poesia

Caio Augusto Leite (1993-)

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Caio Augusto Leite nasceu em São Paulo em 1993. Mestre em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo (USP). Integrou o Printemps Littéraire Brésilien 2018 na França e na Bélgica a convite da Universidade Sorbonne. Tem dois livros publicados: Samba no escuro (2013, Scortecci) e A repetição dos pães (2017, Editora 7Letras). Além do livro de contos Terra trêmula, no prelo.

* * *

I.
Nesse silêncio de frutas
Ainda sem verão
Sinto a próxima chuva
Pelo cheiro que a terra emana
Pela secura da terra selvagem
Das flores ainda fechadas
Das flores sem flores ainda
A lembrança de outros verões
Mais turbulentos
A nenhuma saudade de um dezembro
Antigo como a fome de querer ter tudo
De ser tudo e como dói pouco não ter
Não ser e não estar chovendo
Para que eu assim mesmo me alegre
Como os melões e as uvas áridas
Pois trazem dentro a água futura
A mesma de sempre e renovada
Em ácidas e doces suculências
Nas sementes secretas
Nos pátios de linóleo manchados
De sumo roxo e o coração em ritmo
Suave e flexível batendo cabendo
No que a vida dá e que colho não depois
Não como antes mas já nessa umidade
Prevista entre os dedos a unidade
Do universo em meu nome e antes dele
No sal do deserto a partilha se faz
Como se nunca não se fizesse
O pra sempre é aqui já nesse momento:
Primitivo, derradeiro
II.

os dias que amanhecem tristes
nada têm de tristes são
os sentidos que pousam
como pássaros na árvore
nada tem de pássaro a árvore
no entanto pensamos neles
quando vemos florestas
e quando crianças desenhamos
pássaros pousados começamos
pela árvore nunca pelo pássaro.

III.
as mãos se relacionam
e se amam ou se odeiam
quanto mais ou menos
se enxergam

quanto mais ou menos
se entregam ao mistério
além das próprias semelhanças
além das unhas e dos dedos

quanto mais ou menos
inauguram gestos concretos
entre si amenos e pacíficos
cheios de alegria

se odeiam ou se amam
quanto mais ou menos
se unem para a falácia
das sombras projetadas na parede
sob uma luz triste e fraca
uma imagem fixa e falsa

as mãos se amam ou se odeiam
quanto mais ou menos
se procuram no escuro
e se iluminam de dentro pra fora

se amam ou se odeiam
quanto mais ou menos
deixam de caçar passados
e tatear futuros

quanto mais ou menos
perfuram o agora

as mãos se odeiam
quanto mais se odeiam
em vício, tristeza
e servidão

as mãos se amam
quanto mais se amam
e alegres dançam
leves aves libertas

IV.
os poetas trapaceiam
passeiam entre trapos
inventam tramas e vendem
livros cheios de arabescos
fingem que são outros
mas lá dentro onde um homem
se olha no lago e se afoga
ali na linha de uma costura
que antes de longe nem parecia
pendurados na paredes
se ocultam óbvios na tapeçaria

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