poesia

Tatiana Pequeno (1979-)

Tatiana Pequeno

Tatiana Pequeno nasceu em 1979, no Rio de Janeiro. Tem dois livros publicados: réplica das urtigas (2009) e Aceno (2014), ambos pela Oficina Raquel. Trabalha como professora de literatura na Universidade Federal Fluminense, onde coordena grupo de pesquisa sobre a relação entre corpo, gênero, sexualidades e as literaturas de língua portuguesa.

* * *

BREVE ENSAIO CONTRA A MINHA INDIFERENÇA À CRACOLÂNDIA DO JACARÉ
avanço protegida por uma película
de vidro — esta janela — por onde
filtro cegada pelo sol o bebê caído
de uma teta mirrada de mãe verde
entrando pelo coletivo e assumindo
seu desejo de transbordar tudo o
que for falta. queria escutá-la mas
havia uma transparência imanente
eu a trouxe para cá, todavia
queria que ela falasse no meu poema
ela pede centavos para não morrer
e diz a cerveja poderia me ajudar a parar
a cerveja no entanto é muito lenta
abro a bolsa constrangida porque
aqui sou eu que tenho pele demais
aqui sei que estou retornando à casa
aqui gaguejo e murmuro ainda constrangida
pela visão do bebê absorto pendurado
no semelhante peito caído
posso te fazer algo a mais e
ela diz me dá dinheiro e depois me esqueça
muitos dizem sentimos muito e é ver
dade que não há nada que possamos fazer
ressono de culpa, acordo, ela permanece atrás, sentada com
seu bebê atravessado pelo contágio
é uma criança hipotônica recém-saída
da faixa dos conflitos onde se espera a gratuidade dos extermínios
nunca vou esquecer o seu corpo tampouco sua voz de fantasmas e
ausências graves de fumo.
me esqueça — relembro — essa frase
que guardo há meses doendo os dedos
quando conto as moedas quando
retomo o mesmo caminho para os
sonhos ou para casa para a espinha
que fica a me botar de pé entre sorrisos,
salários ou cabelos novos.
vamos te esquecer certamente
eu vou tanto que te guardo aqui neste
poema para lembrar que não podemos
te esquecer porque nós te levamos
às pedras nós transformamos você
também em cinza eu finjo que não
a conheço quando prossigo depois
do sinal fechado e me esforço para
saber onde foi que nos separamos
e em que espelho empobrecido ficou
a tua verdadeira face que diz aqui
é o que me restou dos acidentes.
me esqueça, sei, compreendi mas
é que não posso é que não sei e é
exatamente o que faço todos os dias
não sei e não saber relembra o fim
desta civilização genocida
eles não sabem
os especialistas não sabem
estou e estamos sonâmbulos à nossa revelia.
olho-te inteira e queria que me olhasses
de volta para que tua criança ameaçasse um choro um
escândalo uma antipatia enquanto
tento te esquecer através da minha
poesia já que te dei um nome secreto
e gravito entre o teu silêncio e a minha falta de economia neste longo
poema solitário
perdoa-nos a pele, perdoa a indiferença dos poetas,
as notas nos bolsos,

 
fica.

 

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