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XANTO|“A floresta e a escola. O Museu Nacional”, por Alexandre Nodari

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Meteorito de Bendegó, entre as ruínas do Museu Nacional.

Não gostaríamos que as canções fossem parar tão longe de nós; não, as canções ficariam muito sós
(Índio Seneca, citado por Jerome Rothenberg)

Chegaram os espantosos brancos, da estranha tribo dos homens vestidos…” (Raul Pompeia, “Um povo extinto”)

Sim, a escravidão dos índios foi e será um grande erro, e a sua destruição foi e será uma grande calamidade. Convinha que alguém nos revelasse até que ponto este erro foi injusto e monstruoso, até onde chegaram essas calamidades no passado, até onde chegarão no futuro: eis a história. Convinha também que nos descrevesse os seus costumes, que nos instruísse nos seus usos e na sua religião, que nos reconstruísse todo esse mundo perdido, que nos iniciasse nos mistérios do passado como caminho do futuro, para que saibamos donde viemos e para onde vamos
(Gonçalves Dias)

Visitei apenas uma vez, quanto tinha por volta de 18 anos, ou seja, uma década e meia atrás, a parte expositiva do Museu Nacional, aquela que continha ossadas de dinossauros, múmias, vasos greco-romanos, artefatos indígenas, em suma, os vinte milhões de itens que, em sua quase totalidade, foram consumidas no incêndio politicamente criminoso. Recentemente, em 2012, passei um semestre frequentando semanalmente o Museu, mas não a parte expositiva, e sim o Programa de Pós-Graduação em Antropologia, onde tive o grande privilégio de poder ministrar um curso sobre Oswald de Andrade com Eduardo Viveiros de Castro, a convite generoso deste. Eu tinha acabado de concluir o doutorado, e foi a minha primeira experiência mais acabada como docente universitário, experiência que transformou radicalmente a minha carreira, a minha visão política, as minhas pesquisas, e a minha vida pessoal. Foi lá que conheci muitos amigos queridos, como o Marco Antonio Valentim e a Juliana Fausto, foi lá que firmei um diálogo mais profícuo com diversos antropólogos, foi lá que se sedimentou a #ATOA, Afundação Taba de Oswald de Andrade, ou Agrupamento Terrano de Ações Anti-aéreas, que culminou em nossa participação na Cúpula ou Cópula dos Povos da Rio +20. Momentos cruciais de formação e transformação, de contestação do projeto desenvolvimentista e genocida, projeto sintomizado na construção de Belo Monte. Mas também momentos de alegria, a única prova dos nove. Nesse semestre todo, em que frequentei semanalmente o Museu, não visitei uma vez sequer o espaço de exposições, não vi aquele que era o totem da #ATOA, a ossada da Preguiça Gigante – queria deixar para visitar com calma, quando não tivesse a trabalho. Deixei pro futuro. Ledo engano, em um país cujo futuro consiste em destruir o passado.

Trata-se de um projeto genocida já inscrito na Carta de Pero Vaz, carta que não nomeia nenhum indígena, que não cessa de ressaltar a incompreensão que os europeus têm da palavra destes, e que anuncia como o “melhor fruto que [nessa terra] se pode fazer [..,] parece que será salvar esta gente e esta deve ser a principal semente que vossa alteza em ela deve lançar”. A semente plantada – o futuro – era, foi e continua sendo salvar os povos originários, de si mesmos, do seu passado, para convertê-los em outra coisa, pela fala e pela bala.

            Mas, por uma contradição inerente ao processo colonial, alguma coisa se salvou dessa salvação: a formação da Nação (processo que não termina, pois a Nação não é dada senão no seu formar-se) pressupunha (pressupõe) colecionar, exibir e estudar aquilo sobre a qual ela (e o “concerto das nações”, a “humanidade cosmopolita”) se funda(m). O Museu Nacional era isso. Ali estavam expostos os resíduos do projeto colonial, do sistema digestivo da “baixa antropofagia” que praticamos, “a soma comprimida de todos os indícios contra nós”, como fala Canetti: fósseis não só de animais não-humanos, não só da originária Luzia, mas fósseis de povos, artefatos de povos indígenas extintos (massacrados), desses nossos ex-parentes, desses com os quais não queremos nos aparentar, dos quais nos apartamos tanto no mito quanto na história, por um erro de português ou de genovês, a colonização ontológica dos outros e de nós mesmos. O que restou deles, o seu rastro, era, parafraseando o que Foucault diz em “A vida dos homens infames”, a marca de seu encontro com o poder. Agora, nem isso resta. Nem o resto restou. A queima do Museu foi uma segunda extinção: não ouvimos o “alarme de incêndio” acionado por Walter Benjamin, o aviso de que “nem os mortos estarão a salvo se o inimigo [o Progresso] vencer. E esse inimigo nunca deixou de vencer”.

            Mas o Museu não era mais isso quando foi incendiado. Já era outra coisa. Era um espaço no qual se podiam estabelecer alianças por meio da compreensão das cenas originárias – as outras cenas, que não cessam de dar origem, de produzir história, de produzir futuro, na qual brancos e índios, homens e animais, sujeitos e objetos eram aparentados. Pois entender o nosso passado (enquanto matéria, enquanto seres vivos, enquanto espécie), e entender o presente e passado dos outros, abre a possibilidade de ampliar o que somos, o que podemos ser. O acervo Curt Nimuendaju, depositado no Museu, era um índice dessa aliança. A própria figura desse etnógrafo amador, alemão de nascença, guarani por adoção, por aparentamento, muito pouco Nacional, portanto, era um índice disso: nimuendaju, o que se assentou, se estabeleceu entre os outros, se tornou aparentado a outros, virou outro, seguindo a lição de outro estrangeiro, de outro expatriado, Ferdinand Denis, que também viu nos povos indígenas brasileiros a possibilidade de uma transformação: “Que o poeta dessas formosas regiões celebre desde agora os felizes acontecimentos do século; mas não esqueça de modo algum os erros do passado; suspenda a sua lira por instantes nos galhos dessas antigas árvores cujas sombrias ramagens escondem tantas cenas de perseguição; retome-a, depois de haver lançado um olhar de compaixão sobre os séculos transcorridos; lastime as nações aniquiladas, excite uma piedade tardia, porém favorável aos restos das tribos indígenas; e que este povo exilado, diferente por sua cor e costumes, jamais seja esquecido nos cantos do poeta; que adote uma nova pátria e cante-a ele mesmo; que se console à recordação de outros infortúnios, e rejubile-se com a cintilante esperança que lhe dá um povo humano”. No acervo Curt Nimuendaju, para além da ampla documentação linguística (alguma da qual digitalizada), da biblioteca, havia também gravações de cantos em línguas hoje extintas, cantos que haviam ficado sós com o extermínio de seus cantores, e que desde o dia 2 de setembro [de 2018], e que agora estão condenadas a, para sempre, permanecerem sós.

            Pois o que foi destruído criminosamente não foi apenas o passado. Nem tampouco o seu registro – como na queima de documentos relativos a escravidão ordenada por Rui Barbosa quando Ministro da Justiça, com a intenção de tentar abolir pelo fogo esse capítulo nefasto de nossa história, intenção fracassada, pois que o capítulo persiste com o genocídio da juventude negra nas periferias das cidades brasileiras (e note-se que o incêndio do Museu também foi uma queima de arquivo). O que foi destruído também foram possibilidades de futuro, possibilidades de ampliação e modificação do nosso mundo, e de outros mundos possíveis, como disse tão bem Orlando Calheiros em um dos textos mais incisivos a respeito. Nosso futuro e nossas possibilidades se reduziram drasticamente dois domingos atrás – para não dizer que acabaram de vez, pois se o Museu Nacional, a mais antiga instituição científica do país, queimou, então todas as demais instâncias de ensino, cultura e preservação, também podem, como insistentemente sou levado a pensar, no misto de desespero profundo e revolta que tem me acometido, e que tem me desnorteado, e creio que a muitos de nós, afinal como ainda estamos aqui, reunidos nesses dois prédios que formam a Reitoria da Universidade Federal do Paraná, sem saída de incêndio, sem alarme de incêndio? No dia 2 se revelou a condição de possibilidade da “pós-história” enquanto abolição do futuro e a continuação passiva e repetida do mesmo, enquanto cessar do fluxo do tempo num presente eterno: ela depende da destruição ativa do passado. A pós-história, a obliteração retro e prospectiva de toda possibilidade de história (passado e futuro), é um deserto sem real.

            Pois o passado que queimou não era um passado que havia passado definitivamente, mas sim um passado que persistia passando por meio dos vestígios, marcas, rastros, nas quais subsistiam um “conjunto de relações ao mesmo tempo concretas e virtuais” dadas pela “história particular de cada peça”, por esses “testemunhos fósseis da história de um indivíduo ou de uma sociedade” (para citar O pensamento selvagem, de Lévi-Strauss). O que queimou foi uma “origem” (passado) que podia dar origem (futuro), transformar o presente: meios de acesso à cena originária, que permitiam encená-la, por em cena essa cena.  Foi o incêndio que fez o passado passar definitivamente.

No Manifesto da Poesia Pau-Brasil, Oswald de Andrade advogava por “Uma visão que bata nos cilindros dos moinhos, nas turbinas elétricas, nas usinas produtoras, nas questões cambiais, sem perder de vista o Museu Nacional”. Ou seja, uma dupla perspectiva, que englobava tanto o “futuro” (as turbinas elétricas) quanto o “passado” (o Museu Nacional), como se um estivesse atrelado ao outro. Infelizmente, perdemos o Museu Nacional de vista, obcecados que estávamos – e estamos – pelas “usinas produtoras”. A mesma imagem reaparece no Manifesto na forma da “base dupla e presente [friso] – a floresta e a escola”, natureza e cultura, passado e futuro, que se articulam, no último aforismo, justamente pelo Museu Nacional, como se ele fosse um lugar capaz de manter presentes os dois polos da base, como se só uma tal articulação fosse capaz de produzir o presente: “A floresta e a escola. O Museu Nacional”. O incêndio desse consuma, assim, o continuado incêndio daqueles – a destruição da floresta e o sucateamento do ensino, ou melhor, o ensino-sucata, pois já dizia Darcy Ribeiro que “a crise da educação não é uma crise, é um projeto”. Projeto de destruição do passado e do futuro, projeto de futuro baseado na destruição do passado, mas que, nesse gesto, consome a si mesmo – destruição, em suma, de todo fora, da floresta (foris) e da mudança, da natureza e da cultura, em suma, da alteridade e da possibilidade de alteração.

            Já foi muito notado – como não poderia deixar de sê-lo – que um dos poucos objetos a sobreviver ao incêndio foi o meteorito do Bendegó, que vem de fora da Terra. É como se nada que tivesse aqui, nenhum fora que seja daqui, fosse capaz de sobreviver ao fogo geno- e suicida que nós insistimos em atear ao nosso mundo, reduzindo suas possibilidades a uma só, reduzindo suas possibilidades às cinzas.

            Todavia, isso não é tudo – isso não pode ser tudo. Em uma crônica de – frise-se a data – 18 de maio de 1968, intitulada “A matança de seres humanos: os índios”, Clarice Lispector listava os diversos e perversos modos pelos quais se matam índios (e o verbo tem de permanecer no presente, pois a ação que designa também permanece): “Ocorre-nos perguntar, então: e hoje, como se matam os índios se é esta uma ação premeditada? Há várias maneiras de se matar índios: desde a mais simples que é a bala de um trabuco, aos mais requintados métodos, como interferência maciça na cultura do índio através de catequese religiosa que lhes proíbe a preservação de sua cultura primitiva, o que fatalmente redunda em sacrifício do nativo. Ou se mata índio também arrebatando-lhes a terra, à qual estão teluricamente ligados.” Poderíamos acrescentar a essa lista a destruição de seus artefatos, dos registros de seus cantos, ocorrido com a queima do Museu. Contudo, apesar disso tudo, de todas essas formas de genocídio, ou melhor, contra elas e a redução de seu mundo e de suas possibilidades, os povos indígenas continuam resistindo, rexistindo, como diz Viveiros de Castro. Os Bakairi, povo que Raul Pompeia via a caminho da extinção em 1888, continuam existindo, resistindo, rexistindo. Apesar – e contra – os mais de cinco séculos do projeto colonial, os povos indígenas insistem, persistem em abrir caminhos para fora da nossa rua de mão única. “Com toda a coação e a libidinagem da gente branca, não foi, no entanto, destruído o que melhor restava no natural das Américas. A sua cultura resistiu no fundo das florestas, como na recusa a toda força escravizante”, dizia Oswald. No fundo das florestas assim como na recusa a força escravizante: nunca um sem o outro, pois “Toda a literatura, mesmo a missionária, que no século XVI encheu de novidade o mundo, aqui permaneceu para escândalo do mundo vestido e algemado que nos traziam”. No passado (livros) e no presente (floresta). A floresta e a escola. Mais do que nunca, precisamos ouvir o grito dos povos originários, desses povos que não cessam de se fazer presentes, de fazer o presente. Deles, de sua lição, se origina a possibilidade de futuro: “Só o selvagem nos salvará. Essa força profunda que sentimos e que cumpre conservar nos veio dele.”

* * *

Alexandre Nodari é professor de literatura e filosofia da UFPR. Fundador e coordenador do species – núcleo de antropologia especulativa. O texto acima foi apresentado, em uma primeira versão, no evento Museu Nacional: a Memória e o Futuro, organizado pelo Centro Acadêmico de Filosofia da UFPR, 13 de setembro de 2018.

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