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XANTO|“A floresta e a escola. O Museu Nacional”, por Alexandre Nodari

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Meteorito de Bendegó, entre as ruínas do Museu Nacional.

Não gostaríamos que as canções fossem parar tão longe de nós; não, as canções ficariam muito sós
(Índio Seneca, citado por Jerome Rothenberg)

Chegaram os espantosos brancos, da estranha tribo dos homens vestidos…” (Raul Pompeia, “Um povo extinto”)

Sim, a escravidão dos índios foi e será um grande erro, e a sua destruição foi e será uma grande calamidade. Convinha que alguém nos revelasse até que ponto este erro foi injusto e monstruoso, até onde chegaram essas calamidades no passado, até onde chegarão no futuro: eis a história. Convinha também que nos descrevesse os seus costumes, que nos instruísse nos seus usos e na sua religião, que nos reconstruísse todo esse mundo perdido, que nos iniciasse nos mistérios do passado como caminho do futuro, para que saibamos donde viemos e para onde vamos
(Gonçalves Dias)

Visitei apenas uma vez, quanto tinha por volta de 18 anos, ou seja, uma década e meia atrás, a parte expositiva do Museu Nacional, aquela que continha ossadas de dinossauros, múmias, vasos greco-romanos, artefatos indígenas, em suma, os vinte milhões de itens que, em sua quase totalidade, foram consumidas no incêndio politicamente criminoso. Recentemente, em 2012, passei um semestre frequentando semanalmente o Museu, mas não a parte expositiva, e sim o Programa de Pós-Graduação em Antropologia, onde tive o grande privilégio de poder ministrar um curso sobre Oswald de Andrade com Eduardo Viveiros de Castro, a convite generoso deste. Eu tinha acabado de concluir o doutorado, e foi a minha primeira experiência mais acabada como docente universitário, experiência que transformou radicalmente a minha carreira, a minha visão política, as minhas pesquisas, e a minha vida pessoal. Foi lá que conheci muitos amigos queridos, como o Marco Antonio Valentim e a Juliana Fausto, foi lá que firmei um diálogo mais profícuo com diversos antropólogos, foi lá que se sedimentou a #ATOA, Afundação Taba de Oswald de Andrade, ou Agrupamento Terrano de Ações Anti-aéreas, que culminou em nossa participação na Cúpula ou Cópula dos Povos da Rio +20. Momentos cruciais de formação e transformação, de contestação do projeto desenvolvimentista e genocida, projeto sintomizado na construção de Belo Monte. Mas também momentos de alegria, a única prova dos nove. Nesse semestre todo, em que frequentei semanalmente o Museu, não visitei uma vez sequer o espaço de exposições, não vi aquele que era o totem da #ATOA, a ossada da Preguiça Gigante – queria deixar para visitar com calma, quando não tivesse a trabalho. Deixei pro futuro. Ledo engano, em um país cujo futuro consiste em destruir o passado.

Trata-se de um projeto genocida já inscrito na Carta de Pero Vaz, carta que não nomeia nenhum indígena, que não cessa de ressaltar a incompreensão que os europeus têm da palavra destes, e que anuncia como o “melhor fruto que [nessa terra] se pode fazer [..,] parece que será salvar esta gente e esta deve ser a principal semente que vossa alteza em ela deve lançar”. A semente plantada – o futuro – era, foi e continua sendo salvar os povos originários, de si mesmos, do seu passado, para convertê-los em outra coisa, pela fala e pela bala.

            Mas, por uma contradição inerente ao processo colonial, alguma coisa se salvou dessa salvação: a formação da Nação (processo que não termina, pois a Nação não é dada senão no seu formar-se) pressupunha (pressupõe) colecionar, exibir e estudar aquilo sobre a qual ela (e o “concerto das nações”, a “humanidade cosmopolita”) se funda(m). O Museu Nacional era isso. Ali estavam expostos os resíduos do projeto colonial, do sistema digestivo da “baixa antropofagia” que praticamos, “a soma comprimida de todos os indícios contra nós”, como fala Canetti: fósseis não só de animais não-humanos, não só da originária Luzia, mas fósseis de povos, artefatos de povos indígenas extintos (massacrados), desses nossos ex-parentes, desses com os quais não queremos nos aparentar, dos quais nos apartamos tanto no mito quanto na história, por um erro de português ou de genovês, a colonização ontológica dos outros e de nós mesmos. O que restou deles, o seu rastro, era, parafraseando o que Foucault diz em “A vida dos homens infames”, a marca de seu encontro com o poder. Agora, nem isso resta. Nem o resto restou. A queima do Museu foi uma segunda extinção: não ouvimos o “alarme de incêndio” acionado por Walter Benjamin, o aviso de que “nem os mortos estarão a salvo se o inimigo [o Progresso] vencer. E esse inimigo nunca deixou de vencer”.

            Mas o Museu não era mais isso quando foi incendiado. Já era outra coisa. Era um espaço no qual se podiam estabelecer alianças por meio da compreensão das cenas originárias – as outras cenas, que não cessam de dar origem, de produzir história, de produzir futuro, na qual brancos e índios, homens e animais, sujeitos e objetos eram aparentados. Pois entender o nosso passado (enquanto matéria, enquanto seres vivos, enquanto espécie), e entender o presente e passado dos outros, abre a possibilidade de ampliar o que somos, o que podemos ser. O acervo Curt Nimuendaju, depositado no Museu, era um índice dessa aliança. A própria figura desse etnógrafo amador, alemão de nascença, guarani por adoção, por aparentamento, muito pouco Nacional, portanto, era um índice disso: nimuendaju, o que se assentou, se estabeleceu entre os outros, se tornou aparentado a outros, virou outro, seguindo a lição de outro estrangeiro, de outro expatriado, Ferdinand Denis, que também viu nos povos indígenas brasileiros a possibilidade de uma transformação: “Que o poeta dessas formosas regiões celebre desde agora os felizes acontecimentos do século; mas não esqueça de modo algum os erros do passado; suspenda a sua lira por instantes nos galhos dessas antigas árvores cujas sombrias ramagens escondem tantas cenas de perseguição; retome-a, depois de haver lançado um olhar de compaixão sobre os séculos transcorridos; lastime as nações aniquiladas, excite uma piedade tardia, porém favorável aos restos das tribos indígenas; e que este povo exilado, diferente por sua cor e costumes, jamais seja esquecido nos cantos do poeta; que adote uma nova pátria e cante-a ele mesmo; que se console à recordação de outros infortúnios, e rejubile-se com a cintilante esperança que lhe dá um povo humano”. No acervo Curt Nimuendaju, para além da ampla documentação linguística (alguma da qual digitalizada), da biblioteca, havia também gravações de cantos em línguas hoje extintas, cantos que haviam ficado sós com o extermínio de seus cantores, e que desde o dia 2 de setembro [de 2018], e que agora estão condenadas a, para sempre, permanecerem sós.

            Pois o que foi destruído criminosamente não foi apenas o passado. Nem tampouco o seu registro – como na queima de documentos relativos a escravidão ordenada por Rui Barbosa quando Ministro da Justiça, com a intenção de tentar abolir pelo fogo esse capítulo nefasto de nossa história, intenção fracassada, pois que o capítulo persiste com o genocídio da juventude negra nas periferias das cidades brasileiras (e note-se que o incêndio do Museu também foi uma queima de arquivo). O que foi destruído também foram possibilidades de futuro, possibilidades de ampliação e modificação do nosso mundo, e de outros mundos possíveis, como disse tão bem Orlando Calheiros em um dos textos mais incisivos a respeito. Nosso futuro e nossas possibilidades se reduziram drasticamente dois domingos atrás – para não dizer que acabaram de vez, pois se o Museu Nacional, a mais antiga instituição científica do país, queimou, então todas as demais instâncias de ensino, cultura e preservação, também podem, como insistentemente sou levado a pensar, no misto de desespero profundo e revolta que tem me acometido, e que tem me desnorteado, e creio que a muitos de nós, afinal como ainda estamos aqui, reunidos nesses dois prédios que formam a Reitoria da Universidade Federal do Paraná, sem saída de incêndio, sem alarme de incêndio? No dia 2 se revelou a condição de possibilidade da “pós-história” enquanto abolição do futuro e a continuação passiva e repetida do mesmo, enquanto cessar do fluxo do tempo num presente eterno: ela depende da destruição ativa do passado. A pós-história, a obliteração retro e prospectiva de toda possibilidade de história (passado e futuro), é um deserto sem real.

            Pois o passado que queimou não era um passado que havia passado definitivamente, mas sim um passado que persistia passando por meio dos vestígios, marcas, rastros, nas quais subsistiam um “conjunto de relações ao mesmo tempo concretas e virtuais” dadas pela “história particular de cada peça”, por esses “testemunhos fósseis da história de um indivíduo ou de uma sociedade” (para citar O pensamento selvagem, de Lévi-Strauss). O que queimou foi uma “origem” (passado) que podia dar origem (futuro), transformar o presente: meios de acesso à cena originária, que permitiam encená-la, por em cena essa cena.  Foi o incêndio que fez o passado passar definitivamente.

No Manifesto da Poesia Pau-Brasil, Oswald de Andrade advogava por “Uma visão que bata nos cilindros dos moinhos, nas turbinas elétricas, nas usinas produtoras, nas questões cambiais, sem perder de vista o Museu Nacional”. Ou seja, uma dupla perspectiva, que englobava tanto o “futuro” (as turbinas elétricas) quanto o “passado” (o Museu Nacional), como se um estivesse atrelado ao outro. Infelizmente, perdemos o Museu Nacional de vista, obcecados que estávamos – e estamos – pelas “usinas produtoras”. A mesma imagem reaparece no Manifesto na forma da “base dupla e presente [friso] – a floresta e a escola”, natureza e cultura, passado e futuro, que se articulam, no último aforismo, justamente pelo Museu Nacional, como se ele fosse um lugar capaz de manter presentes os dois polos da base, como se só uma tal articulação fosse capaz de produzir o presente: “A floresta e a escola. O Museu Nacional”. O incêndio desse consuma, assim, o continuado incêndio daqueles – a destruição da floresta e o sucateamento do ensino, ou melhor, o ensino-sucata, pois já dizia Darcy Ribeiro que “a crise da educação não é uma crise, é um projeto”. Projeto de destruição do passado e do futuro, projeto de futuro baseado na destruição do passado, mas que, nesse gesto, consome a si mesmo – destruição, em suma, de todo fora, da floresta (foris) e da mudança, da natureza e da cultura, em suma, da alteridade e da possibilidade de alteração.

            Já foi muito notado – como não poderia deixar de sê-lo – que um dos poucos objetos a sobreviver ao incêndio foi o meteorito do Bendegó, que vem de fora da Terra. É como se nada que tivesse aqui, nenhum fora que seja daqui, fosse capaz de sobreviver ao fogo geno- e suicida que nós insistimos em atear ao nosso mundo, reduzindo suas possibilidades a uma só, reduzindo suas possibilidades às cinzas.

            Todavia, isso não é tudo – isso não pode ser tudo. Em uma crônica de – frise-se a data – 18 de maio de 1968, intitulada “A matança de seres humanos: os índios”, Clarice Lispector listava os diversos e perversos modos pelos quais se matam índios (e o verbo tem de permanecer no presente, pois a ação que designa também permanece): “Ocorre-nos perguntar, então: e hoje, como se matam os índios se é esta uma ação premeditada? Há várias maneiras de se matar índios: desde a mais simples que é a bala de um trabuco, aos mais requintados métodos, como interferência maciça na cultura do índio através de catequese religiosa que lhes proíbe a preservação de sua cultura primitiva, o que fatalmente redunda em sacrifício do nativo. Ou se mata índio também arrebatando-lhes a terra, à qual estão teluricamente ligados.” Poderíamos acrescentar a essa lista a destruição de seus artefatos, dos registros de seus cantos, ocorrido com a queima do Museu. Contudo, apesar disso tudo, de todas essas formas de genocídio, ou melhor, contra elas e a redução de seu mundo e de suas possibilidades, os povos indígenas continuam resistindo, rexistindo, como diz Viveiros de Castro. Os Bakairi, povo que Raul Pompeia via a caminho da extinção em 1888, continuam existindo, resistindo, rexistindo. Apesar – e contra – os mais de cinco séculos do projeto colonial, os povos indígenas insistem, persistem em abrir caminhos para fora da nossa rua de mão única. “Com toda a coação e a libidinagem da gente branca, não foi, no entanto, destruído o que melhor restava no natural das Américas. A sua cultura resistiu no fundo das florestas, como na recusa a toda força escravizante”, dizia Oswald. No fundo das florestas assim como na recusa a força escravizante: nunca um sem o outro, pois “Toda a literatura, mesmo a missionária, que no século XVI encheu de novidade o mundo, aqui permaneceu para escândalo do mundo vestido e algemado que nos traziam”. No passado (livros) e no presente (floresta). A floresta e a escola. Mais do que nunca, precisamos ouvir o grito dos povos originários, desses povos que não cessam de se fazer presentes, de fazer o presente. Deles, de sua lição, se origina a possibilidade de futuro: “Só o selvagem nos salvará. Essa força profunda que sentimos e que cumpre conservar nos veio dele.”

* * *

Alexandre Nodari é professor de literatura e filosofia da UFPR. Fundador e coordenador do species – núcleo de antropologia especulativa. O texto acima foi apresentado, em uma primeira versão, no evento Museu Nacional: a Memória e o Futuro, organizado pelo Centro Acadêmico de Filosofia da UFPR, 13 de setembro de 2018.

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Lubi Prates

Lubi Prates por Douglas T Pereira

Fotografia de Douglas T. Pereira

 

Lubi Prates (1986, São Paulo/SP) é poeta, tradutora, editora e curadora. Tem três livros publicados (coração na boca, 2012; triz, 2016; um corpo negro, 2018). “um corpo negro” foi contemplado pelo PROAC com bolsa de criação e publicação de poesia e está em processo de publicação na Argentina, Colômbia, Estados Unidos, Espanha e França, além de ser finalista do Prêmio Rio de Literatura e do 61º Prêmio Jabuti. Tem diversas publicações em antologias e revistas nacionais e internacionais. Organizou os festivais literários para visibilidade de poetas, [eu sou poeta] (São Paulo, 2016) e Otro modo de ser (Barcelona, 2018) e também participou de outros festivais literários no Brasil e em outros países da América Latina. É sócia-fundadora e editora da nosotros, editorial, e é editora da revista literária Parênteses. Dedica-se à ações que combatem a invisibilidade de mulheres e negros. Atualmente, é doutoranda em Psicologia do Desenvolvimento Humano, na Universidade de São Paulo.

*

1.

te dou de comer
na palma da minha mão.

é ancestral
o gesto de agachar,
se reconhece:

me curvo ao chão
então, você vem,
faminto.

não distingue
entre o que é comida
e quem eu sou.

penso domar a fera,
as pontas dos meus dedos se vão.

não distingo
se é dor ou prazer
me transformar em seu alimento.

voltarei amanhã,
você sabe.

2.

sequer havia luz,
mesmo assim,
aprendi a te alimentar
primeiro.

antes de qualquer verbo
ou nome:

não havia chamado,
ainda não há.

embora sequer houvesse luz
e tendo, ainda, olhos
preservados por você,
me guiei pelo cheiro da sua boca
entreaberta.

agachado,
com minha pata de bode,
te dou de comer
antes de seguir, veloz.

3.

esse chão
criamos nós

a partir do nada que havia:

era apenas linguagem.

na palma da sua mão
dei o que eu tinha,
cuspi a palavra terra
que você moldou com sua saliva.

fez-se lama.

nomeamos assim,
essa porção ínfima
onde deitamos.

4.

quando forte,
você se antecipa.

reproduz meus gestos
com uma velocidade maior.

trama uma fuga.

quando você passa,
eu lanço a pólvora.

o fim te alcança
ainda preso a mim.

aqui, agora,

explosão
diante dos nossos olhos.

5.

sobre a lama onde deitamos,
passou tempo.

confundimos
passado presente futuro:

aparentam ser o mesmo.

na lama onde deitamos,

criaram-se frestas,

nelas, imaginamos caminhos.

surgiram tantos outros iguais a nós.

abri uma encruzilhada
e te coloquei no meio.

de costas, esperei que seguisse.

§

encontrar você
como uma revisitação.

eu volto à casa onde cresci
diferente
da infância.

não há ninguém,
só você.

eu não guardei as pistas do caminho
e meus pés souberam o retorno,

o que existe é memória:

as paredes já não são as mesmas
mas sustentam os velhos quadros

impossíveis de decodificar,

eu apenas te mostro.

a luz elétrica falha
assim como o tempo.

***

 

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Priscila Lira

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Priscila Lira (Amazonas – 1991) é pesquisadora, artista visual, escritora e freelancer. Publicou, pela Ellenismos Edições (Fortaleza), Manual de Feitiçaria e o Barulho do Mormaço. Tem escrito para o blog Liberoamérica  e vive em Curitiba atualmente.

*

Lagartixa emplumada

Capinei os pelos dos corpo,
depois de uns dois meses.
Só o capô foi salvo,
ficou apenas fingindo civilidade,
aparadinho.

Consulto Ana C. antes de dormir:
“Abri curiosa
o céu.
Assim, afastando de leve as cortinas.
Eu queria rir, chorar,
ou pelo menos sorrir com a mesma leveza com que os ares me beijavam”.
*

Caqui

A luz do dia atravessa os cílios cerrados e deitados no quintal

em cima dos olhos, galhos de amor

vermelho nas bordas sem bordas lentamente
se alaranja no centro.

O   vento bate o caqui
mordido pelas folhas
tremelica no fundo invisível das minhas pálpebras.

Um cemi-círculo se rasga nos
lábios amanhecidos e tristonhos que não vejo.
*

Rastro

 o sol balança pelo calor
do corpo da rede
saliva grossa de tapiocaqueijomargarina
cobre língua e gengiva
as mãos caminham para o rosto,
cobrem a luz.
meus dedos sujos de maracujá
dão carinho pro nariz que
inspira expira
amarelo cítrico.
*

Correnteza
Me perdi na cidade entregando currículos
perfumes, azulejos, uniformes, pressa, pó compacto fiquei tonta

para amaciar os nervos
me rendo aos dedos indicadores dos transeuntes
fluo pelos bairros

(o dia escurecendo
as paredes brancas tomando cor
de concreto e fuligem)

como o rio Belém entremuros.

Lula para Jesus Cristo!
diz o vidro do ponto de ônibus
Preciso sair dessa miséria!
a artista sem-teto
na lona rosa rabiscada
jogada por cima do seu carrinho com
manequins mendigos customizados sentados e
sacos e sacos de lixo reciclável
sorri para a minha contemplação otária
que não disse boa tarde! perguntei seu nome disse isso
é muito foda EUNÃOFIZNADAOTÁRIAOTÁRIAAAAAA

esqueço o nome da rua que o moço disse pra eu dobrar
anoitece

Atrás do Capanema
casas de lona se fazem vida na grama
finalmente reconheço um lugar

me pergunto se o moradores saberão que
pelas festas que dancei ali
o território faz um pouco parte de mim também…

Sou cumprimentada como superstar
BOANOITEEEEEEEE
Tiro os fones de ouvido para devolver
maresiiia, sente a maresiiiiaaaaa
canta o moço do barraco
sorrio

Um outro
solitário
me segue com olhos de desejo violento
faço cara de gatinho raivoso
ele some por entre os trilhos do trem

Pausa para cerveja.

Vida, vida, vida, vida
se prepara para dormir na marquise do Mercado Municipal

gemidos na rua que segue
meus olhos acompanham os ouvidos

com um sorriso no canto da boca:

um casal se agarra no escurinho do portão.

*

Um peixe

Não sei como pagar o aluguel de setembro
tô procurando trampo em bar, há de dar boa
MASSSSS
encontrei um macacão roxo bufante
BABADEIRA num brechó da São Fran
talvez eu esteja meio baiacu mesmo

bufante
de raiva
dos dedos de ubu do golpista

Sem controlar o corpo rolante,
nas horas de calmaria,
segurando as colunas enfraquecidas da própria vida.
Mas essa parte não tem nada a ver com baiacu,
não sei muitas coisas sobre baiacus, na verdade

Olha, mas veja só:
“Por sua pele ser bastante elástica, o peixe não rasga quando incha, a coluna também”
#oremos

ou:
Pra me comer tem que fazer o corte direitinhosenão, queridaaaaaaaan!
rrmmmmmmmmmmmm.

Pq, ó, céus! O meu veneno não chega em fazendeiros, banqueiros, presidentes?!
Terceirização, queridan. Monocultura.
Que chegue pelo menos na praga daquele Senhor então.
#oremos #morrediabo

*

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Thiago Soeiro

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Fotografia de Jhenni Quaresma

Thiago Soeiro nasceu em Belém do Pará em 1989. Jornalista atua na cena literária do Amapá desde 2010, é cocriador do grupo literomusical Poetas Azuis, que divulga a poesia por meio da palavra dita e cantada. Integrou a coletânea Poesia na Boca da Noite com poetas amapaenses e a exposição Poesia Agora que reuniu mais de 500 poetas do Brasil no Museu da Língua Portuguesa em 2017. Publica seus poemas no blog: pordentrodopoema.blogspot.com e em seu canal no youtube. Escreveu e editou o Livro dos Ipês, belíssimo volume que envia aos amigos por e-mail.

*

Macapá não tem mapa

[Para Tani]

encontrei a palavra saudade hoje
em um caderno de cartografia
ela se estende inteira
por essa cidade
desde o seu ponto mais seco
as margens do rio

parece mesmo que estamos
morando na saudade

no mapa
esta é
uma cidade inteira
feita de pontes
ligando as faltas
que as pessoas fazem

imagino que quando anoitece
do alto podemos
ver as luzes
que cada saudade
faz brilhar.
§

Tenho um mar

quando a gente segura um choro
é como se segurasse o mar inteiro
e é tão difícil segurar o mar
às vezes sinto ele agitado
revolto em meus pensamentos
fazendo ondas em minha cabeça
já me afoguei nele algumas vezes
e deixei naufragar alguns problemas
tenho um mar em meu peito
e convivo com ele
e todos os seus seres marinhos
criaturas que ainda desconheço
em uma vida repleta de mistérios e medos
seguro o mar em meus dedos
e toda fúria dos dias de tempestade
e toda a calmaria dos dias de sol
e sei que ninguém nunca desconfiou disso
que eu era feito de mar
que tenho corais em meus pés
peixes em minhas costas
que tenho o mar inteiro
preso em meus olhos
prestes a transbordar.
§

Um poema não sobre gatos

este poema se espreguiça devagar
pela página branca
se esticando de comprido
até a borda
depois ele deita de mansinho
meio quieto
de orelhas em pé

este poema
brinca na areia
dorme nos pés da cama
ronrona com cafuné

este poema não é felino
ele não fala do bichano
que escapou das minhas mãos

este poema
não é sobre gatos

este poema é sobre
a saudade
que eles arranham na gente.

*

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crítica, xanto

XANTO| "poema como moenda", a poesia de Daniel Arelli por Arthur Lungov

Lição de matéria (Biblioteca do Paraná, 2018; com segunda edição já prometida pela Edições Macondo para 2020) é um livro que, a princípio, pode ser tomado pelo título, pela literalidade daquilo que traz logo na capa. Os dois substantivos nucleares já dão pista do que virá, ainda que seus significados não sejam em seus significados mais hodiernos: “lição” (sf. (…) 6. Forma particular de interpretar um texto, quando há outro texto sobre o mesmo assunto, com o qual é possível compará-lo[1]) e “matéria” (sf. (…) 3. Denominação comum aos objetos naturais que são utilizados ou transformados pelo trabalho do homem, tendo em vista um fim.[2]). Clareza que despista, portanto. Como já se anuncia na epígrafe (“Tudo é menos do que é./Tudo é mais.” – Paul Celan), é dessa tensão, desse movimento entre o revelado e o encoberto, que os poemas de Daniel Arelli tornam-se peças de investigação.

O que primeiro se destaca na leitura dos textos é a diversidade de fontes que o autor encontra para formar sua obra, e que faz questão em deixar em evidências, sem qualquer dissimulação de suas influências: de tratados científicos, manuais de história, anotações de viagem, tratados antológicos e anedotas filosóficas até a antipoesia de Nicanor Parra e as líricas de Adília Lopes e Manoel de Barros. Dividem-se, nessa lista, dois grupos: as referências literárias, correntes em citações e recriações de textos; e o que se pode chamar de referências extraliterárias (aquelas que vêm de alguma área do conhecimento que não se confunde com a literatura, das ciências sociais às chamadas ‘ciências duras’), trabalhadas especialmente em colagens, deslocamentos e traduções para a linguagem poética.  

Há nessa abordagem algo enciclopédica da poesia, que aglutina linguagens e universos do conhecimento diversos (e da qual temos exemplos célebres nas obras de poetas como Angélica Freitas, Marília Garcia, Leonardo Gandolfi, Alberto Pucheu, Carlito Azevedo etc.), um esforço de compreensão. Longe de ser um movimento de fora para dentro, em que essa variedade impõe-se como projeto, a impressão é de que o projeto é gerido ao redor dessa riqueza de conteúdo, partindo antes dos elementos trazidos do que se valendo deles (“ao lado do poema de repente parece que estou escrevendo/um livro em volta do poema um livro/como um veículo cujo motor é o poema quando menos percebo/escrevi um livro a partir do poema olhando bem parece que o livro/foi se fazendo desde o poema melhor dizendo é como se/o livro tivesse se escrito a si mesmo a partir do poema”), tentando entende-los como peças relacionáveis de um mosaico que vai se traçando. É um movimento contínuo, que vai englobando aquilo que encontra pela frente, e que transforma os mais diversos materiais em matéria de poesia, não penas sem discrimina-los, mas tomando-os como elementares para a completude desse entendimento, em uma leitura equalizadora que lembra em muito Oswald de Andrade.  

A poética de Lição não se limita a colecionar dados, mas os reconfigura em uma prática de inteligência que os aproxima do leitor e do poeta, que pretende ler o mundo, seja aquele da cultura, seja aquele da natureza (faz questão de nos mostrar como são a mesmo realidade) por meio de aproximações analógicas, sensíveis não em termos apenas de emotividade, mas de captar aquilo que existe no mundo e remonta-lo por meio da experiência e da observação. Exemplo claro é o poema “O rinoceronte” (escrito a partir de Theodor Adorno), em que o poeta, ao se deparar com a notícia da possível extinção do rinoceronte, apela para que “só não se esqueçam de dizer/que não haverá mais/a forma do rinoceronte/esta forma exata e insubstituível/que parece dizer:/eu sou um rinoceronte.” Preocupações ecológicas se misturam com a pobreza representativa que a extinção de uma espécie apresenta, e ambos os dilemas encontram sua síntese na tragédia subjetiva que é a falta do rinoceronte no mundo. 

Mas não podemos falar que esse esforço é de uma compreensão completa da realidade, um sistema de signos que se fecha em si. É muito mais rico por ser exatamente o contrário. Sua poética se preocupa em ser “casa que é/sobretudo acesso/espaço que se/habita como/gesto.” E tanto nessa figura arquitetônica abstrata, como na proposta de ser um método de conhecimento contínuo, que abrange aquilo que encontra pela frente, achamos uma das referências mais presentes no livro: a de João Cabral de Melo Neto. O próprio tom que Daniel empresta à boa parte dos poemas, com um (ao menos aparente) distanciamento analítico, não pode ser desassociado do poeta pernambucano. Ainda, na estrutura evidente dos poemas, marca da antilírica cabralina, um projeto de compartilhamento desse conhecimento, que se torna ao mesmo tempo público e reproduzível, que se recusa a encerrar-se na obra, mas que mostra caminhos para formas de inteligência que não se submetem exatamente ao científico ou ao emocional, mas que habitam um entre-lugar.

Em imagem cabralina clássica, Arelli crava que “A poesia é basicamente uma moenda”. Difícil encontrar analogia mais precisa para sua poética, que se preocupa em sondar aquilo que é “pura exterioridade/o que ama/esconder-se”, seja a natureza, a história, a filosofia, nossa herança cultural, genética, ecológica, a poética alheia, o mundo, e transforma isso tudo em algo compreensível. Sempre compreensão parcial, incompleta, que demanda continuidade, mas compreensível, consumível como experiência. Assim como a cana se torna consumo no caldo. O caldo da matéria como lição de que a leitura do mundo pela linguagem passa sempre antes pela incompreensão. Mas que supera seu estado bruto, e forma-se em compreensível em poesia.

* * *

Arthur Lungov é poeta e editor de poesia da revista Lavoura. É autor do Corpos (Quelônio, 2019), obra que foi contemplada pelo 2° Edital de Publicação de Livros da Cidade de São Paulo; e da plaquete Anticanções (Sebastião Grifo, 2019). Foi publicado em coletâneas e revistas literárias. Foi curador convidado da Casa Philos na FLIP 2018, e na Cadeia Literária na FLIP 2019. Email para contato: albugelli@gmail.com


[1] LIÇÃO in: Dicionário Michaelis de Língua Portuguesa. São Paulo: Editora Melhoramentos, 2019. Disponível em: https://michaelis.uol.com.br/moderno-portugues/busca/portugues-brasileiro/li%C3%A7%C3%A3o/. Acesso em 04/12/2019.

[2] MATÉRIA in: Dicionário Michaelis de Língua Portuguesa. São Paulo: Editora Melhoramentos, 2019. Disponível em: https://michaelis.uol.com.br/moderno-portugues/busca/portugues-brasileiro/mat%C3%A9ria/

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Pedro Stkls

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Pedro Stkls| poeta | dizedor de poesia | compositor | fotografo. nortista do amapá, fui da amazônia ao sertão. já plantei árvore. me apaixonei e namoro os poemas de manoel de barros e adélia prado. acredito que a vida só é possível se a poesia se fizer presente em palavras, fala e abraços que se demoram. meu grupo de poesia se chama Poetas Azuis e é a coisa que mais amo fazer na vida: poetizar.

*

O POEMA PERDIDO

posso morar em qualquer parte
onde ao menos a gente se esbarre
como vênus e júpiter
sorrindo um para o outro
em novembro numa segunda 13
a olho nu quero ver
como você confere as horas
ou como cruza a esquina
ou como um fio do teu cabelo
sobre a calçada
deixa o dia mais dia
com você quero colecionar xícaras lascadas
como quem guarda cacos de vidros
que refletidos ao sol viram poemas
onde o mundo nos for casa
sempre será o outro lado do mar.
§

ENGRENAGEM

nunca pensei em como vai ser
a última vez que vou te ver
trazendo o sol tatuado
sobre a cabeça
e um dente-de-leão esfarelado
nos seus olhos pra irritar
esse sal que sempre escorre quando
você se depara com a florzinha
que grelou nessa manhã de abril
olha o coração está sobre a toalha
da nossa mesa de jantar
sim! comeremos o amor
vamos morrer de amor
e quando o legista abrir o teu corpo
vai ver que você se alimentou
de um líquido perfumado
você era a fábrica do poema
§

AMOR COM AÇAÍ

ah! daqui o amor
é uma coisa tão urgente
na boca da noite
ele me beija mururés
ah! se a lamparina falasse
como o giral ressoa
ecoa e grita as maravilhas
que a gente desenha
eu cuido do peixe do almoço
ele me pega
e a gente se perde no pitiú
se lambusa
abusa de mim, joão
na canoa eu nunca fiz
na balançar da rede
foi como mergulhar na pororoca
você me tocava naquela hora
não importava que hora o mundo seguia
já era preamar dentro de mim
eu te quis como a bandaia
aquela altura eu já era a tua iara
caboca das águas
voz doce no pé do teu ouvido
meu joão menino,
assobia aquelas coisas todas
outra vez?
aquela gritaria de periquitos
a vida era aquilo
amor que dura e cura
qualquer falta de riso
você me mundiando
e eu me achando
a deusa a estrela rara
e o giral, joão?
e a rede, joão?
que horas tu você volta
com o açaí?
eu nunca comi amor com açaí
como será, joão?
vumbora?
§

POEMA ILHADO PARA UMA CIDADE SUBMERSA

tem a memória
que do outro lado da porta
brinca de molhar os pés
é sempre um jeito
de me dizer que o rio barrento
é como um milagre
que é um amor
que é uma passagem de Deus
aqui ao menos
o rio será o tempo
um relógio de marés-minutos
que a todo instante
quer beber a cidade
o corpo da cidade
como tudo isso nasceu
eu não sei dizer
esse ruído de rio
esse rio que pula muro
esse rio que já esteve aqui
dentro do peito da cidade
agora é um quintal
onde são josé brinca
faz suas travessuras
sobe nas árvores
adoça a boca com fruta
e volta a olhar a ilha
o sol quando nasce no rio
é partícula de poesia
e vai ficando cheio de sol
e tudo de repente é poesia
vira um poema de rio
vira um poema de verão
penso que se jogar a rede agora
pesco um paneiro cheio de poemas
pesco…
o rio outro dia
estava solitário de maresia
e um barco passando
fez uma linha bem na sua aorta
o rio não revidou
o rio fechou os olhos
cansado do dia
o rio sonhou
que era um menino correndo
brincando nas poças da chuva
você rio maior da poesia
visto do espaço
é um caminho sem fim
um cabelo emaranhado
linhas e linhas de água
riscadas pelas canoas
rio amazonas, no principio
tinha um poema ilhado
para uma cidade submersa
recortes de histórias
pessoas mistérios e lendas
agora é um caminho sem volta
a cidade sempre fui eu
você me submergiu
cresceu poesia em mim
§

O CANTO DA AMAZÔNIA

aqui dou nomes ao meu canto
meu caso de amor
essa vontade louca
rítmica mística solar
essa vontade de desaguar
o rio que veio com tamanha devoção
parar aqui dentro e bate vezenquando
forte no casco da alma
é um regatão feito da palavra navegar
é por onde se diz uma reza
do encontro do corpo das folhas
que seguem o caminho das águas barrentas
é a canção sobre as tardes do norte
é a chuva que se mistura com a maré
é um lampião no olho do sol
só para fazer a água evaporar
é o que vem do verde
o sagrado instante quando
o silêncio é abençoado
pelas árvores tempestiando
seus galhos e suas raízes
o silêncio é sobre o que guarda
o canto que sonda a mãe do mundo
e como quem debulha o vento
sigo como quem carrega
mil andorinhas nas costas
e pousa no sopro no garrancho
das açucenas encarnadas
de terreiro de rodado de beleza
é carregar no colo a casa
onde mora o misticismo
da poesia.

*

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Manuella Bezerra de Melo

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Manuella Bezerra de Melo é jornalista e escritora. Trabalhou como repórter, produtora, redatora. Escreve nas horas vagas e quando atenção permite espasmos, poemas, crônicas e contos infantis. Viveu no Brasil, na Argentina virou aldeã, hoje está em Portugal. Morou em Braga, atualmente reside em Guimarães, amanhã é outro dia. Está na antologia Pedaladas Poéticas (Aquarela Brasileira, 2017), publicou Desanônima (Autografia, 2017) e Existem Sonhos na Rua Amarela (Multifoco, 2018). Dedica-se a um mestrado de Teoria da Literatura e Literaturas Lusófonas da Universidade do Minho (Uminho).

*

Tinha doze anos
e dançava minha dança
de criança numa festa
de criança quando um dedo
estranho
invadiu minha xota de criança
e treze quando desci do ônibus
na volta da escola e uma mão veloz
de bicicleta me apertou a teta;
beliscão
quase quinze quando um
primo me abraçou por trás
e pôs suas duas mãos
abertas
sob meus peitos tão recentes
— ainda nem havia me dado
conta que estavam lá —
()
os homens que me tocaram
primeiro de um jeito ou de outro
fui impedida de ver seus rostos
§

Não passei fome e me compadeço
em meu privilégio não cortei cana
menina nem andei quilômetros a
pata ou boleia até a escola
Não sou tão rasa que não
se possa tirar proveito nem
tão sabida que se oriente imitar
falta-me chão de pedra e doem
demasiadamente pouco
os calos nos caminhos sob o
rubro céu que vivo; mas
sinto o peso abrupto de quem
vejo não eleito escolho sua trilha
arrasto consigo sua caçamba
Apunho da menina esse facão
e dele extraio pra ela seu trabalho
e sua doçura; não há poesia
sem dividir este peso
§

Invisível na multidão
mais invisível numa
sala sem afeto e com poder
que despertam raros silêncios
e muitos ruídos; o legado
é um escaravelho
§

Língua solta da boca
risca o chão faca afiada
meu próprio inferno
mora em meu corpo
gastura organismo que treme
involuntariamente
onde todo mundo é alguém
e você continua não ser todo
mundo; os outros são somente
onde eu gostaria de morar
pra não ter que morar em mim

*

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