poesia

um poema inédito de André Nogueira

Igrejinha Mariana

Fotografia de Caio dos Santos

André Nogueira é poeta, tradutor e ensaísta, nasceu em 1987 na cidade de Herdecke, Alemanha Ocidental. Registrado cidadão brasileiro no Consulado em Munique, vive atualmente na cidade de Campinas. Formado em Filosofia pela Universidade Estadual de Campinas e em Literatura e Cultura Russa pela Universidade de São Paulo. É Autor de Pontualmente ao Encontro ou Pomos, um Adão Cada (Ed. Medita, 2011),  O Manifesto Lenitivo (Ed. Urutau, 2015), e O Presidente me quer morto (Ed. Urutau, 2019); já apareceu na escamandro com traduções de Marina Tsvetáieva e poesia autoral.

*

Notre Dame do Agreste
(ou “Não existe uma mãe que não sangre”)

1.

Aqui não existe milagre dos peixes.
Entre seixos e caveiras,
vestidinhos
de boneca.

Nos altares resplandece
da cidade a padroeira
— pelos séculos! —

Ornada a igrejinha
— pisca-pisca e bandeirola —
todo o povo se acerca
para ver…

“Nos cobri com vosso manto, minha Mãe”.
E, como os santos das abóbodas
caíssem sobre o coro,
a ninguém a tensa prece
mais consola.

Até que enfim no campanário o sino dobra!
O povo canta na quermesse
sob o choro
de violas.

Pelo manto tão fino de seda
azul-claro como as águas
de nascentes
cristalinas,

Pelo roto vestidinho da boneca
e pela lágrima que seca
da menina,

Por cada igrejinha de Minas,
Notre Dame do agreste,
esquecida de Deus e o resto
e do mundo,

Que num manto de poeira — ela se veste,
chora igual a carpideira
sobre a tumba,

Que num último repique — ela afunda,
badalando vai a pique,
volta a torre a se esconder
na catacumba,

De olhos fechados e guelras abertas,
o grito inaudível
abafado
de tristeza:

Da campana o afogado som de alerta
pelo pranto represado
e pelo nível
da represa.

2.

Que na pedra se edifica,
em prata rica
se enfeita, —
Igreja santa e prostituta!

Com o manto azul de seda,
com a cruz na mão esquerda
e a espada na direita —
ela exulta.

Museu a céu aberto e soterrada catacumba,
pedra de toque
e tropeço,

Que entregou pelo minério
o mistério de seus terços,
terça parte
dos altares que relumbra…

Todo mundo tem seu preço.

Adorada e maldita,
a carne apodrece
na tumba,

Mas de mármore ou granito
a escultura que habita
a solidão dos cemitérios, —
o sino de cobre e até os canhões
de chumbo, —

De marfim os seus archotes,
de prata seus ícones,
ricos minérios e até
suas pérolas líricas, —
alto quilate
de ouro mundano
que as obras de arte
lhe banha, —

Assim o templo do Senhor é para sempre,
imperecível como a rocha
e, ao redor, essas montanhas.

Imperecível, com certeza, uma pedra angular,
não fosse o nível
da represa
uma última vez
lhe banhar.

Mas se na Terra nem a terra
se mantém em seu lugar,
se derreteu a rocha eterna
e virou pedra
o coração,
portanto peca, peca mesmo e com paixão!
Entre pérolas peca, entre lama
e vestidinhos de boneca, —
o sangue derrama
e o corpo de Cristo
no chão.

Então mergulha no avesso
de teu fim e teu começo,
— Tu, do espírito a seara
e da carne a carcereira! —
nem o joio não separa
nem o ouro — na peneira.

Pois devora teus defuntos
junto com
teus sacramentos,
do maná celestial te satisfaz
e a sétima praga.
E goza o começo
do fim,
os archotes apaga.
Por eles o preço
é mais que marfim:

— Aqui se faz, aqui se paga.

3.

Mas, pobre igrejinha, — tão longe de Roma!
Com sacrários de vidro
e com Madonas
de madeira,

Barroco tosco das colônias,
de barro encardido
e poeira!

Não importa o quão alto badale,
o tremor das explosões
é mais forte!

A sombra da morte passeia no vale.
Pois, se a fé move montanhas,
o dinheiro —
as explode.

Igrejinha de Minas, tão rica e tão pobre.
Barroca e pudica,
de lírica sóbria.

De oratórios embriaga-se e de música,
o espírito a habita —
os cochichos e fofocas
de anciãs e senhoritas,
de crianças e viúvas
choramingo.

Cemitério que, tomado pelo musgo,
esverdeia sob a chuva,
onde a aranha fez a toca
num jazigo —

(Sudário da teia que envolve
o rosto de Cristo).

Não pode ser que também os seus mortos
a terra devolve,
também serão rotos
seus véus, pela última vez
serão vistos!

Pelo buraco da agulha,
na muralha a portinhola,
passará toda a montanha
que esmorece,
vindo ao chão mergulhará sua campana,
as bandeirolas
da quermesse.

Não pode ser que,
sob o olhar indiferente das nações,
a seus pés abra-se a fenda,
que sobre os seus santos
de pau, sobre os mantos
bordados de renda —
a latrina do mundo derrame!

Antes que cale o coral da capela
das sirenes a trombeta,
do quintal da cidadela
a todo o planeta
— pelos séculos dos séculos! —
bem alto se proclame:
— Existe a nossa
Notre Dame!

Aí está ela, cravada no agreste,
bendita, divina.
Que o mundo inteiro possa
ouvir o dobre
desse sino.
Com seu manto verde-azul ela nos cobre,
é do próprio Criador
a obra prima.

O lambari do pescador
e do poeta — sua rima.

4.

E o que você queria?
Por acaso, uma mãe de pedra fria,
a mão furada da escultura
e que segura a flor de quartzo?

Que, no sol queimando as costas,
no rosto gelado do filho
o regaço,

A mãe de pedra assim se prostra,
inerte e dura sob o véu,
ensimesmada nesse abraço.

Da sepultura o tampo gélido
entre o talhe do cinzel
e a ferida do flagelo,
entre o céu
e o cadafalso,

Enquanto a sirene ressoa,
nesse seu eterno gesto
como morto de cansaço,
com a mão nos abençoa…

Até que só restem
pedaços.

5.

Palpita, palpita!
Palpita aquilo
que habita seu corpo.
É quente seu sopro —
o bafo de onça.
Espírito jubila,
estômago ronca —
o esturro. Ouça…
A mata treme à luz da lua:
Em uma só boca —
mais de mil coros.
Socorro! — Aleluia!
Aleluia! — Socorro!

Palpita, palpita!
Mãe de sangue — sim, hosana! —
e mãe de seiva — nas alturas!
Nas alturas e também
nos humildes rincões
da terra.

Transmuta-se e transita
entre feições mais que humanas,
toda e cada criatura
— cem milhões vezes cem! —
nela se encerra.

Não existe uma mãe que não sangre:
na praia, no mangue,
no areal, na mata-virgem…
Poderia não sangrar aquela mãe
que é de tudo e cada qual
a origem?

De todas as fontes — milagre,
de todo jardim — oliveira
e não só

(Porque também a macaxeira
é de vós, Senhora Nossa!) —
todo fruto é de seu ventre
o bendito.

A fronte — queimada de sol,
as mãos — calejadas da roça.
Da aranha tecelã
para a agulha experiente
da vovó Benedita,

É anciã e senhorita:
em novo vestido
a boneca de pano.
É cada história que foi dita
ao pé da roca
pelos séculos fiando.
Assim também terão nascido
os humanos.

Manto — não aquele
que do céu à terra desce.
Nem mãe que, de pedra,
a esperar do véu a queda
na eterna imóvel prece.
Mãe que tece
com o fio de costureira,
corta, prega
— não os pregos do martírio —
botões
de flor.
Botões que um dia florescem
de cravos e lírios
no madeiro que, outra vez primaveril, — Ressuscitou!

Mãe flor, mãe aranha, felina, humana!
Cria raízes, agita as entranhas — Divina-mundana!
Que a todos na teia — emaranha!
No ventre ou nas garras — a tudo ela apanha!

Mãe que se adorna de todas as cores
e com pétalas de flores,
manto verde
das florestas,

Mãe cuja prata, escamas de peixe,
seu milagre pelas redes
de humildes pescadores
manifesta,

Com manto azul de águas claras
cobre a terra
enfeitando-a com asas
de arara,

Gruta que nos pariu,
na mesma gruta
para nós
o leito último prepara.

Mãe que escorre das nascentes
pela frente e pela costa
da serra,

Mãe eternamente prenha
como as fêmeas
das panteras,

Mãe que grita e se desgrenha
sob o ronco da — blasfêmia! — moto-serra,

Verte lava dos vulcões,
no tremor das explosões
também sangra
das crateras.

Que recebe paciente
seu flagelo — ah, que provas
ela enfrenta!

O manto azul-claro deságua
e outra vez ela desova
sua prenda:

O verbo, a quem é de poema,
ao pescador — a piracema.

O milagre dos peixes,
suportando toda dor
e superando qualquer pena,
nada contra a correnteza…

Até com a pedra topar
da represa.

Canta, galho em galho, o colibri.
Assim também os homens cantam:
“Nos cobri
com vosso manto!”

O coro, entretanto, dos anjos
responde em uníssono:
“Senhor,
o sacrifício santifique!”

Olhos gélidos celestes
vão fitá-la do altíssimo,
igrejinha que badala
antes de prestes
ir a pique.

Abra, pois, as guelras
e feche seus olhos,
— Olhos de peixe,
que nunca se fecham,
vigília insone e atenta
da Dama, —

Abra as guelras
e dos olhos
eis que a lágrima derrama.

Deixe que se estenda
outra vez sobre seus córregos,
Mãe Terra,
a mortalha de lama.

Ascensão (fins de maio — princípios de junho) 2019
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