crítica, xanto

XANTO| Poesia brasileira, livros da década: parte XI

uma casa para conter o caos
dez anos de poesia brasileira
[2008 – 2018]
seleção, textos & notas
Gustavo Silveira Ribeiro

Continuamos aqui a série de pequenos comentários sobre os livros da década, segundo o crítico Gustavo Silveira Ribeiro.

aqui a luz faz o contrário de iluminar
Um teste de resistores
2014 – 7Letras
Marília Garcia
[Rio de Janeiro – 1979]

De todos os livros verdadeiramente influentes publicados na última década, talvez Um teste de resistores seja, dentre todos, o mais estranho, isto é, aquele que traz em si maior carga de diferença e negatividade em relação às formas poéticas correntes no país. Nada do que se escrevia entre nós até então de fato antecipava o circuito criativo de Marília Garcia: nem as formas em fuga de um Manoel Ricardo de Lima, nem as suspensões e modos de desaceleração pensante de uma Annita Costa Malufe, nem as tensões da poética de um escritor-crítico como Marcos Siscar, com quem sua poesia tem mais afinidade no Brasil. Mesmo seus livros anteriores, se lidos com atenção, anunciavam com alguma clareza os desdobramentos que ainda estavam por vir. Na passagem de um livro a outro a poeta se movimenta, vai descartando alguns processos enquanto depura outros, mantendo alerta o sentido de busca da sua poética: da tela de colagens e de soma de muitas vozes que é Encontro às cegas (2001) às formulações especulativas, mas ainda concentradas (restritas, modeladas) de 20 poemas para o seu walkman (2007), se nota um trabalho de esgarçamento do verso moderno, distante, mas ainda em diálogo (talvez melhor seria dizer negociação) com algumas referências centrais da sua geração, os que passaram a escrever entre o fim dos anos 1990 e o início do novo século: Francisco Alvim, Ana C., algumas outras vozes da Poesia Marginal carioca; na escrita-deriva de Engano geográfico (2012), na qual acaso, viagem e desconhecimento (questões decisivas para os trabalhos posteriores) se misturam a leituras de teóricos e poetas franceses do presente (Roubaud, Gleize, Alferri) impondo uma textualidade nova, onde também se vê mais claramente como a presença de um eixo narrativo ganhava corpo em seu trabalho. A publicação de Um teste de resistores, no entanto, radicaliza cada uma das questões que seus livros anteriores traziam, deslocando balizas e subvertendo sentidos que pareciam estáveis. O hibridismo, traço recorrente, mas não dominante, no material pretérito transforma-se nele em ponto fulcral: indeterminam-se prosa, verso e imagens; narrativa autobiográfica, reflexão teórica e algum esboço de filosofia; exercícios de uncreative writing, comentários metatextuais e a encenação contínua do ato da criação poética, feita quase como uma performance. Tudo isso e mais inúmeros outros elementos menores acomodam-se, sem solução definitiva e às vezes de modo excessivamente irregular, dentro do livro em poemas longos e inclassificáveis, fluidos e incertos como os ensaios (uma das matrizes formais desses textos, certamente), musicais a sua maneira (Victor Heringer lembrou, no texto da orelha, dos caprichos; talvez seja mais correto pensar, como já se tentou, nos improvisos do jazz) recusando o lirismo confessional e ligeiro de tantos poemas brasileiros antigos e contemporâneos, preferindo os modos da repetição – que conduzem, ou podem conduzir nos seus melhores momentos, à pequena epifania que lança luz oblíqua sobre o poema e a realidade que o cerca. Procurando interrogar a forma do poema continuamente, testando a sua resistência – isto é, a sua duração, maleabilidade e paciência – Marília propõe, às vezes de modo incômodo para certa crítica, que nela vê apenas devaneios teóricos e o abandono do artesanato do verso, caminhos distintos para a sua arte e para a produção poética atual, centrada na observação insistente de um conjunto de procedimentos. Pois essa é, com tudo o que isso implica de potente e eventualmente limitador, uma poética de procedimento. As referências que a poeta passa a mobilizar mais frequentemente a partir daqui (e que permanecem nos livros posteriores, Paris não tem centro [2015] e Parque das ruínas [2018]), Emmanuel Hocquard sobretudo, além de Kenneth Goldsmith, descortinaram leituras e possibilidades criativas pouco exploradas no país até então, perspectivas que colocam em xeque questões como a autoria, a autonomia do poema, a relação entre criação e crítica.

Padrão