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XANTO|A crítica que julga não é a crítica que lê, por Rafael Zacca

“A espada de Dâmocles”, pintura de Félix Auvray (1800-1833).

Sobre a polêmica iniciada na Folha, em abril deste ano, a propósito da poesia contemporânea e de sua “sisudez e hermetismo”, escrevi uma resposta, que fiquei pensando um bom tempo se deveria publicar ou não. Circulou entre alguns poucos amigos. Agora que o calor já passou, publico aqui, não na Folha, mas na Bolha (rs), menos por achar que é uma discussão doméstica, e mais por achar que o tempo da publicação para esse tipo de texto — que é mais interventivo que de fôlego — já passou. Além disso, é provável mesmo que apenas duas ou três pessoas leiam; as coisas se esquecem rápido e há outras mais urgentes na ordem do dia. Mas como estava organizando os arquivos no PC e vi um texto ir para a gaveta, resolvi publicar aqui. De todo modo, esse debate, sobre a função e a posição da crítica, precisa ser feito também na grande mídia. As coisas não podem ficar sem resposta. Por enquanto, boa parte do melhor desse debate se restringe à academia (e tendo a achar que isso é um problema).

Rafael Zacca

* * *

“A crítica que julga não é a crítica que lê”
por Rafael Zacca

Há um poema de Fabio Weintraub que propõe que “a maneira pela qual / você faz / uma coisa / é a maneira / pela qual / faz todas as coisas”. “Grito com a cara no travesseiro”, diz o poeta, “grito com meus filhos”. É uma boa hipótese.

Diante dela, não é secundário que críticos e críticas se preocupem com a função que exercem no mundo das artes e na vida social.

Seria apenas divertido que Mariella Augusta Masagão publicasse um artigo sobre a sisudez e hermetismo da poesia brasileira com certa passivo-agressividade.

Em 14 de abril deste ano, em sua coluna “Perspectivas”, na Folha de São Paulo, Masagão escreveu que “a nova poesia brasileira é hermética, mas muito distante do velho simbolismo com seus abismos, suas flautas e seus vinhos”, próxima demais “das pequeninas sensações do agora, da atenção a cenas ou cenários cotidianos (…) que assinalam, muitas vezes, confusão e suscetibilidade.”

Seria divertido porque a pesquisadora não proporciona a leitura de um único verso que sustente a sua hipótese. E é sempre gracioso ver um impressionismo publicado assim, em jornal de grande circulação, com ares de pesquisa.

Com poucas provas e muita convicção, a autora se apresenta como Ministra da Ciência – a graça termina, de toda maneira, em sua resposta de 6 de maio, na mesma coluna, onde rebate as críticas que lhe foram feitas. Comporta-se, ali, como Ministra da Justiça.

A poeta Ana Martins Marques escreveu certa vez que “as casas pertencem aos vizinhos”, “os filhos são das mulheres / que não quiseram filhos” e que “é dos solitários o amor”. Acrescento que em literatura, como em qualquer outro lugar, a justiça pertence aos injustiçados. No caso do segundo artigo de Masagão, a injustiçada é a poesia.

Não porque em sua situação contemporânea seja acusada, por Masagão, de fragilidade e palidez (com a consequente adjetivação: poesia de hospital), de mal equilibrada em balbucio, de mal-educada e de baixa escolaridade (que a pesquisadora atribui, sem apresentar dados, às “tristes falhas da educação brasileira”), de mal-acabada, de hipócrita… a lista dos adjetivos, na ausência de substâncias de pesquisa, é grande.

Mais do que isso, a poesia é injustiçada pela pesquisadora pelo que ela propõe como método da crítica. Em ambos os artigos, a poesia é deixada de fora. A autora, que acusa a má recepção de seu artigo entre poetas contemporâneos como efeito de má interpretação, não se dispõe a ler amostra alguma da poesia que critica. Satisfaz-se com a sentença. Porque crítica, aí, não significa engajamento num corpo a corpo com o texto, mas julgamento. Nada mais distante do condenado que o juiz.

Com ares de autoridade, a pesquisadora declara em seu último artigo que “não gostaria de ler mais nenhum pio fora do tom, nem verso aborrecido e frio. Vejamos se um pouco de poesia, para variar, consegue calar, em definitivo, essa patrulha”. Por ato falho ou por clareza de opções de Masagão, é bom frisar suas expressões: “não gostaria de ler”, “calar, em definitivo”.

Masagão é pesquisadora e é inteligente, deve ser respeitada por isso. Sua tese de doutorado sobre heteronímia em Ficções do Interlúdio de certo é uma contribuição para a crítica infinita da obra de Fernando Pessoa, principalmente em suas relações com a tradição. Por isso me espanta o seu artigo. Gostaria que a autora se utilizasse de seus métodos e de sua astúcia, bem como de seu espaço, para exercer uma função mais digna e competente para a crítica.

Não precisamos mais de uma crítica ligada a um projeto poético legislativo, de crítica judiciária. Essa crítica é de certa forma hegemônica. Não apenas mercado, mas algumas mídias e artistas esperam dela a salvação ou a condenação. Ou uma espécie de Inmetro das artes: posso consumir este artista? Passou pelo selo de segurança do bom gosto / bom senso / bom…etc. ?

E sobre bom ou mau gosto, sabemos pelo menos desde Pierre Bourdieu como a categoria é ideologicamente mobilizada para sustentar relações de dominação. Ou, para citar alguém mais próximo, é bom lembrar daqueles versos de Tom Zé, que com muita graça e ironia dizia em seu “Curso intensivo de boas maneiras”, em que submetia o bom gosto a uma crítica de classe implacável: “primeira lição: deixar de ser pobre, que é muito feio…”

Poderíamos, é claro, contrapor a leitura de Masagão com outros nomes, como fez Ligia Gonçalves Diniz em artigo na mesma coluna. Mostrar que a poesia tem se debruçado sobre formas não-herméticas e bastante alegres, como no experimentalismo de Renato Negrão. Ou citar poetas contemporâneas que escrevem em intenso engajamento com a tradição, como Josely Vianna Baptista. Ou mesmo poetas que participam do “culto a Dionísio”, como Natasha Felix. Todos esses são motivos que a pesquisadora mobiliza como faltas na produção de hoje. Poderíamos inclusive produzir leituras das autoras citadas no primeiro artigo de Masagão para contradizer a pesquisadora.

Mas seus artigos nos deram a oportunidade de discutir também a situação e a função da crítica.

Enquanto alguns críticos insistem em escrever papeis de bala, muita gente tem procurado outra funcionalidade. Proponho, com eles, que o gosto (e a consequente salvação ou condenação) pode ser deixado para leitores e leitoras, que não precisam ser subestimados.

A crítica pode, por outro lado, desdobrar aquilo que, na poesia, se encontra condensado; ou pode, em outros casos, deslocar poemas, versos, expressões ou detalhes de lugar para fazer brotar as flores do sentido em outro terreno; ou pode forçar com que a leitura se detenha, verso a verso, em estações, fazendo durar um pequeno poema por um ano inteiro nas impressões de quem o lê.

Em todos esses casos, o que se propõe é a crítica em sua função de conhecimento das obras. Não no sentido de esgotamento sobre o que se pode conhecer em um poema, nem no de “saber falar” sobre poesia. Nem quero com isso propor que capturemos uma verdade do texto. O conhecimento que a crítica proporciona pode ser uma, isto sim, suspensão do julgamento imediato do gosto para que se possa demorar um pouco mais nas estações dos poemas. Conviver com elas. Ou nelas.

“Cor longa às folhas”, escreveu Heyk Pimenta no início da década. “As que o verão não queima / o outono doura”. A crítica pode exercer esse papel de demora na selva-selvagem da arte. Basta que ela se dedique menos apressadamente a traçar panoramas, e mais a obras singulares, pequenos contextos de produção e breves conjuntos. Assim poderemos começar uma pesquisa e, quem sabe, traçar alguns panoramas (no plural, sempre no plural, porque também a produção poética é uma distribuição desigual de tempos) desacelerados, a um só tempo mais modestos e mais acertados.

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