poesia

“o sistema prende luiz inácio”, por Dirceu Villa

Não era um escritor político; não sou um escritor político. Mas desde o golpe de Estado de 2016, qualquer indiferença da minha parte, qualquer ficção confortável de deixar o tempo passar, e que o tempo decidisse — uma vez que nada tenho com isso e as instâncias políticas me superam em muito, mero poeta —, seria uma falsidade que teria de recitar para mim mesmo todo dia, sem esperança de absolvição da minha própria consciência.

Vivemos tempos extremos, nem todos sabem; e menos ainda têm suficiente clareza de quão extremos. Mas mesmo que não fosse esse o caso, mesmo que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fosse somente um troféu político isolado para aqueles que o perseguem por motivos deixados explícitos desde o capítulo 3 de O Povo Brasileiro, de Darcy Ribeiro, intitulado “Classe, cor e preconceito”, eu teria de abdicar da minha dignidade, como Lula não abdicou da dele, para ficar quieto.

Tive de escrever sobre política desde 2016, a contragosto. Em 2018 deixei a constância desses escritos para me dedicar apenas a um eventual horror novo que ultrapassasse a medida já alta dos nossos horrores. A indignidade Ética, do Direito, da História, da própria decência comum que significa a prisão de Lula, assim como significou a execução de Marielle (a respeito da qual a pergunta sobre o mandante do crime não passa de gesto retórico, porque todos sabem a resposta, em silêncio), ultrapassou todos os limites.

Não escrevi poema sobre, porque poemas não se escrevem sobre: o poema me ocorreu, parte da vida. É registro meu, do desgosto que deveria ser o de cada cidadão e cidadã deste país, assim como tem sido o desgosto de numerosas pessoas, mesmo no estrangeiro. A poesia, como qualquer outra arte, não é um enfeite para a distração dominical: está dentro de tudo o que há, e tem responsabilidade por tudo o que diz.

E eu digo: Lula livre.

Dirceu Villa

* * *

o sistema prende luiz inácio

ungido de flores, lágrimas, foi levado por braços que
mais queriam escondê-lo, escudá-lo do mal a que ele
enfim concordou se entregar. oceano humano impedia
ao grande homem afundar naquela sua noite sombria,

em fumaça de bombas, no fogo das ruas, na farsa da lei.
o mártir apaga o algoz que o mata; voz, mesmo calada,
intacta; as vozes ouvidas agora, amadas agora: de um
horror assassino; e a nação insensata traz nêmesis viva

do fundo escuro de seu sono trágico. posam sorrindo
em armas e efígies de gente enforcada, e o novo prazer
é a morte de tudo o que não é a morte. o homem no
calabouço sorri em sua máscara, sólido ferro; aguarda

sem ódio passar a noite da terra, transe de morte. gregos
antigos se agitam no coro, os deuses apertam as lanças
nas mãos e as parcas se põem a fiar e cortar; poder do
pai ao filho, o da pedra ao ferro, o do cimento ao sangue.

* * *

Dirceu Villa (1975, São Paulo) é autor de 5 livros publicados de poesia, MCMXCVIII (1998), Descort (2003, prêmio Nascente), Icterofagia (2008, ProAC), Transformador (antologia, 2014), speechless tribes: três séries de poemas incompreensíveis (2018) e 1 inédito, couraça (2017). É tradutor de Um anarquista e outros contos, de Joseph Conrad (2009), Lustra, de Ezra Pound (2011) e Famosa na sua cabeça, de Mairéad Byrne (2015). Escreveu ensaios sobre poesia contemporânea e revisão do cânone de poesia de língua portuguesa. Foi o curador da exposição de livros de Ezra Pound, a Ezpo, da biblioteca de Haroldo de Campos, na Casa das Rosas (2008). Organizou uma antologia de poetas brasileiros contemporâneos para a revista La Otra, do México, em 2009, e escreveu apresentações para obras de Stéphane Mallarmé, Charles Baudelaire, Christopher Marlowe, além de autores contemporâneos, como Alfredo Fressia, Fabiano Calixto, Ricardo Aleixo e Jeanne Callegari. Foi convidado para o PoesieFestival de Berlim em 2012 e em 2015 foi escolhido para residência literária em Norwich e Londres, promovida pelo British Council, a FLIP e o Writers’ Centre Norwich. Participou também do Festival Internacional de Poesía de Granada, na Nicarágua, em 2018, e do Festival Policromia Poetry & Co., em Siena, Itália, 2019. Sua poesia já foi traduzida para o espanhol, o inglês, o francês, o italiano e o alemão, publicada em antologias ou revistas especializadas. Tem doutorado em Literaturas de Língua Inglesa pela USP (com estágio de doutorado em Londres), estudando o Renascimento na Inglaterra e na Itália, e pós-doutorado em Literatura Brasileira, também da USP, revisando o cânone de poesia de língua portuguesa. Ensinou literatura na pós lato-sensu da Universidade de São Paulo (USP), na graduação da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) e é há cinco anos professor da Oficina de Tradução Poética da Casa Guilherme de Almeida (Centro de Estudos de Tradução Literária). 

Padrão

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s