poesia

3 x Antônio LaCarne

lacarne

Antônio LaCarne é cearense, autor de Salão Chinês (Patuá, 2014), Todos os poemas são loucos (Gueto Editorial, 2017) e Exercícios de fixação (2018, AR Publisher).

*

Os rostos

as cascas são secas
os rostos das pessoas
os deuses periféricos
as propagandas de Gatorade
os sachês de ração dos gatos
são secos os rostos
os cabelos das bonecas
o ticket alimentação ao meio-dia
os colchões de molas
as it girls, os it boys
a porta do quarto trancada
você não está dentro
nem fora.

§

Bidê de plumas

acendi um cigarro & na sexta-feira da paixão
pus meu corpo em off semi-didático & específico
talvez por não concluir que o espelho é uma arma
ou mergulho que não atravessa a piscina
em que ambos não retratamos na fotografia
você pronto para rever o atlântico
ou sumir desesperado na noite & no escuro
que exterminou o amor sob o terceiro sexo
aí o meu cinzeiro se transforma numa caixa de pandora
inundada de capas da vogue & mentiras
que eu não quis dar luz enquanto encarava meu bidê de plumas
restos de sangria & uma taça inundada no drink
que eu quis tomar & me inundei
próximo aos degraus & das regras automobilísticas
pois onde eu estacionaria os vulcões?
onde os animais descobririam o beijo que educa
& não sabe explicar o porquê disso?
acendo outro cigarro nessa aventura cósmica
de mim mesmo como homem & rosto às duas
da madrugada tão querida & com cara de monstro
super perpétua até quando eu tive 100 anos
& não souber pedir.

§

EU SEMPRE

carinha de anjo
mar suspenso
deus ao contrario
o coração fechado
verão terrestre
gado no pasto
homem de pé
mulher no espelho
eu sempre quis ter uma espada
eu sempre estive em apuros
eu sempre fechei os olhos
eu sempre imitei o palhaço
pois aqui
eu menti
caí no buraco
me cortei com os espinhos
e um pássaro cuspiu no meu rosto.

*

 

 

 

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poesia

1 poema de Isabella Martino (1988-)

I. Martino

Isabella Martino nasceu em São Paulo, 1988, é poeta e pesquisadora, formada em Comunicação (ESPM-SP) e Artes Cênicas (Escola Superior de Artes Célia Helena – SP), atualmente cursa mestrado em Literatura e Teoria Literária na PUC-SP. Organiza e faz a mediação do Clube de Poesia Contemporânea na Biblioteca Mário de Andrade (SP). Trabalha ao redor de temas como memória, silêncio, morte, testemunho e fotografia.

* * *

Aquela que venta

para Ismar Tirelli Neto

I.

e no entanto a grande janela imóvel

ela a encara
corpo como pêndulo
um preparo para o vento
ela sabe como se navega

ela domina
cada um dos pontos
os mínimos desvios
tornam-se cada vez maiores

ela encara a janela imóvel

ela encara a cortina intacta de organza branca
um véu de mármore sobre seus olhos

toda espera venta

e no entanto apenas a abelha
o bater violento contra a vidraça
estrondos a zumbir

a saída
se dará pelos cabelos

um movimento
o sutil balançar de um dos fios
a comprovação

uma brisa que se abre
fresta nos olhos
II.

a face diante o espelho
os olhos treinados no escuro
os ângulos agudos esfumaçam
todo pesar une silêncios
de uma cor só

pensa nos que virão

alguém ainda sentirá
alguém ainda sentirá
duas almas partiram-se ali

é preciso um testemunho
um pássaro qualquer
os pedaços que restam da estante
os descascos da parede
os estilhaços da última xícara azul
tudo apontará

ela existiu
ela esteve aqui
III.

o café se alastra sobre a mesa
basta o início de uma treva
para que outras se derramem

o turvo se faz aos olhos
seria apenas o caso de uma espera?
soletra os bafejos que esquentam a demora
tudo tão próximo e desconhecido
cada silhueta
se suficiente interrogada
delata uma ausência

cada feito no mundo
arrebenta uma sombra muda

a saída se dará pela espera
não
a saída se dará pelos olhos de um animal noturno
a saída se dará pelos olhos de um animal noturno
enquanto espera reconhecer o dia

algo faz fresta na janela
um feixo atravessa seco a sua garganta

é pela luz que se dará a voz:

olá
eu estava mesmo
a sua espera.

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poesia

Um poema inédito de Thássio Ferreira

Thássio Ferreira (1982). Escritor radicado no Rio de Janeiro, autor dos livros de poemas (DES)NU(DO) (Ibis Libris, 2016) e Itinerários (Ed. UFPR, 2018). Colaborador, curador e editor-executivo da Revista Philos de Literatura. Participou da Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP) em 2017, como convidado da Liga Brasileira de Editoras, e em 2018 na Casa Philos. Publicou poemas e contos em revistas e antologias, como Revista Brasileira (nº 94), da Academia Brasileira de Letras, Gueto, Mallarmargens e Germina.

* * *

notícias do maranhão

(para Claudia Nessi Zonenschain)

os pés não bastam
para acordar a praia

e beiramos a mudez
do mar enquanto
não beira o dia

(vê a lua negra?
ela manda ter
calma. e seguir)

beira mar beira mar
os muitos braços
do rio bonzinho
(pele fina
de águas
cobrindo a carne
de areias —
o mundo é
o corpo do mundo)
vêm plantar sílabas
no ventre do sal

sem pressa:

as mãos de mãe
das águas doces
sabem a paciência
de muitos sóis
até que o mar
teça sua fala

(que não ouvirei:
a lua negra
manda ter calma
e seguir.)

quando a manhã
vem dar à praia
— essa náufraga
a nos salvar
a nós —
um homem
facão na mão
cumprimenta
nossos pés
— quando os homens
se cruzam
nos descaminhos
mesmo que se mirem
nos olhos
são os pés
que cumprimentam.

índio diz
essa época é
mais melhor para pescar
mas não sei que época
é essa de que fala.
calo. a sintaxe dele
é mais bonita.

é hora de ganhar
o branco
(que os pés
do céu
em seu azul

infindo

pisam tão leve
que não tingem
— nem uma gota
de suor.)

no meio do branco
um rio negro
— outro —
e pés fincados
— outros —
num outro
sal:

seu moacir
é jardineiro
diz, regando as couves
no cercado.
dona dete trata
das finanças
— não dá desconto —
a filha cozinha
para nossos pés
famintos
e os filhos jogam
sinuca enquanto
escutam funk
na caixa de som:

xerecão no chão
xerecão no chão

— as distâncias
são tão poucas
(já tem fliperama
em macau?
e macau é brasil?
já tem gerador everywhere
bye bye, maranhão.)

os pés descansam

depois da noite
caminham mais
dentro do branco
branco branco

até os britos

(as dunas e
o brilho das águas
que os ventos
plantaram
nesses lençóis
são todos meus:
não dão notícias.)

seu raimundo tem parabólica
(den’ de casa, camará, ê…)
e acha que não adianta
estudar e ser safado pra roubar
os outros.
fala de quando foi vigia
da petrobras — será que sabe
o que os canalhas têm
feito dela enquanto os vigias
supliciam ladrões de
galinheiros? que notícias
chegam cá donde
dou notícias?

o teto e as paredes
são palha
onde ele e dona joana
veem tevê (novela e jornal)
como peixe frito
e dormimos em rede

mas o banheiro (dos turistas)
— ele/he, ela/she —
é de telha e alvenaria
o chão azulejado
e tem sabonete líquido

além de coca-cola
guaraná e cerveja
de garrafa.

a chuva amanhece

o silêncio dura um dia
imenso/inteiro
e quand’outra chuva
traz a tarde
sento-me à mesa
— café quente
pés descalços —
e olho na mesma
direção que a menina
pingando tempo
nós duas caladas.

o painel solar
seu raimundo ganhou
do luz para todos
— ele conta na prosa
d’antes da janta —
mas não funciona:
as baterias caras
será que eu não entendo
um jeito mais barato?
mas não
eu entendo pouco
seu raimundo
quase menos.

dona joana também
anda desentendendo
o caju que vem cedo
este ano
mas dá explicação:
quando o homem
quer saber mais
que Deus, Ele
muda os tempos.

ganhamos as águas
antes de sangrar
novo silêncio
rumo betânia

aqui até
as flores são
brancas e são
água: equilibradas
(aquáticas) em
longas hastes
feito miniaturas
vegetais das gaivotas
arengueiras: aguapé.

o silêncio é mais maior
no meio do meio
já não avisto o mar
mas lembro a lua:
os pés seguem.

betânia já tem linha
mas a escuridão espreita:
a duna empurra o rio
que alaga aos poucos
as casas, os postes
a placa do icmbio
dando conta do que o povo
pode ou não
nesse chão que achamos
nosso, mas é deles.

daqui a santo
amaro é pouco
chão. o dia
bonitou.
quando chegar
dou notícias.

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entrevista

Entrevista com Daniel Francoy

keanu

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* * *

SM – Daniel, o que é poesia, para você?

DF – O meu conceito de poesia acaba se confundindo com o modo como a poesia surgiu para mim, quando eu tinha em torno de 17 anos, e procurava um modo de me expressar – de dar vazão à leitura que fazia da realidade e ao modo como essa realidade reverberava em mim. Penso que é um anseio comum a quase todo adolescente. E eu fui tentando às cegas. Cinema e música são interesses que sempre tive, e que são anteriores ao meu envolvimento com a poesia. Via muitos filmes, ouvia muitas músicas, e ficava alimentando este sonho meio besta de me ter uma grande banda ou de me tornar um cineasta. Quando lia, era invariavelmente em prosa. A poesia surgiu quando tudo isso começou a desmoronar, a tornar-se impossível. Percebi que nunca seria o cineasta ou o músico que pretendia ser. Mas essa consciência gerou um efeito rebote: um desejo ainda maior de expressão. E o que podia fazer além de escrever? Tentei a prosa, mas não conseguia o distanciamento certo, tudo soava muito autobiográfico, muito confessional. E aos poucos, como que seguindo um instinto que não sei nomear, fui migrando para a poesia, e senti que ali estava a minha expressão. Senti que ali eu conseguia falar de mim e da realidade de uma maneira contundente, mas velada, através de imagens, símbolos, aproximações. E segui esse caminho. Em pouco tempo, deixei de ser um leitor de prosa para me tornar um leitor de poesia, e tudo o que escrevia era em versos. Começou assim. Ainda é assim hoje, a maior parte do tempo. E o meu conceito de poesia não mudou muito, pois, de certo modo, o que me trouxe até a poesia não mudou: o desejo de expressão, de pensar a realidade, de estabelecer reflexões sobre o que vejo, penso, sinto – e tudo isso tenho feito com os instrumentos mais comuns à poesia: o ritmo, a sonoridade, a busca de um sentido através de construção de imagens etc.

SM – É curioso você comentar que seu contato com a poesia surgiu de uma necessidade de pensar a realidade. Pelos seus poemas, pelo seu autoassumido cargo de suburbano e pelo modo como você costuma descrever, poeticamente, em suas redes sociais, algumas de suas tarefas diárias como tirar o lixo, por exemplo, eu fico pensando: como você pensa a sua realidade hoje? E que realidade é essa?

DF -Eu penso a realidade enquanto limite, e é em face desse limite que escrevo e existo.

A questão é que não existe um único limite, então, repensando a resposta, eu diria que penso a realidade enquanto a conjugação entre a consciência e uma multiplicidade de limites em constante intercâmbio.

Penso agora na vibração de uma corda esticada até a tensão máxima: a corda vai vibrar com tamanha velocidade que vai parecer estar em diversos lugares ao mesmo tempo. É mais ou menos assim que penso a realidade e o lugar que ocupo nela. A corda distendida sou eu, a minha consciência, o meu estar no mundo. A realidade, vamos dizer assim, é aquilo que faz a corda vibrar. E os meus limites são os diversos lugares que a corda vibrando parece ocupar ao mesmo tempo. Não sei se isso faz muito sentido. Mas aqui estou, todos os dias, com a minha consciência, tensionado, alternando entre diversos limites. Em termos políticos, o limite que não consigo transpor, e ao qual reajo, é o que acontece no Brasil e mundo afora, e que me conduz a um estado de contínuo espanto. Na vida doméstica, o limite é a casa, a sua falsa proteção, a minha impotência perante a proliferação das ervas daninhas nos jardins, a minha insônia diante de uma rachadura que cresce na parede, e também o colapso da cidade, o embate contra as contingências cotidianas, que me obrigam a sucessivos exercícios de mesquinhez e covardia. Diante do tempo, o limite é a sua passagem cada vez mais acelerada, e por aí vai. É assim que a realidade se apresenta perante mim. Quando escrevo, algumas vezes a minha literatura é pura reação, e a reação pode ser mais crispada, ou reflexiva, depende muito do tema. E muitas vezes, principalmente em anotações em redes sociais e também nos apontamentos de A Invenção dos Subúrbios, eu faço a escolha estética de focar aquilo que mais parece mais banal, para os arranjos mais precários da vida íntima e da vida na cidade. Eu não acredito muito em transcendência. Eu realmente acredito que sou uma corda esticada até uma tensão quase insuportável, da qual nunca conseguirei escapar. A corda irá se romper um dia, é claro, e então não estarei mais aqui. Estar vivo é estar tensionado.

SM – Qual é a coisa mais importante do mundo? Qual é a coisa mais importante para a pessoa enquanto indivíduo?

DF – A resposta que vou dar leva em conta a minha experiência pessoal. Então o que estou respondendo, na verdade, é uma pergunta um pouquinho diferente: o que mais é importante para mim enquanto indivíduo? E é o estar inteiro, e sentir que não cometo traições contra mim ou contra o outro. Estar inteiro no mudo com o meu corpo e com o meu pensamento; e não trair o meu corpo, não trair o meu pensamento, e não trair o corpo e o pensamento do outro. Esta é a liberdade em que acredito, penso, é nesta liberdade que habitam a literatura e os afetos. Se esta liberdade é, efetivamente, a coisa mais importante do mundo ou o mais importante do mundo para outras pessoas enquanto indivíduos, não posso dizer, mas é a resposta que me vem à cabeça agora, falando de mim, que é de quem posso falar.

SM – E o que é o amor?

DF – Esta é mais uma pergunta bem difícil. A verdade é que não costumo pensar muito no amor enquanto ideia, pois não acredito que ele se manifeste de maneira tão pura e nítida no dia a dia. É mais como um borrão, um sentimento difuso. Algo que transportamos todos os dias, junto com as obrigações mais mundanas. Enquanto lavamos a louça, colocamos o lixo para fora, esperamos na sala de espera do dentista, pagamos uma conta, entramos no cheque especial etc. – enquanto tudo isso acontece, o amor está junto com a gente: como algo que nos oferecemos para dar ou falhamos em dar, como algo que esperamos receber ou falhamos em receber ou simplesmente como algo que não recebemos, tudo de maneira extremamente precária. E não falo apenas do amor romântico, mas de todo e qualquer amor: o amor por um trabalho, por uma arte, por um país, por nós mesmos. Então, se o amor está presente o tempo todo, ele está o tempo todo sujo pela matéria do dia: nos oferecendo algo com uma redenção que nunca vem porque nunca é pura, porque está sempre contaminada. Uma rosa quebra o asfalto na mesma medida que é quebrada por ele. É claro que há momentos em que o amor é mais nítido, em que ressoa como um sino, seja de dor ou de alegria. Eu penso que isso acontece naqueles momentos em que a nossa orfandade é revelada ou apaziguada.

SM – O seu livro A invenção dos subúrbios está “o tempo todo sujo pela matéria do dia” e me parece muito similar ao Livro do desassossego de Bernardo Soares, funcionando como uma espécie de meditação poética sobre os afazeres diários. Suas respostas aqui, além disso, têm me lembrado algo de um Drummond bem cotidiano, que trata de uma miudezas, como andar de avião, de um modo muito longe do banal. Dito isto, me interessa saber quais são suas influências poéticas, tanto da tradição quanto dos seus pares contemporâneos.

DF – Nos meus anos de formação, entre os 20 e 25 anos, eu era obcecado pelo Faulkner. E há um detalhe de sua obra, algo que ele conseguiu fazer, que está por trás de muito do que escrevo: é a transformação de um lugar real (no caso o Mississippi, com as suas questões raciais, com a sua violência e loucura inatas, com a sua geografia, com o seu passado de desintegração) num lugar fictício, e, por lugar fictício, quero dizer um lugar onde a literatura acontece. Ele chegou a inventar um território dentro do Mississipi real onde se passam diversos dos seus livros. As minhas questões são outras, naturalmente, mas a preocupação é a mesma: como transformar Ribeirão Preto – esta cidade árida, quente, habitada por uma classe média violenta, em que tudo é limite, onde nasci e fui criado, de onde nunca conseguir escapar –, como transformar esta cidade em literatura? Como escrever aqui? A relação com o lugar é muito importante para mim, sempre foi, e ainda ocupa uma posição de destaque no que escrevo. Em A Invenção dos Subúrbios estou tentando inventar a minha Ribeirão Preto literária, e ela passa por mapear os meus gestos, a minha rotina, e também a rotina da cidade. É como se eu estivesse tentando responder: o que é estar aqui, nesse lugar, e o que é escrever aqui?

No tocante à forma do que escrevo, ao modo como escrevo, as influências são inumeráveis, e talvez seja justo dizer que tudo é influência. Tenho alguns autores favoritos, mas que são uma influência difusa, subterrânea. É o caso, por exemplo, do cummings. A beleza dos seus poemas me tira o fôlego, mas até que ponto cummings é visível no que escrevo? Acho que muito pouco. E há autores que mudaram o meu jeito de escrever. Eliot é um deles. Eu o li muito jovem, com 19 anos, entendia metade do que ele escrevia, talvez menos, mas o modo como ele desenvolvia o seu pensamento através de imagens é algo que absorvi imediatamente. Depois veio o Kaváfis, eu tinha vinte e um anos, e que me apresentou a limpidez em poesia – o verso claro, justo, limpo, o poema breve. Mais ou menos nessa idade, comecei a ler Manuel Bandeira com mais atenção, e nele descobri algo que já existia em mim, mas que não conseguia expressar: o elogio do mínimo, a ternura pelo precário, a compaixão pelo que é tão pequeno que se torna invisível; um porquinho da índia, um vendedor ambulante, um balão que cai, uma aranha que tece a sua teia, e sobre tudo a consciência de que a glória do mundo é pálida, que se comunica com a nossa melancolia e provoca algo como um sorriso triste. Depois, Drummond, que me apresenta um sentimento absolutamente contemporâneo, limítrofe entre o espanto e a raiva, entre o desejo de aniquilamento e o estar trespassado de amor, entre o transporte de um medo surdo e a incontornável necessidade de prosseguir junto aos homens da praça, entre a consciência do tempo presente e os mortos que continuam sentados junto à mesa da sala de jantar.

Quanto aos contemporâneos, aos meus pares, confesso que fui forjado no cânone. Em parte porque, durante muito tempo, li sozinho e escrevi sozinho, sem o intercâmbio que hoje ocorre, antes das redes sociais, de sites como escamandro, de pequenas editoras. É algo novo para mim, a consciência de integrar algo maior, tendo como companhias um grupo muito heterogêneo de poetas e integrando algo que beira a cacofonia. É algo que tem atravessado o que escrevo, mas de maneira ainda oblíqua, indireta. Dos autores contemporâneos, fico com receio de citar nomes e esquecer alguém. Agora me vem à memória o Guilherme Gontijo, o Fabiano Calixto, a Ana Martins Marques, a Mônica de Aquino, a Lívia Natália, o Tarso de Melo, o André Luiz Pinto, o Ricardo Aleixo.

SM – Bem, fica evidente que a relação da poesia com o real, com cotidiano é um ponto importante dentro da sua poética. Por isso. você vê alguma função ou tarefa a ser cumprida por quem se arrisca a escrever nestes tempos. Trocando em miúdos, qual é, pra você, a tarefa que recai sobre o poeta escrevendo hoje?

DF – Não acho que, hoje, a tarefa de um poeta seja diferente da que ele teve antes, em outro momento e contexto histórico. O que talvez mude seja o lugar que essa tarefa ocupe na ordem do dia. Enfim, eu penso que a tarefa do poeta é bem simples: é ser uma voz, e fazer tudo o que é inerente a uma voz: falar, refletir, expor, acusar, defender, resistir. E a voz que é o poeta precisa olhar para o que está fora e está dentro, para aquilo que é rejeitado e massacrado, para o rei e para o carrasco, para o que está aqui e para o que está ausente, para o corpo e para aquilo que o atravessa, para o que é diáfano e para o que é impuro, para o que é mínimo e para o que transcende. Sei que é uma ideia ampla, um conceito vasto, mas é porque amplo e vasto é o trabalho de um poeta. Não é algo que se mensura tão facilmente, que se pesa como algo que está morto. É identificar o que está difuso no dia – com toda a sua sujeira, todo o seu horror, todo o seu desamparo, toda a sua raiva, toda a sua ternura etc – e dar uma voz a isso. E para isso o poeta preciso estar livre e vivo. É a sua tarefa, ou o que julgo ser a sua tarefa.

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poesia, tradução

Maria Borio, por Davi Araújo

Maria Borio (Perugia, 1985) é poeta e crítica literária. Doutora em Literatura Italiana Contemporânea, assina os estudos Satura. Da Montale alla lirica contemporanea (Fabrizio Serra Editore, 2013) e Poetiche e individui. La poesia italiana dal 1970 al 2000 (Marsilio Editori, 2018). Como poeta, publicou a série Vite unite (em XII Quaderno italiano di poesia contemporanea, Marcos y Marcos, 2015), a plaquete L’altro limite (Pordenonelegge-Lieticolle, 2017), e o livro Trasparenza (Interlinea, 2019). Escreve nos sites Le parole e le cose e La letteratura e noi, e cura a seção poesia da revista Nuovi Argomenti.

Davi Araújo (São Paulo, 1979) é poeta, ficcionista e tradutor; colaborador de Mallarmargens e diretor artístico d’A Quimera Dança. Autor do poemário Livro Ruído (Eucleia, 2011), publicado em Portugal, e das prosas em Ficções paralelas e Visões para lê-las (Substânsia, 2016; com desenhos de Yuli Yamagata). Traduziu Natureza, de R. W. Emerson, Caminhada, de H. D. Thoreau (Dracaena, 2011), 100 poemas de André Breton (Revista Agulha, 2019), e diversos poetas reunidos em Do silêncio ao céu (inédito). Lança este ano, pela Urutau, seu próximo livro de poemas: O físsil.

* * *

O céu

Sei que ἁρμονία significa também coligação,
conexão, união. “Enquanto restarem unidos
os troncos da jangada,/estarei aqui, resistirei…”

(Odisseia, V, 361-362)

As nozes abertas sobre a mesa
são todavia som
– o movimento brilhante dos olhos
da porta à mesa:
o labor, o peso que não existe,
a ânsia ligeira pelas pessoas –
como se a beleza não tivesse uma origem.
Estas nozes fizeram rumor,
me tiram os pensamentos
(nascem e são já de todos,
todos os pensamentos…),
me reclamam ao corpo,
àquele que digo sabor
(as ideias são sempre sem corpo,
são parte de todos?),
me mantêm a contar os restos,
a colecioná-los sobre a mesa (e os meus
pensamentos, a quem fizeram feliz?).
As cascas partidas pertencem a estas mãos,
ao côncavo, às linhas das palmas,
pontas de sementes – nasce uma vida
ao instante dentro destas mãos.
Não ter pensamentos.
///
Apenas sobre as notícias eu sei nomes e pessoas
como era o labirinto dos vidros, no parque, dos espelhos
até batendo encontravas a saída.
Porque não tenho a saída agora –
se chama rede,
talha um quadrado exato
e um lugar que é onipresente.
Ou sou o branco de fundo
no corredor de espelhos,
inciso de diagonais e metálico
na terra, estreito entorno ao corpo
com os neons que faziam indistintos
a pele e o ar como uma sombra transparente
que segue a cada um, mas ao voltar-se não está.
E ali a peça de velha moeda,
o círculo de bronze com o golfinho
era caído à terra
quando estávamos vizinhos à saída,
e para não perdê-la a tenhamos abandonado.
Ali, exatamente, acreditei
em uma língua para todos
idêntica ao ar nos espelhos,
do inventor do labirinto às nossas mãos suadas
que protegiam a fronte:
erro ou desvio,
mas era solidez
bater a fronte às vezes
antes de chegar.
E à saída do parque o mestre dos crepes,
o pedrisco no círculo como a plataforma escura
onde atiras e pegas
e perdes, e depois os sapatos de ginástica
sobre o pedrisco e o mês certo
novembro – sempre um rito
enquanto o tempo agora é filiforme
e os sentimentos certos que todos possam capitar
e ver tão só na infinita
rede – ou, às vezes, em equilíbrio,
alguém que devolve a moeda.
///
Têm passado dias como vozes,
as vozes úteis pelo ar quando se enche.
Têm passado dias demasiado meus
aos quais falo curtocircuito.
E os teus – aqueles de-
le, do outro, do outro,
outras vozes
eu deles, deles
de mim e ninguém
de ninguém.
Me apareciam rostos de mulher
no mármore da fachada,
plenos da luz de dezembro
e muito ligeiros para perceber
se jovens ou velhos, criaturas
inaturais ou animais.
Apareciam as geometrias,
as ficções, e todos os habitantes,
deslizando vizinhos, secretos,
rachados pelo sol deslizando
de boca em boca de corpo em corpo,
se uniam às pessoas reais,
me faziam uma figura.
Contar é o único,
reconhecer na luz exata
as vozes que não parecem reais,
que desejas transparentes,
inocentes ou simples –
e te fazem muito mais única
do que uma pessoa só.
///
Um interior – a pressão d’água
nos tubos, a luz da lâmpada
matizada, o respiro,
o mastigar objetos… é nutrir-se
de pouco, pensar grades de metal
com que suspender as substâncias da natureza,
recriar.
Logo, exterior – passas como um nada,
se para o carro, o vento, a mosca
exausta entre os quadrantes das casas,
o fio de erva seco pelo gelo,
todavia passam – como um eu multiplicado.
Até quando, me dirás me dirás,
saberemos que protegidos ou expostos
é a mesma coisa?
Me dirás as criaturas inconscientes
não existem, e escava escava
cada um se encontra.
No fundo é
a base da erva,
o contato entre a estrada e a terra,
o fragor de ultrasons entre as asas e o ar,
as dobras entre parede e parede,
o halo nesses copos do respiro
e a sombra que degrada.
Tudo é
real nas escalas múltiplas
como as frases que levam adiante
adiante a compreender, o gesto
em que vasculhas para ver o fundo.
Interior cheio de nada,
a luz grisazulada que chega
é manhã e tarde
e as coisas espoliadas da sombra
um segundo te veem como tu as vês.
///
O vidro é todo inverno,
as árvores se apoiam,
um quadro é já parede,
a célula outra célula:
talvez pudessem continuar
com os sentimentos raptados
como as gotas que chamam luz,
pudessem ignorar.
Memória – cada um reconhece
ainda que fingindo.
Passam as cores do inverno
fora da janela como se os quereres
fossem estátuas dentro do céu
escondidas à natureza.
Se sentem mais do querer
fortes com a água nova –
assim dizem as plantas
sobre as quais volta o inverno mil vezes –
é raro ser anônimos e nós,
a escavar o inverno,
a murar os confins,
outros nós misturados às árvores –
parecem árvores e são
nós?
Prefiro o fim dos insetos
assim crus em espirais de lenho,
morrer de ar seco
quando o vento é muito forte:
a minha alma é morta mil vezes
e volta, privilégio
que apaga e inunda.
Provo outra vez fixá-la
no instante que, anônima, se apoia
na natureza sem provas, e crê
que nada exista.
///
Terminarão, terminarão –
tenho pensado nestes momentos,
a suspensão, a verdade
para todos – estes segundos
nutrientes como o leite.
Logo aprendia a me levantar e abaixar
conforme os casos, os poucos
que se podem observar. E os casos
tornavam-se meus, os meus humores
tornavam-se casos.
Mas o melro segue o curso dos ramos,
é uma realidade pintada
que se move sem medo
até quando não sinto que é real
mais do que eu – as penas negras
que brilham entre os ramos para dizer-me
a perfeição é fora.
Agora torna a morte como o céu
sobre todas as coisas transformadas –
eis que o céu tem todas as cores,
as apaga no alto, as perde,
as faz novas, o céu
muda a cada dia – e o mundo
resiste só em paralelo.
///
O céu é branco entre as folhas
que saem da terra a um ponto de ar.
Distingues as cores, as hierarquias,
as recém-nascidas, as sempreverdes
folhas de magnólia contra a luz
que escondem um mundo
latente como o nosso.
Sai o vazio imprevisto,
olhando do tronco à ponta das ramas
o céu no meio
como pudesses bebê-lo. Qualquer coisa
assim lógica e justa –
as hierarquias mais humanas não se fazem
de água e luz, crescem
à vontade necessária,
se alteram sob o querer de poucos.
Repetir isto e deixá-lo
passar da indiferença ao vento,
que o tenha consigo em um momento
entre os meus olhos e a magnólia.

§

Il cielo

So che ἁρμονία significa anche collegamento,
connessione, unione. «Finchè restano uniti
i tronchi della zattera, / starò qui, resisterò…»
(Odissea, V, 361-362)

Le noci aperte sul tavolo
sono ancora suono
– il movimento brillante degli occhi
dalla porta al tavolo:
il lavoro, il peso che non esiste,
le ansie leggere per le persone –
come se la bellezza non avesse un’origine.
Queste noci hanno fatto rumore,
mi tolgono i pensieri
(nascono e sono già di tutti,
tutti i pensieri…),
mi richiamano al corpo,
a quello che dico sapore
(le idee sono sempre senza corpo,
sono parte di tutti?),
mi trattengono a contare i resti,
a radunarli sul tavolo (e i miei
pensieri chi hanno reso felice?).
I gusci spaccati appartengono a queste mani,
nell’incavo, nelle linee dei palmi,
punte di semi – nasce una vita
all’istante dentro queste mani.
Non avere pensieri.
///
Appena sopra le notizie io so nomi e persone
come era il labirinto dei vetri, al parco, degli specchi
finché sbattendo trovavi l’uscita.
Perché non ho l’uscita adesso –
si chiama rete,
taglia un quadrato esatto
e un luogo che è ovunque.
O sono il bianco in fondo
al corridoio degli specchi,
inciso di diagonali e metallico
a terra, stretto intorno al corpo
con i neon che facevano indistinti
la pelle e l’aria come un’ombra trasparente
che segue ognuno, ma a voltarsi non c’è.
E lì il pezzo di vecchia moneta,
il cerchio di bronzo con il delfino
era caduto a terra
quando siamo stati vicini all’uscita,
e per non perderla l’abbiamo lasciato.
Lì, esattamente ho creduto
a una lingua per tutti
identica dall’aria agli specchi,
dall’inventore del labirinto alle nostre mani sudate
che proteggevano la fronte:
errore o deviazione,
ma era solidità
sbattere la fronte a volte
prima di arrivare.
E all’uscita del parco il maestro delle crêpes,
la breccia in cerchio come la piattaforma scura
dove tiri e peschi
e perdi, e poi le scarpe da ginnastica
sulla breccia e il mese certo
novembre – sempre un rito
mentre il tempo adesso è filiforme
e i sentimenti certi che tutti possono capire
e vedere nella sola infinita
rete – o, a volte, in equilibrio,
qualcuno che riporta la moneta.
///
Sono passati giorni come voci,
le voci utili all’aria quando si riempie.
Sono passati giorni troppo miei
a cui parlo cortocircuito.
E i tuoi – quelli di
lui, dell’altro, dell’altro,
altre voci
io di loro, loro
di me e nessuno
di nessuno.
Mi apparivano volti di donna
sul marmo della facciata,
pieni della luce di dicembre
e troppo leggeri per capire
se giovani o vecchi, creature
innaturali o animali.
Apparivano le geometrie,
le finzioni, e tutti gli abitanti,
scivolando vicine, segrete,
spaccate dal sole scivolando
di bocca in bocca di corpo in corpo,
si univano alle persone vere,
mi facevano una figura.
Contare è l’unico,
riconoscerle nella luce esatta
le voci che non sembrano vere,
che desideri trasparenti,
innocenti o semplici –
e ti fanno molto più unica
di una persona sola.
///
Un interno – la pressione dell’acqua
sui tubi, la luce della lampada
sfumata, il respiro,
il masticare oggetti… è nutrirsi
di poco, pensare griglie di metallo
a cui appendere le sostanze della natura,
ricreare.
Poi, esterno – passi come un niente,
si ferma l’auto, il vento, la mosca
sfinita tra i quadranti delle case,
il filo d’erba seccato dal gelo,
ancora passano – come un io moltiplicato.
Fino a quando, mi dirai mi dirai,
sapremo che protetti o esposti
è la stessa cosa?
Mi dirai le creature inconsapevoli
non esistono, e scava scava
ognuno si trova.
In fondo è
la base dell’erba,
il contatto tra la strada e la terra,
il fragore a ultrasuoni tra le ali e l’aria,
le pieghe tra parete e parete,
l’alone del respiro sul bicchiere
e l’ombra che degrada.
Tutto è
vero nelle scale multiple
come le frasi che portano avanti
avanti a capire, il gesto
in cui frughi per vedere il fondo.
Interno pieno di niente,
la luce grigioazzurra che arriva
è mattino e sera
e le cose spogliate dall’ombra
un secondo ti vedono come tu le vedi.
///
Il vetro è tutto inverno,
gli alberi si appoggiano,
un quadro è già parete,
la cellula altra cellula:
forse potrebbero continuare
con i sentimenti rapiti
come le gocce che chiamano la luce,
potrebbero ignorare.
Memoria – ognuno riconosce
anche fingendo.
Passano i colori dell’inverno
fuori dalla finestra come se i bisogni
fossero statue dentro al cielo
nascoste alla natura.
Si sentono più del bisogno
forti con l’acqua nuova –
così dicono le piante
su cui torna l’inverno mille volte –
è raro essere anonimi e noi,
a scavare l’inverno,
a murare i confini,
altri noi misti agli alberi –
sembrano alberi e sono
noi?
Preferisco la fine degli insetti
così crudi in spiragli di legno,
morire d’aria secca
quando il vento è troppo forte:
la mia anima è morta mille volte
e tornata, privilegio
che spegne e inonda.
Provo ancora a fissarla
nell’istante che, anonima, si appoggia
alla natura senza prova, e crede
che niente esista.
///
Finiranno, finiranno –
ho pensato a questi momenti,
la sospensione, la verità
per tutti – questi secondi
nutrienti come il latte.
Poi imparavo ad alzarmi e abbassarmi
come i casi, i pochi
che si possono guardare. E i casi
diventavano miei, i miei umori
diventavano casi.
Ma il merlo segue il corso dei rami,
è una realtà dipinta
che si muove senza paura
fino a quando non sento che è vero
più di me – le penne nere
che brillano tra i rami per dirmi
la perfezione è fuori.
Allora torna la morte come il cielo
su tutte le cose trasformate –
ecco che il cielo ha tutti i colori,
li spinge in alto, li perde,
li fa nuovi, il cielo
cambia ogni giorno – e il mondo
resiste solo in parallelo.
///
Il cielo è bianco tra le foglie
che salgono da terra a un punto d’aria.
Distingui i colori, le gerarchie,
le nuove nate, le sempreverdi
foglie di magnolia controluce
che nascondono un mondo
latente come il nostro.
Sale il vuoto improvviso,
guardando dal tronco alla punta dei rami
il cielo in mezzo
come potessi berlo. Qualcosa
così logico e giusto –
le gerarchie più umane non si fanno
di acqua e luce, crescono
a volontà necessarie,
si alterano sui bisogni di pochi.
Ripetere questo e lasciarlo
passare dall’indifferenza al vento,
che lo tenga con sé in un momento
tra i miei occhi e la magnolia.

Padrão
poesia, tradução

Maiakóvski em viagem, por Paulo Ferraz

Para quem fez versos para seu passaporte soviético, é de se supor que Vladímir Maiakóvski o tenha usado bastante. E sim, após algumas viagens por cidades soviéticas, o poeta georgiano, nascido em 19 de julho de 1893 e que desde a adolescência vivia em Moscou, vai algumas vezes para o ocidente, Riga, Praga, Varsóvia, Berlim e Paris, são algumas das cidades por ele visitadas depois de 1922. Em cada uma delas deixou registrado suas impressões, especialmente Paris, onde esteve em mais de uma ocasião. Dessas viagens, a mais inusitada há de ter sido para o novy mir, a América, saindo da Espanha, passando por Cuba, depois México e finalmente os EUA. Os poemas que escreveu entre 1925 e 1926, além de crônicas e cartas, têm a marca da circunstancialidade, mas também do olhar (e ouvido) estrangeiro ao registrar um mundo que só existia para ele como ideia e que se diferenciava tanto da sociedade russa que caíra quanto da que ajudava a construir. Para essa publicação selecionamos cinco poemas, dois sobre Paris, um sobre a Espanha, outro sobre Nova Iorque e, por último, um sobre o México.

Paulo Ferraz


Paulo Ferraz
 é poeta e tradutor, autor dos livros de poesia De novo nada (2007) e Vícios de imanência (2018), entre outros, da antologia Roteiro da poesia brasileira, anos 90 (2011)  e mestre e doutorando em Teoria Literária e Literatura Comparada pela USP.

* * *

PARIS (ПАРИЖ)
(conversando com a Torre Eiffel)

Maltratada por milhões de pés.
Esfacelada por milhares de pneus.
Eu rasgo Paris —
terrivelmente erma,
terrivelmente desumana,
terrivelmente desalmada.
Ao meu redor —
a fantástica dança dos carros,
ao meu redor —
bestas marinhas nos chafarizes
assoviam em um só acorde
as mesmas águas dos Luíses.
Parto para a
Place de la Concorde.
Espero,
e enquanto
espio um sinal que a identifique,
espreitando atrás das casas
sai, por mim,
o bolchevique,
como um espectro
da neblina a Torre Eiffel.
— Psiu,
torre,
seja discreta! —
estão nos vigiando! —
essa lua-guilhotina assusta.
Conto o que se passa
(num sopro sibilado,
em sua
orelha-rádio
chio,
cochicho):
— Tenho agitado as coisas e os edifícios.
Nós
aguardamos apenas sua anuência.
Torre,
você quer liderar uma rebelião?
Torre —
Nós
te elegemos nossa líder!
Você —
exemplo do gênio da ciência —
não pode
apodrecer num metro de Apollinaire.
Aqui não é seu
lugar — lugar da decadência —
Paris das putas,
dos poetas,
da bolsa de valores.
O Metrô já aderiu,
os trens estão comigo —
eles
cuspirão o público
de suas entranhas revestidas —
e com sangue limparão
os anúncios de perfume e pó-de-arroz
nos muros.
Estão convictos
não vão circular o
vagão dos ricos.
Não são escravos!
Estão convictos —
para eles
acima dos retratos
está nossa propaganda,
cartazes de luta.
Torre,
a rua não é temerária!
Se o
Metrô não libertar o subterrâneo —
a terra
será nossos trilhos
Iniciarei uma revolta ferroviária.
Está com medo?
Os cafés defenderão o sistema?
Está com medo?
A Rive Gauche virá em socorro.
Não tema!
Já combinei com as pontes.
Atravessar o
rio
a nado não
é nada fácil!
As pontes,
rompendo com o tráfico enfurecido,
dividirão Paris em duas metades.
As pontes irão se rebelar.
No primeiro chamado —
os passantes serão lançados a um pilar.
As coisas estão indignadas.
É um ponto insuportável.
Depois de
quinze anos
ou vinte,
abrandará o aço,
e essas
mesmas coisas
de agora
lá fora
nas noites de Montmartre vão se vender.
Vamos, Torre!
Conosco!
Afinal,
você,
ao nosso lado,
é essencial!
Venha conosco!
Com seu aço reluzente,
na fumaça —
nós te encontraremos.
Nós te encontraremos com mais afeto
que ao primeiro entre os queridos dos queridos.
Vamos para Moscou!
Em Moscou
nos
sobra espaço.
Você
— e todos! —
estará na via pública.
Nós
cuidaremos de você:
cem vezes
ao dia
sol a sol lustraremos seu cobre e seu aço.
Deixe
essa cidade,
a Paris dos dândis e dos fariseus,
a Paris dos bulevares sufocantes
acaba sozinha, no longo cemitério do Louvre
no velho Bois de Boulogne e nos museus.
Em frente!
Mova suas quatro potentes patas,
cravadas no chão pelo croqui de Eiffel,
para que em nosso céu sua testa irradie,
para que nossas estrelas se desviem diante de ti!
Decida, Torre,
mande tudo à sua sorte,
revirando Paris pelo avesso!
Vamos, se apresse!
Conosco!
Conosco para a URSS!
Vamos conosco —
que eu
te arranjo um passaporte!

(escrito após sua viagem a Paris no outono de 1922)

DESPEDIDA (ПРОЩАНЬЕ)

No carro,
            gasto meu último franco.
— Que horas sai o trem de Marselha? —
Paris
            me escolta,
                                    vejo-a do meu banco,
em sua
            inacreditável
                                    maravilha.
A água que
                        verte
                                    dos meus olhos diz
do coração mole
                               e sentimentalista
                                                            que sou!
Queria
            viver
                        e morrer em Paris,
se não houvesse
                        outra terra —
                                                Moscou.

(1925)

ESPANHA (ИСПАНИЯ)

Pensava que fosse
            o Jardim do Éden.
Bobagem
            de bêbados bardos.
Mas não —
            ao vivo vejo
                        o armazém
“LEOPOLDO PARDO”.
Com cautela se passa
por vilas incrustadas na rocha,
e um burro de raça
tagarela em espanhol.
Despojados de tudo que é plebeu,
enfiam o seu chapéu até o nariz.
O humilde
            “telefone”
                        se converteu
no “teléfono
            de esnobe verniz.
Cabelos pretos
                        entre coloridas centelhas.
Rostos nos xales emoldurados,
Señoritas
                        às centenas
e seus leques de um a outro lado.
Medusas —
            azulam as águas
na medida
            de um exagero.
Sou para uns camaradas
                                    “señor
para outros
                        “caballero”.
Castanholas afugentando o sono.
Gritos…
            canto…
                        paixão!
Mas o que me importa isso?
É como cumprimentar — um cão!

(Escrito a bordo do navio “España” em 22 de junho de 1925)

BROADWAY (БРОДВЕЙ)

O asfalto — é vítreo.
                        E o som grave nos
passos. Bosques e folhas
                        de relva — no limite.
Do norte
            para o sul,
                        pegue as avenues,
do oeste para o leste,
                                    — as streets.
No meio —
            (onde o construtor quis tê-las) —
o tamanho
            das casas tumultua.
Umas
            são imensas como estrelas,
outras
                        — vão até a lua.
Yankees
            são preguiçosos
                        para andar não têm gana:
o elevador
            comum e o expresso.
Às 7 horas
            sobe a maré humana,
às 17 horas —
            ela se esparrama.
O mecanismo range
                        numa algaravia vã,
e não há na rua
                        quem se relacione.
Só refreiam
            a mastigação do chewing gum
para soltar um
                        “make money?
A mãe
            amamenta o nenê
                        que a seu seio o cola.
O nenê,
            com o nariz escorrendo,
suga
como se não fosse
                        uma teta, mas one dollar
entretido
                em sérios
                                    negócios.

Fim do expediente.
                        O corpo se sabe o ei-
xo contínuo
                        de um elétrico vetor.
Quer ir para o subterrâneo?
                                    — tome o subway
para o céu?
            — então, um elevator.
Os vagões
            partem e deixam
                        um rastro de fumaça sem fim,
passam
            rente aos calcanhares
                                                das casas
para pôr pra
                        fora uma cauda
                                                na ponte do Brooklyn
e se enfiar
                numa toca
                                    sob o Hudson.
Uma sonolência
                              te
                                    envolve no breu.
Mas
            como cascos num galope
no escuro
            a mente escuta:
                                    “Coffee Maxwell
good
            to the last drop
Uma lâmpada
                        se põe a
                                    cavar a treva.
Bem, contarei a vocês:
                                    — que deslumbrante!
Olhe pra esquerda:
                                    — nossa, mãe, não se atreva!
pra direita:
                        — mamãezinha, isso é um desplante!
Isso pode ser demais para os de Moscou, pode, eu sei!
Um dia só não basta,
                        o fim é um tabu.
Isso é Nova Iorque.
                                    Isso é a Broadway.
How do you do!
Estou encantado
                        por essa cidade.
Mas
            de meu quepe
                                    não me descubro.
Os soviéticos
                        temos muita autoestima
Para a burguesia
                        nós olhamos de cima.

(6 de agosto de 1925)

TRÓPICOS (ТРОПИКИ)
(Estrada entre Vera Cruz e Cidade do México)

Vejo:
           aqui estão —
                                   os trópicos.
Foi pelo que aspirei
                        a vida inteira.
Viajo num
            trem trôpego
entre palmeiras,
                        entre bananeiras.
Suas silhuetas na vista
desenham uma torpe paisagem:
umas lembram — eremitas,
outras lembram — artistas.
Agora, você
            não creria nesse fato:
dessa balbúrdia de chocar
crescia
            uma planta — o cacto
como um cano de samovar.
Já os pássaros nesse forno
a nenhum do mundo igualo.
Espera-se —
                        um tordo
e se encontra —
                        um galo.
E antes que eu
                        entendesse a flora
ou o delírio
                        ou o calor
                                             ou o dia —
o dia
            e a flora se foram
sem noite
            e sem
                        ousadia.
Onde horizonte se esconde?
Foram as linhas
                        já guar-
dadas. Me conte,
            qual dessas estrelas
são
            olhos de jaguar?
Não devo ser o
                        melhor fiscal
de estrelas
                        da noite tropical,
é um céu
tão estrelado nas
            noites de agosto
que não se esgota
            num só gosto.
Vejo:
                       quadro utópico.
Foi pelo que aspirei
                        a vida inteira.
Viajo num
                        trem nos trópicos
entre o aroma
            das bananeiras.

(escrito após o retorno de Maiakovski entre maio e junho de 1926)

Padrão
poesia

Ana Luiza Rigueto (1991—)

Ana Luiza Rigueto nasceu em Mimoso do Sul, ES, em 1991 e vive no Rio de Janeiro. Formada em Jornalismo pela UFRJ, estudou Literatura Brasileira na pós-graduação da UERJ. Teve poemas publicados na antologiaTertúlia (Ágrafa, 2018), na Subversa e na Ruído Manifesto. Realizou o videopoema “não me fale do fim” (2017), disponível no YouTube, e edita com amigos a Revista Transversal. Os poemas aqui postados estarão em seu primeiro livro, Entrega em domicílio, que sairá pela Editora Urutau este ano.

* * *

namorinho de portão

quando o tendão do pescoço
estica
e o queixo se ergue
junto
dos olhos eu gosto
desse frisson
que causo
em certos rapazes
na rua
quando passo
ou nas moças
que beijo
em casa ou sentadinha no banco
da praça

§

mímica no aterro do flamengo

no aterro o ônibus leva
a noite enquanto a pele sua o
verão todo mundo tarda
na rua querendo voltar
até nós
que fingíamos querer
agora parecíamos de fato
porque fazia verão, imprevisto
e cansaço

os passageiros
o motorista
suspensos pelo vapor do asfalto
silenciavam cafés sem açúcar
sabão sem espuma sal
não iodado a essa altura
não sabiam se era bom
você encostar os cabelos
presos
no magro do meu braço
se era justo esse sol
úmido
nos seus olhos não supunham
o sal umedecendo fronhas
embaraçando ralos,

então já cansada de tanto
segurar o movimento dos
raios batendo nas primeiras
folhas quando se levantam crianças
sem o medo do escuro ou gente
que já não pode dormir
por pensar em alguém com saudade
você
deixou que caísse a cabeça,

então já cansada de pensar
em como conter a franja
das samambaias o frizz das ondas você
deixou que caíssem os passageiros
estatelados no aço
porque era tarde e tarde o céu
descansa os bichos e tudo
são almofadas,

então já cansada
do ócio quente da noite que não se alegra
e conspira e sua e espera a hora da cama
você descasca o sono como paredes de
cálcio e deita cabelos no meu braço
anunciando
o início das férias
o aumento dos salários
o fim do desemprego
o preço justo do transporte
comunitário,

então
já cansada deixa cair
cabeça passageiros casca
preenche a distância pra dizer
o amor é isso e também
passa

§

verão (haikai II)

pensar em sorvete
de baunilha é tipo querer
derreter Larissa

§

sol nas praças

era difícil
uma época
as prateleiras do supermercado cheias lá
em casa escuro
fazia sol na praça fazia água o
chafariz em chamas eu
debaixo da cama

pedindo luz, mãe
um pouco de luz eu não peço tanto

um feixe me basta
um feixe e um botão
um feixe e bastões elétricos
pr’eu poder apertar
levar um choque pequeno
não chorar
apertar de novo e

agora eu choro um pouco porque
dói
mas eu não ligo porque
o gosto que esse feixe dourado deixa
nas unhas parece açúcar
tostado

eu gosto de caramelo, mãe
e tenho mania de olhos abertos
desde o primeiro foi assim

eu vendo tudo e mesmo assim
eu continuo a acreditar nas chamas
do chafariz das praças
sob o sol os cabelos são mais
bonitos eu gosto da projeção
dos nervos embaixo da cama

aos 7 anos eu não sabia se era mais
justo riscar suas paredes a lápis colorido
(me lembro, Gustavo, do seu cabelo
tigela e sua pele bronzeada)
ou ver a cor de sua pele
embaixo da blusa passada
por lanternas no escuro
embaixo da cama

§

um pula-pula com você

só sei que
aluguei esse pula-pula
pra nós duas
de uma feita foi
isso librianos gostam
de agradar o crush

então você me disse eu gosto
de pula-pula
vi aí uma chance
te chamar pra pular
comigo

nós duas sem fazer
registro
ninguém precisa saber
pulamos muito e rimos
sem gerar conteúdo caindo
sempre como se fosse a
última
rodada o último choque
sabendo que
não é amor

culpa da cartomante antecipando tudo
não é
mas a gente gosta
do artifício protelar a hora do
corpo matar uma garrafa de vinho
coisas assadas no forno
de noite dividir cama
fazer carinho a gente gosta do vício
muito bonita eu só quero olhar você muito

Padrão