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Camila Assad (1988-)

Camila Assad (1)

Camila Assad nasceu em 1988, em Presidente Prudente (SP). É autora, além de Desterro, dos livros Cumulonimbus (Quintal Edições) e eu não consigo parar de morrer (Editora Urutau).

* * *

precisava escrever sobre flores
porque são metafóricas mas
eu não escrevo sobre a natureza,
apenas sobre o que é natural
como uma tarde de 36 horas
em que o frisbee nos salvou de
uma morte por tédio. causa mortis:
falta de tensão. não cairia bem
no teu obituário tracejado em pele
fina de carneiro. uma loja de lustres turcos
passa por mim. uma franquia de loja de calçados
passa pela avenida atlântida. o soluço interrompe
a risada.
……………………(ou vice-versa)

§

 

construo ruínas pra mostrar que já estive
aqui. mesmo nos dias de feira eu vinha
acampar nos seus quintais sem verde.
mesmo a pé eu vinha, exalando fogo
pelos buracos da narina, expelindo os
órgãos, como se não fossem úteis
assim como saber que o coração de um
peixe tem apenas duas cavidades, e o dos
…………………………………………………anfíbios, três

§

 

as fábricas do leste começam às cinco
a poluir o entorno. Dona Angelina espera
doze minutos pela abertura da padaria
principal. o local não permanece como
palco, mas como memória. eu construí
reinos para ela, e derrubamos como as
cartas de baralho da filha caçula da jornalista
que narra seu segundo divórcio. você tem direito
a três pedidos, a uma kitnet com ventilação
razoável e a um diamante negro vendido na
farmácia que felizmente burla as normas da
vigilância sanitária. seria possível lhe fazer feliz
24 horas por dia,
………………………….mas nem sempre desejável

§

 

tenho interrogado demais, dormido nua
com os seios quentes e firmes. parecem asas
de mariposas. elas não têm hábitos diurnos
e então voaríamos juntas. voaríamos com
tia Guida que foi ao bar e chamou a atendente
pelo nome correto, extraindo um manancial
de sua vagina. me sinto observada, então sorrio.
não sou de mostrar os dentes, não tiro retratos
pessoais. isso vale também para os dias de férias,
quando encaramos o litoral para esfarelar biscoito
……………………….com os dentes caninos da minha gata

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3 poemas de Alexandre Assine

65424715_2198478710442737_5972019482397245440_nAlexandre Assine (Curitiba, 1988) é formado em Letras na Universidade Federal do Paraná e atua como revisor de textos no serviço público. Mora no distrito de Barão Geraldo, em Campinas-SP.

* * *

manifesto [1]
é preciso renunciar ao poder
é preciso despir-se do poder
é preciso
……………….despir-se
e amar ainda que pouco
……………………mas nu
com a sinceridade visceral das veias
e o limiar de dor e deleite
……………….……………….da pele
……………….……………….……………….…………..pois nus somos
……………….……………….……………….…………..apenas …………...e terra
……………….……………….……………….…………..onde habitem sementes
……………….……………….……………….…………..e se derrame o céu

§

manifesto [2]

negar o poder
negar o poder
……………………até o limite:
as raízes úmidas na dor
o chumbo dos sonhos no sangue

até ser livre como adão
……………………………..num jardim possível
ervas esparsas ……flores miúdas
entre areais e cinzas

§

Propriedade
temos o tamanho de nosso ossos
e a carne em combustão
de esclerose
……………………e sonho

temos as cores da aurora
nos olhos refletidas
no romper de uma manhã
…………………………………………alguma
e outras cores, também findas
das mesmas manhãs finitas
em estilhaços de memória

e temos armas de palavras
a armadura dos conceitos
na luta de todos
……………………e sozinha
contra o vazio
……………………….e o silêncio

temos a forma da busca
e do que a busca em si encerra
o encaixe de um corpo
………………………………..no outro
o encaixe de um corpo na terra

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3 poemas (e um posfácio) de Mônica de Aquino

Mônica de Aquino (1979, Belo Horizonte) publicou Sístole em 2005 pela editora Bem-Te-vi. Seu segundo livro de poemas, Fundo falso, (Relicário Edições, 2018), em versão reduzida, venceu o Prêmio Cidade de Belo Horizonte de 2013. Publicou 5 livros infantis, todos pela editora Miguilim: Fio da memória, Muitos jeitos de contar uma história, Gato Escaldado, Cabra Cega e Um coelho de cartola. Participou de antologias como Roteiro da poesia brasileira 2000 (ed. Global) e A extração dos dias (Escamandro). Prepara, atualmente, seu próximo volume de poemas, Mofo em floração, série de textos em que dialoga com o trabalho de outros poetas e artistas plásticos.

* * *

Nove meses você me espera
nove meses fabrica:
esvaziar os desejos, até que sobre
só a matéria
líquida
início sem forma:
nasceremos juntas

trinta e nove anos demoro para me formar
você espera, preciso de mais nove meses
para perder

desfazer o contorno, as conquistas
descer, descer, descer
às primeiras batidas
até a noite das formas
e misturar-me a você
estou no útero, minúscula
ganhando pele, músculo,
aqui no fundo do corpo
escondida do mundo, fundo, fundo
você espera
que eu me forme mais uma vez
exige:
nove meses de testes diários
renascida
de que líquido primordial, fechada
na primeira casa
saltar uma casa, está bloqueada a aposta:

você insiste, adere ao núcleo
mais seis meses, venha, você chama
desça, volte, depois nasceremos
da mesma placenta do mundo
voltar ao primeiro movimento
não saberia nascer sozinha, insinua
desça, desça até aqui, pequena, concentrada
e voltamos:
o caminho é queda, depois espiral
proteger-me da queda, mas só a espera é proteção

não tenho tempo, penso na descida,
você afirma a vida, o tempo é novo, outro alimento
não tenho tempo para nascer, explico
você ignora, espera:
ainda há seis meses para desfazer o medo
você se aproxima, acolhe
sou filha, filha, o corpo cresce, indiferente:
descer, voltar, cair, crescer, crescer, crescer
todos os movimentos são você.

§

Meu desejo era metade da trama
ainda imperceptível sob a pele.
A chegada do amor inventou um contorno:
a soma das tessituras
dos corpos antes estranhos
costura o desenho de um filho.
Primeiro, em conversas excessivas.
Depois, sonhando o seu silêncio.

Filho pensado ainda antes do entendimento
do amor, forma em lenta expansão.
Filho-pensamento, filho-princípio, filho-novelo.
E nós dois (a família que inventamos)
filhos deste novelo que agora somos
que nunca terminará de se desfiar.

Sim, minha filha, você não era abstrata
seu pai era a linha, a criar comigo
a ficção do que seria.

Porque ao lado dele ganho o mapa:
pegadas de um novo passado
direção através do labirinto
– o formato (o caminho) da escolha –

céu que se repovoa
neste mapa (ir)refletido::
as Parcas observam, sorriem,
enquanto ele toca o mapa da minha pele
(e de um céu de palavras)

e tenho certeza, outras estrelas
nascem – estrela-pensamento, estrela-princípio,
estrela-novelo.

E você, filha, é estranha que vem somar
seu desejo à trama que agora nomeia.

[a partir da leitura do ensaio Antevéspera, noite interior,
de Gustavo Silveira Ribeiro]

§

O leite tem a constituição do sangue.
Sangue branco, nomeia o médico
e imagino a cor-aurora, os seios como sóis.
Na boca do bebê, reinventa o circuito:
mãe e filho são de novo um corpo.
Mas você é pequena demais para o esforço
fios te alimentam em outro útero.
Meu corpo ignora a inutilidade do fluxo
alimenta o lençol, o vestido
que voltam à matéria orgânica, úmidos

           sou o húmus da casa
            sou a medida do desperdício
            sou o adocicado da perda que ainda é promessa.

Escolho um vestido florido, roupa de cama com flores
o leite vaza, escorre, inaugura jardins.
Aprendo a colher o leite com as mãos
para ofertar a você, menina, este lírio branco
de alvéolos antigos, macerados na espera.

Ainda não sei o que é fome, o que é corte e o que é calma
nesta manhã excessiva, prolongada
que continua sendo a sua chegada
(sangue branco, poderia ser desta vida que nasce
O nome).

§

Posfácio

[O que havia antes, o que fica depois]

Da sala de espera do obstetra, ouço um coração de bebê. O mesmo som ao mesmo tempo seco e ondulante que ouvi tantas vezes: há poucos meses era eu ali na sala – e na clínica de ultrassom – ouvindo o coração da minha filha que agora bate mais tranquilo, separado de mim.

Volta-me a emoção de cada escuta, todas entrelaçadas, desde a primeira: sabíamos da gravidez há cerca de duas semanas quando tive um pequeno incidente, que nos levou ao hospital. No ultrassom, a Manuela – ainda sem nome, sexo, forma – não passava de uma pequena mancha que o médico apontava. As batidas do coração, entretanto, já estavam ali, o som parecendo inventar a matéria. Seu coração batia 170 vezes por minuto – mais ou menos o dobro da velocidade de um coração adulto. Comecei a ter contato com dados médicos: em meu corpo circularia cerca de 50% a mais de sangue durante a gravidez, por isso tanto cansaço; daria conta de duas vidas, ambas em formação – porque eu também estava sendo (re)tecida na gestação.

Foi impelida por este ritmo – da pulsação, da máquina que procura sinais vitais – que comecei a produzir esta série de poemas. A ideia era escrever sobre a experiência da gravidez a partir das mudanças do meu corpo, tantas vezes violentas, na constituição de uma vida. O último trimestre da gravidez adicionou violência, corpo e máquina ao processo: descobrimos uma pré-eclâmpsia grave, que levaria ao parto prematuro. O acompanhamento meticuloso da equipe médica e uma série de remédios e injeções, além do repouso, reduziram as consequências da doença ao baixo peso da nossa bebê, que nasceu com 1115kg e precisou viver no hospital por um mês, afastada a maior parte do tempo de nós, mas sem nenhum problema de saúde. Até o parto, entretanto, entramos em um período de constante apreensão e espera e cuidado, com ultrassons quase diários, medições do fluxo sanguíneo, do tamanho, do líquido amniótico. A experiência dos exames perdeu seu caráter lúdico para ganhar uma dimensão crua e de urgência que me deixou em silêncio. O final da gravidez e o parto, portanto, só viraram palavras depois de um tempo, já atravessadas pela existência plena da Manu, que agora dorme do meu lado, enquanto escrevo.

Mesmo assim, parece que cada verso foi escrito comigo ainda grávida e recém-parida, com as duas vivências simultâneas, como se a gravidez se prolongasse no tempo para além do nascimento. Ainda volto, aos poucos, para o estado anterior do corpo, não grávido, vazio. Sinto falta da barriga, mesmo com todas as dificuldades que a gestação me trouxe. Sinto falta de ouvir um outro coração batendo, como um pequeno motor que tocasse em engrenagens desconhecidas em mim até então – e que ainda estão em movimento.

O título “Continuar a nascer” foi retirado de um poema de Ricardo Aleixo. Eu não poderia dizer melhor o que sinto – ou pressinto – agora, um nascimento que se prolonga na maternidade, na vida em família, e que atravessa o tempo – passado, futuro -, e que me atravessa em tudo o que ainda não sei nomear. E que resta como ruído, seco, ondulante, violento, inaugural, contínuo.

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1 poema de Victor Queiroz

Autor - Foto.jpg

ARTE POÉTICA
a André Nogueira e Tomaz Amorim

Sempre almejei ao Português polido:
a língua lisa e pura e sem defeito.
Mas por poli-la – e tanto — eis o seu brilho
fez-se afilada lâmina-conceito.

E se hoje o meu país clama por armas,
armo, em vez, o verso e a voz; vou à guerra,
porém não verto sangues, verso as almas,
parto-as ao meio e enfrento a faca-cega,

o aço prosaico, que perfura as peles;
e o chumbo grosso, que desfaz miolos;
e o vil veneno, a víbora do reles,
a penetrar seu ódio em nossos olhos.

E eu digo “eu armo”, sim. Pois eu bem sei
que eles dirão — “mas ele andava armado
também!” –, dirão — “ele agrediu primeiro:
com seus silêncios, sonhos, seus calçados,

seus cabelos, seus beijos destrancados;
ele olhou torto e tem os olhos belos;
ele andou torto e tem os pés inchados…”
Por isso eu armo, eu armo, eu armo o verso.

E se um verso de amor acaso escorre?
Amar armado e amada sempre em armas:
sem defender o amor, ele hoje morre.
E se uma dor-de-mim acaso escapa?

Armar a própria dor, mas contra a Dor,
a Qual os mins em nós de dor sufoca.
E se esta arma não tiver valor?
Não tem. Dinheiro algum a compra, é força,

alento, um hálito de vida, unguento
com o qual se banhar antes da luta,
um bálsamo que cura o desalento
após a luta, um seio a quem se enluta.

E inda, cirúrgica, perfura fundo
o peito dos que bebam o veneno
e encham de ódio os olhos; pois, no mundo,
o mor valor se passa por pequeno:

armar, armar, armar, armar o verso;
fazer da língua a lâmina afilada;
pois esta língua, a Poesia, é certo,
é a língua que a víbora não fala.

São Paulo, 11/06/2019

*

Victor Queiroz (Campinas/ SP, 1991), formado em Composição pela UNESP, onde travou contato com a teoria e prática da tradução-arte, por meio do professor e amigo Omar Khouri. Desde então, dedica-se, enquanto poeta, sobretudo à prática da tradução, contribuindo com a Ponto Virgulina. Entre os seus principais interesses poéticos, encontram-se os Modernismos, dentro e fora do Brasil, e as poesias francesas clássica e pré-Simbolista; e ainda o Concretismo em toda a sua extensão: da poesia visual aos tratados teórico-críticos e (belíssimas) traduções desenvolvidas pelos Noigandres. Lança este ano seu livro de estreia, pela editora Urutau.

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Tatiana Pequeno (1979-)

Tatiana Pequeno

Tatiana Pequeno nasceu em 1979, no Rio de Janeiro. Tem dois livros publicados: réplica das urtigas (2009) e Aceno (2014), ambos pela Oficina Raquel. Trabalha como professora de literatura na Universidade Federal Fluminense, onde coordena grupo de pesquisa sobre a relação entre corpo, gênero, sexualidades e as literaturas de língua portuguesa.

* * *

BREVE ENSAIO CONTRA A MINHA INDIFERENÇA À CRACOLÂNDIA DO JACARÉ
avanço protegida por uma película
de vidro — esta janela — por onde
filtro cegada pelo sol o bebê caído
de uma teta mirrada de mãe verde
entrando pelo coletivo e assumindo
seu desejo de transbordar tudo o
que for falta. queria escutá-la mas
havia uma transparência imanente
eu a trouxe para cá, todavia
queria que ela falasse no meu poema
ela pede centavos para não morrer
e diz a cerveja poderia me ajudar a parar
a cerveja no entanto é muito lenta
abro a bolsa constrangida porque
aqui sou eu que tenho pele demais
aqui sei que estou retornando à casa
aqui gaguejo e murmuro ainda constrangida
pela visão do bebê absorto pendurado
no semelhante peito caído
posso te fazer algo a mais e
ela diz me dá dinheiro e depois me esqueça
muitos dizem sentimos muito e é ver
dade que não há nada que possamos fazer
ressono de culpa, acordo, ela permanece atrás, sentada com
seu bebê atravessado pelo contágio
é uma criança hipotônica recém-saída
da faixa dos conflitos onde se espera a gratuidade dos extermínios
nunca vou esquecer o seu corpo tampouco sua voz de fantasmas e
ausências graves de fumo.
me esqueça — relembro — essa frase
que guardo há meses doendo os dedos
quando conto as moedas quando
retomo o mesmo caminho para os
sonhos ou para casa para a espinha
que fica a me botar de pé entre sorrisos,
salários ou cabelos novos.
vamos te esquecer certamente
eu vou tanto que te guardo aqui neste
poema para lembrar que não podemos
te esquecer porque nós te levamos
às pedras nós transformamos você
também em cinza eu finjo que não
a conheço quando prossigo depois
do sinal fechado e me esforço para
saber onde foi que nos separamos
e em que espelho empobrecido ficou
a tua verdadeira face que diz aqui
é o que me restou dos acidentes.
me esqueça, sei, compreendi mas
é que não posso é que não sei e é
exatamente o que faço todos os dias
não sei e não saber relembra o fim
desta civilização genocida
eles não sabem
os especialistas não sabem
estou e estamos sonâmbulos à nossa revelia.
olho-te inteira e queria que me olhasses
de volta para que tua criança ameaçasse um choro um
escândalo uma antipatia enquanto
tento te esquecer através da minha
poesia já que te dei um nome secreto
e gravito entre o teu silêncio e a minha falta de economia neste longo
poema solitário
perdoa-nos a pele, perdoa a indiferença dos poetas,
as notas nos bolsos,

 
fica.

 

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15 PEDAÇOS DE SOSSÉLLA [6/15], por Fernanda Magalhães Ferrari e Gregório Camilo

Sérgio Rubens Sossélla foi um poeta, crítico e magistrado nascido em Curitiba, em 1942. Certamente foi um dos poetas mais produtivos do Brasil, tendo mais de 300 publicações em vida, a maioria editada pelo próprio autor. Se aposentou em 1986 e logo em seguida construiu a Vila Rosa Maria, biblioteca com mais de 25 mil livros, onde se dedicou à poesia e literatura integralmente até o fim de sua vida, em 2003.

No dia 18 de novembro de 2018 completou 15 anos sem Sossélla. Fizemos o primeiro vídeo (Sim, ele passou por aqui) em homenagem a esse dia, e só depois resolvemos fazer uma série de 15 videopoemas, tentando dar uma visão geral da obra poética dele, com um olhar um pouco biográfico – que é praticamente indissociável de sua obra –, chamada 15 pedaços de Sossélla.

A produção desses vídeos tem sido baseada nas imagens que fizemos na Vila Rosa Maria (a maioria feita na pré-filmagem das cenas pro longa que estamos produzindo: Sossélla esteve aqui) e algumas outras que não têm ligação com o filme e vemos que poema flui melhor. A partir do sexto vídeo, que até agora é o último, as filmagens vão ser feitas já pensando no videopoema completo.

Por curiosidade: o ator de Meus mortos e Exercício nº 110, interpretando o próprio Sossélla, é seu filho, o Sérgio Augusto Sossélla.

* * *

#1 Sim, ele passou por aqui (1985)

Poema longo, pro Sossélla. É um dos que mais demonstram a sua relação íntima com a morte.

Sobre a reclusão, a solidão e a rotina, afastado e amargurado, consciente do que tava acontecendo e das consequências.

então o cowboy abruptamente envelheceu
(desde menino trazia os olhos de um cão chutado pelo destino)
nem mais com as crianças da rua ele brincava (como costumava)
e nas raras vezes em que surgiu (arqueado e tropeçando)
a mão vazia desenhava saques lentos para um alvo que não existia
monologando só passagens da sua infância
(¿saberia que por ser quem era sairia
miseravelmente derrotado pelas vitórias que fizera?)

assim rapidamente ele morreu
levando na garganta mugidos estrangulados
vermelhos e largos vergões na alma trincada
sinais de tiros e marcas de punhais no frágil corpo atormentado

morreu ele rapidamente assim
pedindo ao deus misericordioso jamais nascesse de novo
tão sozinho e abandonado que até a sua sombra não lhe acompanhava

sim
ele passou por aqui
(aldeia dos canibais)
alongando o quanto pode a amargura da permanência
além dos próprios limites suportáveis da existência
e foi embora para nunca mais

mas todas as noites
o seu fantasma alucinado
teima em repassar aí em frente
(naquele veloz corcel invisível)
deixando uma grossa nuvem de poeira e de remorso para nós

§

#2 Meus mortos (em Tatuagens de Nathannaël, 1981)

Ele vendo as coisas se esvanecendo sem poder (ou não querer) fazer nada. Os amigos morrendo, a família também, se isolando cada vez mais, o desinteresse crescente.

indefesos
não suporto olhar meus mortos

suas pupilas dilatadas anoitecendo visitas
para aquela horizontalidade de mãos postas

não suporto olhar meus mortos
indefesos

§

#3 O dia de amanhã (em Ao vencedor, as batalhas, 1987)

minha mãe me ensinou
o dia de amanhã
ninguém sabe
o dia de amanhã

§

#4 Exercício nº 110 (em Ao vencedor, as batalhas, 1987)

O Sossélla tinha uma personalidade fortíssima, muitas vezes incontestável. Quisemos retratar sua trajetória na magistratura e o que ele enfrentou em sua carreira, muitas vezes importunado. Juiz nas décadas de 70, 80 e 90 que usava rabo-de-cavalo e brinco. No fim, foi um alívio sair desse mundo.

inclinou-se para o lago
e perguntou

existe alguém
mais não-eu do que eu?

a voz
grudada no penhasco
(rouca e louca)
respondeu

eu
eu
eu

§

#5 Ninguém volta pra casa (1989)

Outro poema longo. A simbologia da casa, na psicanálise: o próprio eu.

Uma casa escura, antiga, vazia, úmida, talvez não muito agradável de estar. A vida correndo lá fora.

quando adoideço e me rôo
quando me congelo e derreto
é a minha casa que vejo se anoiteço

de casa a gente sai mas não volta
porque vai topar com a mãe morta de tanto chorar
de casa a gente sai mas não volta
porque ¿quem aguenta ver o pai velhinho a sangrar?
de casa a gente sai mas não volta
porque a memória de você-menino irá lhe estranhar
de casa a gente sai mas não volta
porque nem a sua sombra poderá com você se encontrar
de casa a gente sai mas não volta
porque a bruxa não desgruda e as casas mudam de lugar
de casa a gente sai mas não volta
porque gastamos nossas asas e findamos por enferrujar
de casa a gente sai mas não volta

sonhei que eu voltava pra casa
de costas
mais morto do que vivo
ainda mais torto e sem juízo
de costas
mas voltava pra minha casa

a mãe morta (eu sei)
cuidará de mim perguntando
se parece comigo aquele que veio
pra embalar minha ausência no colo gasto
pra beijar saudades com seus lábios mortos

ninguém volta (o mesmo) pra casa
mas agora nem comigo mais eu me esbarro

vou desenterrar
a casa meu pai e a mãe
e assim nós três ficaremos
juntos pra sempre outra vez

§

#6 Melhor assim

O ciclo que é tudo (e, de novo, e obviamente, o afastamento dele das coisas).

aqui em longs peak ou no meio do mato
curto integralmente este meu anonimato

* * *

Fernanda Magalhães Ferrari é produtora e diretora na Catatau Filmes, formada em Produção Audiovisual pelo Instituto Federal do Paraná. É fotógrafa e se dedica ao cinema.

Gregório Camilo é roteirista, diretor, montador e poeta. Diretor e produtor da Catatau Filmes. Atualmente mora em Curitiba.

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3 poemas de Cecília Floresta

foto_Cecília Floresta

Cecília Floresta afrodescende, é escritora, candomblezeira & sapatão. nasceu na capital paulista numa dessas manhãs de dezembro, fazia sol e o ano era 1988. ganha a vida editando livros, pesquisa narrativas e poéticas ancestrais iorubás e seus desdobramentos na diáspora negra contemporânea, lesbianidades e literaturas insurgentes. tem editados os poemas crus (Patuá, 2016) e a zine genealogia (móri zines, 2019). já apareceu na escamandro com outros 3 poemas. os poemas abaixo integram a  zine genealogia(série de 12 poemas + ilustras).

*

dona Rosa

eu sou a minha vó
mesmo aqui escrevendo
que dona Rosa em grande parte de sua vida
não sabia ler nem escrever como os outros
embora fosse dada a outras leituras

eu sou a minha vó
que calejou mão
trabalhando na roça
cansou de passar fome e sei lá mais o quê
ao lado do marido
largou o homem
e veio pra São Paulo
com três filhos nas costas

eu sou a dona Rosa
que sabia de cor todas as folhas do quintal
e da rua também
de onde tirávamos suas mudas
no caminho de volta da escola
quando ia me buscar às vezes

fazia remédios com elas
me bendizia
me curava
amarrava fita vermelha no meu pulso
enquanto ambos os dela
eram quebrados & doíam em dias frios
quando se ocupava em lavar a própria roupa
e também a dos outros

não sei em quantas casas trabalhou
antes de se aposentar
e passar as tardes costurando
me observando por cima dos óculos
e contando histórias de causos fantásticos
que aqui não têm lugar
porque nossos olhos & ouvidos
já não funcionam
com o trabalho caótico da cidade grande

dona Rosa me ensinou a fazer cuscuz e a consumir
ovos
peixe &
frango
no café da manhã
porque sempre diária árdua depois das seis
e tempo nenhum pra almoçar

§

 

leitoras

pós-trabalho embora
só quisesse mesmo era estender as costas
a mãe me ensinou a ler com um gibi
e tanto leu que eu decorei os balões de fala
antes que o livreto desistisse da capa
que parou não sei onde foi

também não sei até que ponto seria possível
este poema pra minha mãe:
se ela não tivesse lido tanto aquele gibi
onde é que eu estaria agora?

§

 

mãe cujos filhos são peixes

odoyá
fez de ondas salgadas meu orí
deu pernas fortes pra eu nadar
e ainda me abre os caminhos
por onde ando

diz que iabá nasce já
de orelha em pé nos feitiço
tecnologia ancestral que derrubou
& vai derrubar
muita mas muita casa grande

odoyá
me ensinou a ser peixe
e a respirar fundo
até dentro d’água

contou também que iabá
é ligeira no ato:
presta não atenção
pra ver no que dá

*

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