crítica, xanto

XANTO|Poesia brasileira, livros da década: parte VII

uma casa para conter o caos
dez anos de poesia brasileira
[2008 – 2018]

Parte VII

Como anunciado e, agora, dando continuidade, seguimos hoje com a série de livros escolhidos pelo professor Gustavo Sivleira Ribeiro. A quem não tenha visto os posts anteriores, vale reforçar o anúncio: os livros não estão aqui numa numeração qualitativa de lista; o projeto aqui não é esgotar o interesse da poesia brasileira, por isso mesmo os livros foram aqui escolhidos por múltiplos critérios.

* * *

nenhum poema é mais difícil do que sua época
Monodrama
2009 – 7Letras
Carlito Azevedo
[Rio de Janeiro/RJ – 1961]

Monodrama é um livro sujo, convulsivo, no qual a forma em desagregação do poema convive e se mistura com o estado permanente de crise em que o mundo aparece mergulhado – não apenas o Brasil. Num certo sentido, pode-se dizer que o livro antecipa (num movimento que continua e radicaliza o que já havia feito Tarso de Melo em Planos de fuga (2005), ao passo em que dialoga com o que no mesmo ano indicava Eduardo Sterzi em Aleijão (2009)) o mal-estar que se instalaria na cultura brasileira (com a literatura à frente) poucos anos depois, no pós-2013, mas que no momento preciso de sua publicação talvez não se deixasse perceber em meio à euforia do crescimento econômico e das políticas de redistribuição de renda àquela altura em seu auge, entre o fim do governo Lula e o primeiro mandato de Dilma Rousseff. A alternância entre o verso curto, veloz e fraturado (que não traz mais a limpidez do corte preciso – cabralino, para alguns – que marcaria a lírica minimalista dos anos 1990) e a prosa cumulativa, às vezes próxima da crônica alucinada, às vezes configurada como diário íntimo ou como ficção especulativa, singularizam o livro no panorama da poesia brasileira, dando a ele, ainda, forte lastro político, já que a forma em crise aberta e a paisagem de catástrofes que se insinuam nos poemas são, de fato, uma coisa só no livro, sobrepostas sem qualquer interrupção. Há como que um movimento pendular que atravessa e constituiu Monodrama,segundo o qual os seus textos ora se aproximam do discurso poético, visto como modo de resistência e sobrevida da beleza e de formas autênticas de habitar o mundo, ora o rejeitam fortemente, esgarçando o seu tecido pela ironia e pela violência, num movimento que se coloca em sintonia, por exemplo, com elaborações negativas da antipoesia de Nicanor Parra (com sua anti-grandiloquência característica, avessa também ao sentimentalismo barato ou à confissão melodiosa e autoindulgente) ou ainda com as tentativas de saída do território da poesia operadas por certos poetas franceses das últimas décadas como Jean-Marie Gleize, entre outros, que pressupõem outros territórios, como a prosa, para o reposicionamento do poético. Reconhecido por críticos e por outros poetas como uma referência incontornável de seu tempo, a época das promessas e da catástrofe no Brasil, o livro de Carlito pode ser rastreado em diferentes projetos criativos desenvolvidos nos anos seguintes, dos quais o perturbador Nominata morfina (2014), de Fabiano Calixto, composto inteiramente por poemas em prosa, talvez seja o exemplo mais bem elaborado. 

* * *

O que ainda virá:

lamber o mundo com a própria língua
Ciclo do amante substituível
2012 – 7Letras
Ricardo Domeneck
[Bebedouro – 1977]

§

aqui a luz faz o contrário de iluminar
Um teste de resistores
2014 – 7Letras
Marília Garcia
[Rio de Janeiro – 1979]

§

pedra angular dos sem palavra
Qvasi
2017 – 34
Edimilson de Almeida Pereira
[Juiz de Fora – 1963]

§

nesta ausência de distinção entre nós
Trilha
2015 – Azougue Editorial
Leonardo Fróes
[Itaperuna – 1941]

§

a noite explode nas cidades
Vinagre: uma antologia de poetas neobarracos
2013 – Os vândalos
Fabiano Calixto & Pedro Tostes (org.)
[Garanhuns – 1972
Rio de Janeiro – 1981]

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