poesia

5 poemas de Alexandre Guarnieri (1974-)

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Alexandre Guarnieri (carioca de 1974) é poeta e historiador da arte. Integra o corpo editorial da revista eletrônica Mallarmargens. Casa das máquinas (Editora da Palavra, 2011) é seu livro de estreia. Em 2016, co-organizou pela Patuá a antologia Escriptonita (poemas tematizando super-heróis). Também lançou Corpo de festim [livro ganhador do 57o Jabuti/ 2a Edição pela Penalux], Gravidade zero (2017) e O sal do leviatã (2018). Seus três primeiros livros estão disponíveis online gratuitamente na plataforma ISSUU (clique aqui).

* * *

dínamo marino

“[…] aonde anda a onda?
a onda ainda/ ainda onda ainda anda/ aonde? […]”

Manuel Bandeira

vaga enquanto arma a água toda
em que se esvai levando a soma aquosa
ao sonoro devir da arrebentação
~ ergue o quanto anda: carga aonde leva
e traz na água algas agora, sobre cardumes
que alardeiam ~ e se uma gravidade a atrai
à praia, sem freios ( um dínamo marino agindo ),
na areia outra, contrária, quer devolvê-la
ao oceano doutro lado, ( vira e revira
no ir e vir de seus espasmos ) ~ longa, ondula
~ a água alarga e salga — e segue
como se sangrasse : sangria do signo cíano ~
e singra para que siga ainda a água,
que ao ímã de cada maré adere ou repele
~ logra a onda longa aonde aguarda lá, largar-se
( inunda o fundo onde inúmeras ondas
se ajuntam ) à outras ondas, longínquo banho,
em moto-contínuo; bainha junto à linha da baía
~ para quebrar com ímpeto ~ ad infinitum

§

 

(::: tempestas ad aeternum :::(
( ::: ( à anatomia da frente fria ( alturas nublam no acúmulo esta rígida camisa de granizo com que o medo copula ::: de tão leve o veludo ::: névoas evolam e renovam nuvens lúgubres que evoluem seus plúmbeos volumes ::: o inverno ou o verão ( se revelam ( ou se rebelam ( ante o impacto de duas massas de ar que estão em guerra ::: cumulus ( nimbus ::: são vapor puro seus sísmicos mecanismos de pingos ( movidos às vísceras cíclicas da hidrologia ::: toda a blindagem lacrada aos fenômenos da meteorologia ::: as gotas como sistêmicas agulhas da acupuntura úmida e lúcida que o alívio de um dilúvio inicial salpica sobre os poros do solo ::: porque depois virá a água pulverizada às toneladas ( largada do radioso hangar da atmosfera da Terra ( onde os vários níveis do velame reverberam ::: brancos como membranas nascidas de braços climáticos ::: ventos abertos as criam no céu ( mordaças aladas ( debruçando açúcares do novelo diáfano e solúvel das chuvas ::: por vezes assíduas no verão do sul ( severas na invernada do norte ::: espécies de seda inflada fremindo módulos vaporosos ::: a tamanha fumaça fria que dança desprovida de vértebras ::: as engrenagens da tempestade agem engravidando absurdos ventres pluviométricos ::: um gélido gigante modelando o inverno interfere no áspero sintoma do desalojado planisfério ( sob as extremidades de ventos severos ( intensos ( nervosos ( venéreos como no inferno ( são ventos por dentro ( tremendos ::: em alto mar as mais baixas temperaturas se amarram a uma larga e unitária mordaça ::: o clima declina em crise física ( toda altura é esta estranha úlcera convulsa como se fosse ininterrupta a pintura de William Turner ::: “por quanto tempo tufão tão nefasto estará afastado da costa?” ::: os metereólogos não logram resposta ::: na pura fúria do Caramuru ( todas as danças da chuva juntas ( em belicoso conjunto proposto por tribos ocultas ( avultam e nublam o horizonte profundo ( para o absoluto assombro de reinados navais ( barqueiros nômades e navegadores autônomos ( e nunca ( jamais ( saberemos para onde ( ou até quando ::: e agora, Joze (Pereira)? se Calicute não te escuta ( se o pombo-correio jaz sepulto em sua miniatura de tumba ( se resta anêmico o único anemômetro ( se está louco o lôbrego pluviômetro ::: e agora, Vasco, Pero Vaz de Caminha? a quantas anda nosso Caminho das Índias? ( para que te presta ( tempestade eterna ( senão para frustrar nossa conquista marítima mais íntima? senão para derrubar sobre nós ( além da maresia carnívora que penetra pela fresta todo o dia ( sua voz ressoada na foz dos trovões e iracundas colunas d’água ligando o mar à mais aérea nódoa,

senão para nada? ( ::: (

§

o barco na garrafa

 

que vento, tormenta, qual
embargo causado pelo caos
atravessou o aço deste barco?
qual a história de seu rapto,
de sua carcaça aprisionada
ao arrecife, pelo casco?

terá afundado em álcool
— em rum, a nau afogada -,
no premente e estrepitoso
jorro da única talagada?
terá sido enfeitiçado
o capitão embriagado
pelo canto da sereia
ou pela água envenenada?

pois saibam, sujos marujos,
que até assim se naufraga,
e onde esperaríamos o gênio
realizando desejos, resta a
miniatura delicada da fragata
prensada através do gargalo,
presa ao interior da garrafa;

haverá outra escolha ( brinquedo
camuflando o medo – mero modelo )
senão estilhaçá-la ao peso
do arremesso ( pequena parcela
do mar ou a própria alma
sequestrada ) a singela peça
do artesanato naval, minuciosamente
trabalhada ou frágil granada
lançada contra a parede da sala?

§

viagem fantástica

para Julio Verne e Harry Kleiner

toda profundeza concebida pelo homem
– conquistada ou ainda inexplorada –
sombria, ameaçadora ou prodigiosa,
toda mais longínqua profundidade,
recriada imaginativamente por séculos,
jazendo a apenas alguns centímetros
da superfície da pele, sob a trama de
nervos que segue a construir os sonhos,
da medula ao cérebro humano, esse
antro chiaroscuro – esponjosa massa
cinza sob o osso do crânio duro;

puséssemos numa seringa hipodérmica
a miniatura de um submarino nuclear
mergulhado em solução fisiológica e
injetássemos corpo adentro a peça
a sangue frio, navegaria submerso
com energia suficientemente gerada
para zelar sempre, sem erro, sem medo,
pelo mais perfeito funcionamento?

§

calypso
ígneas enguias bicéfalas
se entreolham, tresloucadas

com guinchos finíssimos, unís
sonas, ensaiam o silvo coletivo
e quase enguiçam no líquido re
buliço, agarradas em algazarra

parecem aparvalhadas na água
como certas larvas aneladas
recém-saídas dos ovos;

ascendem olhos de fósforo,
ardendo aos milhares, em pares
contra o breu inóspito

faróis cujas luzes
lançam fachos quase sólidos
para o horizonte subaquático;

orquídeas submergidas
eletrificam a língua sibilina
das enguias que se esquivam
das lanternas ou dos esguichos
de alguns exímios escafandristas
e fogem
…………..para o raio que as partam

nota:

mas pouquíssimo antes disso
tiveram suas almas
registradas em vídeo,
para Cousteau, por seu
melhor cinegrafista
em seu milésimo mergulho
de scuba ( o Aqualung ),
sob uma falésia da Catalunha

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