poesia, tradução

15 PEDAÇOS DE SOSSÉLLA [6/15], por Fernanda Magalhães Ferrari e Gregório Camilo

Sérgio Rubens Sossélla foi um poeta, crítico e magistrado nascido em Curitiba, em 1942. Certamente foi um dos poetas mais produtivos do Brasil, tendo mais de 300 publicações em vida, a maioria editada pelo próprio autor. Se aposentou em 1986 e logo em seguida construiu a Vila Rosa Maria, biblioteca com mais de 25 mil livros, onde se dedicou à poesia e literatura integralmente até o fim de sua vida, em 2003.

No dia 18 de novembro de 2018 completou 15 anos sem Sossélla. Fizemos o primeiro vídeo (Sim, ele passou por aqui) em homenagem a esse dia, e só depois resolvemos fazer uma série de 15 videopoemas, tentando dar uma visão geral da obra poética dele, com um olhar um pouco biográfico – que é praticamente indissociável de sua obra –, chamada 15 pedaços de Sossélla.

A produção desses vídeos tem sido baseada nas imagens que fizemos na Vila Rosa Maria (a maioria feita na pré-filmagem das cenas pro longa que estamos produzindo: Sossélla esteve aqui) e algumas outras que não têm ligação com o filme e vemos que poema flui melhor. A partir do sexto vídeo, que até agora é o último, as filmagens vão ser feitas já pensando no videopoema completo.

Por curiosidade: o ator de Meus mortos e Exercício nº 110, interpretando o próprio Sossélla, é seu filho, o Sérgio Augusto Sossélla.

* * *

#1 Sim, ele passou por aqui (1985)

Poema longo, pro Sossélla. É um dos que mais demonstram a sua relação íntima com a morte.

Sobre a reclusão, a solidão e a rotina, afastado e amargurado, consciente do que tava acontecendo e das consequências.

então o cowboy abruptamente envelheceu
(desde menino trazia os olhos de um cão chutado pelo destino)
nem mais com as crianças da rua ele brincava (como costumava)
e nas raras vezes em que surgiu (arqueado e tropeçando)
a mão vazia desenhava saques lentos para um alvo que não existia
monologando só passagens da sua infância
(¿saberia que por ser quem era sairia
miseravelmente derrotado pelas vitórias que fizera?)

assim rapidamente ele morreu
levando na garganta mugidos estrangulados
vermelhos e largos vergões na alma trincada
sinais de tiros e marcas de punhais no frágil corpo atormentado

morreu ele rapidamente assim
pedindo ao deus misericordioso jamais nascesse de novo
tão sozinho e abandonado que até a sua sombra não lhe acompanhava

sim
ele passou por aqui
(aldeia dos canibais)
alongando o quanto pode a amargura da permanência
além dos próprios limites suportáveis da existência
e foi embora para nunca mais

mas todas as noites
o seu fantasma alucinado
teima em repassar aí em frente
(naquele veloz corcel invisível)
deixando uma grossa nuvem de poeira e de remorso para nós

§

#2 Meus mortos (em Tatuagens de Nathannaël, 1981)

Ele vendo as coisas se esvanecendo sem poder (ou não querer) fazer nada. Os amigos morrendo, a família também, se isolando cada vez mais, o desinteresse crescente.

indefesos
não suporto olhar meus mortos

suas pupilas dilatadas anoitecendo visitas
para aquela horizontalidade de mãos postas

não suporto olhar meus mortos
indefesos

§

#3 O dia de amanhã (em Ao vencedor, as batalhas, 1987)

minha mãe me ensinou
o dia de amanhã
ninguém sabe
o dia de amanhã

§

#4 Exercício nº 110 (em Ao vencedor, as batalhas, 1987)

O Sossélla tinha uma personalidade fortíssima, muitas vezes incontestável. Quisemos retratar sua trajetória na magistratura e o que ele enfrentou em sua carreira, muitas vezes importunado. Juiz nas décadas de 70, 80 e 90 que usava rabo-de-cavalo e brinco. No fim, foi um alívio sair desse mundo.

inclinou-se para o lago
e perguntou

existe alguém
mais não-eu do que eu?

a voz
grudada no penhasco
(rouca e louca)
respondeu

eu
eu
eu

§

#5 Ninguém volta pra casa (1989)

Outro poema longo. A simbologia da casa, na psicanálise: o próprio eu.

Uma casa escura, antiga, vazia, úmida, talvez não muito agradável de estar. A vida correndo lá fora.

quando adoideço e me rôo
quando me congelo e derreto
é a minha casa que vejo se anoiteço

de casa a gente sai mas não volta
porque vai topar com a mãe morta de tanto chorar
de casa a gente sai mas não volta
porque ¿quem aguenta ver o pai velhinho a sangrar?
de casa a gente sai mas não volta
porque a memória de você-menino irá lhe estranhar
de casa a gente sai mas não volta
porque nem a sua sombra poderá com você se encontrar
de casa a gente sai mas não volta
porque a bruxa não desgruda e as casas mudam de lugar
de casa a gente sai mas não volta
porque gastamos nossas asas e findamos por enferrujar
de casa a gente sai mas não volta

sonhei que eu voltava pra casa
de costas
mais morto do que vivo
ainda mais torto e sem juízo
de costas
mas voltava pra minha casa

a mãe morta (eu sei)
cuidará de mim perguntando
se parece comigo aquele que veio
pra embalar minha ausência no colo gasto
pra beijar saudades com seus lábios mortos

ninguém volta (o mesmo) pra casa
mas agora nem comigo mais eu me esbarro

vou desenterrar
a casa meu pai e a mãe
e assim nós três ficaremos
juntos pra sempre outra vez

§

#6 Melhor assim

O ciclo que é tudo (e, de novo, e obviamente, o afastamento dele das coisas).

aqui em longs peak ou no meio do mato
curto integralmente este meu anonimato

* * *

Fernanda Magalhães Ferrari é produtora e diretora na Catatau Filmes, formada em Produção Audiovisual pelo Instituto Federal do Paraná. É fotógrafa e se dedica ao cinema.

Gregório Camilo é roteirista, diretor, montador e poeta. Diretor e produtor da Catatau Filmes. Atualmente mora em Curitiba.

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