poesia

Um poema inédito de Thássio Ferreira

Thássio Ferreira (1982). Escritor radicado no Rio de Janeiro, autor dos livros de poemas (DES)NU(DO) (Ibis Libris, 2016) e Itinerários (Ed. UFPR, 2018). Colaborador, curador e editor-executivo da Revista Philos de Literatura. Participou da Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP) em 2017, como convidado da Liga Brasileira de Editoras, e em 2018 na Casa Philos. Publicou poemas e contos em revistas e antologias, como Revista Brasileira (nº 94), da Academia Brasileira de Letras, Gueto, Mallarmargens e Germina.

* * *

notícias do maranhão

(para Claudia Nessi Zonenschain)

os pés não bastam
para acordar a praia

e beiramos a mudez
do mar enquanto
não beira o dia

(vê a lua negra?
ela manda ter
calma. e seguir)

beira mar beira mar
os muitos braços
do rio bonzinho
(pele fina
de águas
cobrindo a carne
de areias —
o mundo é
o corpo do mundo)
vêm plantar sílabas
no ventre do sal

sem pressa:

as mãos de mãe
das águas doces
sabem a paciência
de muitos sóis
até que o mar
teça sua fala

(que não ouvirei:
a lua negra
manda ter calma
e seguir.)

quando a manhã
vem dar à praia
— essa náufraga
a nos salvar
a nós —
um homem
facão na mão
cumprimenta
nossos pés
— quando os homens
se cruzam
nos descaminhos
mesmo que se mirem
nos olhos
são os pés
que cumprimentam.

índio diz
essa época é
mais melhor para pescar
mas não sei que época
é essa de que fala.
calo. a sintaxe dele
é mais bonita.

é hora de ganhar
o branco
(que os pés
do céu
em seu azul

infindo

pisam tão leve
que não tingem
— nem uma gota
de suor.)

no meio do branco
um rio negro
— outro —
e pés fincados
— outros —
num outro
sal:

seu moacir
é jardineiro
diz, regando as couves
no cercado.
dona dete trata
das finanças
— não dá desconto —
a filha cozinha
para nossos pés
famintos
e os filhos jogam
sinuca enquanto
escutam funk
na caixa de som:

xerecão no chão
xerecão no chão

— as distâncias
são tão poucas
(já tem fliperama
em macau?
e macau é brasil?
já tem gerador everywhere
bye bye, maranhão.)

os pés descansam

depois da noite
caminham mais
dentro do branco
branco branco

até os britos

(as dunas e
o brilho das águas
que os ventos
plantaram
nesses lençóis
são todos meus:
não dão notícias.)

seu raimundo tem parabólica
(den’ de casa, camará, ê…)
e acha que não adianta
estudar e ser safado pra roubar
os outros.
fala de quando foi vigia
da petrobras — será que sabe
o que os canalhas têm
feito dela enquanto os vigias
supliciam ladrões de
galinheiros? que notícias
chegam cá donde
dou notícias?

o teto e as paredes
são palha
onde ele e dona joana
veem tevê (novela e jornal)
como peixe frito
e dormimos em rede

mas o banheiro (dos turistas)
— ele/he, ela/she —
é de telha e alvenaria
o chão azulejado
e tem sabonete líquido

além de coca-cola
guaraná e cerveja
de garrafa.

a chuva amanhece

o silêncio dura um dia
imenso/inteiro
e quand’outra chuva
traz a tarde
sento-me à mesa
— café quente
pés descalços —
e olho na mesma
direção que a menina
pingando tempo
nós duas caladas.

o painel solar
seu raimundo ganhou
do luz para todos
— ele conta na prosa
d’antes da janta —
mas não funciona:
as baterias caras
será que eu não entendo
um jeito mais barato?
mas não
eu entendo pouco
seu raimundo
quase menos.

dona joana também
anda desentendendo
o caju que vem cedo
este ano
mas dá explicação:
quando o homem
quer saber mais
que Deus, Ele
muda os tempos.

ganhamos as águas
antes de sangrar
novo silêncio
rumo betânia

aqui até
as flores são
brancas e são
água: equilibradas
(aquáticas) em
longas hastes
feito miniaturas
vegetais das gaivotas
arengueiras: aguapé.

o silêncio é mais maior
no meio do meio
já não avisto o mar
mas lembro a lua:
os pés seguem.

betânia já tem linha
mas a escuridão espreita:
a duna empurra o rio
que alaga aos poucos
as casas, os postes
a placa do icmbio
dando conta do que o povo
pode ou não
nesse chão que achamos
nosso, mas é deles.

daqui a santo
amaro é pouco
chão. o dia
bonitou.
quando chegar
dou notícias.

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