crítica

Poesia e revolução, por Sophia de Mello Breyner Andresen

Gostaríamos de agradecer a Leonardo Gandolfi, que escavou esta fala de 1975 de Sophia de Mello Breyner Andresen, e a Tarso de Melo que nos apresentou, além de dar as devidas graças a Claudia Abeling, que fez a gentileza imensa de transcrever todo o texto a partir da seguinte referência: In: Sophia de Mello Breyser Andresen. O nome das coisas. Lisboa: Moraes, 1977. 1ª ed.

Guilherme Gontijo Flores

* * *

Poesia e revolução

                  O amor positivo da vida busca a inteireza. Porque busca a inteireza do homem a poesia numa sociedade como aquela em que vivemos é necessariamente revolucionária — é o não-aceitar fundamental. A poesia nunca disse a ninguém que tivesse paciência.

                  O poema não explica implica. O poema não explica o rio ou a praia: diz-me que a minha vida está implicada no rio ou na praia. Como diz Pascoaes:

                                    Ah se não fosse a bruma da manhã

                                    E esta velhinha janela onde me vou

                                    Debruçar para ouvir a voz das coisas

                                    Eu não era o que sou

                  É a poesia que me implica, que me faz ser no estar e me faz estar no ser. É a poesia que torna inteiro o meu estar na terra. E porque é a mais funda implicação do homem no real, a poesia é necessariamente política e fundamento da política.

                  Pois a poesia busca o verdadeiro estar do homem na terra e não pode por isso alheiar-se dessa forma do estar na terra que a política é. Assim como busca a relação verdadeira do homem com a árvore ou com o rio, o poeta busca a relação verdadeira com os outros homens. Isto o obriga a buscar o que é justo, isto o implica naquela busca de justiça que a política é.

                  E porque busca a inteireza, a poesia é, por sua natureza, desalienação, princípio de desalienação, desalienação primordial. Liberdade primordial, justiça primordial. O poeta diz sempre:

                                    “Eu falo da primeira liberdade”

                  Dessa unidade fundamental da liberdade e da justiça o poeta formou o seu projeto oposto à divisão.

                  Se queremos ultrapassar a cultura burguesa — ou seja o uso burguês da cultura — é porque vemos nela o reino da divisão, o fracasso do projeto da inteireza. Sem dúvida grandes poetas nasceram e criaram dentro do mundo da cultura burguesa. Mas sempre viveram esse mundo como exílio e viuvez, como poetas malditos.

                  A arte da nossa época é uma arte fragmentária, como os pedaços de uma coisa que foi quebrada.

                  “Sou um espalhamento de cacos sobre um capacho por sacudir”, disse Fernando Pessoa que aqui, no extremo ocidente, percorreu até seus últimos confins os mapas da divisão e letra por letra os disse.

                  E caminhar para a frente é emergir da divisão. É rejeitar a cultura que divide, que nos separa de nós próprios, dos outros e da vida.

                  Sabemos que a vida não é uma coisa e a poesia outra. Sabemos que a política não é uma coisa e a poesia outra.

                  Procuramos o coincidir do estar e do ser. Procurar a inteireza do estar na terra é a busca de poesia.

                  Por isso rejeitamos o uso burguês da cultura que separa o cérebro da mão. Que separa o trabalhador intelectual do trabalhador manual. Que separa o homem de si próprio, dos outros e da vida.

                  E porque desalienar, conquistar a inteireza de cada homem é a finalidade radical de toda a política revolucionária, o projeto de uma política real é por sua natureza paralelo ao projeto da poesia. Mas olhando com atenção vemos que a tarefa específica da política é criar as condições em que a desalienação é possível. Em rigor, a política não cria a desalienação, mas sua possibilidade.

                  É a poesia que desaliena, que funda a desalienação, que estabelece a relação inteira do homem consigo próprio, com os outros, e com a vida, com o mundo e com as coisas. E onde não existir essa relação primordial limpa e justa, essa busca de uma relação limpa e justa, essa verdade das coisas, nunca a revolução será real.

                  Pois é a poesia que funda. Por isso Hölderlin disse: “Aquilo que permanece os poetas o fundam”.

                  E por isso a política não pode nunca programar a poesia.

                  Compete à poesia, que é por sua natureza liberdade e libertação inspirar e profetizar todos os caminhos da desalienação.

                  E quando a palavra da poesia não convier à política, é a política que deve ser corrigida. Por isso é da verdade e da essência da revolução que sempre a poesia possa criar livremente seu caminho.

                  E é muito importante que se compreenda claramente que a arte não é luxo nem adorno. A história mostra-nos que o homem paleolítico pintou as paredes das cavernas antes de sabe cozer o barro, antes de saber lavrar a terra. Pintou para viver. Porque não somos apenas animais acossados na luta pela sobrevivência.

                  E se a política deve desalienar a nossa vida política e a nossa vida econômica, é a poesia que desaliena nossa consciência.

                  Porque propõe ao homem a verdade e a inteireza do seu estar na terra toda a poesia é revolucionária.

                  Por isso a forma mais eficaz que o poeta tem de ajudar uma revolução é ser fiel à sua poesia. Escrever má poesia dizendo que se está a escrever para o povo, é apenas uma nova forma de explorar o povo.

                  Quem está realmente empenhado num país melhor e numa sociedade melhor, luta pela verdade da cultura. Aquele que é conivente da mediocridade é inimigo de uma sociedade melhor, mesmo que apregoe grandes princípios revolucionários. A revolução da qualidade é radicalmente necessária a uma revolução real.

                  Onde a poesia não estiver nada de real pode ser fundado.

                  Não é por acaso nem por uma particularidade do seu temperamento que Mao Tsé-Tung é poeta. Não é por acaso que Marx e Trotsky amaram a poesia. A poesia é primordial e anterior à política. Por isso nenhum político por mais puro que seja o seu projeto pode programar uma poética.

Mas nenhuma revolução será real se a poesia não lhe for fundamento e não permanecer sua irmã.

Mas da participação na revolução do escritor, cada escritor deve decidir por si. Cada um pode propor o seu caminho ou sua hipótese aos outros sem que ninguém seja obrigado a segui-lo. No entanto, há alguns princípios que me parecem objetivamente intrínsecos à condição do escritor. Esses princípios são:

— Lutar contra a demagogia que é a degradação da palavra. Como disse Malarmé “dar um sentido mais puro às palavras da tribu” é uma missão do poeta.

— Lutar contra os slogans. Um provérbio Burundi diz: “Uma palavra que está sempre na boca transforma-se em baba”.

— O escritor como todo homem consciente deve exercer uma ação crítica. E deve lutar por um ambiente em que a crítica seja possível. Assim, neste momento o escritor deve lutar por um ambiente são — isto é por um ambiente onde aquele que critica não seja acusado de reação ou de fascismo.

— Lutar contra a promoção do medíocre. Lutar desde já, imediatamente, por uma revolução de qualidade. E, porque queremos que a cultura seja posta em comum, lutar pela revolução da qualidade em todos os meios de comunicação social.

*

Na raiz da sociedade capitalista está o uso burguês da cultura que separa o homem de si próprio, dos outros e da vida, que divide os homens em trabalhadores intelectuais e trabalhadores manuais. Na raiz da sociedade capitalista está a cultura que divide.

Por isso, nenhum socialismo real poderá ser construído sem revolução cultural. Para que o socialismo seja real é preciso que a cultura seja posta em comum.

A revolução não é a fase final de um processo de revolução socialista, mas sim um dos seus fundamentos.

10 de maio de 1975

(Texto lido no I Congresso de Escritores Portugueses)


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poesia

Matheus Peleteiro (1995—)

Matheus Peleteiro (Salvador, 1995) é escritor, jurista e tradutor, publicou em 2015 o seu primeiro romance, Mundo Cão, pela editora Novo Século. Após, lançou a novela intitulada Notas de um Megalomaníaco Minimalista (editora Giostri, 2016); o livro de poemas Tudo Que Arde Em Minha Garganta Sem Voz (editora Penalux, 2016); o livro de contos Pro Inferno com Isso (Edição do Autor, 2017) e a distopia satírica O Ditador Honesto (Edição do Autor, 2018). Além disso, em 2018, assinou, ao lado do tradutor Edivaldo Ferreira, a tradução do livro A Alma Dança em Seu Berço (editora Penalux). Em, 2019 publica a coletânea poética, intitulada Nossos Corações Brincam de Telefone sem Fio.

* * *

BREVE E INFINITO

uma pintura recusada
dando origem ao primeiro nazista;
o medo de perder uma guerra
desenvolvendo a bomba atômica;
Henry Ford criando os primeiros robôs em 1914;
um massacre a mulheres e crianças eternizando Picasso;
uma mulher grávida sendo entregue para a morte
por um presidente que teme a derrota;
uma criança lendo um livro didático e perguntando
[“por que a história é tão injusta?”;
e você,
construindo um castelo de areia
na beira do mar
como se grãos fossem pedras,
se sentindo a rainha do próprio nariz e das marés
sabendo que basta uma simples onda
para que um império inteiro se
converta em ruínas,
mesmo assim,
a contemplar
o seu reinado
breve e infinito.

NOSSOS CORAÇÕES BRINCAM DE TELEFONE SEM FIO

a gente briga por atenção e outras coisas tolas,
explano paranoias que não consigo mais suportar,
você se irrita e se cala
e eu sempre fico sem saber o que fazer
para te roubar um sorriso novo.

a cada lágrima que cai de seus olhos
– quase compondo um oceano –
uma correnteza dentro de mim
me mostra que
quando um de nós chora
nossos corações voltam à infância
e brincam
de telefone sem fio.

um homem apaixonado está sempre condenado à culpa
e eu te amo tanto que,
em cada lugar que passo,
deixo postais com fotos suas
e pedidos de desculpas
mesmo quando tenho razão.
torcendo para que, ao final,
tudo acabe com a sua cara de índia mordendo meus lábios
e nós dois rindo da inocência da Maglore
quando cantou que todos os amores são iguais.

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poesia, tradução

“O Palácio”, de Kaveh Akbar, por Layla Oliveira

Os poemas de Kaveh Akbar foram publicados em jornais como The New Yorker, Poetry, Paris Review, Best American Poetry, The New York Times, e muitos outros. Ele é o autor de duas coletâneas completas: Pilgrim Bell (Graywolf, 2021) and Calling a Wolf a Wolf (Alice James, 2017). Ganhador do Prêmio Levis Reading, múltiplos prêmios Pushcart, e Ruth Lilly and Dorothy Sargent Rosenberg Poetry Fellowship, Kaveh é o editor-fundador do Divedapper, site de entrevistas com as maiores vozes da poesia contemporânea. Nascido no Teerã, Iran, leciona na Universidade de Purdue e nos programas de baixa residência do MFA no Randolph College e Warren Wilson. O site dele é http://kavehakbar.com/#/.

Layla Gabriel de Oliveira é poeta, atriz e estudante de Letras na Universidade Federal do Paraná. Está atualmente traduzindo o livro inédito do poeta Kaveh Akbar, Pilgrim Bell, para publicação simultânea nas duas línguas. Concluiu o seu primeiro projeto de pesquisa na Iniciação Científica, sobre tradução e recepção de teatro grego, na área de clássicas.

original: https://www.newyorker.com/magazine/poems/kaveh-akbar-the-palace

* * *

O Palácio

É difícil lembrar com quem estou falando
e o porquê. O palácio queima, o palácio
é fogo
e meu trono é cômodo e
quadrado.

Lembra: o velho rei convidou seus súditos para casa
para se deliciarem com estoques de tortas de maçã e cordeiro doce.
[Para se deliciarem com cordeiro doce de estórias. Ele acreditou

que eles o amavam, que a sua bondade
tinha feito ele merecer a bondade deles.

A bondade deles o arrastou para a rua
e despedaçou

seus braços, arrancou
a sua bondade, arrancou os seus dedos
feito penas.

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Não há bons reis.
Só há belos palácios.

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Quem aqui poderia alegar ser meramente culpado?
Os meros.

Minha vida
ficando monstruosa
com facilidade.

Para ser um Americano meu pai deixou seus irmãos
pensando
que nunca os veria de novo. Meu pai
queria ser o Mick Jagger. Meu pai
virou fantasma,
acabou trabalhando em granjas por trinta anos, certa vez
[um sono
um sofá
ele cospe uma pena.

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América poderia ser uma metáfora, mas não é.
Dormindo no sofá, ele cuspiu uma pena branca de pato.

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Não há portas na América.
Só buracos king-size.

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Ser um Americano é ser um especialista
em oportunidade.

Oportunidade custa.

Cada laranja que eu como desaparece os milhares de
pêssegos, ameixas, peras que eu poderia ter comido

mas não comi.

No céu, oportunidade custa.
No céu dela

minha mãe planta
pêssegos, ameixas, peras, e eu como até desmaiar

e acordar no céu;

acordar, e comer um pouco mais. Eu não poderia sonhar em fazer
[nada
pela metade. Seja o que for, eu quero o ramo
todo. Por favor. E rápido.

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Você ainda está ouvindo?
Cada pessoa que toco
me custa dez milhões que eu nunca vou conhecer. Pessoas e pessoas,

dentro de cada
um palácio em chamas. Dentro de cada

Mick Jagger usando um casaco de pele de gorila coberto de penas de
[avestruz.
Ele chama de “glamouflagem”.

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O que se foi, mas permanece visto?

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Soldados sem sorte,
o lápis atravessa lentamente o tríceps do meu irmão.

(O que se foi, mas permanece visto?)

Ele não gritou, só deixou os olhos lacrimejarem.
Se eu sorrir, mesmo que um pouco: eles começam a afiar as espadas.
E estão certos. Agora não é hora de alegria.

Agora não é hora. O palácio queima.
O lápis atravessa lentamente o irmão do meu irmão.

(O que permanece, mas visto que se foi?)

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Um rei governa melhor
no escuro, onde não dá pra ver suas mãos se mexendo. Um rei

não nos vê
assistindo o rei.

Costuramos as iniciais de Deus nas nossas roupas de trabalho

enquanto nossos bebês emagrecem.
Os bebês não nos veem

assistindo nossos bebês
emagrecerem.

Nossos bebês nascidos viciados em medo de bebês.
Nossos bebês mastigando maçãs sob o sol.

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América? a lápide quebrada.
América? longe o bastante de si mesma.

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Alô, aqui é o Kaveh falando:
Eu queria ser o Keats
(mas já vivi quatro anos mais)

Alô, aqui é o Keats falando:
seria um absurdo dizer alguma coisa agora
(muito menos alguma coisa nova)

Alô, aqui é ninguém falando:
floradas de hibisco, penas molhadas,
(um pequeno polegar de cinzas.)

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Ser Americano é ser um caçador.

Ser Americano. Quem pode ser Americano?

Ser Americano é ser? O que? Um caçador? Um caçador
que só atira grana.
Não, grana não –
grana.

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Eu tenho um aparelho de cozinha
que me permite secar alface.
Não tem jeito elegante
de dizer isso – pessoas
com corações vivos
que caberiam no meu peito
querem derreter a cidade onde eu nasci.

Na sua escola, num subúrbio americano,
a camiseta de um menino diz: “Nós Fizemos Com Hiroshima,
[Podemos Fazer Com Teerã!”

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Na sua escola, num subúrbio americano,
a camiseta de um menino diz: “Nós Fizemos Com Hiroshima,
[Podemos Fazer Com Teerã!”

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O troféu:
bode assado ganindo no espeto.

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A camiseta de um menino diz: “Nós Fizemos Com Hiroshima,
[Podemos Fazer Com Teerã!”
Pedem para ele virar a camiseta do avesso.
Pedem? Ele, do avesso.

Depois que ele obedece, seus pais processam a secretaria de
[educação.
Nossas almas querem saber
como foram feitas
o que devem.

Esses pais querem que o menino
queira derreter a minha família,
e eu vivo entre eles.

O trono do palácio. Aconchegante, em chamas.
Eu o desenho sem levantar minha caneta.
Eu o desenho gordo como a criação–
vazio como uma pegada.

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Como viver? lendo poemas, respirando curto,
secando alface.

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América, a respiração curta
como viver?

A armadilha curta, América
capturando

só o que é pequeno demais para comer.

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Os mortos se mantêm aquecidos sob a América
enquanto minha mãe frita berinjela no fogão.

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Eu não estou lá.
Eu estou em algum outro lugar da América (eu sempre estou
em algum outro lugar da América) escrevendo isso, escrevendo isso,
[escrevendo isso, inglês
é a primeira língua da minha mãe,
mas não é a minha.
Eu poderia ter dito bademjan.
Eu poderia ter dito khodafez.

Óleo escaldante, grandes punhos de fumaça, escrevendo isso.

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O primeiro inseto desenhado pelo homem foi o gafanhoto.
Arte é onde o que nós sobrevivemos sobrevive.

Óleo escaldante, grandes punhos de fumaça. Arte. Óleo escaldante. Arte.
Minha mãe frita berinjela. O primeiro

inseto desenhado pelo homem sobrevive.

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Quem vai beijar a rainha do baile?
Cérebro pulsando como uma ostra.

Quem vai ganhar a guerra?
América emerge

coberta dos
miúdos grãos daquilo de que é feita:

Pão fresco inchado com pó de farinha.

Ao escrever um e-mail, eu cometo um erro de digitação:
Eu te chamo tanto hoje,

e deixo assim.

Piedades proibidas, moinhos de vento girando
feito jovens bêbados.

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Qualquer documento de uma civilização é também um documento
[de barbárie
diz o palácio, em chamas.

Eu, um homem
sou tudo que eu não digo.

América, eu te garanto, se você me convidar para a sua casa
Eu vou ficar,

chamando, beijando meus amados com franqueza,
colhendo rabanetes
e tampando todas as suas canetas.

Não há bons reis,
só palácios em chamas.

Me chame hoje, tanto.

* * *

*‘The Palace’ from Calling a Wolf a Wolf,Copyright © 2019 by Kaveh Akbar.

Padrão
tradução

Hans Magnus Enzensberger (1929-), por Adelaide Ivánova

hans-magnus

hans magnus é um escritor alemão de esquerda. esses poemas são do livro “blindenschrift” (braille, em português), publicado em 1967. coisas que estavam acontecendo na época: guerra do vietnã, guerra fria e corrida nuclear, muro de berlim, civil rights, panteras negras, assassinato de lideranças negras, anti-comunismo, obsessão com a lua, beatles anuncia que não fariam mais shows (haha).

marxista e apoiador dos movimentos estudantis e revolucionários dos anos 1960, enzensberger ganhou inúmeros prêmios, morou na rússia e em cuba, produziu ensaios sobre teoria socialista da mídia e segue escrevendo até hoje. em novembro de 2019 ele completará 90 anos de escorpianismo.

para ler nossa outra postagem sobre o poeta, clique aqui.

* * *

middle class blues

wir können nicht klagen.
wir haben zu tun.
wir sind satt.
wir essen.

das gras wächst,
das sozialprodukt,
der fingernagel,
die vergangenheit.

die strßen sind leer.
die abschlüsse sind perfekt.
die sirene verschweigen.
das geht vorüber.

die toten haben ihr testament gemacht.
der regen hat nachgelassen.
der krieg ist noch nicht erklärt.
das hat keine eile.

wir essen das grass.
wir essen das sozialprodukt.
wir essen die fingernägel.
wir essen die vergangenheit.

wir haben nichts zu verheimlichen.
wir haben nichts zu versäumen.
wir haben nichts zu sagen.
wir haben.

die uhr ist aufgezogen.
die verhältnisse sind geordnet.
die teller sind abgespült.
der letzte autobus fährt vorbei.

er ist leer.

wir können nicht klagen.

worauf warten wir noch?

classe média blues

não podemos nos queixar.
estamos ocupados.
estamos saciados.
comemos.

a grama cresce,
o PIB,
a unha,
o passado.

as ruas estão vazias.
as conclusões estão perfeitas.
as sirenes estão caladas.
isso é coisa do passado.

os mortos escreveram seu testamento.
a chuva parou.
a guerra continua sem explicação.
mas não há pressa.

roemos a grama.
roemos o PIB.
roemos as unhas.
roemos o passado.

não temos nada a esconder.
não temos nada a perder.
os pratos estão lavados.
o último ônibus passa.

vazio.

não podemos nos queixar.

ainda estamos esperamos o quê?

§

 

bildnis eines spitzels

im supermarkt lehnt er
unter der plastiksonne,
die weißen flecken in seinem gesicht
sind wut, nicht schwindsucht,
hundert schachteln knuspi-knackers
(weil sie so herzhaft sind)
zündet er mit den augen an,
ein stück margarine
(die gleiche marke wie ich:
goldlux, weil sie so lecker ist)
nimmt er in seine feuchte hand
und zerdrückt sie zu saft.

er ist neunundzwanzig,
hat sinn für das höhere,
schläft schlecht und allein
mit broschüren und mittessern,
haßt den chef und den supermarkt,
die kommunisten, die weiber,
die hausbesitzer, sich selbst
und seine zerbissenen fingernägel
voll margarine (weil sie
so lecker ist), brabbelt
unter der künstlerfrisur
vor sich hin wie ein greis.

der
wird es nie zu was bringen.
schnittler, glaube ich, heißt er,
schnittler, hittler, oder so ähnlich.

retrato de um espião

no supermercado ele se curva
sob o sol de plástico,
as manchas brancas na sua cara
não são de tísica, são de ódio,
com os olhos ele fuzila
cem caixinhas de bolacha
(porque são tão saborosas),
o pacote de margarina
(da mesma marca que eu pego:
doriana, porque é uma delícia)
ele esmaga com sua mão úmida
até ela derreter.

ele tem vinte e nove anos,
é intuitivo,
dorme mal e sozinho
com cartilhas e cravos pretos,
odeia o chefe, o supermercado,
os comunistas, as mulheres,
o senhorio, ele mesmo
e sua unha roída
cheias de margarina (porque
é uma delícia), ele balbucia
sob o penteado de artista
como um velho, sem parar.

ele
nunca vai concluir nada.
acho que sobrenome dele era schnittler,
schnittler, hittler, ou algo parecido.

§

 

gerücht

ein altes gerücht kommt auf,
ein altes gerücht geht und sagt:
dies alles sei längst zu ende.
ach wenn es sonst nichts ist!

das wissen wir schon.

aber woher denn dann
erscheint am morgen
in ihrem braunen glas
auf der türschwelle frisch
und pünktlich die buttermilch?

es fällt frisches wasser
auf uns von himmel herunter,
es taucht etwas schreiendes
frisch aus den frauen auf
mit zartem wildem gehirn,
es nimmt der ihn gestern nahm
auch heute den achtuhrzug.

wie ist das zu erklären?

die kühe kalben und albern
kalbern die kälber. sogar
ihren geburtstag feiern
manche noch, schamlos.

als wäre nichts geschehen
erscheint täglich neu
unser rührender schmutziger
knallharter frommer roman.
fortsetzung folgt, und kein ende.

aber woher denn!

aber woher denn dann
erscheint am morgen
auf der türschwelle frisch
und pünktlich das alte gerücht?

fofoca

uma fofoca velha vai,
uma fofoca velha vem e diz:
isso tudo se acabou faz é tempo.
ah mas não deve ser nada!

disso a gente já sabe.

mas então como será que
de manhã aparece
num copo marrom
ao pé da porta
fresco e pontual o leite desnatado?

água fresquinha cai do céu
em cima da gente,
sai uma coisa fresquinha, gritando,
de dentro de uma mulher
com um cérebro mole e selvagem,
quem ontem pegou o trem das oito
hoje pegará também.

como se explica isso?

as vacas pariram e gracejam
engraçados os bezerros. até
seus aniversários são festejados
por alguns, ainda, sem o menor pudor.

como se nada tivesse acontecido
aparece todo dia e novamente
nosso romance puritano
comovente, impuro, cruel.
e continua, não tem fim.

mas de onde?

mas então de onde
aparece de manhã
ao pé da porta
fresca e pontual
a velha fofoca?

§

 

karl heinrich marx
riesiger großvater
jahvebärtig
auf braunen daguerreotypien
ich seh dein gesicht
in der schlohweißen aura
selbstherrlich streitbar
und die papiere im vertiko:
metzgersrechnungen
inauguraladressen
steckbriefe

deinen massigen leib
seh ich im fahndungsbuch
riesiger hochverräter
displaced person
in bratenrock und plastron
schwindsüchtig schlaflos
die galle verbrannt
von schweren zigarren
salzgurken laudanum
und likör

ich seh dein haus
in der rue d’alliance
dean street grafton terrace
riesiger bourgeois
haustyrann
in zerschlissnen pantoffeln:
ruß und »ökonomische scheiße«
pfandleihen »wie gewöhnlich«
kindersärge
hintertreppengeschichten

keine mitrailleuse
in deiner prophetenhand:
ich seh sie ruhig
im british museum
unter der grünen lampe
mit fürchterlicher geduld
dein eigenes haus zerbrechen
riesiger gründer
andern häusern zuliebe
in denen du nimmer erwacht bist

riesiger zaddik
ich seh dich verraten
von deinen anhängern:
nur deine feinde sind dir geblieben:
ich seh dein gesicht
auf dem letzten bild
vom april zweiundachtzig:
eine eiserne maske:
die eiserne maske der freiheit

karl heinrich marx

vovô grandão
com a barba de jah
em daguerreótipos marrons
vejo teu rosto
na aura branca como a neve
despótico briguento
e no birô os seguintes papeis:
boletos do açougue
discursos inaugurais
intimações

vejo teu barrigão
na lista de foragidos
grande traidor
sin papeles
de casaca e gravata de seda
tísico insone
a bile pegando fogo
pelos charutos fortes
picles láudano
e licor

eu vejo tua casa
na rue d’alliance
na dean street grafton terrace
burguesão
tirano doméstico
de pantufas velhas:
fuligem e “carai de economia”
agiotagem “como o de costume”
caixões de criança
fofocas

não há canhões
nas tuas mãos de profeta:
eu as vejo tranquilas
no museu britânico
embaixo do abajur verde
com tremenda paciência
arrombar tua própria casa
grande fundador
em nome de outras casas
nas quais tu nunca acordas

grande tsadic
eu te vejo traído
pelos teus seguidores:
apenas teus inimigos
se mantêm fieis:
eu vejo tua cara
na última foto
de abril de oitenta e dois:
uma máscara de ferro:
a máscara de ferro da liberdade

Padrão
poesia, tradução

Marin Sorescu (1936-1996), por Beethoven Alvarez

Marin Sorescu foi um poeta romeno, um dos grandes poetas romenos da segunda metade do século XX; além disso foi dramaturgo, romancista, ensaísta, editor, tradutor e pintor. Nasceu em 1936 numa cidadezinha chamada Bulzeşti, no estado de Dolj, na região da Valáquia, no sudoeste romeno; morreu aos 60 anos, em Bucareste, onde se casou e morou desde o início da década de 1960; mesmo viajando muito (é conhecido por ter visitado todos os continentes), manteve residência na Romênia durante toda a vida, o que inclui os mais de 30 anos da ditadura de Nicolae Ceaușescu. Produziu muito desde os 28 anos, publicou mais de 20 livros de poemas, e outros tantos de diversos gêneros, foi traduzido para mais de 10 línguas, teve suas pinturas expostas pela Europa, recebeu vários e vários prêmios, e, entre 1993-5, mesmo sem partido ou grandes aspirações políticas, e sob alguma crítica, foi Ministro da Cultura.

Seu primeiro livro, Singur printre poeti (Sozinho entre os poetas), de 1964, é uma coleção de paródias líricas e pastiches poéticos. Falando só de poesia, publicou, entre outros, Poeme (Poemas, 1965, Prêmio da União de Escritores da Romênia); Moartea ceasului (A morte do relógio, 1966); Tinereţea lui Don Quijote (A juventude de Dom Quixote, 1968); Tuşiţi (Tosse, 1970); Suflete, bun la toate (Minha alma, boa em tudo, 1972); La lilieci (Entre morcegos, vol. I-V, 1973-1995; Astfel (Então, 1973); Descântoteca (Desencantoteca, 1976); Sărbători itinerante (Sábados itinerantes, 1978); Ceramică (Cerâmica, 1979); Fântâni în mare (Fontes no mar, 1982); Apă vie, apă moartă (Água viva, água morta, 1987); Poezii alese de cenzură (Poesias selecionadas pela censura, 1991) e Traversarea (A travessia, 1994).

No teatro, destacou-se com Iona (Jonas, 1968), peça escrita no início do governo de Ceauşescu que reconta, numa chave existencialista, a história bíblica do profeta Jonas que foi engolido por uma baleia (Jonas 1:17). Iona fez grande sucesso e junto com Paracliserul (O sacristão, 1970) e Matca (A abelha-rainha, 1973) forma uma espécie de trilogia ligada ao Teatro do Absurdo que estabelece Sorescu como um dos grandes dramaturgos do pós-guerra.

Além de romances e ensaios, escreveu prosa satírica e literatura infanto-juvenil! Como tradutor, verteu para o romeno toda a obra lírica de Boris Pasternak.

Nenhuma crítica ou biografia de Sorescu deixa de salientar como marca de sua poética uma sutil e arguta ironia. Essa mesma ironia, passando pelo tratatamento de temas históricos, filosóficos, religiosos e cotidianos, aos poucos se desenvolve em um simbolismo desmistificador todo próprio, eivado de existencialimo.

Aqui, numa seleção que se guiou muito por minha curiosidade, escolhi estes sete poemas para traduzir. Propositalmente o primeiro deles se chama Curiosidade. Na sequência, ainda explorando a temática da curiosidade, ou antes, da criatividade, aparece Perpetuum mobile, com claras notas de sarcasmo. Finamente irônico, Na aula dá relevo à subversão que é ter ideias próprias. Ainda no ambiente escolar, Retroversão amplia a discussão sobre criação e sobre a própria compreensão do ser quando, metalinguisticamente, trata o tema da tradução. Esse poema, até onde sei, já foi traduzido por Rosemary Arrojo (em Oficina de Tradução) e Carlos Alberto Faraco (em Depois de Babel), ambos a partir de versões do inglês, com o título Tradução. Em direção a uma simbologia particular, mas também de forma metapoética, Sozinho adota um tom mais íntimo, o mesmo tom que ganha ares de confissão e pessimismo em Doença (este já traduzido por Luciano Maia, 1995). Por fim, com uma atenção menos íntima, Ritmo encerra, sem solução nenhuma, essa pequena seleção que eu gostaria que oferecesse uma breve ideia da obra poética de Sorescu, que um dia disse (não sei onde): “a palavra dita é uma fronteira transposta; pelo ato de dizer alguma coisa, eu falho em dizer tantas outras coisas.”

Não posso deixar de agradecer o André Kangussu que foi um dos primeiros a me apresentar a obra desse poeta romeno e a me estimular a traduzi-lo, e também o Guilherme Gontijo, que ouviu umas leituras minhas e, porque é uma pessoa gentil, sugeriu enviar pra cá essas traduçõezinhas.

Beethoven Alvarez

Beethoven Alvarez nasceu em Petrópolis, mas seu documento de identidade hoje diz que é natural do Rio de Janeiro. É Professor Adjunto de Língua e Literatura Latina da UFF em Niterói. Possui doutorado em Linguística (na área de Estudos Clássicos) pela Unicamp, com período sanduíche na University of Oxford. Hoje tem interesse em comédia romana antiga, métrica arcaica (iambo-trocaica) do latim, versificação das língua modernas (neolatinas e outras), tradução do texto teatral e tradução poética. Não se recorda de ter ficado bêbado (inúmeras vezes) em Brașov e lembra feliz de ter atravessado a Estrada Transfăgărășan (com a moto emprestada de um amigo russo que conheceu bêbado).

* * *

Curiozitate

Ce se aude? Ce nu se mai aude?
Şi când se aude, ce se aude?
Şi când nu se aude, ce nu se aude?
Şi de ce nu s-aude, când nu s-aude?
Şi cine aude, când se aude?
Şi pentru ce se aude?
Şi până când?

De ce se aude ceva şi nu altceva?
Ia să nu se mai audă, ce se aude!
Ce-am auzit că s-aude?
Dar până când?

Curiosidade

O que se ouve? O que não se ouve?
E quando se ouve, o que se ouve?
E quando não se ouve, o que não se ouve?
E quem ouve, quando se ouve?
E para que se ouve?
E até quando?

Por que se ouve uma coisa e não outra?
Não ouça mais o que se ouve!
O que eu ouvi como se ouve?
Mas até quando?

§

Perpetuum mobile

Între idealurile oamenilor
Și realizarea lor
Întotdeauna va exista
O diferență de nivel
Mai mare
Decât cea mai înaltă cascadă.

Se poate folosi rațional
Această cădere
De speranțe,
Construindu-se pe ea ceva
Ca o hidrocentrală.

De la energia astfel câștigată,
Chiar dacă n-o să reușim
Să ne aprindem decât țigarile,
Tot e ceva,
Pentru că, fumând, ne putem gândi serios
La niște idealuri și mai grozave.

Perpetuum mobile

Entre as ideias de alguém
E a realização delas
Sempre existe
Uma diferença de altura
Maior
Que a da mais alta cascata.

É possível usar de forma racional
Essa queda
De esperança,
Construindo acima dela algo
Como uma hidroelétrica.

Da energia assim gerada,
Mesmo se só usarmos
Para acender nossos cigarros,
Ganha-se alguma coisa,
Porque, fumando, podemos pensar seriamente
Em algumas ideias ainda mais extraordinárias.   

 §

La lecție

De câte ori sunt scos la lecție
Răspund anapoda
La toate întrebările.

– Cum stai cu istoria?
Mă întreabă profesorul.
– Prost, foarte prost,
Abia am încheiat o pace trainică
Cu turcii.

– Care e legea gravitației?
– Oriunde ne-am afla,
Pe apă sau pe uscat,
Pe jos sau în aer,
Toate lucrurile trebuie să ne cadă
În cap.

– Pe ce treaptă de civilizație
Ne aflăm?
– În epoca pietrei neșlefuite,
Întrucât singura piatră șlefuită
Care se găsise,
Inima,
A fost pierdută.

– Știi să faci harta marilor noastre speranțe?
– Da, din baloane colorate.
La fiecare vânt puternic
Mai zboară câte un balon.

Din toate astea se vede clar
C-o să rămân repetent,
Și pe bună dreptate.

Na aula

Toda vez que sou expulso da aula
Respondo ao contrário
A todas as perguntas.

Como vai em história?
Pergunta o professor.
– Burro, bem burro,
Acabei de fazer uma paz duradoura
Com os turcos.

– O que é a lei da gravidade?
– Em qualquer lugar que eu estiver,
Na água ou na terra
No chão ou no ar,
Todas as coisas têm que cair
Na minha cabeça.

– Em que estágio da civilização
Nos encontramos?
– Na idade da pedra que nem está lascada,
Porque a única pedra lascada
Que se encontrou,
O coração,
Se perdeu.

– Sabe fazer um mapa de nossas esperanças?
– Sim, com balões coloridos.
A cada vento forte
Voa pra longe mais um balão.

Diante disso tudo, fica claro
Que vou continuar repetindo de ano,
E por um bom motivo.

§

Retroversiune

Susţineam examenul
La limba moarta,
Şi trebuia sa ma traduc
Din om în maimuţa.

Am luat-o pe departe,
Traducînd mai întâi un text
Dintr-o padure.

Retroversiunea devenea însa
Tot mai dificila,
Cu cât ma apropiam de mine.
Cu puţin efor
Am gasit totuţi echivalenţe mulţumitoare
Pentru unghii şi parul de pe picioare.

Pe la genunchi
Am început sa ma bâlbâi.
În dreptul inimii mi-a tremurat mâna
Şi-am facut o pata de soare.

Am mai încercat eu s-o dreg
Cu parul de pe piept.
Dar m-am poticnit definitiv
La suflet.

Retroversão

Estava fazendo a prova
De uma língua morta,
E tinha que me traduzir
De homem em macaco.

Eu comecei de longe
Traduzindo primeiro um texto
De dentro de uma floresta.

A retroversão se tornava porém
Bem mais difícil,
Quando me aproximava de mim.
Com um pouco de esforço
Achei entretanto equivalentes satisfatórios
Para as unhas e os pelos das pernas.

Nos joelhos
Comecei a gaguejar.
Perto do coração minha mão tremeu
E fiz uma mancha de sol.

Logo procurei consertar
Com o pelo do peito.
Mas tropecei em definitivo
Na alma.

§

Singur

Mi-e frig în cămaşa asta
De litere
Prin care intră uşor
Toate intemperiile.

Vântul prin a,
Lupii prin b,
Iarna prin c,
Şi eu încerc să-mi apăr măcar inima
Cu un titlu mai gros,
Dar mă îngheaţă frigul care intră
Prin toate literele.

Mi-e urât în cămaşa asta
De litere
Prin care intră uşor
Respiraţia și bătăile inimii.

Prin a,
Prin b,
Prin c,
Alfabetul este plin de mine
Pentru o clipă.

Sozinho

Estou com frio com essa camisa
De letras
Por ela entra facilmente
Todo mau tempo.

O vento pelo a,
Os lobos pelo b,
O inverno pelo c,
E estou tentando fazer meu coração aparecer
Com um título mais grosso,
Mas me congela o frio que entra
Por todas as letras.

Fico feio nessa camisa
De letras
Por ela entra facilmente
Respiração e batidas do coração.

Pelo a,
Pelo b,
Pelo c,
O alfabeto está cheio de mim
Por um momento.

§

Boala

Doctore, simt ceva mortal
Aici, în regiunea fiinţei mele.
Mă dor toate organele,
Ziua mă doare soarele
Iar noaptea luna şi stelele.
Mi s-a pus un junghi în norul de pe cer
Pe care pâna atunci nici nu-l observasem
Şi mă trezesc în fiecare dimineaţă
Cu o senzaţie de iarnă.
Degeaba am luat tot felul de medicamente,
Am urât şi am iubit, am învăţat să citesc
Şi chiar am citit niste cărţi,
Am vorbit cu oamenii şi m-am gândit,
Am fost bun si-am fost frumos…
Toate acestea n-au avut nici un efect, doctore,
Şi-am cheltuit pe ele o groază de ani.
Cred că m-am îmbolnăvit de moarte
Într-o zi,
Când m-am născut.

Doença

Doutor, eu sinto uma dor terrível
Aqui na região do meu ser,
Me doem todos os órgãos
De dia me dói o sol,
E de noite, a lua e as estrelas.

Sinto uma pontada na nuvem do céu
Que até então eu nem tinha notado
E acordo todas as manhãs
Com uma sensação de inverno.

Em vão eu tomei todo tipo de remédio,
Senti ódio e amei, aprendi a ler
E até li alguns livros,
Falei com as pessoas e pensei,
Eu fui bom e eu fui querido…

Tudo isso não teve nenhum efeito, doutor
E eu gastei um monte de anos com isso.

Eu acho que adoeci
Um dia
Quando nasci.

§

Ritm

Cohorte de marginalizaţi
Se răscoală.
Vor în centru. Îl ocupă.
Împingând spre margine
Norocoşii din etapa precedentă.

Se cuibăresc, puiază.
Şi aşteaptă cu inima cât un purice
Cohortele de marginalizaţi
Care trag spre centru.

Ritmo

As multidões de marginalizados
Se revoltam.
Querem estar no centro. O ocupam.
Empurrando para a margem
Os que foram bem sucedidos antes.

Fazem ninho, crescem.
E esperam com o coração de uma pulga
Multidões de marginalizados
Que se movem para o centro.

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poesia

Bruno M. Silva (1990-)

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Bruno M. Silva nasceu em 1990, no Porto. Estudou Línguas, Literaturas e Culturas na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Venceu a 17ª edição do concurso Aveiro Jovem Criador 2018 com o conto O Que São os Mortos?. Tem poemas publicados na revista Ler, na Enfermaria 6, na Tlön, na Gazeta de Poesia Inédita e no Jornal Universitário do Porto. Três dos seus poemas foram traduzidos para espanhol de forma a integrarem a antologia Lluvia oblicua. Poesía portuguesa actual, pela Valparaíso Ediciones.

* * *

toda a noite, o fogo

daqui à morte será apenas um clamor
e homens à procura de um nome
entre clarões e cavalos doentes
a febre de um deus feroz

mil anos
e chove em Tróia

e daqui à morte serão as mulheres
a inchar como palmeiras
em frente aos espelhos
as crianças a engolir o nome
os barcos presos no sal

fizemos tudo
trouxemos a palavra, o incêndio
para que nos vissem um rosto saturado de beleza
ainda assim um deus feriu-nos
……………………………………ainda assim a morte

Tróia, meu deus, toda a noite, o fogo
de manhã, a luz nos meus olhos doentes
e um rosto que das águas emerge puro

§

 

é já longe de onde me falas

nada nos dirá
que foi daqui que vimos o mundo
ou aprendemos a dor de subir
a última manhã feita
sobre os nossos cabelos

o que disserem de nós estará certo
e será como uma luz junto aos olhos
para o lugar de onde me falas

e no entanto nada nos espera

apenas
o amor feito na escuridão das tendas
o lamber das borras do vinho
e uma garganta que se doira
ao despedir-se de ti

§

 

as flores de hopper

felizmente não te posso ver
se o teu rosto caísse sobre o mundo
teria a futilidade das flores
seria o campo de camélias e o dilúvio

é melhor imaginar-te assim terrível
espantando as aves nos Aliados
assustando os bêbados que descem o Carvalhido
com a serpente revolvendo no intestino

é sempre melhor imaginar que és tu que os aterras
que eles cambaleiam pelas ruas
porque juram que te entreviram
entre os urinóis do café

é sempre melhor não te ver
porque só a tua voz
transparente como os tigres de Borges
nos pode dilacerar de tanta beleza

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