tradução

Hans Magnus Enzensberger (1929-), por Adelaide Ivánova

hans-magnus

hans magnus é um escritor alemão de esquerda. esses poemas são do livro “blindenschrift” (braille, em português), publicado em 1967. coisas que estavam acontecendo na época: guerra do vietnã, guerra fria e corrida nuclear, muro de berlim, civil rights, panteras negras, assassinato de lideranças negras, anti-comunismo, obsessão com a lua, beatles anuncia que não fariam mais shows (haha).

marxista e apoiador dos movimentos estudantis e revolucionários dos anos 1960, enzensberger ganhou inúmeros prêmios, morou na rússia e em cuba, produziu ensaios sobre teoria socialista da mídia e segue escrevendo até hoje. em novembro de 2019 ele completará 90 anos de escorpianismo.

para ler nossa outra postagem sobre o poeta, clique aqui.

* * *

middle class blues

wir können nicht klagen.
wir haben zu tun.
wir sind satt.
wir essen.

das gras wächst,
das sozialprodukt,
der fingernagel,
die vergangenheit.

die strßen sind leer.
die abschlüsse sind perfekt.
die sirene verschweigen.
das geht vorüber.

die toten haben ihr testament gemacht.
der regen hat nachgelassen.
der krieg ist noch nicht erklärt.
das hat keine eile.

wir essen das grass.
wir essen das sozialprodukt.
wir essen die fingernägel.
wir essen die vergangenheit.

wir haben nichts zu verheimlichen.
wir haben nichts zu versäumen.
wir haben nichts zu sagen.
wir haben.

die uhr ist aufgezogen.
die verhältnisse sind geordnet.
die teller sind abgespült.
der letzte autobus fährt vorbei.

er ist leer.

wir können nicht klagen.

worauf warten wir noch?

classe média blues

não podemos nos queixar.
estamos ocupados.
estamos saciados.
comemos.

a grama cresce,
o PIB,
a unha,
o passado.

as ruas estão vazias.
as conclusões estão perfeitas.
as sirenes estão caladas.
isso é coisa do passado.

os mortos escreveram seu testamento.
a chuva parou.
a guerra continua sem explicação.
mas não há pressa.

roemos a grama.
roemos o PIB.
roemos as unhas.
roemos o passado.

não temos nada a esconder.
não temos nada a perder.
os pratos estão lavados.
o último ônibus passa.

vazio.

não podemos nos queixar.

ainda estamos esperamos o quê?

§

 

bildnis eines spitzels

im supermarkt lehnt er
unter der plastiksonne,
die weißen flecken in seinem gesicht
sind wut, nicht schwindsucht,
hundert schachteln knuspi-knackers
(weil sie so herzhaft sind)
zündet er mit den augen an,
ein stück margarine
(die gleiche marke wie ich:
goldlux, weil sie so lecker ist)
nimmt er in seine feuchte hand
und zerdrückt sie zu saft.

er ist neunundzwanzig,
hat sinn für das höhere,
schläft schlecht und allein
mit broschüren und mittessern,
haßt den chef und den supermarkt,
die kommunisten, die weiber,
die hausbesitzer, sich selbst
und seine zerbissenen fingernägel
voll margarine (weil sie
so lecker ist), brabbelt
unter der künstlerfrisur
vor sich hin wie ein greis.

der
wird es nie zu was bringen.
schnittler, glaube ich, heißt er,
schnittler, hittler, oder so ähnlich.

retrato de um espião

no supermercado ele se curva
sob o sol de plástico,
as manchas brancas na sua cara
não são de tísica, são de ódio,
com os olhos ele fuzila
cem caixinhas de bolacha
(porque são tão saborosas),
o pacote de margarina
(da mesma marca que eu pego:
doriana, porque é uma delícia)
ele esmaga com sua mão úmida
até ela derreter.

ele tem vinte e nove anos,
é intuitivo,
dorme mal e sozinho
com cartilhas e cravos pretos,
odeia o chefe, o supermercado,
os comunistas, as mulheres,
o senhorio, ele mesmo
e sua unha roída
cheias de margarina (porque
é uma delícia), ele balbucia
sob o penteado de artista
como um velho, sem parar.

ele
nunca vai concluir nada.
acho que sobrenome dele era schnittler,
schnittler, hittler, ou algo parecido.

§

 

gerücht

ein altes gerücht kommt auf,
ein altes gerücht geht und sagt:
dies alles sei längst zu ende.
ach wenn es sonst nichts ist!

das wissen wir schon.

aber woher denn dann
erscheint am morgen
in ihrem braunen glas
auf der türschwelle frisch
und pünktlich die buttermilch?

es fällt frisches wasser
auf uns von himmel herunter,
es taucht etwas schreiendes
frisch aus den frauen auf
mit zartem wildem gehirn,
es nimmt der ihn gestern nahm
auch heute den achtuhrzug.

wie ist das zu erklären?

die kühe kalben und albern
kalbern die kälber. sogar
ihren geburtstag feiern
manche noch, schamlos.

als wäre nichts geschehen
erscheint täglich neu
unser rührender schmutziger
knallharter frommer roman.
fortsetzung folgt, und kein ende.

aber woher denn!

aber woher denn dann
erscheint am morgen
auf der türschwelle frisch
und pünktlich das alte gerücht?

fofoca

uma fofoca velha vai,
uma fofoca velha vem e diz:
isso tudo se acabou faz é tempo.
ah mas não deve ser nada!

disso a gente já sabe.

mas então como será que
de manhã aparece
num copo marrom
ao pé da porta
fresco e pontual o leite desnatado?

água fresquinha cai do céu
em cima da gente,
sai uma coisa fresquinha, gritando,
de dentro de uma mulher
com um cérebro mole e selvagem,
quem ontem pegou o trem das oito
hoje pegará também.

como se explica isso?

as vacas pariram e gracejam
engraçados os bezerros. até
seus aniversários são festejados
por alguns, ainda, sem o menor pudor.

como se nada tivesse acontecido
aparece todo dia e novamente
nosso romance puritano
comovente, impuro, cruel.
e continua, não tem fim.

mas de onde?

mas então de onde
aparece de manhã
ao pé da porta
fresca e pontual
a velha fofoca?

§

 

karl heinrich marx
riesiger großvater
jahvebärtig
auf braunen daguerreotypien
ich seh dein gesicht
in der schlohweißen aura
selbstherrlich streitbar
und die papiere im vertiko:
metzgersrechnungen
inauguraladressen
steckbriefe

deinen massigen leib
seh ich im fahndungsbuch
riesiger hochverräter
displaced person
in bratenrock und plastron
schwindsüchtig schlaflos
die galle verbrannt
von schweren zigarren
salzgurken laudanum
und likör

ich seh dein haus
in der rue d’alliance
dean street grafton terrace
riesiger bourgeois
haustyrann
in zerschlissnen pantoffeln:
ruß und »ökonomische scheiße«
pfandleihen »wie gewöhnlich«
kindersärge
hintertreppengeschichten

keine mitrailleuse
in deiner prophetenhand:
ich seh sie ruhig
im british museum
unter der grünen lampe
mit fürchterlicher geduld
dein eigenes haus zerbrechen
riesiger gründer
andern häusern zuliebe
in denen du nimmer erwacht bist

riesiger zaddik
ich seh dich verraten
von deinen anhängern:
nur deine feinde sind dir geblieben:
ich seh dein gesicht
auf dem letzten bild
vom april zweiundachtzig:
eine eiserne maske:
die eiserne maske der freiheit

karl heinrich marx

vovô grandão
com a barba de jah
em daguerreótipos marrons
vejo teu rosto
na aura branca como a neve
despótico briguento
e no birô os seguintes papeis:
boletos do açougue
discursos inaugurais
intimações

vejo teu barrigão
na lista de foragidos
grande traidor
sin papeles
de casaca e gravata de seda
tísico insone
a bile pegando fogo
pelos charutos fortes
picles láudano
e licor

eu vejo tua casa
na rue d’alliance
na dean street grafton terrace
burguesão
tirano doméstico
de pantufas velhas:
fuligem e “carai de economia”
agiotagem “como o de costume”
caixões de criança
fofocas

não há canhões
nas tuas mãos de profeta:
eu as vejo tranquilas
no museu britânico
embaixo do abajur verde
com tremenda paciência
arrombar tua própria casa
grande fundador
em nome de outras casas
nas quais tu nunca acordas

grande tsadic
eu te vejo traído
pelos teus seguidores:
apenas teus inimigos
se mantêm fieis:
eu vejo tua cara
na última foto
de abril de oitenta e dois:
uma máscara de ferro:
a máscara de ferro da liberdade

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Um comentário sobre “Hans Magnus Enzensberger (1929-), por Adelaide Ivánova

  1. Leopoldo Ramos disse:

    Que coisa mais estúpida esta de “Fulano é um escritor de esquerda”, “Beltrano é torcedor do Bayern” etc. Só podia vir da anã paraguaia.

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