poesia

1 poema de Victor Queiroz

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ARTE POÉTICA
a André Nogueira e Tomaz Amorim

Sempre almejei ao Português polido:
a língua lisa e pura e sem defeito.
Mas por poli-la – e tanto — eis o seu brilho
fez-se afilada lâmina-conceito.

E se hoje o meu país clama por armas,
armo, em vez, o verso e a voz; vou à guerra,
porém não verto sangues, verso as almas,
parto-as ao meio e enfrento a faca-cega,

o aço prosaico, que perfura as peles;
e o chumbo grosso, que desfaz miolos;
e o vil veneno, a víbora do reles,
a penetrar seu ódio em nossos olhos.

E eu digo “eu armo”, sim. Pois eu bem sei
que eles dirão — “mas ele andava armado
também!” –, dirão — “ele agrediu primeiro:
com seus silêncios, sonhos, seus calçados,

seus cabelos, seus beijos destrancados;
ele olhou torto e tem os olhos belos;
ele andou torto e tem os pés inchados…”
Por isso eu armo, eu armo, eu armo o verso.

E se um verso de amor acaso escorre?
Amar armado e amada sempre em armas:
sem defender o amor, ele hoje morre.
E se uma dor-de-mim acaso escapa?

Armar a própria dor, mas contra a Dor,
a Qual os mins em nós de dor sufoca.
E se esta arma não tiver valor?
Não tem. Dinheiro algum a compra, é força,

alento, um hálito de vida, unguento
com o qual se banhar antes da luta,
um bálsamo que cura o desalento
após a luta, um seio a quem se enluta.

E inda, cirúrgica, perfura fundo
o peito dos que bebam o veneno
e encham de ódio os olhos; pois, no mundo,
o mor valor se passa por pequeno:

armar, armar, armar, armar o verso;
fazer da língua a lâmina afilada;
pois esta língua, a Poesia, é certo,
é a língua que a víbora não fala.

São Paulo, 11/06/2019

*

Victor Queiroz (Campinas/ SP, 1991), formado em Composição pela UNESP, onde travou contato com a teoria e prática da tradução-arte, por meio do professor e amigo Omar Khouri. Desde então, dedica-se, enquanto poeta, sobretudo à prática da tradução, contribuindo com a Ponto Virgulina. Entre os seus principais interesses poéticos, encontram-se os Modernismos, dentro e fora do Brasil, e as poesias francesas clássica e pré-Simbolista; e ainda o Concretismo em toda a sua extensão: da poesia visual aos tratados teórico-críticos e (belíssimas) traduções desenvolvidas pelos Noigandres. Lança este ano seu livro de estreia, pela editora Urutau.

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