poesia

Sérgio Lima (1939—), por Natan Schäfer

Por Maazo Heck, agosto de 2019.

Sergio Lima, nome artístico de Sérgio Claudio de Franceschi Lima, nasceu em 28 de dezembro de 1939 em Pirassununga, São Paulo. Escritor-pintor, vem envolvendo-se desde 1955 com o surrealismo. Nos anos 1960 passa a participar das reuniões do grupo surrealista de Paris no café La promenade de Vénus, ao lado de seu fundador André Breton. Desde então, é o grande dínamo responsável pela revisão & ativação do surrealismo no Brasil e nos países de língua portuguesa, especialmente em Portugal, onde estabeleceu um diálogo muito próximo com Mário Cesariny. No Brasil, dentre outras atividades, realizou a XIII Exposição Internacional do Surrealismo e editou a revista A Phala. Em 1963 estreou pela editora Massao Ohno com Amore, resenhado na revista surrealista parisiense La brèche. Traduziu e organizou a antologia Amor Sublime, de Benjamin Péret, publicada pela editora Brasiliense. Em 1995 inicia a publicação de A aventura surrealista, projeto de grande fôlego que se propõe a compilar as ideias e produções surrealistas pelo Brasil e pelo mundo. Em 2019 publicará o poema longo A boca da sombra que te ergue branca, pela Contravento Editorial. Vive atualmente em São Paulo, em um pequeno bosque verde cercado pelo bares da Vila Madalena.

Buscando dar a ver a mais-realidade, a obra poética de Sergio Lima tem como temas centrais o erotismo e a natureza e compreende tanto longos poemas-rio, marcados pelo transbordamento e que trazem em si algo dos mantras e ladainhas orientais, quanto poemas breves ou poèmes tableaux, os quais se assemelham ao toque de um címbalo tibetano, dos quais damos uma pequena amostra nesta breve antologia que temos a honra de publicar neste escamandro.

Todos os poemas foram retirados do volume A alta licenciosidade, Edição do autor, São Paulo: 1985. A imagens que acompanham estas antologias constam nos catálogos O retorno ao selvagem (FCM, Portugal, 2007) e Sergio Lima: Fogo ténue incendeia o corpo (FCM, Portugal, 2016) E foram gentilmente cedidas pela Fundação Cupertino de Miranda.

Natan Schäfer

* * *

o mesmo andar

e as mulheres nas janelas
abandonadas em suas casas e em suas sombras
caindo em si lentamente nos seus corpo lisos

a recordação dos seios da amada
das nádegas da domadora dormente
apoia e multiplicando-se
entre a vidraça e as cortinas

das mulheres que limpam os vidros
com o olhar perdido
como seus quadris inquietos

das mulheres molhadas entre as louças
com suas mãos pintadas

o mesmo andar das mulheres,
da provocação que aguarda

Os amantes (do caderno de aguadas automáticas), 20-XII-1958.

desmaiada
como o escriba malhado
de pálpebras cor-de-rosa
e olhos de sangue
com tuas mãos tatuadas
envoltas por tiras de lápis-lazúli
gravando no papyrus
as evoluções circulares
da asa encarnada
voluptuosa
da águia
no sol de pedra
a sua língua clara
última maré
dos signos do espasmo
no orgasmo de teus dois seios duros
mais curvos que tuas ancas
de nádegas abandonadas

A mulher dando risada, 29-V-1966.

A FESTA, ELA ALMA

sombras as caveiras de tuas cabeleiras esvoaçantes
mais negras que o saber de tuas pernas de penas
abertas na rua da chuva
na noite da desplumagem violenta
do bâton escorrendo pela liga
negra das tiras
da tentação
oral

My life is a doll without eyes, 1/5-X-1959.

AS INICIAIS

os pés
dos piratas do além-querer
feitos de cabelos luzidios
negros de cabeleiras femininas desfeitas
a mãos macias de farelos
da freira paramentada de amor
as ferramentas da penumbra
e os olhos endoidecidos
os calendários
que maldizem
repletos de dias de flores e de frutos
e os animais da tua lembrança
adormecidos na calçada
como o sol
pousando no mar
tesouro

A dama aberta, 14-XII-1968.

estirado no chão e aberto
bambu deitado cortado em cocho

a aragem perpassa fresca

revelando o sumo e a essência,
                                 a água que restou

 

a boca do mato

com seus lábios de amanheceres

chupa os passarinhos

O MAPA DOS CANTADORES

Auto retrato aos dezoito anos, 28-XII-1957.

num prato de tristezas as frutas
caem verdes,
uma a uma,
acariciadas pela aragem da paixão das tardes
na paisagem íntima
dos corpos enlaçados num abraço de brancuras
num abraço carnal que se desvela em beijos e queixumes carmens

a ternura que já estava desenhada na figura dos lábio,
que já estava articulada na xilografia lenta dos olhos,
abisma-se no olhar extasiado
em seus céus profundos

o perfume cresce do fundo das constelações suavemente

o desejo se forma como uma flor no ser

Aspectos da fauna insular – XI, 18.04.1957.

tudo o que cresce é suave
seja gentil como um barco no mar

todo sexo é um peixe

todo sexo
também é macio
também é simbólico
também é misterioso

condutor da luz profunda

Aspectos da fauna insular – XVI, 20.04.1957.

o yogé
balança-se

entre a concentração e o dar-se
o gratuito e a disponibilidade
apoiando-se num contínuo plástico
isto é, o corpo

o corpo é a imagem
a figura e a letra

o corpo amoroso é aquele que anuncia
aquele que fala

A lembrança cor-de-rosa, 06.05.1984.

a cada instante
a obscura energia
reinventa a luz para nós
assim como
a flecha reinventa o rio
a poesia reiventa o amor
passado que se fez carne
no imaginário ao ser retomado
na leitura que se entre-tece
e desvela;
“Hei de reiventar-te
para mim do mesmo modo
que desejo ver recriadas
perpetuamente
a poesia e a vida”.

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