trajes finos: a Ópera.
Para Tony seu avô aristocrático italiano
deixou um sítio nos arredores de Roma,
Vai presenteá-lo a alguém. Não quer propriedades.
E Tony diz: “Holy Communion…” (seus olhos incandescentes)
“A Comunhão é minha maior união com os homens cada dia
a Comunhão para mim é o mais revolucionário do mundo”

Philip Berrigan e Elizabeth McAlister
acusados pelo FBI de querer sequestrar Kissinger. —
Festa de casamento no Merton Center.
Contemplativos e radicais, pacifistas, ex-prisioneiros muitos deles
cristãos anarquistas e cristãos budistas
e nessa festa uma Eucaristia com canções de protesto
sentados no chão
detrás do Evangelho falam Jim, Dan, uma mulher jovem
que tinha acabado de jogar sangue sobre a mesa de jantar de Nixon
e de lambuzar de sangue as paredes da sala, em um tourist tour
da casa Branca (a imprensa não informou nada). Espera
julgamento, talvez anos na prisão, grávida.
Dan Berrigan consagra um pão como o que me deu
e copos de vinho. O pão repartido de mão em mão, e o vinho.
Depois uma coleta… para os acusados pobres de Watergate
“adversários irmãos nossos”.
Outra vez a festa. Dan diz: “No more religion”
Galões de ‘rosé’ y ‘blanc’ californianos em uma mesa
pudim de passas, torta de maçã, queijos em outra mesa
Um rapaz loirinho muito cabeludo me cumprimenta, Michael Cullen.
Lia meus Salmos na prisão diz,
e eu já li sobre ele.
Me dá um folheto que ele distribui: If Mike Cullen is deported
Nasceu em uma granja no sul da Irlanda, chegou com 10 anos, não
para ganhar dinheiro. Estudou em um seminário. Casou-se, vendia seguros
mas sentiu o sofrimento dos apartamentos cheios de ratos
e o sangre correndo em jorros na Indochina
queimou sua carteira de recrutamento. Queimou
com Jim os arquivos de recrutamento em Milwaukee
as licenças 1-A para queimar corpos na Ásia
agora querem deportá-lo, crê que o deportarão diz triste
alguém passando coloca dinheiro no seu bolso e lhe diz
“keep going” e ele sorri (triste)
me diz: “o sonho americano virou um Pesadelo”.
Todas as câmeras de televisão sobre Philip e sua esposa.
Phil de olhos azuis. Robusto como um jogador de rugby
‘o Gary Cooper da Igreja’
Elizabeth, doce: casaram para ajudarem um ao outro na luta diz
e vão criar uma comuna para ajudar outros a seguir na luta.
Dan com seu sorriso radiante
e sua paz zen

Na saída da Doubleday Bookstore, na 5a Avenida
uns homens e mulheres com túnicas brancas dançando na calçada
e os jovens carecas (de branco) parecem noviços trapenses.
Em uma vitrine:
Visão. Jaqueta de Couro de Cordeiro Persa. Broche
de diamantes e rubis…
Um rapaz com um botton no peito: IMPEACH NIXON
Mulheres como se de plástico.
Atravesso a rua com muito medo: WALK — DON’T WALK (em vermelho)
Os atendentes das lojas quase todos cubanos
e me parece que estou escutando a língua
de revolucionários
O céu sujo. Sirenes de polícia.
As velhas falando sozinhas
o Coronel contava daquele dominicano francês que lhe disse aqui:
“Desde que cheguei há 3 meses não pude fazer uma oração”.
Museum of Modern Art. Sem tempo de entrar. E para quê?
Frank O’Hara trabalhava aqui. Sua poesia ele fazia
na hora do lunch — sandwiches e Coca Cola.
Uma vez nos escrevemos.
Agora comprei no Bretano’s seu LUNCH POEMS ($1.50)
e os automóveis me fazem lembrar de sua morte
atropelado em Nova Iorque (na hora do lunch?)
WALK — DON’T WALK
Dorothy Day me espera no Catholic Worker diz Tony.
Lembrou no telefone que uma vez me havia escrito.

Livraria de “paperbacks” na 5ª Av.
Muitos livros sobre os índios. Pawnees. Sioux. Hopis. Os
Hopis, anarquistas e pacifistas, por 2000 anos, gandhianos
nunca declararam guerra nem firmaram tratados (sequer
com os E.U.A)
e agora vou me encontrar ao meio-dia com Kenneth Arnold
meu editor em inglês de HOMENAJE A LOS INDIOS AMERICANOS
também está aqui a autobiografia de Alce Negro
Veio uma vez a Nova Iorque com Búfalo Bill
as casas até o céu, as luzes roubadas do poder do trovão.
disse que aqui existiu como alguém que nunca tinha tido uma visão
Raposa Vermelha também com Búfalo Bill. Estimava os índios, diz
defendeu-os em Washington. Hora de me encontrar com Kenneth.
Veio de Baltimore. Combinamos de nos ver no Gotham Book Mart
I Have Spoken, já o tenho. Com o discurso de Seattle.
Seattle envolto em seu manto como em uma toga
com sua famosa voz audível a meia milha, no meio
do terreno desmatado: “Minhas palavras são como as estrelas
que não mudam. O que Seattle diz o Grande Chefe de Washington
deve levar em conta como a volta do sol ou as estações…”
Lá fora chove uma chuva sem cheiro
e está chegando a hora do lunch
NO SMOKING
“E quando o último do meu povo estiver morto
e falem de minha tribo como um conto do passado…”
sussurros de pneus sobre ruas chovidas
reflexo de neon no espelho do asfalto molhado
“e os filhos de seus filhos acreditem estar a sós
no campo, no armazém, na loja, não estarão a sós.
Quando as ruas de suas cidades estiverem caladas e vocês
a acreditarem vazias, estarão cheias dos espíritos dos mortos.
Eu disse mortos? Não há morte. Apenas uma mudança de mundo”.
Saio com livros para mais homenagens aos índios americanos
e vou ao Gotham Book Mart — 3 quadras — e ali está Kenneth.
É jovem, tem barba. Também presente Miss Steloff, o cabelo prateado
a famosa dona dessa livraria. E eu estive aqui uma vez
em uma festa para Edith Sitwell. Miss Steloff
convidou o Coronel e eu e trouxemos Mimí Hammer
e estavam presentes Auden, Tennesse Williams, Marianne Moore, Spender…
Kenneth trouxe a capa de HOMAGE TO THE AMERICAN INDIANS
e vamos a um restaurante chinês a meia quadra, e
o lunch chow mein mas antes dois copos de cerveja gelada.
Essa abundância de livros sobre índios, diz
é coisa de um ou dois anos. O índio está na moda.
Ele também tem um poema sobre índios, melhor dizendo
sobre Búfalo Bill, seu tio-avô. Sim, foi irmão de seu bisavô
o Coronel William Frederic Gody (Búfalo Bill)

Tony passa para me buscar, e me pede desculpa pelo carro.
O dele quebrou. Este, luxuoso, é do pai. (Envergonhado)
Convidados a almoçar pela mãe do Irmão David
(com Napoleón e Jacquie). Apartamento em zona elegante
pela 5ª Av. Ela é Baronesa da Áustria
mas trabalha como empregada doméstica. Distribui seu dinheiro.
Uma moça me trouxe um presente: um Pôster do Watergate
— Nixon em foto de gangster com o letreiro WANTED
Brother David me diz
“O que diria aos abades nos mosteiros dos Estados Unidos?”
Dou risada. “Sério. Se os abades reunidos pedissem seu conselho?”
“Não o seguiriam.” “Mas o que você diria?”
“Que fossem comunistas”.
Uma jovem: “Por que a sociedade primeiro
e não o coração dos homens? Primeiro vem o interior!”
Digo a ela: “Somos sociais. A mudança social não é exterior”.
O almoço: iogurte com morango
um pão preto e outro muito preto, leite
uvas azuis, maçãs vermelhas, bananas amarelas
mel, o mais saboroso que provei em minha vida.
Nenhum licor neste almoço. Só eu fumo
(“Já é bastante contaminado o ar para respirar mais fumaça”)
O irmão David fala com umas pequenas contas na mão.
Pergunto a ele: “Será possível integrar o budismo com o marxismo?”
“Através do cristianismo. Vocês integraram
cristianismo e marxismo, e nós aqui cristianismo e budismo”.
Também me diz: “Pentescostais… talvez seja melhor que não os veja.
Parecem possuídos pelo Espírito, mas seguem com a Exploração”.
Tony nos deixa para ir estar com seus órfãos.

Rua 12. Por aqui era o apartamento de Joaquín. Nesta casa,
quase tenho certeza.
O dono de um sebo no Village se apaixona por minha camisa
minha blusa camponesa nicaraguense
me pergunta quem a inventou.
Um letreiro em ouro: MONEY. (Loja de penhores).
Pergunto pela rua Charlest. Um homem garboso sentado em um banco: Não
sabe, diz. Posso te pedir um dólar? Não come há dois dias.
Parra estava em Chile.
Em todas as telas dos televisores Dean declarando contra Nixon.

Washington Square: Rock no parque
microfone com música eletrônica louca locutores frenéticos
milhares de cabeludos uivando com a orquestra negros loiros negras
com a orquestra, descalços barbudos de jóias ou em farrapos
uivando com a orquestra, dando um tapa de erva ou
deitados fumando se beijando bebendo cerveja enlatada.
Grupo de lésbicas gritando. Um pouco mais adiante GAY LIBERATION com bandeira
passivos diante do metodista entoando seus sermões Bíblia em mãos com
coro de senhoras caras-de-paisagem encamisadas até o tornozelo.
Atravessando a rua
duas bichas com suas duas línguas lambem de uma vez
um mesmo sorvete
Estúdio de Armando Morales, La Mecha: no Bowery
o bairro dos mendigos e do Catholic Worker.
É uma bodega. Sem banheiro (toma banho no lavabo com uma esponja
sobre uma edição do Times para não molhar o piso)
com vinho recordamos Manágua pré-terremoto
diante de tela de La Mecha que a Galeria vendo por 10000 dólares.
Os cinzeiros latas de sardinhas das que se abre com chave,
a tampa enrolada pela metade, e um monte desses cinzeiros.
Me explica: A Galeria põe o preço, e essas são
as “ações” de um pintor. Um comprador de “Morales”
investe nele como na General Motors. Se os preços sobem
(as ações) investirão mais nele. E se as vendas param
a Galeria não pode baixar os preços
ainda que morra de fome La Mecha — O preço em queda criaria pânico
entre os “acionistas” das cores intricadas e nus misteriosos
de Morales.
Pinta suas cores e depois cobre todo o quadro de preto.
Depois o afeita, com gillette, raspando o preto, e
sobre o raspado pinta outra vez as cores.
“Agora já sei pintar” diz “posso pintar o que eu quiser.
O difícil é — o que pintar”
Lembramos daquele bar em Manágua Las Cinco Hermanas
Lembro de umas super-musas que amamos, mais ou menos.
E de quando averiguamos que estávamos na lista de homossexuais
da polícia — ele por ser pintor, e eu por ser poeta.
E ele se lembra daquele bordel “La Hortencia” e eu digo que
não ficava ali onde ele diz, era em outro lugar, e que já não existe
construíram depois ali a igreja do Redentor (La Mecha ri)
e eu já sacerdote celebrava nela até que o superior me proibiu
por causa do meu sermão antisomozista (ri mais ainda La Mecha) e além disso
já nem o Redentor existe, caiu com o terremoto —
Não pode doar quadros para a arrecadação do terremoto
suas pinturas pertencem à Galeria.
Em todos os televisores Dean seguia declarando contra Nixon.

Laughlin é um homem da altura da porta, e
(como eu já sabia por Merton) transbordante de amor.
Quando entramos pergunta à sua esposa pelo vinho de Nicanor.
Onde está o vinho que deixou Nicanor? Tira da geladeira
o vinho português branco São-Não-Sei-Quê que Nicanor
deixou da última vez. Estamos com a taça na mão ainda sem beber
e Laughlin levanta a sua em direção ao céu como no Ofertório:
“Por Tom. Tenho certeza que regozijará com esse encontro
onde quer que esteja”. E eu: “Está aqui”. O vinho de Nicanor Parra
delicioso. “É curioso” diz Laughlin “depois da sua morte
vimos que cada um de seus amigos acreditava ser o mais íntimo de Merton”.
Depois de uma pausa e gole de vinho: “– E na realidade eram”.
Com Napoléon Chow conversa sobre a China e com Jacquie sobre a Turquia.
Nos dá alguns livros novos da “New Directions”.
Assinamos rapidamente o contrato do meu livro EN CUBA.
Mais vinho. Margaret Randall parece feliz em Cuba — Que bom.
Tem muita simpatia por ela, ainda que não a conheça.
Nos conta (o público ainda não sabe)
da paixão de Merton dois anos antes de sua morte.
1966 Na primavera. Ele e Parra estavam no mosteiro.
Moça lindíssima. O amor, como um raio. “Loucamente” diz
“mas não quis deixar de ser monge”.
Digo depois que ele é um bom poeta, já o traduzi, e diz que não
Pound lhe disse que não. Rasurava seus poemas
com o famoso lápis. Disse a ele: “Do something useful” e ele
tornou-se editor. Ninguém tinha editor até então, só o Hemingway.
Assistia no Rapallo à Universidad Ezra. Almoçava com Pound
e sua esposa no Albergo Rapales. Depois natação ou tênis
e leituras de Villon, Catulo… Pound foi seu pai espiritual.
Conta: Somoza roubou uma vez uma mina de seu tio.
– James Laughlin é neto do Laughlin o rei do aço –
“Claro que sabia”, diz Laughlin (Nixon)
O vinho de Nicanor chega ao fim e vamos a um restaurante francês
a três quadras.
“Gostava muita da solidão, e gostava muito de gente.
Amava o silêncio — e também uma boa conversa.
Merton era gregário, you know, e perfeito monge”

Meia-noite. Em uma tabacaria já o New York Times pela manhã
NIXON SABIA DIZ DEAN (compramos o jornal)
No subway anúncio do Army: meninos em sua formatura —
… depois de se formar é lindo entrar no Army…
E os subways escuros vão grafitados por fora:
nomes de meninos e meninas em muitas cores
     Alice 95                   Bob 106               Charles 195
e os vagões passam como se estivessem cobertos de flores
(seus nomes e as ruas onde vivem) “escrevem
para que alguém os conheça, para serem reais” diz Napoleón
Pintados com tinta spray de todas as cores
e até um metro de altura há nomes
ManuelJuliaJosé… (muitos porto-riquenhos)

Slums ‘sem nenhuma beleza mais que as nuvens’
36 East 1st Street, (Bowery)
com emoção vi a placa pequena na fachada: Catholic Worker
um homem gordo deitado na calçada me pede gentilmente um cigarro
com emoção entro nesse lugar sagrado
ela não estava, mas logo vem pela calçada com outras mulheres
magra, corcunda, com a cabeça branca
ainda é bonita aos 78
beijo a mão da santa e ela beija o meu rosto.
Como minha avó Agustina nos anos 50 (quando ainda
podia ler e era leitora dessa mulher)
Essa é a famosa House of Hospitality que fundaram
Peter Maurin e Dorothy Day durante a Grande Depressão
onde dão comida e pouso grátis a qualquer um que chegue
bêbados loucos drogados vagabundos moribundos
e também é um movimento pacifista e anarquista:
sua meta, uma sociedade em que seja fácil ser bom.
Logo chegariam os pobres para jantar.
Eu estudava em Columbia, e mesmo ali soubemos
que havia morrido um santo no bairro dos mendigos.
Peter Maurin, agitador e santo
dava sermões nos parques:
Mandem embora os patrões” ou
Dar e não tirar
      faz do homem humano
Com uma roupa só, amassada e do tamanho errado. Sem cama própria
nesse lugar que fundou, nenhum canto para seus livros.
Caminhava sem olhar as luzes do semáforo.
E ela consagrada desde então
às “obras de misericórdia e de rebelião”. Uma vida
de comunhão diária e de participação
em toda grave, manifestação, marcha, protesto, ou boicote.
Aqui vêm trabalhar sem salário estudantes, seminaristas
professores, marinheiros, também mendigos, e às vezes permanecem
a vida toda. Muitos foram à prisão ou seguem lá.
Hennacy fazia greves de fome na frente dos edifícios do governo
com cartazes, distribuindo folhetos e vendendo o jornal
e não pagava imposto porque 85% é para a guerra
trabalhava de peão nos campos para não pagar imposto.
Hugh magro, com calça curta sandália e poncho
também fazia penitência nas ruas.
Jack English, um brilhante jornalista de Cleveland
foi cozinheiro do Catholic Worker e depois virou monge.
Roger La Porte era lindo e loiro com 22 anos; se imolou
ateando-se fogo com gasolina na frente das Nações Unidas.
E um velho ex-marine, Smoky Jow, que lutou contra Sandino
na Nicarágua, morreu aqui convertido à não-violência.
Merton trabalhou aqui antes de ir para o mosteiro trapista.
O jornal ainda é vendido a 1 centavo
como quando Dorothy Day saiu para vendê-lo pela primeira vez
na Union Square em um 1o de Maio (1933)
Era o terceiro ano da Depressão
12 milhões de desempregados
e Peter queria com o impresso mais do que uma publicação de opiniões
uma revolução
As panelas já fumegantes
Começam a chegar os pobres, os sem-teto, os do Bowery
para fazer fila. “O outro Estados Unidos” diz Dorothy
os homens deslocados pela máquina
e abandonados pela Santa Mãe Estado.
Gritos. Alguém entrou com chutes e socos
— Dois dos Catholic Workers retiram-no com cuidado
“Nunca chamamos a polícia porque acreditamos na Não Violência”
E me diz também: “Quando visitei Cuba
vi que Sandino era o herói deles
e me alegrei. Porque jovem recolhi dinheiro para ele,
quando era comunista, antes de me converter ao catolicismo.
E vi os principais generais de Sandino (ele não)
no México: com seus grandes chapéus, comendo hot-dogs
por que hot-dogs eu não sei”
e enérgica erguendo a sua cabeça branca: “A Cuba de Castro
eu conheço, como já te escrevi. Gostei muito”
Gritos. Agora é uma anã. E ela é levada docemente
levantada no ar como uma boneca.
Conta que agora ajudam os trabalhadores de Chávez
boicotando a rede de lojas A&P. E ela reza, diz
para que os Estados Unidos tenham uma derrota purificadora. Fala
de Joan Baez que em Hanói cantava sob os bombardeios. Diz
que dizia Hennacy: ‘Contrário ao que se pensa
não somos os anarquistas os que carregam bombas mas o governo’.
E não há paz porque as ruas ficariam sem trânsito
paradas as fábricas, os pássaros cantando sobre as máquinas
como ela viu na Grande Depressão. Fala dos horrores
que viu no The Women’s House of Detention
nas vezes em que esteve presa. E vendo os pobres entrando
repete o que dizia Peter: ‘O futuro será diferente
se fizermos diferente o presente’
Um adeus reverente a essa santa anarquista
e esse santo lugar onde todos são recebidos, tudo de graça
a cada um segundo suas necessidades
de cada um segundo suas capacidades.

DOWN TOWN. UP TOWN. Bang. Bang. Os trens vão trovejando
sob a terra Up Town e Down Town
com nomes de jovens pobres pintados como flores
Tom       Jim         John      Carolina
o nome e o endereço triste onde vivem. São
reais. Para que saibamos que são REAIS. Bang Bang
os expressos sobre os cabos de alta tensão com
seus luminosos anúncios de Calvert, Pall Mall, e o Army
é lindo entrar no Army

À noite, perto de Wall Street, em um apartamento sem mobília
sacerdotes e laicos e ministros protestantes marxistas
“Mudar o sistema em que o lucro é o fim do homem”
“A ética cristã não cabe nos limites da moral privada”
“A visão do Reino de Deus é subversiva”
Um trabalha com computadores, outro com os pobres.
Domingo à noite, e os andares ainda iluminados em Wall Street.
Estão nos fodendo.
Hello Bogotá
Hello ITT”
2 arranha-céus gêmeos mais altos que o Empire
da metade para cima iluminados
o Imperialismo patente no céu além dos cristais
Hello gostaríamos de mais aridez
Quem é esse outro monstro que se levanta no meio da noite?
O Chase Manhattan Bank fodendo com meia humanidade.
Depois de Wall Street, a ponte do Brooklyn, como uma lira de luzes.
Na sombra dois meninos roubando um carro ao que parece.
Nosso satélite pálido sobre o céu do Brooklyn
achatado como uma bola de rugby.

Cedo no outro dia Tony me leva de novo ao Aeroporto Kennedy
em seu carro franciscano. 6 dias em Nova Iorque.
A Arrecadação seria para a Conscientização.
“A nenhuma instituição!” me diz Tony. No institution.
Não sentei na janela. Ao levantar voo, lá longe
(apenas de relance)
a silhueta dos arranha-céus em um céu de fumaça de carros
ácidos e monóxido de carbono.

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Clique nos slides acima para ler o texto em espanhol.

§

Mariana Ruggieri nasceu em 1988 em São Paulo. Escreve, lê e traduz. Publicou pelo selo treme~terra o Anzol (2018) e A bola é que são elas (2018). Para as Edições Jabuticaba traduziu Bernadette Mayer e Eileen Myles.

*

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poesia

Felipe Fiuza

Felipe Fiuza, Ph.D., é professor de espanhol na East Tennessee State University e diretor do Centro de Recursos de Língua e Cultura, onde também trabalha como tradutor e intérprete. Capixaba, fugiu da ilha faz 9 anos. Acaba de terminar seu primeiro livro de poemas, Em defeso, Eucalipto. Seus hobbies são taekwondo e jogos de tabuleiro.

* * *

La mar y el maíz

Mis compañeros Capixabas viven
en la ciudad sol, isla sin maíz
– y muy pocos se dan cuenta
de esa ironía. En Vitoria, la mar sabe,
es decir, se acuerda, de los maizales
y por eso los imita, espejada.
Nadie comprende lo que dice, nunca,
porque la imaginan siempre callada.

No hay tampoco maíz en Indianápolis,
que lo rodea, isla de tierra en el campo.
Sus ciudadanos tampoco se dan cuenta,
pero aún echan de menos la mar.
Desde que marcharon hacia el oeste
la creen inalcanzable, aislada.

§

Mar&cia

Essência de mangue engarrafada
pra jogar no cangote, afrodisíaco,
com a falsa areia monazítica.
Isso dá um bronzeado de terceiro
grau, contato imediato alienígena.
A tarde não é estática e cada grão
de areia acolhe com seu ardor.
No kioske quem reina é o peroá,
a Brahma gelada, e a água mal lavada.
No final da praia sobe a maresia
que se mistura à fumaça do porto
de Tubarão. E na avenida do Dante
estuprador as Aracelis da limpeza
de cada dia esperam o seu Transcol.

§

Pray of Exile

Ray, Ray,
I miss the Guanabara bay…
I miss the pollution,
the traffic…
(The bullets are missing me too)
I miss walking on Ipanema,
the ocean…
No, no, I don’t miss birds, or trees…
I miss the waters of my mother Iemanjá…
Ray, Ray,
What now, Ray?

Ray, Ray,
The sweet river is gone,
And I am afraid your beloved San Francisco is next…
And I haven’t visit it yet, Ray.
I haven’t seen it.
I’ve been to New York, Chicago, New Orleans, Madrid, Venice…
But I haven’t been in Rosa’s country.
I haven’t touched the waters of the San Francisco River,
and I miss them too…
Ray, Ray,
What now, Ray?

Ray, Ray,
Vitoria is just an invisible city,
waiting to be invented by some Hemingway.
Our mud pan artisans, our Dear lady of the Rock, our Camburi beach,
(I miss the waves and their sway)
all still belong to the realm of ideas:
waiting to find a way.
Ray, Ray,
This is why I pray:
I ask that you go swim, go play,
And tell the waters I’ll be back one day.

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xanto

XANTO|A crítica que julga não é a crítica que lê, por Rafael Zacca

“A espada de Dâmocles”, pintura de Félix Auvray (1800-1833).

Sobre a polêmica iniciada na Folha, em abril deste ano, a propósito da poesia contemporânea e de sua “sisudez e hermetismo”, escrevi uma resposta, que fiquei pensando um bom tempo se deveria publicar ou não. Circulou entre alguns poucos amigos. Agora que o calor já passou, publico aqui, não na Folha, mas na Bolha (rs), menos por achar que é uma discussão doméstica, e mais por achar que o tempo da publicação para esse tipo de texto — que é mais interventivo que de fôlego — já passou. Além disso, é provável mesmo que apenas duas ou três pessoas leiam; as coisas se esquecem rápido e há outras mais urgentes na ordem do dia. Mas como estava organizando os arquivos no PC e vi um texto ir para a gaveta, resolvi publicar aqui. De todo modo, esse debate, sobre a função e a posição da crítica, precisa ser feito também na grande mídia. As coisas não podem ficar sem resposta. Por enquanto, boa parte do melhor desse debate se restringe à academia (e tendo a achar que isso é um problema).

Rafael Zacca

* * *

“A crítica que julga não é a crítica que lê”
por Rafael Zacca

Há um poema de Fabio Weintraub que propõe que “a maneira pela qual / você faz / uma coisa / é a maneira / pela qual / faz todas as coisas”. “Grito com a cara no travesseiro”, diz o poeta, “grito com meus filhos”. É uma boa hipótese.

Diante dela, não é secundário que críticos e críticas se preocupem com a função que exercem no mundo das artes e na vida social.

Seria apenas divertido que Mariella Augusta Masagão publicasse um artigo sobre a sisudez e hermetismo da poesia brasileira com certa passivo-agressividade.

Em 14 de abril deste ano, em sua coluna “Perspectivas”, na Folha de São Paulo, Masagão escreveu que “a nova poesia brasileira é hermética, mas muito distante do velho simbolismo com seus abismos, suas flautas e seus vinhos”, próxima demais “das pequeninas sensações do agora, da atenção a cenas ou cenários cotidianos (…) que assinalam, muitas vezes, confusão e suscetibilidade.”

Seria divertido porque a pesquisadora não proporciona a leitura de um único verso que sustente a sua hipótese. E é sempre gracioso ver um impressionismo publicado assim, em jornal de grande circulação, com ares de pesquisa.

Com poucas provas e muita convicção, a autora se apresenta como Ministra da Ciência – a graça termina, de toda maneira, em sua resposta de 6 de maio, na mesma coluna, onde rebate as críticas que lhe foram feitas. Comporta-se, ali, como Ministra da Justiça.

A poeta Ana Martins Marques escreveu certa vez que “as casas pertencem aos vizinhos”, “os filhos são das mulheres / que não quiseram filhos” e que “é dos solitários o amor”. Acrescento que em literatura, como em qualquer outro lugar, a justiça pertence aos injustiçados. No caso do segundo artigo de Masagão, a injustiçada é a poesia.

Não porque em sua situação contemporânea seja acusada, por Masagão, de fragilidade e palidez (com a consequente adjetivação: poesia de hospital), de mal equilibrada em balbucio, de mal-educada e de baixa escolaridade (que a pesquisadora atribui, sem apresentar dados, às “tristes falhas da educação brasileira”), de mal-acabada, de hipócrita… a lista dos adjetivos, na ausência de substâncias de pesquisa, é grande.

Mais do que isso, a poesia é injustiçada pela pesquisadora pelo que ela propõe como método da crítica. Em ambos os artigos, a poesia é deixada de fora. A autora, que acusa a má recepção de seu artigo entre poetas contemporâneos como efeito de má interpretação, não se dispõe a ler amostra alguma da poesia que critica. Satisfaz-se com a sentença. Porque crítica, aí, não significa engajamento num corpo a corpo com o texto, mas julgamento. Nada mais distante do condenado que o juiz.

Com ares de autoridade, a pesquisadora declara em seu último artigo que “não gostaria de ler mais nenhum pio fora do tom, nem verso aborrecido e frio. Vejamos se um pouco de poesia, para variar, consegue calar, em definitivo, essa patrulha”. Por ato falho ou por clareza de opções de Masagão, é bom frisar suas expressões: “não gostaria de ler”, “calar, em definitivo”.

Masagão é pesquisadora e é inteligente, deve ser respeitada por isso. Sua tese de doutorado sobre heteronímia em Ficções do Interlúdio de certo é uma contribuição para a crítica infinita da obra de Fernando Pessoa, principalmente em suas relações com a tradição. Por isso me espanta o seu artigo. Gostaria que a autora se utilizasse de seus métodos e de sua astúcia, bem como de seu espaço, para exercer uma função mais digna e competente para a crítica.

Não precisamos mais de uma crítica ligada a um projeto poético legislativo, de crítica judiciária. Essa crítica é de certa forma hegemônica. Não apenas mercado, mas algumas mídias e artistas esperam dela a salvação ou a condenação. Ou uma espécie de Inmetro das artes: posso consumir este artista? Passou pelo selo de segurança do bom gosto / bom senso / bom…etc. ?

E sobre bom ou mau gosto, sabemos pelo menos desde Pierre Bourdieu como a categoria é ideologicamente mobilizada para sustentar relações de dominação. Ou, para citar alguém mais próximo, é bom lembrar daqueles versos de Tom Zé, que com muita graça e ironia dizia em seu “Curso intensivo de boas maneiras”, em que submetia o bom gosto a uma crítica de classe implacável: “primeira lição: deixar de ser pobre, que é muito feio…”

Poderíamos, é claro, contrapor a leitura de Masagão com outros nomes, como fez Ligia Gonçalves Diniz em artigo na mesma coluna. Mostrar que a poesia tem se debruçado sobre formas não-herméticas e bastante alegres, como no experimentalismo de Renato Negrão. Ou citar poetas contemporâneas que escrevem em intenso engajamento com a tradição, como Josely Vianna Baptista. Ou mesmo poetas que participam do “culto a Dionísio”, como Natasha Felix. Todos esses são motivos que a pesquisadora mobiliza como faltas na produção de hoje. Poderíamos inclusive produzir leituras das autoras citadas no primeiro artigo de Masagão para contradizer a pesquisadora.

Mas seus artigos nos deram a oportunidade de discutir também a situação e a função da crítica.

Enquanto alguns críticos insistem em escrever papeis de bala, muita gente tem procurado outra funcionalidade. Proponho, com eles, que o gosto (e a consequente salvação ou condenação) pode ser deixado para leitores e leitoras, que não precisam ser subestimados.

A crítica pode, por outro lado, desdobrar aquilo que, na poesia, se encontra condensado; ou pode, em outros casos, deslocar poemas, versos, expressões ou detalhes de lugar para fazer brotar as flores do sentido em outro terreno; ou pode forçar com que a leitura se detenha, verso a verso, em estações, fazendo durar um pequeno poema por um ano inteiro nas impressões de quem o lê.

Em todos esses casos, o que se propõe é a crítica em sua função de conhecimento das obras. Não no sentido de esgotamento sobre o que se pode conhecer em um poema, nem no de “saber falar” sobre poesia. Nem quero com isso propor que capturemos uma verdade do texto. O conhecimento que a crítica proporciona pode ser uma, isto sim, suspensão do julgamento imediato do gosto para que se possa demorar um pouco mais nas estações dos poemas. Conviver com elas. Ou nelas.

“Cor longa às folhas”, escreveu Heyk Pimenta no início da década. “As que o verão não queima / o outono doura”. A crítica pode exercer esse papel de demora na selva-selvagem da arte. Basta que ela se dedique menos apressadamente a traçar panoramas, e mais a obras singulares, pequenos contextos de produção e breves conjuntos. Assim poderemos começar uma pesquisa e, quem sabe, traçar alguns panoramas (no plural, sempre no plural, porque também a produção poética é uma distribuição desigual de tempos) desacelerados, a um só tempo mais modestos e mais acertados.

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poesia

3 poemas inéditos de Rubens Akira Kuana

Rubens Akira Kuana nasceu em Videira, Santa Catarina, em 1992. Traduziu poetas contemporâneos de língua inglesa comoDorotheaLaskyLonely ChristopherAriana Reines e Alice Notley, entre outros. Estreou com o livro Digestão (2014), publicado através da LUMA Foundation e 89plus – associados a UbuWeb (ubu.com) – na exibição “Poetry will be made by all!”, aberta no Centro de Arte Contemporânea Löwenbräukunst, em Zurique, Suíça.

o ano em que eu virei branco

eu nasci em uma cidade do interior de Santa Catarina
onde até meados dos anos 2000 eu e meu pai éramos os únicos
japoneses na cidade (minha mãe descende de alemães e italianos)
desde criança eu lembro que ninguém nunca soube escrever
o nome do meu pai corretamente: Siogi, Xiogui, Chiodi
quando eu lia um recibo um bilhete uma anotação
ninguém acertava seu nome: Sioji às vezes eu ouvia
meu pai soletrar no telefone s de serpente
i de ilha o de olho j de jiboia i de ilha de novo
anos mais tarde quando eu assisti um filme de Akira Kurosawa
(Tengoku to jigoku / High and Low / Céu e Inferno)
eu aprendi que ninguém nunca acertou sequer a pronúncia de seu nome
em japonês o jota se pronuncia quase como um dê: Si-ô-di
anos mais tarde eu descubro que no Japão Sioji seria escrito como Shoji, Shouji ou Shohji
mas como filhos de imigrantes pobres meus avós fazendeiros não tinham acesso a um cartório
que compreendesse esses detalhes ou quem sabe
nem mesmo meus pobres avós soubessem como escrever o nome do meu pai
durante os anos em que cresci na cidade do interior eu também perdi o meu nome
ninguém me chamava de Rubens (meus pais me chamavam de ‘mano’)
me chamavam de: japonês, japa, japa-japa-girl, japinha, china-in-box, china (com a pronúncia em inglês mesmo)
e toda vez que ouvia esses nomes eu me sentia extremamente consciente
do meu corpo dos meus olhos do meu nariz dos meus pelos das minhas genitais
mas eu me acostumei a esse nome e esse nome passou a me definir
da mesma maneira com que um prego define um martelo
batendo batendo e batendo
foi só quando eu me mudei para Curitiba uma cidade onde há mais do que uma
família japonesa (quem diria) é que da noite para o dia as pessoas que ia conhecendo lá
passaram a me chamar de Rubens e quando eu tentava explicar para elas
podem me chamar de japa (pois esse era o meu nome até aquele momento)
elas me olhavam confusas e diziam: mas você nem é japonês
(aparentemente meus olhos não são puxados o suficiente)
foi então que eu soube que podia ser branco isto é meu corpo continuou o mesmo
mas foi então que passei a ser tratado como um branco e ter direito a um nome próprio
o ano foi 2010

§

coisas que já respondi pra gente branca

não eu não sou da china
eu não sei falar japonês
sim minha avó sabe falar
meu pai não sabe
meu avô não era um samurai
nem um ninja
eu não sou bom em matemática
eu não sou bom em matemática porque sou japonês
não sei cara eu acho que só estudei pra prova
mais do que você
sim eu sei contar até dez em japonês
iti ni san shi go roku shiti hati kyu jyu
não eu não sei lutar karatê
sim eu gosto de pokémon
eu acho que o tamanho do meu pau é normal
eu estou com os olhos abertos
sim meus olhos são assim mesmo
eu não vejo as coisas em widescreen
eu não sei fazer sushi
não na minha casa nós não comemos sushi
nós comemos feijão e arroz
eu não me acho tão parecido assim com meu pai
nós não somos todos iguais
você não deveria chamar as pessoas desse jeito
minha pele não é amarela
sim eu nasci no brasil
mestiço
meu pai é japonês minha mãe não
meus avós vieram do japão
não eu nunca fui pro japão
não eu nunca morei no japão
sim o japão é muito desenvolvido mesmo
sim de primeiro mundo né
sim videogames
ultraman sayonara godzilla
playstation playstation playstation
sim eu tenho parentes lá
não sei eu não falo muito com eles
não eu não conheço essa pessoa asiática
sim os “orientais” tem fama de serem muito pacientes
é eu não sou muito de falar
sim eu acho que você poderia dizer que sou “zen”
eu não sei fazer feng shui
minha casa não é minimalista
eu acho que a palavra “oriental” não significa isso
esse não é meu nome
essa piada não tem graça

§

já fui poeta

a Majida Rahall

uma vez, eu já fui
poeta. escrevi poemas
bons e poemas ruins.
nunca soube diferenciá-los.

frequentei o desconhecido
círculo em que os poetas circulam.
admirei os ídolos e as ídolas
como asteroides que poderiam
aniquilar novos dinossauros.

já beijei poetas e já tive
noites melhores.

posso dizer (com certo orgulho): eu
já fui poeta. li poemas
em busca de inspiração, consolo
ou simplesmente sexo. linguagem.
linguagem linguagem linguagem.
aprendi que a linguagem não está aqui

para nos ajudar. tive amigos
poetas. todos eles fluentes
em línguas mortas. o passado
os excita. mas nada comparado
aos seus próprios reflexos no espelho.

disse somente a verdade. afinal
eu já fui poeta. não vaiei
recitais nem conspirei contra
meus contemporâneos. mas só deus
sabe o quanto eu ri sozinho.

sozinho.

hoje eu tenho uma namorada.
passeamos no parque e contemplamos
capivaras. eu a amo e ela me ama. a poesia
ficou em segundo plano. um ponto
pequenino no horizonte. vez ou outra, paro
diante da estante e considero vender
todos meus livros. até mesmo
aqueles autografados. não necessito
do dinheiro. apenas sinto uma ligeira
coceira nas mãos. logo passa.
não possuo mais a audácia dos poetas.

hoje eu não sou mais poeta.
hoje eu não escrevo mais poemas.
hoje eu olho para os dois lados
antes de atravessar as ruas.

hoje eu coloco os pés no chão
e aguardo pelo terremoto. hoje

eu sou feliz.

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tradução

Quatro mulheres: Nina Simone por Nina Rizzi & um bis de Sueli Carneiro

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“Four Women” é uma canção escrita pela cantora, compositora, pianista e arranjadora e militante pelos direitos civis dos negros Nina Simone. Gravada em abril de 1965 com produção de Hal Mooney e lançada em 1966 no álbum Wild Is the Wind (Philips Records), conta a história de quatro mulheres afro-americanas diferentes, onde cada uma das quatro personagens representa um arquétipo afro-americano. Thulani Davis, no The Village Voice, chamou a canção de “uma análise instantaneamente acessível do legado condenatório da escravidão, que tornou iconográficas as mulheres reais que conhecíamos […] um hino afirmando nossa existência, nossa sanidade e nossa luta para sobreviver a uma cultura que nos considera anti-femininas. Reconheceu a perda da infância entre as mulheres afro-americanas, nossa invisibilidade, exploração, desafios, e lembrou que na escravidão e no patriarcado, seu nome é o que eles chamam de coisa”.

A primeira das quatro mulheres descritas na canção é “Tia Sarah”, uma personagem que representa a escravidão afro-americana. A descrição da mulher enfatiza os aspectos fortes e resilientes da mulher negra, “forte o suficiente para suportar a dor”, assim como o sofrimento a longo prazo que teve que suportar “, infligida novamente e novamente”.

A segunda mulher que aparece na canção é  “Saffronia”, uma mulher miscigenada (“minha pele é amarela”) forçada a viver “entre dois mundos”. Ela é retratada como uma mulher oprimida e sua história é mais uma vez usada para destacar o sofrimento da mulher negra nas mãos de pessoas brancas em posições de poder (“Meu pai era rico e branco / Ele forçou minha mãe até tarde da noite”).

A terceira mulher é uma prostituta conhecida como “Coisinha Doce”. Ela encontra aceitação tanto entre negros como brancos, não apenas porque “meu cabelo é bom”, mas também porque ela fornece gratificação sexual (“De quem é a menininha?/ Qualquer um que tenha dinheiro para comprar”).

A quarta e última mulher é rude, amargurada pelas gerações de opressão e sofrimento impostos ao seu povo (“Sou terrivelmente amarga hoje em dia porque meus pais eram escravos”). Nina Simone finalmente revela o nome da mulher depois de um final dramático durante o qual ela grita: “Meu nome é Buceta!”

Musicalmente falando, a canção tem uma melodia simples com um groove acompanhado de piano, flauta, guitarra elétrica e baixo, que gradualmente se desenvolve em intensidade à medida que progride e atinge um clímax durante a quarta e última seção. O vocal de Nina Simone torna-se mais apaixonado, rachando de emoção e seu piano estável se torna frenético e às vezes dissonante, para refletir a angústia da personagem. A música termina com Nina Simone alcançando uma nota altíssima, quase chorando ao cantar o nome “Peaches”.

Apesar de não haver redes sociais na época, má-interpretação de texto já existia, para desgosto de Nina! Apesar de sua intenção de destacar a injustiça na sociedade e o sofrimento dos afro-americanos, alguns ouvintes interpretaram a música como racista. Eles acreditavam que se baseava em estereótipos negros, tendo a música sido banida de várias estações de rádio importantes.

Dentre os diversos covers de Four Women destacamos  a adaptação da canção pela cineasta Julie Dash em um curta experimental de 1978 com o mesmo nome; e a peça de 2016, Nina Simone: Four Women, de Christina Ham; no espetáculo, Nina Simone conhece as três primeiras mulheres (ela é a quarta) no local do atentado à Igreja Batista da 16th Street, e elas se tornam as personagens de sua música.

[Comentário traduzido e adaptado da página da canção na wikipédia/EUA e páginas citadas na mesma]

nina rizzi

*

QUATRO MULHERES

Minha pele é negra
Meus braços são longos
Meu cabelo é de algodão
Minhas costas são fortes
Fortes o suficiente pra suportar a dor
Infligida novamente e novamente
Como eles me chamam
Meu nome é TIA SARAH
Meu nome é tia Sarah

Minha pele é amarela
Meu cabelo é longo
Entre dois mundos
Não pertenço a nenhum
Meu pai era rico e branco
Ele forçou minha mãe até tarde da noite
Como eles me chamam
Meu nome é SAFFRONIA
Meu nome é Saffronia

Minha pele é bronzeada
Meu cabelo é bom
Meus quadris te convidam
Minha boca é como o vinho
De quem é a menininha?
Qualquer um que tenha dinheiro pra comprar
Como eles me chamam
Meu nome é COISINHA DOCE
Meu nome é Coisinha Doce

Minha pele é marrom
Meus modos são rudes
Eu mato a primeira mãe que vejo
Minha vida tem sido muito dura
Sou terrivelmente amarga hoje em dia
Porque meus pais eram escravos
Como eles me chamam
Meu nome é BUCETA!

FOUR WOMEN

My skin is black
My arms are long
My hair is woolly
My back is strong
Strong enough to take the pain
inflicted again and again
What do they call me
My name is AUNT SARAH
My name is Aunt Sarah

My skin is yellow
My hair is long
Between two worlds
I do belong
My father was rich and white
He forced my mother late one night
What do they call me
My name is SAFFRONIA
My name is Saffronia

My skin is tan
My hair is fine
My hips invite you
my mouth like wine
Whose little girl am I?
Anyone who has money to buy
What do they call me
My name is SWEET THING
My name is Sweet Thing

My skin is brown
my manner is tough
I’ll kill the first mother I see
my life has been too rough
I’m awfully bitter these days
because my parents were slaves
What do they call me
My name is PEACHES
§


NEGROS DE PELE CLARA

Sueli Carneiro

Vários veículos de imprensa publicaram com destaque fotos dos candidatos selecionados que vão concorrer às vagas para negros da Universidade de Brasília (UnB). Veículos que vêm se posicionando contra essa política percebem, no largo espectro cromático desses alunos, mais uma oportunidade para desqualificar o critério racial que a orienta.

Uma das características do racismo é a maneira pela qual ele aprisiona o outro em imagens fixas e estereotipadas, enquanto reserva para os racialmente hegemônicos o privilégio de serem representados em sua diversidade. Assim, para os publicitários, por exemplo, basta enfiar um negro no meio de uma multidão de brancos em um comercial para assegurar suposto respeito e valorização da diversidade étnica e racial e livrar-se de possíveis acusações de exclusão racial das minorias. Um negro ou japonês solitários em uma propaganda povoada de brancos representam o conjunto de suas coletividades. Afinal, negro e japonês são todos iguais, não é?

Brancos não. São individualidades, são múltiplos, complexos e assim devem ser representados. Isso é demarcado também no nível fenotípico em que é valorizada a diversidade da branquitude: morenos de cabelos castanhos ou pretos, loiros, ruivos, são diferentes matizes da branquitude que estão perfeitamente incluídos no interior da racialidade branca, mesmo quando apresentam alto grau de morenice, como ocorre com alguns descendentes de espanhóis, italianos ou portugueses que, nem por isso, deixam de ser considerados ou de se sentirem brancos. A branquitude é, portanto, diversa e multicromática. No entanto, a negritude padece de toda sorte de indagações.

Insisto em contar a forma pela qual foi assegurada, no registro de nascimento de minha filha Luanda, a sua identidade negra. O pai, branco, vai ao cartório, o escrivão preenche o registro e, no campo destinado à cor, escreve: branca. O pai diz ao escrivão que a cor está errada, porque a mãe da criança é negra. O escrivão, resistente, corrige o erro e planta a nova cor: parda. O pai novamente reage e diz que sua filha não é parda. O escrivão irritado pergunta, “Então qual a cor de sua filha”. O pai responde, “Negra”. O escrivão retruca, “Mas ela não puxou nem um pouquinho ao senhor? É assim que se vão clareando as pessoas no Brasil e o Brasil. Esse pai, brasileiro naturalizado e de fenótipo ariano, não tem, como branco que de fato é, as dúvidas metafísicas que assombram a racialidade no Brasil, um país percebido por ele e pela maioria de estrangeiros brancos como de maioria negra. Não fosse a providência e insistência paterna, minha filha pagaria eternamente o mico de, com sua vasta carapinha, ter o registro de branca, como ocorre com filhos de um famoso jogador de futebol negro.

Porém, independentemente da miscigenação de primeiro grau decorrente de casamentos inter-raciais, as famílias negras apresentam grande variedade cromática em seu interior, herança de miscigenações passadas que têm sido historicamente utilizadas para enfraquecer a identidade racial dos negros. Faz-se isso pelo deslocamento da negritude, que oferece aos negros de pele clara as múltiplas classificações de cor que por aqui circulam e que, neste momento, prestam-se à desqualificação da política de cotas.

Segundo essa lógica, devemos instituir divisões raciais no interior da maioria das famílias negras com todas as implicações conflituosas que decorrem dessa partição do pertencimento racial. Assim teríamos, por exemplo, em uma situação esdrúxula, a família Pitanga, em que Camila Pitanga (negra de pele clara como sua mãe), e Rocco Pitanga (um dos atores da novela “Da cor do pecado”), embora irmãos e filhos dos mesmos pais seriam, ela e a mãe brancas, e ele e o pai negros. Não é gratuito, pois, que a consciência racial da família Pitanga sempre fez com que Camila recusasse as constantes tentativas de expropriá-la de sua identidade racial e familiar negra.

De igual maneira, importantes lideranças do Movimento Negro Brasileiro, negros de pele clara, através do franco engajamento na questão racial, vêm demarcando a resistência que historicamente tem sido empreendida por parcela desse segmento de nossa gente aos acenos de traição à negritude, que são sempre oferecidos aos mais claros.

Há quase duas décadas, parcela significativa de jovens negros inseridos no Movimento Hip Hop politicamente cunhou para si a autodefinição de pretos e o slogan PPP (Poder para o Povo Preto) em oposição a essas classificações cromáticas que instituem diferenças no interior da negritude, sendo esses jovens, em sua maioria, negros de pele clara como um dos seus principais ídolos e líderes, Mano Brown, dos Racionais MCs. O que esses jovens sabem pela experiência cotidiana é que o policial nunca se engana, sejam eles mais claros ou escuros.

No entanto, as redefinições da identidade racial, que vêm sendo empreendidas pelo avanço da consciência negra e que já são perceptíveis em levantamentos estatísticos, tendem a ser atribuídas apenas a um suposto ou real oportunismo promovido pelas políticas de cotas, fenômeno recente que não explica a totalidade do processo em curso.

A fuga da negritude tem sido a medida da consciência de sua rejeição social e o desembarque dela sempre foi incentivado e visto com bons olhos pelo conjunto da sociedade. Cada negro claro ou escuro que celebra sua mestiçagem ou suposta morenidade contra a sua identidade negra tem aceitação garantida. O mesmo ocorre com aquele que afirma que o problema é somente de classe e não de raça. Esses são os discursos politicamente corretos de nossa sociedade. São os discursos que o branco brasileiro nos ensinou, gosta de ouvir e que o negro que tem juízo obedece e repete. Mas as coisas estão mudando…

In: CARNEIRO, Sueli. Racsimo, sexismo e desigualdade no Brasil. São Paulo: Selo Negro, 2011. pp. 70-73. Disponível aqui.]

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Padrão
poesia, tradução

Muriel Rukeyser, por Vitória Régia

muriel

Muriel Rukeyser (1913-1980) foi uma poeta, ensaísta e ativista feminista norte-americana de origem judaica. Frequentou o Fieldston Schools e matriculou-se na Universidade Vassar (Poughkeepsie, NY). De 1930 a 1932, cursou a Universidade de Columbia em Nova York. Estreou na literatura com o livro Theory of Flight (1935), vencedor do Yale Younger Poets Series, o mais antigo prêmio literário anual dos Estados Unidos. Na época de sua estreia notável, W. R. Benet comentou na revista norte-americana Saturday Review of Literature: “quando você segura este livro em sua mão, você segura algo vivo.”

Rukeyser lutou fortemente pelos direitos humanos e construiu uma extensa e potente produção literária. Sua poesia é densa, impactante e convida à reflexão. Movida pela paixão que nutria pela condição humana e pelo mundo, esse “lar desconstruído” que herdamos, foi capaz de “carregar nações inteiras para a frente através da urgência de sua mensagem”. Apesar de ser marcadamente política, a autora explorou em sua poesia inúmeros temas como a condição da mulher, sexualidade, criatividade e morte.

Publicou os títulos A Turning Wind (1939), Beast in View (1944), The Green Wave (1948), Elegies (1949), Body of Waking (1958), The Speed of Darkness (1968), Breaking Open (1973), The Gates (1976) entre outros. Adrienne Rich chegou a comentar: “ela nos alerta, leitores, escritores e participantes da vida de nosso tempo, para ampliar nosso senso de que a poesia é para o mundo, bem como o lugar dos sentimentos e da memória na política”.

Das traduções já realizadas da autora para o português, menciono as de André Caramuru Aubert, no Jornal Rascunho, e as de Ricardo Domeneck, na revista eletrônica Modo de usar & co. Para esta publicação, selecionei os seguintes poemas: Paisagem que respira (Theory of Flight, 1935), O nascimento (Body of Waking, 1958) e Alas (Breaking Open, 1973). Traduzindo para o português, optei por mudanças estruturais que garantam uma leitura mais fluida e coerente, evitando interferir na concisão e quebra dos versos originais.

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Paisagem que respira

Deitada sob o sol
e deitada aqui tão quieta
um ovo poderia ser chocado lentamente nesta mão
As pessoas passam
abruptamente acenam: elas sorriem
arrastam–se no ar, silêncio segue seus rostos.
Eu sei, deitada
como as colinas estão fixas
e a lua do dia corre no topo delas
Nada cruzou o campo
o dia todo, mas um pássaro
contorna a grama alta em um rápido trânsito
Suas ideias severas
um longo trabalho para cada
e até mesmo blindados dificilmente nos tocamos
O vento inclina,
o ar devidamente imposto
Sobre esses rostos e pensamentos em uma dança solene
O silêncio abraça o ar
Nada é dito, mas o som
de certos rios continuam subterrâneos.

Breathing Landscape

Lying in the sun
and lying here so still
an egg might slowly hatch in this still hand.
The people pass
abruptly they nod : they smile
trailed in the air, silence follows their faces.
I know, lying
how the hills are fixed
and the day-moon runs at the head of the fixed hills.
Nothing crossed the field
all day but a bird
skirting the tall grass in briefest transit.
Their stern ideas
are a long work to each
and even armored we hardly touch each other.
The wind leans,
the air placed formally
about these faces and thoughts in formal dance.
Silence hangs in the air.
Nothing speaks but the sound
of certain rivers continuing underground.

§

O nascimento

Recentemente escapei de três tipos de morte
Não por evasão, mas por sobreviver
Eu celebro o que pode ser o verdadeiro começo

Mas comecei sem mais recurso
Estúpida e parada
Como um recém nascido cresce? Eu sou um deles
O frescor tem tomado nossos corações
A dor nos tira de uma nova fonte, crianças de uma nova vida
Esperando pela infância como esperamos pela forma

Então venho para o mundo de todos os vivos
O mutilado meio triunfante de meu caminho
Onde há doação, não é necessário perdão
Vi agora o presente que está aqui para dizer:
Nada do que escrevi é o que devo ver escrito
Nada do que eu fiz é o que agora preciso fazer—
O sorriso da escuridão na minha canção e no meu filho.

Recentemente emergiram casas desoladas
Que já viram espíritos fechados, cercados pelo sol
E ter, entre incontáveis rostos comuns
assistido todas as coisas mudarem, um lar desconstruído herdar

Objetos do desejo, aquela pedra e madeira e ar
Iluminado por um nascimento, eu defendo começos obscuros
Desperdício que nunca é desperdício, doação mais humana
Declarado e evidente como o corpo mortal da graça
Começos da verdade na vida, os espaços do deserto
Onde a verdade alimenta e o coração ramificado,
até o meu, glorificando o passado em suas peças
Minha carne lacerada que me trouxe para este lugar.

A Birth

Lately having escaped three-kinded death
Not by evasion but by coming through
I celebrate what may be true beginning.

But new begun am most without resource
Stupid and stopped.
How do the newborn grow? I am of them.
Freshness has taken our hearts;
Pain strips us to the source, infants of further life
Waiting for childhood as we wait for form.

So came I into the world of all the living
The maimed triumphant middle of my way
Where there is giving needing no forgiving.
Saw now the present that is here to say:
Nothing I wrote is what I must see written,
Nothing I did is what I now need done.—
The smile of darkness on my song and my son.

Lately emerged I have seen unfounded houses,
Have seen spirits not opened, surrounded as by sun,
And have, among limitless consensual faces
Watched all things change, an unbuilt house inherit
Materials of desire, that stone and wood and air.
Lit by a birth, I defend dark beginnings,
Waste that is never waste, most-human giving,
Declared and clear as the mortal body of grace.

Beginnings of truth-in-life, the rooms of wilderness
Where truth feeds and the ramifying heart,
Even mine, praising even the past in its pieces,
My tearflesh beckoner who brought me to this place.

§

Alas
St. George’s Hospital, Hyde Park Corner

Deitada neste momento, ela escala neves brancas;
Ao pé da cama o quadro relata.
Aqui um homem queima em febre, ele está aqui, ele está lá,
Cinco mil anos atrás no país da gruta
Nesta cama, eu vago em Macau
Eu corro toda noite pelos becos escuros. O tempo corre
No limite e tudo existe em todos. Nós abraçamos
Toda a história humana, toda geografia,
Eu não consigo lembrar da palavra que eu preciso
Nossas explorações, tudo no precipício
A mesa de cabeceira, uma paisagem de zebras
Constelações condutoras. Toda essa música,
Eu ouvi antes de nascer. Eu venho
Neste caminho, para o lugar
Nos iluminamos,
Este momento me dando necessidade
Dando a nós mesmos e arriscamos tudo
Caminhando em nossa vida.

The Wards
St. George’s Hospital, Hyde Park Corner

Lying in the moment, she climbs white snows;
At the foot of the bed the chart relates.
Here a man burns in fever; he is here, he is there,
Five thousand years ago in the cave country.
In this bed, I go wandering in Macao,
I run all night the black alleys. Time runs
Over the edge and all exists in all. We hold
All human history, all geography
I cannot remember the word for what I need.
Our explorations, all at the precipice,
The night-table, a landscape of zebras,
Transistor constellations. All this music,
I heard it forming before I was born. I come
In this way, to the place.
Our selves lit clear,
This moment giving me necessity
Gives us ourselves and we risk everything
Walking into our life.

§

Vitória Régia nasceu em Fortaleza, em 1991. É graduada em Letras e mestra em Linguística pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Publicou os livros de poesia Partida de não dizeres (Editora Substânsia, 2015) e Náutico (Editora Patuá, 2018). Atualmente edita a revista de Literatura e Artes Para Mamíferos e escreve regularmente para a coluna Leituras da Bel do Jornal O Povo.

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