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Entrevista com Daniel Francoy

keanu

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SM – Daniel, o que é poesia, para você?

DF – O meu conceito de poesia acaba se confundindo com o modo como a poesia surgiu para mim, quando eu tinha em torno de 17 anos, e procurava um modo de me expressar – de dar vazão à leitura que fazia da realidade e ao modo como essa realidade reverberava em mim. Penso que é um anseio comum a quase todo adolescente. E eu fui tentando às cegas. Cinema e música são interesses que sempre tive, e que são anteriores ao meu envolvimento com a poesia. Via muitos filmes, ouvia muitas músicas, e ficava alimentando este sonho meio besta de me ter uma grande banda ou de me tornar um cineasta. Quando lia, era invariavelmente em prosa. A poesia surgiu quando tudo isso começou a desmoronar, a tornar-se impossível. Percebi que nunca seria o cineasta ou o músico que pretendia ser. Mas essa consciência gerou um efeito rebote: um desejo ainda maior de expressão. E o que podia fazer além de escrever? Tentei a prosa, mas não conseguia o distanciamento certo, tudo soava muito autobiográfico, muito confessional. E aos poucos, como que seguindo um instinto que não sei nomear, fui migrando para a poesia, e senti que ali estava a minha expressão. Senti que ali eu conseguia falar de mim e da realidade de uma maneira contundente, mas velada, através de imagens, símbolos, aproximações. E segui esse caminho. Em pouco tempo, deixei de ser um leitor de prosa para me tornar um leitor de poesia, e tudo o que escrevia era em versos. Começou assim. Ainda é assim hoje, a maior parte do tempo. E o meu conceito de poesia não mudou muito, pois, de certo modo, o que me trouxe até a poesia não mudou: o desejo de expressão, de pensar a realidade, de estabelecer reflexões sobre o que vejo, penso, sinto – e tudo isso tenho feito com os instrumentos mais comuns à poesia: o ritmo, a sonoridade, a busca de um sentido através de construção de imagens etc.

SM – É curioso você comentar que seu contato com a poesia surgiu de uma necessidade de pensar a realidade. Pelos seus poemas, pelo seu autoassumido cargo de suburbano e pelo modo como você costuma descrever, poeticamente, em suas redes sociais, algumas de suas tarefas diárias como tirar o lixo, por exemplo, eu fico pensando: como você pensa a sua realidade hoje? E que realidade é essa?

DF -Eu penso a realidade enquanto limite, e é em face desse limite que escrevo e existo.

A questão é que não existe um único limite, então, repensando a resposta, eu diria que penso a realidade enquanto a conjugação entre a consciência e uma multiplicidade de limites em constante intercâmbio.

Penso agora na vibração de uma corda esticada até a tensão máxima: a corda vai vibrar com tamanha velocidade que vai parecer estar em diversos lugares ao mesmo tempo. É mais ou menos assim que penso a realidade e o lugar que ocupo nela. A corda distendida sou eu, a minha consciência, o meu estar no mundo. A realidade, vamos dizer assim, é aquilo que faz a corda vibrar. E os meus limites são os diversos lugares que a corda vibrando parece ocupar ao mesmo tempo. Não sei se isso faz muito sentido. Mas aqui estou, todos os dias, com a minha consciência, tensionado, alternando entre diversos limites. Em termos políticos, o limite que não consigo transpor, e ao qual reajo, é o que acontece no Brasil e mundo afora, e que me conduz a um estado de contínuo espanto. Na vida doméstica, o limite é a casa, a sua falsa proteção, a minha impotência perante a proliferação das ervas daninhas nos jardins, a minha insônia diante de uma rachadura que cresce na parede, e também o colapso da cidade, o embate contra as contingências cotidianas, que me obrigam a sucessivos exercícios de mesquinhez e covardia. Diante do tempo, o limite é a sua passagem cada vez mais acelerada, e por aí vai. É assim que a realidade se apresenta perante mim. Quando escrevo, algumas vezes a minha literatura é pura reação, e a reação pode ser mais crispada, ou reflexiva, depende muito do tema. E muitas vezes, principalmente em anotações em redes sociais e também nos apontamentos de A Invenção dos Subúrbios, eu faço a escolha estética de focar aquilo que mais parece mais banal, para os arranjos mais precários da vida íntima e da vida na cidade. Eu não acredito muito em transcendência. Eu realmente acredito que sou uma corda esticada até uma tensão quase insuportável, da qual nunca conseguirei escapar. A corda irá se romper um dia, é claro, e então não estarei mais aqui. Estar vivo é estar tensionado.

SM – Qual é a coisa mais importante do mundo? Qual é a coisa mais importante para a pessoa enquanto indivíduo?

DF – A resposta que vou dar leva em conta a minha experiência pessoal. Então o que estou respondendo, na verdade, é uma pergunta um pouquinho diferente: o que mais é importante para mim enquanto indivíduo? E é o estar inteiro, e sentir que não cometo traições contra mim ou contra o outro. Estar inteiro no mudo com o meu corpo e com o meu pensamento; e não trair o meu corpo, não trair o meu pensamento, e não trair o corpo e o pensamento do outro. Esta é a liberdade em que acredito, penso, é nesta liberdade que habitam a literatura e os afetos. Se esta liberdade é, efetivamente, a coisa mais importante do mundo ou o mais importante do mundo para outras pessoas enquanto indivíduos, não posso dizer, mas é a resposta que me vem à cabeça agora, falando de mim, que é de quem posso falar.

SM – E o que é o amor?

DF – Esta é mais uma pergunta bem difícil. A verdade é que não costumo pensar muito no amor enquanto ideia, pois não acredito que ele se manifeste de maneira tão pura e nítida no dia a dia. É mais como um borrão, um sentimento difuso. Algo que transportamos todos os dias, junto com as obrigações mais mundanas. Enquanto lavamos a louça, colocamos o lixo para fora, esperamos na sala de espera do dentista, pagamos uma conta, entramos no cheque especial etc. – enquanto tudo isso acontece, o amor está junto com a gente: como algo que nos oferecemos para dar ou falhamos em dar, como algo que esperamos receber ou falhamos em receber ou simplesmente como algo que não recebemos, tudo de maneira extremamente precária. E não falo apenas do amor romântico, mas de todo e qualquer amor: o amor por um trabalho, por uma arte, por um país, por nós mesmos. Então, se o amor está presente o tempo todo, ele está o tempo todo sujo pela matéria do dia: nos oferecendo algo com uma redenção que nunca vem porque nunca é pura, porque está sempre contaminada. Uma rosa quebra o asfalto na mesma medida que é quebrada por ele. É claro que há momentos em que o amor é mais nítido, em que ressoa como um sino, seja de dor ou de alegria. Eu penso que isso acontece naqueles momentos em que a nossa orfandade é revelada ou apaziguada.

SM – O seu livro A invenção dos subúrbios está “o tempo todo sujo pela matéria do dia” e me parece muito similar ao Livro do desassossego de Bernardo Soares, funcionando como uma espécie de meditação poética sobre os afazeres diários. Suas respostas aqui, além disso, têm me lembrado algo de um Drummond bem cotidiano, que trata de uma miudezas, como andar de avião, de um modo muito longe do banal. Dito isto, me interessa saber quais são suas influências poéticas, tanto da tradição quanto dos seus pares contemporâneos.

DF – Nos meus anos de formação, entre os 20 e 25 anos, eu era obcecado pelo Faulkner. E há um detalhe de sua obra, algo que ele conseguiu fazer, que está por trás de muito do que escrevo: é a transformação de um lugar real (no caso o Mississippi, com as suas questões raciais, com a sua violência e loucura inatas, com a sua geografia, com o seu passado de desintegração) num lugar fictício, e, por lugar fictício, quero dizer um lugar onde a literatura acontece. Ele chegou a inventar um território dentro do Mississipi real onde se passam diversos dos seus livros. As minhas questões são outras, naturalmente, mas a preocupação é a mesma: como transformar Ribeirão Preto – esta cidade árida, quente, habitada por uma classe média violenta, em que tudo é limite, onde nasci e fui criado, de onde nunca conseguir escapar –, como transformar esta cidade em literatura? Como escrever aqui? A relação com o lugar é muito importante para mim, sempre foi, e ainda ocupa uma posição de destaque no que escrevo. Em A Invenção dos Subúrbios estou tentando inventar a minha Ribeirão Preto literária, e ela passa por mapear os meus gestos, a minha rotina, e também a rotina da cidade. É como se eu estivesse tentando responder: o que é estar aqui, nesse lugar, e o que é escrever aqui?

No tocante à forma do que escrevo, ao modo como escrevo, as influências são inumeráveis, e talvez seja justo dizer que tudo é influência. Tenho alguns autores favoritos, mas que são uma influência difusa, subterrânea. É o caso, por exemplo, do cummings. A beleza dos seus poemas me tira o fôlego, mas até que ponto cummings é visível no que escrevo? Acho que muito pouco. E há autores que mudaram o meu jeito de escrever. Eliot é um deles. Eu o li muito jovem, com 19 anos, entendia metade do que ele escrevia, talvez menos, mas o modo como ele desenvolvia o seu pensamento através de imagens é algo que absorvi imediatamente. Depois veio o Kaváfis, eu tinha vinte e um anos, e que me apresentou a limpidez em poesia – o verso claro, justo, limpo, o poema breve. Mais ou menos nessa idade, comecei a ler Manuel Bandeira com mais atenção, e nele descobri algo que já existia em mim, mas que não conseguia expressar: o elogio do mínimo, a ternura pelo precário, a compaixão pelo que é tão pequeno que se torna invisível; um porquinho da índia, um vendedor ambulante, um balão que cai, uma aranha que tece a sua teia, e sobre tudo a consciência de que a glória do mundo é pálida, que se comunica com a nossa melancolia e provoca algo como um sorriso triste. Depois, Drummond, que me apresenta um sentimento absolutamente contemporâneo, limítrofe entre o espanto e a raiva, entre o desejo de aniquilamento e o estar trespassado de amor, entre o transporte de um medo surdo e a incontornável necessidade de prosseguir junto aos homens da praça, entre a consciência do tempo presente e os mortos que continuam sentados junto à mesa da sala de jantar.

Quanto aos contemporâneos, aos meus pares, confesso que fui forjado no cânone. Em parte porque, durante muito tempo, li sozinho e escrevi sozinho, sem o intercâmbio que hoje ocorre, antes das redes sociais, de sites como escamandro, de pequenas editoras. É algo novo para mim, a consciência de integrar algo maior, tendo como companhias um grupo muito heterogêneo de poetas e integrando algo que beira a cacofonia. É algo que tem atravessado o que escrevo, mas de maneira ainda oblíqua, indireta. Dos autores contemporâneos, fico com receio de citar nomes e esquecer alguém. Agora me vem à memória o Guilherme Gontijo, o Fabiano Calixto, a Ana Martins Marques, a Mônica de Aquino, a Lívia Natália, o Tarso de Melo, o André Luiz Pinto, o Ricardo Aleixo.

SM – Bem, fica evidente que a relação da poesia com o real, com cotidiano é um ponto importante dentro da sua poética. Por isso. você vê alguma função ou tarefa a ser cumprida por quem se arrisca a escrever nestes tempos. Trocando em miúdos, qual é, pra você, a tarefa que recai sobre o poeta escrevendo hoje?

DF – Não acho que, hoje, a tarefa de um poeta seja diferente da que ele teve antes, em outro momento e contexto histórico. O que talvez mude seja o lugar que essa tarefa ocupe na ordem do dia. Enfim, eu penso que a tarefa do poeta é bem simples: é ser uma voz, e fazer tudo o que é inerente a uma voz: falar, refletir, expor, acusar, defender, resistir. E a voz que é o poeta precisa olhar para o que está fora e está dentro, para aquilo que é rejeitado e massacrado, para o rei e para o carrasco, para o que está aqui e para o que está ausente, para o corpo e para aquilo que o atravessa, para o que é diáfano e para o que é impuro, para o que é mínimo e para o que transcende. Sei que é uma ideia ampla, um conceito vasto, mas é porque amplo e vasto é o trabalho de um poeta. Não é algo que se mensura tão facilmente, que se pesa como algo que está morto. É identificar o que está difuso no dia – com toda a sua sujeira, todo o seu horror, todo o seu desamparo, toda a sua raiva, toda a sua ternura etc – e dar uma voz a isso. E para isso o poeta preciso estar livre e vivo. É a sua tarefa, ou o que julgo ser a sua tarefa.

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