poesia, tradução

Três mulheres, de Sylvia Plath, por Rafael Zacca

Louise Bourgeois, “The Feeding Frenzy”. 

SOBRE A TRADUÇÃO

Sylvia Plath (1932-1963) compôs Três mulheres como um livro-poema radiofônico. Nesse sentido, não foi escrito para ser lido individualmente, em silêncio, mas para ser falado. Inclui, em sua própria forma, um desejo comunitário.

Trata-se, de fato, de uma comunidade de incomuns. As três Vozes do poema são de mulheres que tomaram rumos distintos com relação a uma situação de possível maternidade.

(Sobre a questão da maternidade tanto em Três mulheres quanto em outros poemas de Plath, conferir o artigo de Marina Della Valle que acompanha a tradução da mesma autora em “‘Três mulheres’: Sylvia Plath e a maternidade”, nos Cadernos de Literatura em Tradução n. 8 da USP.)

O poema, encomendado pela BBC, é transmitido pela primeira vez em 1962, no mesmo ano em que nasce o segundo filho da poeta e de sua separação de Ted Hughes.

Muitos viram nos temas que surgem no poema para três Vozes questões centrais na obra posterior de Plath.

Outra chave de leitura possível seria considerar Três mulheres ao lado de outros poemas que tematizam o universo do hospital, como “Acordando no inverno”, “Tulipas” e “Febre 40 graus”, relativamente contemporâneos ao poema radiofônico.

Essa leitura permitiria, talvez, conjugar os pares solidão / comunidade e corpo / incomum com a lei das metáforas em Plath, em sua relação com os pares natureza / cultura. Mas, sobretudo, permitira ver na sua forma de metaforização um duelo entre um corpo que vai morrer e um corpo que insiste em viver.

Sobre a tradução de Três mulheres: o poema de Plath possui poucas versões em língua portuguesa. Em todas elas, um problema central se coloca: como traduzir o uso que Plath faz da palavra “flat” mantendo: a sua conotação simbólica de oposição entre vazio e cheio; a sua sonoridade gerativa (nas semelhanças sonoras produzidas pela palavra em versos como: “Blunt and flat enough to feel no lack. I feel a lack”); e a sua brevidade fonética.

Ana Gabriela Macedo, que traduziu o livro para o português de Portugal pela editora Relógio D’Água, opta pela variação do termo. Às vezes o traduz por “vazio”, às vezes por “raso”, por exemplo, para manter uma polissemia lida pela autora como contradição entre esterilidade e vazio masculino e fertilidade feminina. Já Marina Della Valle alerta que a escolha de um único vocábulo para substituir “flat” também não se apresenta como solução possível sem que algo de muito valioso se perca. Procurou, não obstante, manter suas escolhas vocabulares próximas ao termo “reto”, escolha fundamentada nas leituras que a autora fez dos estudos de Kroll e Folson.

Não consegui localizar uma tradução de Marcia Cavendish Wanderley, que aparentemente está concluída, mas uma versão preliminar pode ser lida no blog “Convite a palavra”, na publicação de 25 de dezembro de 2008, com o título de “TRÊS MULHERES de Sylvia Plath”. Também há variação do termo.

Optei aqui pela insistência no termo “raso” como tradução para “flat”. Isso fez com que eu tivesse de transformar também a tradução de vocábulos vizinhos, que produziam relações sonoras com “flat”, em outras palavras. Também transformei alguns vocábulos derivados de “flat” em outros semelhantes a raso, mas de significado completamente diferente. Em alguns casos, a operação beira a arbitrariedade.

No entanto, como contraprova, quero advertir que procurei no universo simbólico do poema (como no duelo entre natureza e cultura, bem como na ambivalência do caráter gentil e do violento alternado entre as Vozes) a resposta para o gesto transcriativo. Como no caso de “flat, flatness”, em que optei pelo par “raso, restinga”. Antes de receber as duras críticas de quem lê esta tradução, quero chamar a atenção para o contraste que a segunda Voz faz com a primeira, por exemplo, quando se refere a valores em jogo no mundo natural e no mundo social.

Não quero com isso propor que a dimensão sonora é a mais determinante na forma do poema – mas decidi privilegiá-la para fornecer uma tradução de caráter por assim dizer mais radiofônico.

Não ignorei, tampouco, a dimensão gráfica. Não me parece gratuito, por exemplo, que na descrição de uma cena de enfermaria, Plath faça um verso comparando aquelas mulheres a montanhas, de acordo com o seu desenho debaixo dos lençóis, fazendo uso de letras que escritas remetem ao desenho de subidas e descidas, “m” e w” (“I am a mountain now, among mountainy women” – para manter a isomorfia, optei pela tradução “Sou uma montanha neste momento, misturada a mulheres montanhosas”).

Seria bom poder ouvir o poema no rádio, de toda forma.

Também porque o que se anuncia nessa tradução é uma proposição: o som em Três mulheres (como nos poemas “hospitalares” de Plath) é uma máquina de produção de semelhanças, a partir de uma comunidade incomum não apenas entre personagens, mas entre as esferas da linguagem verbal e da produção de sentido do mundo por corpos que se confrontam muito diretamente com as questões fundamentais de vida e de morte.

Rafael Zacca

Aqui o link para o texto em inglês

* * *

Três Mulheres
Um Poema para Três Vozes
Cenário: Enfermaria da Maternidade e entorno

PRIMEIRA VOZ:
Sou lenta como o planeta. Sou muito paciente,
contornam meu tempo adentro sol e estrelas
observando com atenção.
A lua se interessa mais de perto:
vai e vem, luminosa como uma enfermeira.
Sente muito pelo que está prestes a acontecer? Acho que não.
Só está atônita com a fertilidade.

Quando saio pra caminhar, sou um grande evento.
Não preciso pensar, nem me preparar.
O que acontecer comigo acontecerá sem alarme.
O faisão espera na colina;
ele ajeita suas penas marrons.
Não posso evitar sorrir pelo que sei.
Folhas e pétalas cuidam de mim. Estou pronta.

SEGUNDA VOZ:
A primeira vez que a vi, a infiltração vermelha, não acreditei.
Vi os homens chegando perto de mim no escritório. Eram tão rasos!
Tinham qualquer coisa de cartolina, e aí eu pesquei,
tão rasos, tão rasos, restinga de onde ideias, destruições,
escavadeiras, guilhotinas, câmaras brancas de guinchos
[procedem
sem fim, procedem – e os anjos gelados, as abstrações.
Sentei na minha mesa com minha meia-calça, meu salto alto,

e o homem pra quem trabalho riu: “Viu algum fantasma?
Está tão branca assim de repente.” E eu não disse nada.
Eu vi a morte entre as árvores nuas, uma privação.
Não podia acreditar. Será tão difícil
para o espírito conceber um rosto, uma boca?
As letras procedem destas teclas pretas, e estas teclas pretas procedem
de meus dedos alfabéticos, ordenando as partes,

partes, pedaços, escarvas, as multiluminosas.
Estou morrendo enquanto estou sentada. Perco a dimensão.
Trens berram nas minhas orelhas, partidas, partidas!
Os trilhos de prata do tempo esvaziam-se na distância,
o céu branco esvazia-se de sua promessa, como uma taça.
Estes são meus pés, estes ecos mecânicos.
Péc, péc, péc, pinos de aço. Encontro-me depenada.

É uma doença o que carrego pra casa, uma morte.
De novo, isto é uma morte. Estão no ar,
as partículas de destruição que eu chupo? Serei um pulso
que diminui e diminui, encarando o anjo gelado?
É este o meu amante, então? Esta morte, esta morte?
Quando criança eu adorava um nome devorado pelo líquen.
É esse o meu pecado, então, esse velho amor morto de morte?

TERCEIRA VOZ:
Eu me lembro do minuto em que tive certeza.
Os salgueiros esfriavam,
O rosto na poça era bonito, mas não meu –
tinha um aspecto consequente, como tudo o mais,
E tudo o que eu podia ver eram perigos: pombas e palavras,
estrelas e chuvas de ouro – fecundações, fecundações!
Eu me lembro de uma asa gelada branca

e do grande cisne, com seu olhar terrível,
vindo a mim, como um castelo, do topo do rio.
Tem uma cobra nos cisnes.
Ele deslizou suspenso; seu olho tinha uma intenção sombria.
Nele vi o mundo – pequeno, mau e sombrio,
cada palavrinha enganchada em cada palavrinha, de ato em ato.
Um dia azul quente desabrochara em alguma coisa.

Eu não estava pronta. As nuvens brancas crescendo
em volta me arrastaram em quatro direções.
Eu não estava pronta.
Não fazia reverências.
Eu pensei que podia negar a consequência –
mas era tarde demais pra isso. Era tarde demais, e o rosto
começou a tomar forma com amor, como se eu estivesse pronta.

SEGUNDA VOZ:
É um mundo de neve agora. Não estou em casa.
Como são brancos estes lençóis. Os rostos não têm traços.
São lisos e impossíveis, como os rostos de minhas crianças,
Pequenos enfermos que se esquivam de meus braços.
Outras crianças não me tocam: são terríveis.
Elas têm muitas cores, muita vida. Não estão assim,
Quietas, como o vazio terrível que carrego.

Tive minhas chances. Eu tentei e tentei.
Eu costurei a vida em mim como um órgão raro,
e andei com cuidado, precariamente, como alguma coisa rara.
Eu tentei não pensar tanto. Tentei ser natural.
Eu tentei ser cega no amor, como as outras mulheres,
cega na cama, com meu cego querido,
evitando procurar, pela densa treva, outro rosto.

Eu não olhei. Mesmo assim o rosto estava lá,
o rosto do abortado que amava suas perfeições,
o rosto do morto que só podia ser perfeito
em sua calma inata, só podia manter-se santo assim.
E tinham outros rostos também. Os rostos de nações,
governos, parlamentos, sociedades,
os rostos sem cara de homens importantes.

São esses homens que me perturbam:
Tão ciumentos de qualquer coisa que não seja rasa! Deuses
[ciumentos
que fariam do mundo todo tábula rasa, por também o serem.
Vejo o Pai conversando com o Filho.
O arrasado não pode ser sagrado.
“Vamos criar um paraíso”, eles dizem.
“Vamos arrasar e lavar o rústico das almas.”

PRIMEIRA VOZ:
Estou calma. Estou calma. A calmaria precede alguma coisa
[medonha:
o minuto amarelo antes do vento que passa, quando as folhas
exibem suas mãos, sua palidez. É tão quieto aqui.
Os lençóis, os rostos, são brancos e parados, como relógios.
Vozes se distanciam e se achatam. Seus hieróglifos visíveis
achatam-se em painéis de pergaminho que desviam o vento.
E pintam seus segredos em Árabe, em Chinês!

Sou muda e marrom. Sou uma semente que irá se arrebentar.
A marronidade é meu eu morto, e se cansa:
não quer ser mais, ou diferente.
O crepúsculo me cobre de azul agora, como Maria.
Ai, cor da distância e do esquecimento! –
quando será, aquele segundo em que o tempo arrebenta
e a eternidade o engole, me afogando totalmente?

Eu converso comigo, só comigo, me afasto –
higienizada e sinistra com desinfetantes, sacrificial.
A espera deita pesada em minhas pálpebras. Deita como o sono,
feito um grande mar. Longe, longe, logo a primeira onda acumula
sua carga de agonia sobre mim, inescapável, mareal.
E eu, uma concha, ecoando nessa praia branca
enfrento as vozes da opressão, esse terrível elemento.

TERCEIRA VOZ:
Sou uma montanha neste momento, misturada a mulheres
[montanhosas.
Os médicos se movem entre nós como se nossa grandeza
apavorasse suas ideias. E sorriem como imbecis.
São os culpados pelo que sou, e sabem disso.
Exibem o que neles é raso como uma espécie de saúde.
E se eles então se surpreendessem, como eu?
Ficariam loucos com isso.

E se duas vidas vazassem por entre minhas coxas?
Eu vi a câmara asséptica e branca com seus instrumentos.
É um lugar de guinchos. Não é feliz.
“É pra cá que você vai vir quando estiver pronta.”
As luzes noturnas são luas rasas vermelhas. Estão embotadas com
[sangue.
Eu não estou pronta para coisa alguma.
Eu devia ter matado isso que me mata.

PRIMEIRA VOZ:
Não há milagre mais cruel que este.
Sou arrastada por cavalos, cascos de ferro.
Resisto. Sobrevivo. Cumpro meu trabalho.
Túnel escuro, através do qual acontecem provações,
as provações, as manifestações, os rostos assustados.
Sou o centro de uma atrocidade.
Que sofrimentos, que tristezas terei de parir e cuidar?

Pode tal inocência matar e matar? Minha vida a amamenta.
As árvores embranquecem nas ruas. A chuva é corrosiva.
Provo um pouco, e os horrores praticáveis,
os horrores sedentários e ociosos, as parteiras diminuídas
com seus corações tique e taque, com suas bolsas e instrumentos.
Hei de ser parede e telhado, protegendo.
Hei de ser céu e colina de bondade: Ai, deixe-me estar!

Um poder cresce em mim, uma tenacidade antiga.
Estou arrebentando como o mundo. Há esta escuridão,
esta escuridão intensa. Cruzo as mãos sobre uma montanha.
O ar é denso. É denso com este trabalho.
Sou usada. Sou usada à força.
Meus olhos são comprimidos pela escuridão.
Não vejo nada.

SEGUNDA VOZ:
Acusam-me. Sonho com massacres.
Sou um jardim de agonias pretas e vermelhas, que bebo,
odiando-me, odiando e temendo. E agora o mundo concebe
seu fim e vai em sua direção, braços embalando o amor.
É um amor de morte que a tudo adoece.
Um sol morto mancha o jornal. É vermelho.
Perco vida atrás de vida. A terra sombria as engole.

Ela é o nosso vampiro. Ela nos mantém
e engorda, é gentil. Sua boca é vermelha.
Eu a conheço. Conheço intimamente –
velha cara-de-inverno, velha estéril, velha bomba relógio.
Homens a enganaram. Ela há de comê-los.
Comê-los, comê-los, comê-los a todos no final.
O sol se pôs. Morro. Simulo uma morte.

PRIMEIRA VOZ:
Quem é ele, esse garoto azul e furioso,
bizarro e brilhante, como se arremessado de uma estrela?
Parece tão zangado!
Voou para o quarto, um berro no tornozelo.
O azul empalidece. Ele é humano, enfim.
Um lótus vermelho se abre em vasilha de sangue;
costuram-me com seda, como se eu fosse um tecido.

O que meus dedos faziam antes de segurá-lo?
O que meu coração fazia, com seu amor?
Eu nunca vi uma coisa tão nítida.
Suas pálpebras feito flores fúcsias
e suave feito mariposa, seu fôlego.
Não o abandonarei.
Não há nele malícia ou urdidura. Que assim permaneça.

SEGUNDA VOZ:
Lá está a lua, na janela alta. Foi-se.
Como o inverno enche minha alma! E essa luz calcária
deitando escamas nas janelas, janelas de escritórios vazios,
salas de aula vazias, igrejas vazias. Ai, quanto vazio!
E essa interrupção. Essa terrível interrupção de tudo.
Esses corpos amontoados me rodeando agora, estes chinelos de neve–
que raio azul e lunar congela seus sonhos?

Sinto seu penetrar gelado, alienígena, como um instrumento.
E do outro lado essa face dura, louca, com sua boca em O
escancarada em seu luto perpétuo.
Ela arrasta o mar de sanguessombra ao redor
mês após mês, com suas vozes de fracasso.
Estou tão desamparada quanto o mar no final do cordão.
Estou insone. Insone e inútil. Também eu gero corpos.

Devo ir-me para o norte. Devo ir-me dentro da longa treva.
Vejo-me feito sombra, nem homem nem mulher,
nem uma mulher feliz por ser um homem, nem um homem
bruto e raso o suficiente para não sentir a falta. Sinto uma falta.
Sustenho meus dedos, dez piquetes brancos.
Vê, a escuridão se infiltra pelas rachaduras.
Não posso contê-la. Não posso conter minha vida.

Serei uma heroína do periférico.
Não serei acusada pelos botões caídos,
buracos na meia-calça, caras mudas e brancas
de cartas não respondidas, confinadas nas gavetas.
Eu não serei acusada. Eu não serei acusada.
O relógio não dará pela minha falta, nem essas estrelas
que rebitam um abismo depois do outro.

TERCEIRA VOZ:
Eu a vejo enquanto durmo, rubra, terrível garota.
Ela chora através do vidro que nos separa.
Ela chora, e ela é furiosa.
Seu choro é um gancho que agarra e arranha feito um gato.
É com esse gancho que ela escala até minha vista.
Ela chora no escuro, ou nas estrelas
que distantes de nós brilham e retorcem.

Acho que sua cabeça é esculpida em madeira,
em rubra e dura madeira, olhos fechados e boca escancarada.
A boca aberta emite gritos agudos
furando meu sono como flechas,
furando meu sono, perfurando até o meu lado.
Minha filha não tem dentes. Sua boca é larga.
E emite sons tão trevosos que não pode ser boa.

PRIMEIRA VOZ:
O que é que a nós nos arremessa essas almas inocentes?
Olha, estão tão exaustos, estão arrasados
em seus berços de lona, nomes amarrados a seus punhos,
os pequenos troféus de prata pelos quais vieram de tão longe.
Alguns têm os cabelos pretos e densos, outros são carecas.
Suas peles são rosas ou pálidas, pardas ou vermelhas;
e começam a lembrar de suas diferenças.

Acho que são feitos de água; não têm expressão.
Seu aspecto é de sono, como luz na água calma.
São verdadeiros monges e freiras com suas vestes idênticas.
Vejo-os chovendo como estrelas sobre a Terra –
na Índia, na África, na América, esses pequenos milagres,
essas miúdas e nítidas imagens. Cheiram a leite.
A sola de seus pés está intocada. São caminhantes do ar.

Pode o nada ser tão prodigioso?
Este é meu filho.
Seus olhos abertos são um azul raso e genérico.
Ele se vira para mim feito uma miúda, muda e mansa planta.
Um berro. Ele é o gancho ao qual me agarro.
E eu, um rio de leite.
Sou uma colina quente.

SEGUNDA VOZ:
Não sou feia. Sou até bonita.
O espelho devolve uma mulher sem deformidades.
As enfermeiras devolvem minhas roupas, e uma identidade.
É normal, elas dizem, que coisas assim aconteçam.
É normal na minha vida, e na vida de outras.
Eu sou uma em cinco, qualquer coisa do tipo. Não estou perdida.
Eu sou bonita como estatística. Aqui o meu batom.

Desenho na boca velha.
A boca vermelha que entreguei com minha identidade
um, dois, três dias atrás. Era uma sexta-feira.
E eu nem preciso de um feriado; posso ir ao trabalho hoje.
Posso amar meu marido, ele irá compreender.
E me amar através do borrão de minha deformidade
como eu tivesse perdido um olho, uma perna, uma língua.

Levanto-me, então, um pouco cega. E ando
com rodas, não com pernas; servem-me da mesma forma.
E aprendo a falar com os dedos, não com as línguas.
O corpo está cheio de recursos.
O corpo de uma estrela-do-mar pode regenerar os braços
e as salamandras são pródigas em pernas. Que eu também
Seja pródiga naquilo que me falta.

TERCEIRA VOZ:
Ela é uma pequena ilha, adormecida e pacífica,
E eu um navio branco apitando: Adeus, adeus.
O dia está fervendo. É triste demais.
As flores neste quarto são vermelhas e tropicais.
Elas viveram por trás de vidros toda a vida, cuidadas com ternura.
Agora enfrentam o inverno de lençóis brancos, rostos brancos.
Tenho pouquíssimas coisas na mala.

Tenho roupas de uma mulher gorda que eu não conheço.
Tenho pente e escova. Tenho um vazio.
Estou vulnerável de repente.
Sou uma ferida que foge do hospital.
Sou uma ferida que deixam partir.
Deixo minha saúde para trás. Deixo alguém
que iria aderir-se a mim: desfaço seus dedos como bandagens: vou.

SEGUNDA VOZ:
Eu sou eu mesma de novo. Não há caminhos sem saída.
Sangrei e estou branca como cera, não tenho compromissos.
Sou rasa e virginal, isto significa que nada aconteceu,
nada que não possa ser apagado, extirpado e descartado, um novo
[começo.
Estes pequenos ramos não pensam em florescer,
nem estas secas, secas calhas sonham com a chuva.
Esta mulher que me encontra na janela – é pura.
Tão pura que transparente, como um espírito.
Quão timidamente ela superpõe sua pureza
no inferno de laranjas africanas, e porcos presos pelo calcanhar.
Ela adia a realidade.
Sou eu mesma. Sou eu mesma –
provando a amargura entre os dentes.
A maldade diária incalculável.

PRIMEIRA VOZ:
Por quanto tempo posso ser uma parede, bloqueando o vento?
Por quanto tempo posso ser
abrandando o sol com a sombra de minha mão,
interceptando os dardos azuis de uma lua gelada?
As vozes da solidão, as vozes da tristeza
rondam-me inelutavelmente.
Como é que isso pode suavizá-las, essa cançãozinha de ninar?

Por quanto tempo posso ser um muro ao redor de minha verde
[propriedade?
Por quanto tempo podem minhas mãos
serem bandagem para suas feridas, e minhas palavras
pássaros pairando no céu, consolando, consolando?
É uma coisa terrível
esta desproteção: como se meu coração
pusesse uma cara e caminhasse pro mundo.

TERCEIRA VOZ:
Hoje as faculdades estão bêbadas com a primavera.
Minha beca preta é um pequeno funeral:
mostra que estou séria.
Os livros que trago se comprimem do meu lado.
Certa vez tive uma velha ferida, mas está curando.
Sonhei com uma ilha rubra de gritos.
Era um sonho, não significava nada.

PRIMEIRA VOZ:
A alvorada flore o grande ulmeiro fora de casa.
As andorinhas voltaram. Estão gritando como foguetes de papel.
Escuto o som das horas
dilatando e morrendo nas cercanias. Escuto o mugido das vacas.
As cores se recuperam, e o feno
úmido ferve ao sol.
Os narcisos abrem seus rostos brancos no pomar.

Estou tranquila. Estou tranquila.
Estas são as cores vívidas do berçário,
os patos falantes, os cordeiros alegres.
Sou simples de novo. Acredito em milagres.
Eu não acredito nessas crianças terríveis
que perturbam meu sono com olhos brancos e mãos sem dedos.
Não são minhas. Não me pertencem.

Devo meditar sobre a normalidade.
Devo meditar sobre meu filhinho.
Ele não caminha. Não fala uma palavra.
Ainda está enrolado em faixas brancas.
Mas é rosa e perfeito. Ele sorri com tanta frequência.
Enchi esse quarto com rosas no papel de parede,
e pintei corações em tudo.

Não quero que seja excepcional.
É a exceção que interessa o diabo.
É a exceção que escala a colina da tristeza
ou se senta no deserto e machuca o coração de sua mãe.
Eu o quero comum,
para amar-me e por mim ser amado,
para que se case com quem e onde queira.

TERCEIRA VOZ:
Meio-dia quente nos prados. Os botões-de-ouro
abafam e derretem, e os amantes
passam e passam.
São pretos e rasos como sombras.
É tão bonito não ter de apegar-se!
Sou solitária como a grama. O que é esta saudade?
Saberei algum dia, seja lá o que for?

Os cisnes se foram. Mesmo assim o rio
se lembra de como eram brancos.
Tenta encontrá-los nas luzes.
Observa suas formas nas nuvens.
O que é esse pássaro que grita
com tanta tristeza na voz?
Estou mais jovem do que nunca, ele diz. O que é esta saudade?

SEGUNDA VOZ:
Estou em casa sob a luz da lâmpada. As tardes se alongam.
Remendo a barra da seda: meu marido lê.
Como é bonita a luz incidindo sobre tudo.
Tem uma espécie de fumaça no ar primaveral,
uma fumaça que colore de rosa os parques,
as pequenas estátuas, como a ternura acordasse,
a ternura que não se cansa, que cura.

Aguardo e padeço. Creio que estou sendo curada.
Há mais o que fazer. Minhas mãos
podem coser com cuidado este material. Meu marido
pode virar e virar as páginas de um livro.
E assim estamos juntos em casa, por horas.
É só o tempo que pesa sobre nossas mãos.
É só o tempo, e isso não é material.

As ruas podem se tornar papel subitamente, mas eu me recupero
de minha longa queda, e me encontro na cama,
a salvo no colchão, mãos cruzadas, como pressentisse a queda.
Encontro-me novamente. Não sou uma sombra
ainda que haja uma sombra que saia de meus pés. Sou uma esposa.
A cidade aguarda e padece. As graminhas
crescem nas pedras, e estão verdes de vida.

Padrão

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