crítica, xanto

XANTO| Poesia brasileira, livros da década: parte X

uma casa para conter o caos
dez anos de poesia brasileira
[2008 – 2018]
seleção, textos & notas
Gustavo Silveira Ribeiro

Continuamos aqui a série de pequenos comentários sobre os livros da década, segundo o crítico Gustavo Silveira Ribeiro. O texto que segue é uma derivação da orelha escrita para a antologia poética POESIA +, de Edimilson de Almeida Pereira, que a Editora 34 publicará no início de dezembro. Qvasi, um de seus últimos livros, é também, a seu modo, uma espécie de releitura da trajetória do poeta.

pedra angular dos sem palavra
qvasi
2017 – 34
Edimilson de Almeida Pereira
[Juiz de Fora – 1963]

*

Arcaico. Informe. Ancestral. Três caminhos que apontam, sem os esgotar, os compromissos de um poeta e os traços de uma poética, que nesse Qvasi alcançam um ponto de inflexão. Esses três termos podem funcionar como palavras-passe para uma poesia exigente, que se entrega aos poucos, feita de voltas no tempo, torções na linguagem e retomadas simultâneas de múltiplas tradições. O livro em tela é feito da matéria impura de línguas e épocas em sobreposição. Cortados com o rigor da melhor tradição moderna (Valéry, Cabral, Ponge) seus versos (enxutos mesmo quando apresentados sob a armadura da prosa) lançam-se sobre a oralidade do interior de Minas Gerias, elaborando nesse encontro, entre saltos e elipses, o poema – uma forma-força peculiar, intervalo entre passado e presente. O repertório de temas e imagens dessa poesia é também território do amálgama: ali estão a especulação filosófica, a racionalidade científica, a pesquisa histórica, e filológica, junto aos casos da gente comum, mateiros e benzedeiras, caçadores e professoras de crianças. O popular e o erudito são continuamente embaralhados no livro, num processo que resulta na desierarquização crítica dos saberes: os discursos do poder não importam, as vozes da cozinha e do terreiro é que oferecem a sua verdade possível. Múltiplos espaços formam o livro: o das paisagens de Ouro Preto e arredores, montanhas e igrejas envoltas pela História; as ruazinhas, as vilas, os territórios perdidos em que se movem, distantes das grandes cidades, homens e mulheres de outra época, atentos a formas de vida resistentes e necessárias. São habitantes da periferia da Modernidade, egressos de quilombos e capoeiras, uma coleção de personagens desviantes (“os letrados”), cujo traço de vida e violência a poesia de Edimilson capta com perícia, movendo-se numa língua que é, ao mesmo tempo, ‘legal’ e ‘letal’, isto é, esforço de nomeação preciso e gesto secreto de negação, fechamento a qualquer operação de sentido. Atentos à lição metapoética que atravessa toda a sua extensa produção (de 1985 para cá já são dezenas de livros, dos quais se destacam Veludo azul [1985], Árvore dos Arturos [1988] e, mais recente mais quase clandestino, Homeless [2010] meditação trágica sobre águas da e cicatrizes históricas), seus poemas aqui meditam a natureza dissolvente do canto e a força cheia de riscos da palavra escrita. A relação do poeta com a sua arte aqui, longe de ser confortável ou atenta a identitarismos de reconhecimento imediato, é ambígua – num só movimento áspera e vital. Retorno ritual, a atividade poética em Qvasi se inclina na direção de sujeitos apagados e vidas menores, tomadas como afirmação de um outro mundo (mais autêntico, talvez) fixado como um enclave potencial no coração do nosso – burguês, convencional e em frangalhos. Poesia pensante, os versos de Edimilson convidam o leitor (num aceno, quem sabe?, a certa tradição crítica que deve à metafísica heideggeriana seus pressupostos fundamentais) a reaprender, ou inventar, os nomes das coisas da terra, desvelando, no esforço de um olhar tantas vezes inaugural, seu lugar e seu sentido.

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