crítica, xanto

XANTO|Poesia brasileira, livros da década: partes I e II

uma casa para conter o caos
dez anos de poesia brasileira
[2008 – 2018]

O professor da UFMG e crítico Gustavo Silveira Ribeiro escolhe e comenta os livros mais importantes da última década na poesia brasileira. Uma série de brevíssimos ensaios sobre algumas das vozes que marcaram a lírica contemporânea de 2008 para cá. Antecipamos aqui os dois textos da série, que em breve estará, completa, na página da escamandro. Um aviso aos navegantes: os livros não estão aqui numa numeração qualitativa de lista; o projeto aqui não é esgotar o interesse da poesia brasileira, por isso mesmo os livros foram aqui escolhidos por múltiplos critérios.

* * *

I. uma arte como a sombra temperando a luz
Icterofagia
2008 – Hedra
Dirceu Villa
[São Paulo – 1975]

Poeta das máscaras e das múltiplas vozes, Dirceu Villa assume de modo bastante consciente, neste que é o seu mais complexo e extenso livro, a dupla lição de Ezra Pound: o poeta deve ser muitos sendo um só, cantando/escrevendo à maneira de outros, domando estilos e perspectivas que não são (não podem ser) as suas; o seu tempo, por sua vez, estará conectado a todos os outros tempos – ser contemporâneo é pertencer a todas as épocas (com ênfase na sua, no seu momento histórico), entrando e saindo por elas sem se deixar prender por nenhuma. Icterofagia combina, nesse sentido, o impulso em direção ao novo e à experimentação formal típico das vanguardas com a solicitação permanente da história literária e da tradição (são mais decisivas as reverberações da Antiguidade e do Medievo, mas há também traços da lírica de outros tempos da Modernidade, do século XVI ao XX), o que dá aos seus versos uma dicção bastante singular, posta entre a ordem severa dos clássicos e a tormenta desestabilizadora (e profícua) dos modernos; entre, enfim, as questões – de ordem ética e estética – ainda abertas e prementes, formuladas há milênios por poetas e filósofos, e os dilemas do tempo presente, que estranham e refratam aquelas questões, acrescentando a elas novas dimensões, que, no entanto, não satisfazem as suas demandas. No livro, a invocação das musas, dos mitos (recorde-se, aqui, o belo e emblemático poema “DISCURSO FLORAL DE DAFNE TRANSFORMADA EM LOUREIRO”, que justapõe Ovídio e Radiohead, a imaginação poética do mundo antigo, centrada no processo da metamorfose, e a visualidade comum à poesia do século XIX e XX, de Mallarmé, cummings e a Poesia Concreta) e dos trovadores se dá sobre a matéria impura dos dias que correm, eivada de burocracia, progresso e estratégias de marketing. A crítica ao mundo contemporâneo proposta nos versos de grande apuro formal, ao mesmo tempo atualiza a força derrisória dos mestres do passado (fazendo-os pensar indiretamente, por deslocamento, questões de outro momento histórico) e alonga, de modo quase indefinido, a carnadura trágica dos conflitos que assolam o mundo atual, na medida em que eles se projetam em contradições arcaicas, fundadoras. O poema dramático e a sátira são duas formas-força do passado revisitadas com maior interesse e perícia por Villa, que as toma como campo de experimentação, seja pelo aspecto anacrônico que têm diante das fórmulas poéticas do momento, seja pela atualidade urgente que elas podem ter – dado que acrescentam ao repertório político da lírica contemporânea um caráter sibilino e mordaz (caso da sátira) que as certezas e assertivas muito diretas de certa poesia presente não deixam ver, ou ampliam as possibilidades expressivas do poema a partir do efeito de deslocamento e pluralização que o drama-poesia oferece, uma vez que se abre ao simulacro de uma outra voz e à encenação (por vezes mais aguda) de um conflito entre tempos, valores, classes ou pontos de vista distintos. Erudito, multilíngue, rigoroso, o livro (cujo título remete à devoração de uma cor, indicando a incorporação, pelo poeta, do que há de melhor e de pior – o ouro e a bile) certamente foi menos lido do que poderia, mantendo-se, por vezes, à margem do debate que tem sacudido, bem ou mal, a cena poética brasileira. Ainda assim, no entanto, figura entre suas criações mais relevantes e desafiadoras, dialogando e se desdobrando na obra de poetas como Ricardo Domeneck, companheiro de geração de Dirceu, e Guilherme Gontijo Flores, cuja estreia se deu 15 anos depois do primeiro livro do autor.

§

II. uma mulher de tijolos à vista
Um útero é do tamanho de um punho
2012 – CosacNaify
Angélica Freitas
[Pelotas – 1973]

Um dos livros de maior impacto das últimas décadas no universo da poesia brasileira (em números de vendas e na presença no debate público do país), Um útero é do tamanho de um punho tem no riso e na paródia as suas principais apostas, num discurso que se arma, sempre crítico, pelos deslocamentos e pela desproporção típicas do humor, de um lado, e pelo gume terrível da derrisão de outro, a partir do qual todas as coisas que têm lugar no poema, inclusive as mais graves (o direito ao aborto, o homoerotismo e a homofobia, a misoginia difusa no tecido social brasileiro, o feminicídio), só se validam pelo olhar desabusado que de tudo ri. Os modos de composição privilegiados são as formas seriais da repetição, visíveis sobretudo nos temas e voltas da poesia antiga ou do cancioneiro popular retomados no livro, e nos poemas de estrutura anafórica que se fazem como ladainhas ou fórmulas de propaganda, utilizando a saturação como estratégia: pela repetição exaustiva alcança-se o efeito do ridículo, da piada que se impõe pela extensão sem limites de um mesmo procedimento ou informação; pela repetição, a violência invisível de um fato qualquer (por exemplo, o desprezo pelas mulheres difundido – e naturalizado – em pequenas frestas da linguagem comum) vem à tona, tornado assim absurdo e insuportável aos olhos de quem antes não o notava; pela repetição, por fim, a maquinaria do poema se revela ao leitor, num processo de desnudamento da operação poética que acentua, ainda mais, o seu caráter crítico, posto que distancia o leitor de qualquer apreciação desatenta e leve desses textos. Eles são artifícios, antipoesia, peças sem qualquer confissão sentimental ou desejo de enlevo: preferem, ao contrário, o desconforto e a reflexão. O tema fundamental do livro – os muitos modos da violência contra as mulheres e as formas várias que elas têm de enfrentá-los – foi inventivamente assumido por Angélica Freitas, que contorna as suas armadilhas e seduções fáceis com bastante habilidade e verdadeiro tino teórico: ao dar dimensão coletiva e impessoal aos seus poemas, afastando-os de modo tático da expressão de um eu individual e circunscrito, a autora potencializa a radicalidade da discussão de gênero que se dá no livro, levando às últimas consequências algumas das indagações sobre as quais seu projeto se estrutura: sobre as potencialidades do feminino, suas possibilidades de enunciação e suas liberdades; sobre a natureza dos poemas (seu aspecto genérico, seu estatuto formal, sua discursividade feminina mesma, uma vez que escrever, no livro, é tarefa por excelência das mulheres, dada a simetria entre útero e punho proposta desde o título); sobre a condição disruptiva (em relação à lei, ao Estado e à própria instituição literária) que os poemas portam. Essa modulação discursiva que se move entre o pessoal e o público, entre o relato de si e a luta coletiva tem marcado a fogo a poesia brasileira dos últimos anos, deflagrando uma onda de respostas e incitações ao diálogo, num desrecalque de temas e pontos de vista antes improváveis entre nós. Por si só isso já confirma a força, a originalidade e a pertinência (estética, política) do projeto.

Gustavo Silveira Ribeiro

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