xanto

XANTO|Poesia brasileira, livros da década: partes III e IV

uma casa para conter o caos
dez anos de poesia brasileira
[2008 – 2018]

Partes III & IV

Como anunciado e começado ontem, seguimos hoje com a série de livros escolhidos pelo professor Gustavo Silveira Ribeiro. A quem não tenha visto o post anterior, vale reforçar o anúncio: os livros não estão aqui numa numeração qualitativa de lista; o projeto aqui não é esgotar o interesse da poesia brasileira, por isso mesmo os livros foram aqui escolhidos por múltiplos critérios.

* * *

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III. saber contido em seu ser-de-céu
Roça Barroca
2011 – CosacNaify
Josely Vianna Baptista
[Curitiba – 1957]

Composto por poemas que flutuam entre a dicção popular e a experimentação de vanguarda, e também por traduções de cantos sagrados indígenas, pequenos ensaios e notas explicativas, Roça barroca é um livro múltiplo e inclassificável, verdadeiro amálgama de tradições e linguagens que vai, em oscilação permanente, da ciência à arte, do discurso antropológico moderno à imaginação poética arcaica, do mundo social agrário e interiorano (a roça) ao universo estético – ibero-americano, fundamentalmente – dos volteios e dos excessos (o Barroco). Sua natureza compósita revela o que há no projeto de estranhamento e desejo de travessia. No livro, a tradição ocidental, descentrada, convive com outros entendimentos sobre a linguagem e a poesia, colocando em suspenso, continuamente, o sentido da escrita e da atividade poética, que ora é registro de palavras, sons e mitos ameaçados (pelo extermínio, pelo esquecimento, pela invisibilidade), em dimensão etnográfica imediata, ora é construção de uma nova língua e de novas formas expressivas – contaminadas por certo sopro épico e coletivo, que deixa ver ainda a busca por modos outros de inscrição poética da subjetividade, assentada agora na deslocamento do olhar individual e na renúncia ao passado pessoal como fonte privilegiada de conhecimento e emoção lírica. A presença da língua e dos mitos Mbyá-Guarani dá ao volume um caráter de “viagem sem rumo/e sem fim” em direção ao passado e às origens, ao abrir uma dobra na História e inserir nela a perspectiva dos povos nômades e sem escrita, cuja visão de mundo convive, desse modo, em pé de igualdade com os valores e mitos dos inícios do Ocidente. Esse processo de hibridação cancela certezas metafísicas e instala o leitor num campo de especulação aberto, que se prolonga para várias direções possíveis. Em todos os poemas que compõem Roça barroca, mesmo nos que não se alimentam diretamente dos ritos e falas ameríndias, há como que um ponto de fuga, um modo dissolvente de composição que estranha as formas poéticas e o próprio uso convencional da língua portuguesa, tocadas ambas por um saber transcultural e babélico, próprio das “l i n h a s o b l í q u a s” tão caras ao imaginário geral que atravessa o livro, marcado pela espontaneidade de contornos das plantas, pela sinuosidade dos rios, pela matéria amorfa do barro e pelos ziguezagues de bichos e homens através do campo aberto, sem pouso ou destino certo – distantes, nesse sentido, da racionalidade, do passo objetivo, dos ordenamentos funcionais do mundo urbano e industrial (e seus correlatos literários). Se a poesia de Josely Vianna Baptista sempre ocupou posição singular na lírica brasileira, seja pelo diálogo bastante original que teceu com o legado da Poesia Concreta desde o seu primeiro livro, Ar (1991), seja pelo seu convívio prolongado com tradições latino-americanas pouco comuns no país, a partir do projeto levado a cabo nessa Roça Barroca (e que não se sabe que desdobramentos terá, pois a autora ainda não deu ao público outro livro de poemas) a poeta inventa para si uma trilha particular, percurso muito próprio por caminhos pouco ou nada conhecidos pela poesia de língua portuguesa.

*

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IV. estrela de contrabando no bolso
Trans
2011 – CosacNaify
Age de Carvalho
[Belém – 1958]

Age de Carvalho é poeta da forma mínima, da palavra revirada ao avesso, plurissignificante, da língua fraturada e babélica, da consciência poética levada quase às últimas consequências, para quem qualquer letra, traço, sinal diminuto no papel (ou ainda a mancha gráfica do poema, vista como dado significativo da composição) importam tanto quanto uma estrofe inteira, uma frase completa e grandiloquente, todo um aparato retórico. Seu verso curto e preciso abriga, o mais das vezes, uma sintaxe que se torce, um esforço de voltas e negaceios que nos instala num território que se poderia chamar, ao mesmo tempo, neobarroco e minimalista, se admitimos o evidente paradoxo. Dentre os poetas brasileiros do presente, Age talvez seja aquele que melhor deglutiu e meditou dois autores decisivos do século: Paul Celan, quase sempre à beira do silêncio, e Haroldo de Campos, em especial a porção final de sua obra, a poesia pós-utópica que se espalha entre A educação dos cinco sentidos [1985] e Entremilênios [2009, póstumo], construindo, em diálogo com essas duas referências tão distintas, poemas graves e reflexivos, poemas-prece nos quais a visualidade ocupa ainda lugar decisivo, sem no entanto deixar-se fixar na forma estandartizada da poesia concreta, preferindo a fragmentação atomizada da palavra, que se escande na página letra a letra, ponto a ponto. Poeta do exílio e da passagem (cujos poemas flutuam tensamente entre países, tempos, línguas e culturas), Age de Carvalho consolida em Trans a dimensão anfíbia que sua poesia buscava há muito, desde, pelo menos, Areia, arena (1986), livro no qual se aproximavam, ainda de modo incipiente, a pedra e o céu, o chão e o espírito, elementos fundamentais para o poeta nos volumes que virão – Pedra-Um (1990), Caveira 41 (2003), Ainda: em viagem (2015) e, pelo que indicam os inéditos já divulgados, o livro por vir De-estar – entrestrelas. Profundamente assentados na matéria do mundo (povoam os seus versos, essenciais a eles, plantas, paisagens, ossos e outras formas minerais, além de inúmeros corpos humanos), os poema de Trans apontam também para o transcendente, para tudo aquilo que, na vida, é fresta para o sublime e o sagrado: a perscrutação das origens, o sexo, a morte, a persistência da vida na sucessão das gerações, a arte. Imagem muito frequente no livro e em seus trabalhos mais recentes, as estrelas indicam o desejo expansivo dessa poesia, que parece recordar aos homens a sua dimensão cósmica e elevada – atenta às coisas da terra, incontornavelmente, mas jamais desligada do mistério insondável que nos cerca, cobre e constitui.

* * *

O que ainda virá:

nenhum poema é mais difícil do que sua época
Monodrama
2009 – 7Letras
Carlito Azevedo
[Rio de Janeiro/RJ – 1961]

§

o que quer que o meu corpo escreva
Modelos vivos
2010 – Editora Crisálida
Ricardo Aleixo
[Belo Horizonte – 1960]

§

lamber o mundo com a própria língua
Ciclo do amante substituível
2012 – 7Letras
Ricardo Domeneck
[Bebedouro – 1977]

§

aqui a luz faz o contrário de iluminar
Um teste de resistores
2014 – 7Letras
Marília Garcia
[Rio de Janeiro – 1979]

§

um acordo tácito com as coisas vivas
O livro das semelhanças
2015 – Companhia das Letras
Ana Martins Marques
[Belo Horizonte – 1977]

§

pedra angular dos sem palavra
Qvasi
2017 – 34
Edimilson de Almeida Pereira
[Juiz de Fora – 1963]

§

nesta ausência de distinção entre nós
Trilha
2015 – Azougue Editorial
Leonardo Fróes
[Itaperuna – 1941]

§

a noite explode nas cidades
Vinagre: uma antologia de poetas neobarracos
2013 – Os vândalos
Fabiano Calixto & Pedro Tostes (org.)
[Garanhuns – 1972
Rio de Janeiro – 1981]

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