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Marcelo Lotufo

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Marcelo Lotufo é crítico literário, prosador, tradutor, editor e pesquisador pós-doutor em História da Literatura na Unicamp. Traduziu para as Edições Jabuticaba que tempos são estes e outros poemas, de Adrienne Rich, Os elétrons (não) são todos iguais, de Rosmarie Waldrop, e ‘Sotto Voce’ e outros poemas, de John Yau. Editou em Cuba, para as Ediciones Santiago, o volume La selección: 11 poetas brasileños hoy. Atualmente trabalha na tradução de uma coletânea da poeta americana C. D. Wright.

*

SP 270 (Raposo Tavares)

1)

À frente, uma bandeira colorida. A tropa de bandeirantes se prepara para mais uma incursão. No que viria a se chamar Brasil. Aqui, o passado sobrevive. Em vestígios nem tão sutis. Cada palavra, cada detalhe, cada ferida. Importa. Mais do que imaginamos. Como a pontuação de um poema. Como vírgulas na constituição. Indicam um caminho. Que talvez não tomaremos. Ou que tomamos sem perceber. Brasil, ame-o ou deixe-o. No tempo da minha infância a estrada se chamava Raposo Tavares. E ela ainda se chama assim. É um destes traços. E eu a tomo todos os dias. Um passado sem resolução. Que aponta para o futuro. Que define o presente. Um resquício que nos informa. E explica por que trinta anos não valem mais do que um verão.

 

2)

Um passo a frente e o país cresce mais um metro. A estrada já foi uma mera picada. Esperando ser aberta. O que vale mais, um metro de terra ou um quilo de carne. Os bandeirantes que partem vão repetir contra os índios o que com os próprios índios haviam aprendido. No caminho da casa onde cresci, homens armados buscavam ouro. Buscavam o outro. Para não reconhecê-lo. Como igual. A estrada que corta a minha memória, também corta o Brasil. Em muitos outros ângulos. A estrada e os seus acidentes. Que apagam outros acidentes. A estrada e os seus crimes. Uma caravana de horrores. Um homem morto na pista. Vidas que não terão sua história contada. Escondidas atrás de outros nomes.

 

3)

Para continuar vivos, precisam vencer os inimigos. Mas os lados da proposição não são equivalentes. O embate nunca é justo. Palavras definem escolhas. Já tomadas. Denotam lados. Heróis contra vilões. Selvagens contra civilizados. Moradores contra invasores. Os que cobiçam contra os que desejam a liberdade. Quantos nomes poderia ter uma única estrada. Pela qual em uma única viagem, 20 mil peças voltariam amarradas. Em que momento fizemos esta escolha. Do nome que esconderia outros nomes. 20 mil negros, negras, índios e índias. Em uma única viagem. Carregando pesadas correntes de ferro, cada uma com 4 metros e meio de comprimento, com trinta colares fechados por cadeados. Recebidas com alegria na cidade. Como novas mercadorias. O ouro que não encontraram. A riqueza que faltava. Para sermos herdeiros. De um projeto de destruição. Que nunca pôde dar certo. O Brasil crescia mais um metro.

***

 

 

 

 

 

 

4)

 

Vencida a serra, a conquista do planalto. Na televisão, uma grande passeata, muitos anos depois. Mais uma. Por um instante parece que algo pode mudar. Que descobriremos outra camada. Da nossa história. Outra verdade. Outro projeto. Esquecemos que a cobiça não tem fim. Que o desespero se auto-fagocita. Em nome de Raposo Tavares, eu voto sim. Pela promessa de destruir terras e riquezas. Pelo direito de me achar predestinado. De continuar na mesma estrada. Herdeiro do mesmo projeto. O peso mal distribuído entre nós. O mesmo nome. Escondido atrás de outros nomes. Cruza mais uma vez o país.

 

 

5

 

Na derrota, o caminho aberto a ferro e fogo. Quem celebrará a vitória. Quando não houver mais espólio para ser tomado. Quando não houver mais nada. Quando ela se transformar na derrota. Que sempre foi. A quem interessa continuar neste caminho. Manter este nome. Queimar esta mata. Abrir outra picada. Escravizar a diferença. No começo dos anos noventa, faltava gasolina. É uma de minhas primeiras memórias. A estrada transformada em fila. Perdendo a sua função. Antes que eu soubesse quem era Raposo Tavares. A estrada, parada, enquanto esperávamos. Alguma mudança. A mesma gasolina que faz o carro andar. Também pode queimá-lo. Mas nada acontece. Os nomes mudam. Mas continuam os mesmos. Nos mesmos lugares. E as correntes continuam pesadas. Para aqueles que as carregam. Na Raposo Tavares. Antes mesmo que ela tivesse este nome. Antes mesmo que fosse a estrada da minha casa.

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