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Luís Omar Cáceres (1904-1943)

Omar_Caceres_(1926)

Luis Omar Cáceres foi uma figura excêntrica na literatura de vanguarda chilena. “Tinha uma maneira estranha de recitar, de pronunciar as palavras, quase que as saboreando, degustando-as”, diz Miguel Serrano, “E a aura angustiosa que o rodeava era tão impenetrável e irrespirável como os espaços gélidos do cosmos. Estava envolto em uma atmosfera de morte e solidão total. Seu drama se podia adivinhar em seus poemas; porque havia alcançado ali onde a vida humana já não encontra seu oxigênio habitual e presencia outros universos, arrebatando a alma e a destruindo, congelando-a e a desabilitando de toda convivência humana.”

Nascido na comuna de Cauquenes, no dia 5 de julho de 1904, Omar Cáceres foi um poeta chileno e uma das referências do vanguardismo latino-americano no Chile. Seu modo de vida e sua morte misteriosa pincelaram sobre ele um retrato de “poeta maldito”. Filho de pais professores, estudou direito em 1922, mas não chegou a concluir o curso. De aspecto taciturno e distante, começou, já nos anos 1920, a se aproximar do ambiente artístico que lhe era contemporâneo, dedicando-se, inicialmente, à crítica literária. Na época, chegou a perder seu emprego como secretário de um juiz por ter se vinculado ao Partido Comunista, chegando a se pré-candidatar como deputado.

Em 1931, teve três poemas seus incluídos na famosa antologia “La poesía chilena moderna”, de Rubén Azócar. Publicou somente um livro em vida, Defensa del ídolo, em 1934, que causou grande rebuliço. Tem um prólogo escrito por Vicente Huidobro, o único prólogo escrito por ele. O livro continha diversos erros, e enfurecido pela extensa errata, Omar Cáceres reuniu todos que conseguiu e os queimou. Os exemplares sobreviventes foram poucos, mas serviram para as reedições posteriores da obra. Nesse mesmo ano funda, junto a Vicente Huidobro e Eduardo Anguita, a revista Vital/Ombligo.

No ano seguinte, foi incluído na “Antología de poesía chilena nueva”, na qual teve uma pequena prosa publicada, intitulada “Eu, velhas e novas palavras” (“yo, viejas e nuevas palavras”; no original), sendo este seu único texto de prosa conhecido, mesmo que ainda houvesse notícias de que havia trabalhado em um livro de contos e numa biografia do seu antigo patrão, o juiz Eliodoro Astorquiza.

Em seus últimos anos de vida, Cáceres deixou de conviver com a maioria dos escritores que havia conhecido. Uns chegaram a pensar que havia sucumbido à loucura, outros que havia ido viver em alguns lugares subdesenvolvidos e abandonados.

Seu corpo foi encontrado numa vala, na primeira semana de setembro de 1943, na comuna de Renca, com a cabeça podre e os bolsos vazios. Pensaram que se tratava de um assassinato ou suicídio, mas até hoje não se sabe de que forma ele veio a falecer.

Abaixo, 4 poemas seus presentes na plaquete “Âncoras Opostas”, publicada pela munganga edições.

Victor H. Azevedo

* * *

 

YO, VIEJAS Y NUEVAS PALABRAS
“No debiera escribir esto, desde que todo queda dicho, o no, en cada uno de los poemas, y en cada una de sus palabras.
Se trata de una selección de mis primeros trabajos, selección que el tiempo y una mayor conciencia literaria han ido restringien-do; y que, demasiado solo para oponerme a la impura diversidad del mundo, no pude publicar con la acentuada y natural distribución de su orden cronológico.
Así he vivido.
Mi actitud no es, sin embargo, la de un nihilista, la de un ególatra o la de un deshumanizante…
No.
Es la de aquel que fue demasiado lejos en el corazón de los hombres y en su propio corazón; la de aquel orgulloso de las soberbias esperanzas que, de súbito, creyendo disponer del universo en una enumeración insólita, tropieza, en cambio, con la omnipresencia lacerada de su yo, mientras un índice de revelación señala esa fijeza con su fuego individual.
He ahí mi pavoroso problema.
Aquellos que han amado mucho, y que han meditado en el PORQUE de su sufrir al perder para siempre lo que amaron, esos tendrán que comprenderme.
No he escrito, pues, como se lo dije un día a un poeta, “llevad del afán de HACER LITERATURA, achaque tan común en nuestra tierra, sino obedeciendo a irresistibles impulsos; a la necesidad, más bien, de definir por medio de la expresión de mis estados interiores la VERDADERA situación de mi yo en el espacio y en el tiempo”…
Una nueva modalidad ético-estética debe alcanzar, necesariamente, aquel que parte en línea extrema de si mismo.
No pretendo haber alcanzado ni alcanzar tan soberano éxito.
Hay, lo sé, en estos poemas, influencias que aun los condicionan a aquello que tan arbitrariamente han dado en llamar “el fondo y la forma”.
Las hay, sobre todo, de estas últimas. Dos o tres poemas.
No obstante, a través de su presencia excepcional, el espíritu se recupera en cada página.
Y eso es lo que me interesa.
Sé, por fin, que lo que digo ya está dicho; mis palabras sólo me pertenecen.
Pero, después de todo, mi grande emoción, la trágica experiencia de mi espíritu, son auténticas.
Y ése es el punto de partida desde el cual y a través de esfuerzos mejores, los jóvenes que verdaderamente odiamos, el pasado y el presente, a fuerza de amar el porvenir, lograremos, si no alcanzar, por lo menos preparar, aquel vasto equilibrio que habrá de liberar a la humanidad, haciéndola revelarse a si misma en su esencia más íntima.”

EU, VELHAS E NOVAS PALAVRAS

“Não deveria escrever isto, desde que tudo fica dito, ou não, em cada um dos poemas, e em cada uma de suas palavras.
Trata-se de uma seleção dos meus primeiros trabalhos, seleção que o tempo e uma maior consciência literária foram restringindo; e que, demasiado só para me opor à impura diversidade do mundo, não posso publicar com a acentuada e natural distribuição de sua ordem cronológica.
Assim vivi.
Minha atitude não é, entretanto, a de um niilista, a de um ególatra ou a de um desumanizante…
Não.
É daquele que foi demasiado longe no coração dos homens e em seu próprio coração; daquele orgulhoso das esperanças soberbas que, de súbito, crendo dispor do universo em uma insólita enumeração, tropeça, em troca, com a onipresença lacerada do seu eu, enquanto um índice de revelações sinaliza essa firmeza com seu fogo individual.
Aí está meu pavoroso problema.
Aqueles que amaram muito, e que meditaram sobre o PORQUÊ de sofrer ao perder para sempre o que amaram, esses terão que me compreender.
Não escrevi, então, como foi dito um dia a um poeta, “levado pelo afã de FAZER LITERATURA, moléstia tão comum na nossa terra, mas obedecendo a irresistíveis impulsos; à necessidade de definir, por meio da expressão dos meus estados interiores, a VERDADEIRA situação do meu eu no espaço e no tempo” …
Uma nova modalidade ético-estética deve alcançar, necessariamente, aquele que parte na linha extrema de si mesmo.
Não pretendo ter alcançado nem tentar tão soberano êxito.
Há, eu sei, nestes poemas, influências que ainda os condicionam àquele que tão arbitrariamente é dado a ser chamado de “o fundo e a forma”.
Existem, sobretudo, por meio destas últimas. Dois ou três poemas.
Não obstante, através da sua presença excepcional, o espírito se recupera em cada página.
E isso é o que me interessa.
Sei, por fim, o que eu disse está dito; minhas palavras só a mim pertencem.
Mas, depois de tudo, a minha grande emoção e a trágica experiência do meu espírito são autênticas.
E esse é o ponto de partida desde o qual, e por meio de esforços melhores, os jovens que verdadeiramente odiamos, o passado e o presente, a força de amar o porvir, lograremos, se não alcançar, pelo menos preparar aquele vasto equilíbrio que haverá de libertar a humanidade, fazendo-a revelar-se a si em sua essência mais íntima.”

§

ANCLAS OPUESTAS
Ahora que el camino ha muerto,
y que nuestro automóvil reflejo lame su fantasma,
con su lengua atónita,
arrancando bruscamente la venda del sueño
de las súbitas, esdrújulas moradas,
hollando el helado camino de las ánimas,
enderezando el tiempo y las colinas, igualándolo todo,
con su paso acostado;
como si girásemos vertiginosamente en la espiral de nosotros mismos,
cada uno de nosotros se siente solo, estrechamente solo,
oh, amigos infinitos.

(100, 200, 300,
miles de kilómetros, tal vez).
El motor se aísla.
La vida pasa.
La eternidad se agacha, se prepara,
recoge el abanico que del nuevo aire le regala nuestra marcha;
en tanto que enterrado su osamenta de kilómetros y kilómetros,
los cilindros de nuestro auto depáranse a la zona de nuestros propios muertos;
he ahí los antiguos héroes dirigiéndonos sus sonrisas de altivos y próximos espejos;
mas, junto a ellos, también resiéntense,
los rostros de nuestros amigos,
los de nuestros enemigos,
y los de todos los hombres desaparecidos;
nuestro automóvil les limpia el olvido con el roce delirante de sus hálitos.

Como esas manos de mármol que se saludan a la entrada de las tumbas,
nuestro automóvil seráfico ratifica el gran pacto,
que a ambos lados de la ruta, conjuradas,
atestiguan las súbitas, esdrújulas viviendas golpeándose entre sí…

Ahora que el camino ha muerto,
y que nuestro automóvil reflejo lame su fantasma,
con su lengua atónita,
como si girásemos vertiginosamente en la espiral de nosotros mismos,
cada uno de nosotros se siente solo, indescriptiblemente solo,
oh amigos infinitos!

ÂNCORAS OPOSTAS

Agora que o caminho está morto,
e que o reflexo do nosso automóvel lambe seu fantasma,
com sua língua atônita,
arrancando bruscamente a venda do sono
das súbitas, esdrúxulas moradas,
pisando sobre o gelado caminho dos ânimos,
endereçando o tempo e as colinas, igualando tudo,
com seu passo acamado;
como se girássemos vertiginosamente na espiral de nós mesmos,
cada um de nós se sente só, estreitamente só,
ó, amigos infinitos.

(100, 200, 300,
milhares de quilômetros, talvez.)
O motor se isola.
A vida passa.
A eternidade se agacha, se prepara,
recolhe o leque que do novo ar dá nossa marcha;
como se estivesse enterrada sua ossada de quilômetros e quilômetros,
os cilindros do nosso carro deparam-se com a zona dos nossos próprios mortos;
aqui estão os antigos heróis nos dirigindo seus sorrisos de altivos e próximos espelhos;
mas, junto a eles, também resistem,
os rostos dos nossos amigos,
os dos nossos inimigos,
e os de todos os homens desaparecidos;
nosso automóvel os limpa do esquecimento com o roçar delirante dos seus hálitos.

Como essas mãos de mármore que se saúdam na entrada das tumbas,
nosso automóvel seráfico ratifica o grande pacto,
que ambos os lados da rota, conjurados,
testemunham as súbitas, esdrúxulas vivendas golpeando-se entre si…

Agora que o caminho está morto,
e que o reflexo do nosso automóvel lambe seu fantasma,
com sua língua atônita,
como se girássemos vertiginosamente na espiral de nós mesmos,
cada um de nós se sente só, indescritivelmente só,
ó, amigos infinitos!

§

AZUL DESHABITADO
Y, ahora, recordando mi antiguo ser, los lugares que yo he habitado,
y que aún ostentan mis sagrados pensamientos,
comprendo que el sentido, el ruego con que toda soledad extraña nos sorprende
no es más que la evidencia que de la tristeza humana queda.

O, también, la luz de aquél que rompe su seguridad, su consecutiv’atmósfera,
para sentir cómo, al retornar, todo su ser estalla dentro de un gran número,
y saber que “aún” existe, que “aún” alienta y empobrece pasos en la tierra,
Pero quién está ahí absorto, igual sin dirección,
solitario como una montaña, diciendo la palabra entonces:
de modo que ningún hombre puede consolar al que así sufre:
lo que’ él busca, aquéllos por quienes él ahora llora,
lo que ama, se ha ido también lejos, alcanzándose.

AZUL DESABITADO

E, agora, recordando meu antigo ser, os lugares que habitei,
e que ainda ostentam meus sagrados pensamentos,
compreendo que o sentido, a prece com que toda solidão estranha nos surpreende
não é mais do que a evidência de que a tristeza humana permanece.

Ou, também, a luz daquele que rompe sua segurança, sua consecutiva’ tmosfera,
para sentir como, ao retornar, todo seu ser estoura dentro de um grande número,
e saber que “ainda” existe, que “ainda” alenta e empobrece passos na terra,
mas quem está ali absorto, igual, sem direção,
solitário como uma montanha dizendo a palavra então:
de modo que nenhum homem pode consolar o que assim sofre:
o qu’ele busca, aqueles por quem ele agora chora,
o que ama, partiu também para longe, alcançando-se!

§

CANCIÓN AL PRÓFUGO
Golpeando l’aguda meta con su escudo monótono, hay,
desde que te fuiste, diez almas en tu porte;
rompe ese cielo inmediato, lineal, para que se junte tu vida
y dame, oh prófugo, el último oasis de ese viaje, tus pasos
desnudos por el camino único y el sol cerrado
que lava la pena de esa tierra sabia, tu frente ácida, dame
el solo sentido que ahí existe para hablar
y estaremos juntos SIEM-
pre!

CANÇÃO AO FUGITIVO

Golpeando a aguda meta com seu escudo monótono, há,
desde que foste, dez almas em teu porte;
rompe este céu imediato, linear, para que se junte tua vida
e dai-me, ó fugitivo, o último oásis dessa viagem, teus passos
descalços pelo caminho único e o sol fechado
que lava a pena dessa terra sábia, tua fronte ácida, dai-me
o sentido sozinho que aqui existe para falar
e estaremos juntos SEM-
pre!

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