poesia

Ana Luiza Rigueto (1991—)

Ana Luiza Rigueto nasceu em Mimoso do Sul, ES, em 1991 e vive no Rio de Janeiro. Formada em Jornalismo pela UFRJ, estudou Literatura Brasileira na pós-graduação da UERJ. Teve poemas publicados na antologiaTertúlia (Ágrafa, 2018), na Subversa e na Ruído Manifesto. Realizou o videopoema “não me fale do fim” (2017), disponível no YouTube, e edita com amigos a Revista Transversal. Os poemas aqui postados estarão em seu primeiro livro, Entrega em domicílio, que sairá pela Editora Urutau este ano.

* * *

namorinho de portão

quando o tendão do pescoço
estica
e o queixo se ergue
junto
dos olhos eu gosto
desse frisson
que causo
em certos rapazes
na rua
quando passo
ou nas moças
que beijo
em casa ou sentadinha no banco
da praça

§

mímica no aterro do flamengo

no aterro o ônibus leva
a noite enquanto a pele sua o
verão todo mundo tarda
na rua querendo voltar
até nós
que fingíamos querer
agora parecíamos de fato
porque fazia verão, imprevisto
e cansaço

os passageiros
o motorista
suspensos pelo vapor do asfalto
silenciavam cafés sem açúcar
sabão sem espuma sal
não iodado a essa altura
não sabiam se era bom
você encostar os cabelos
presos
no magro do meu braço
se era justo esse sol
úmido
nos seus olhos não supunham
o sal umedecendo fronhas
embaraçando ralos,

então já cansada de tanto
segurar o movimento dos
raios batendo nas primeiras
folhas quando se levantam crianças
sem o medo do escuro ou gente
que já não pode dormir
por pensar em alguém com saudade
você
deixou que caísse a cabeça,

então já cansada de pensar
em como conter a franja
das samambaias o frizz das ondas você
deixou que caíssem os passageiros
estatelados no aço
porque era tarde e tarde o céu
descansa os bichos e tudo
são almofadas,

então já cansada
do ócio quente da noite que não se alegra
e conspira e sua e espera a hora da cama
você descasca o sono como paredes de
cálcio e deita cabelos no meu braço
anunciando
o início das férias
o aumento dos salários
o fim do desemprego
o preço justo do transporte
comunitário,

então
já cansada deixa cair
cabeça passageiros casca
preenche a distância pra dizer
o amor é isso e também
passa

§

verão (haikai II)

pensar em sorvete
de baunilha é tipo querer
derreter Larissa

§

sol nas praças

era difícil
uma época
as prateleiras do supermercado cheias lá
em casa escuro
fazia sol na praça fazia água o
chafariz em chamas eu
debaixo da cama

pedindo luz, mãe
um pouco de luz eu não peço tanto

um feixe me basta
um feixe e um botão
um feixe e bastões elétricos
pr’eu poder apertar
levar um choque pequeno
não chorar
apertar de novo e

agora eu choro um pouco porque
dói
mas eu não ligo porque
o gosto que esse feixe dourado deixa
nas unhas parece açúcar
tostado

eu gosto de caramelo, mãe
e tenho mania de olhos abertos
desde o primeiro foi assim

eu vendo tudo e mesmo assim
eu continuo a acreditar nas chamas
do chafariz das praças
sob o sol os cabelos são mais
bonitos eu gosto da projeção
dos nervos embaixo da cama

aos 7 anos eu não sabia se era mais
justo riscar suas paredes a lápis colorido
(me lembro, Gustavo, do seu cabelo
tigela e sua pele bronzeada)
ou ver a cor de sua pele
embaixo da blusa passada
por lanternas no escuro
embaixo da cama

§

um pula-pula com você

só sei que
aluguei esse pula-pula
pra nós duas
de uma feita foi
isso librianos gostam
de agradar o crush

então você me disse eu gosto
de pula-pula
vi aí uma chance
te chamar pra pular
comigo

nós duas sem fazer
registro
ninguém precisa saber
pulamos muito e rimos
sem gerar conteúdo caindo
sempre como se fosse a
última
rodada o último choque
sabendo que
não é amor

culpa da cartomante antecipando tudo
não é
mas a gente gosta
do artifício protelar a hora do
corpo matar uma garrafa de vinho
coisas assadas no forno
de noite dividir cama
fazer carinho a gente gosta do vício
muito bonita eu só quero olhar você muito

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