poesia

Maíra Mendes Galvão

maíra mendes galvão (Brasília, DF, 1981) é tradutora e poeta. Mestranda na FFLCH/USP, pesquisa teorias da tradução e traduz a poeta modernista Mina Loy. Seus poemas foram publicados em revistas como Raimundo, Diversos Afins, Parênteses, Casulo, Gazeta de Poesia Inédita e Ruído Manifesto. Teve traduções e outros textos publicados na revista Geni e também na Asymptote, com a qual colaborou por um ano. Teve poemas publicados em duas antologias, Golpe: Manifesto, publicada pela editora Nosotros, e Sierra Tropicalia, pela editora mexicana Cielo Aberto. Desenvolveu trabalho de performance poética com Jeanne Callegari em 2018, ano em que também publicou a plaquete nove poemas de mau gosto pela Corsário-Satã. Em 2019, publicou o livro jamanta na testa pela Editora Quelônio e desenvolve trabalho próprio de poesia com áudio. Site pessoal: http://turgescencia.wordpress.com.

a jazida da minha cabeça

na terra cinábrica
ou descorada de sonho
me vi órbitas afora
já morta:
cabeça autodecepada.

os cabelos entremeando a superfície
desenhavam o solo como lava,
a jaca ainda tenra,
glaucas bilas opalescentes;
eu via, olhava fixo, sabia
ser a legomena assassina
a executora da degola
a híbris desvairando arremedada
em cálculos e amolações.

e, examinando, tentava engenhar
o escape e como acordar
com aquele agora eterno
metal na língua
lingote grosso

apuro rômbico e
todavia embuçado
nas meias-tintas da vigília.

viva e morta adejam:
hagia-hetaira-daemonia
aristi cthonia-megara

§

the dream is always the same

pelo olhar sensível de gael, anita foi registrada
ao sorver seu remédio urbano, uma panaceia
de talos nutridos em gosma atmosférica
da dedigrisa pauliceia desvairada

simulacro bem efeito e postado
ante o brilho de coreografado reboliço
de dedos glissantes e stacattos
o par ex-sedento caiu na trombada

no que a chôcha vontade degringolava
e se quase cantava batalha gorada
gael cuidava de martelar o pino
na prenda rosa-médio cada vez mais baça

anita lhe dizia, sem fogo nas bilas vagas
que uma diezira tremenda lhe acometia
ao superlotar-se a polpa sanga
de estandartes fincados em várzea

gael, já morto no banhado
– o coco esbagaçado –
queixou-se de cafubira baita
e baliu: não sei de nada!!!

§

astsu

de membro inferior lançando o início
palavra primícia deposta do centro

estação da ressonância – seme
fórmula como criança de forma feita

invocação propínqua ao silogismo
carrega a letra para os sentidos

estação da abundância – ceva
conservação de posição recíproca

K-metonímico (árvore da senciência)
de frutos necessários e cômodos, mas alheios

octanagem de operação corrente
ka se investe de pluma e cilício

eu tinha bá nos dias da turgência
e mucura na soleira da língua

hapi, autóctone prelado, envia-me cá
nos dias da branca tinta

écfrase-homenagem ao “ka” de khlebníkov traduzido e comentado por aurora bernardini

§

tempos bicudos

lip
lab
lang
langue
linguagem
láparo
long
lab
lip

bo
bo
boca
balal
bela
ba
ba

sim
safa
sofia
safadita
sofis
safo
sim

§

quem, além de f.?

não adivinhar as linhas mas entrar no contratempo da cabeça de f.
esperar por f. e não perceber a mosca que pousa no lábio
pensar na morte, beliscar os seios e f. não constar
escalar a híbris de escalar o complexo de f.
e cair da cabeça de f. sem ver o cume
na mão aberta de f. se tornar míope
no antebraço de f. ser projétil
nem pelo nariz enquadrar f.
sugar a meia-frase de f.
esconder de f.
as outras
letras
de
f.

§

estio

* * *

“a jazida da minha cabeça”, “astsu” – de jamanta na testa, ed. quelônio, 2019

“the dream is always the same” – publicado na gazeta de poesia inédita em 27 de janeiro de 2019

“tempos bicudos” – de nove poemas de mau gosto, ed. corsário-satã, 2018

“quem, além de f.?” – inédito

“estio” – inédito

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