poesia, tradução

Três poemas uterinos de Anne Sexton, por Mariana Basílio

anne sexton

Anne Sexton (1928 – 1974) é uma das mais celebradas poetas estadunidenses do século XX. Autora de mais de 10 livros de poesia e prosa, venceu o Prêmio Pulitzer de Poesia em 1967. A vida de Sexton foi marcada por sua luta contra a depressão. Ela começou a escrever na década de 1950, incentivada pelo seu analista. Os temas de seus poemas incluem sua longa batalha contra a depressão e as tentativas de suicídio, detalhes de sua vida pessoal, filhos, temas feministas e intimistas – como a questão uterina para vida da mulher, o aborto, a masturbação. Anne também colaborou com músicos, formando um grupo de jazz chamado Her Kind (título de um dos seus poemas), que adicionava música à sua poesia. Em prosa, sua peça teatral Mercy Street foi produzida em 1969, e inspirou uma canção homônima de Peter Gabriel.

Ela decidiu morrer em 4 de outubro de 1974, após um almoço ao lado da amiga Maxine Kumin, quando revisavam o manuscrito de The Awful Rowing Toward God, que seria publicado em março de 1975.

Sua obra também inclui livros como:  To Bedlam and Part Way Back (1960), All My Pretty Ones (1962), Live or Die (1966), Love Poems (1969), Mercy Street (1969), Transformations (1971), The Book of Folly (1972), The Death Notebooks (1974).

Para minha tradução da poesia completa de Anne Sexton, trabalho iniciado em 2017,  procuro sempre um equilíbrio entre seus versos livres, observando a força dos seus vocábulos e metáforas, e quesitos como métrica e ritmo, focando sobretudo no sentido de sua poesia, na fluidez e densidade dessa poesia confessional, procurando manter as surpresas e as sutilezas dos seus versos na língua portuguesa, acompanhando a essência de Sexton: uma poesia híbrida, moderna, fluente, densa, intimista, potente – repleta de reflexões sociais e  pessoais – em movimentos que ultrapassam seu tempo, e que a tornaram uma das vozes mais ilustres da poesia americana do século XX.

Para esta colaboração, apresento uma tríade de poemas inéditos na escamandro, os famosos poemas The abortion, Menstruation at forty, e In Celebration of My Uterus. Um tema que é contínuo em seus livros, uma unidade importante da poesia de Sexton, é a reflexão das dimensões da mulher em seu papel gerativo, na vida que ela escolhe e não escolhe viver, estar e representar, e se emancipar.

Anteriormente, a autora apareceu pela primeira vez no escamandro em 2014, em apresentação de Adriano Scandolara para uma tradução de Bernardo Beledeli Perin, e reapareceu neste blog anos mais tarde em outros três poemas traduzidos por Beatriz Regina Guimarães Barboza, escolhidos do final de sua trajetória.

Espero assim, com esta nova contribuição, colaborar para o aumento do seu reconhecimento pelo público lusófono e brasileiro.

Mariana Basílio

*

O aborto

Alguém que deveria ter nascido
se foi.

Assim como a terra sua boca enrugou,
cada botão inchado de seu nó,
eu troquei meus sapatos, e dirigi para o sul.

Passando pelas Montanhas Blue, vê-se a
Pensilvânia se curvando infinitamente,
vestindo, como um gato de giz de cera, seu pelo verde,

suas estradas afundadas como uma tábua de lavar cinzenta;
onde, na verdade, o chão racha malignamente,
uma tomada escura de onde o carvão foi se vertendo,

Alguém que deveria ter nascido
se foi.

a grama como uma cebolinha eriçada e robusta,
e eu me perguntando quando o chão se quebraria,
e eu me perguntando como algo frágil perdura;

lá na Pensilvânia, eu conheci um homem pequenino,
não Rumpelstiltskin, mesmo, mesmo…
ele tomou a plenitude que o amor deu início.

Voltando ao norte, até o céu se tornou tão fino
como uma alta janela olhando para lugar nenhum.
A estrada era tão plana, como um papel alumínio.

Alguém que deveria ter nascido
se foi.

Sim, mulher, tal lógica irá levar
à perda sem morte. Ou diga o que você quis dizer,
sua covarde… esse bebê a me sangrar.

 

The abortion

Somebody who should have been born
is gone.

Just as the earth puckered its mouth,
each bud puffing out from its knot,
I changed my shoes, and then drove south.

Up past the Blue Mountains, where
Pennsylvania humps on endlessly,
wearing, like a crayoned cat, its green hair,

its roads sunken in like a gray washboard;
where, in truth, the ground cracks evilly,
a dark socket from which the coal has poured,

Somebody who should have been born
is gone.

the grass as bristly and stout as chives,
and me wondering when the ground would break,
and me wondering how anything fragile survives;

up in Pennsylvania, I met a little man,
not Rumpelstiltskin, at all, at all…
he took the fullness that love began.

Returning north, even the sky grew thin
like a high window looking nowhere.
The road was as flat as a sheet of tin.

Somebody who should have been born
is gone.

Yes, woman, such logic will lead
to loss without death. Or say what you meant,
you coward… this baby that I bleed.

§
Menstruação aos quarenta

Eu estava pensando num filho.
O ventre não é um relógio
nem um sino tocando,
mas no décimo primeiro mês de vida
eu sinto o novembro
do corpo, bem como o do calendário.
Em dois dias será o meu aniversário
e como sempre a terra terminou a sua colheita.
Desta vez eu caço a morte,
a noite a que eu me inclino,
a noite que eu desejo.
Bem, então –
fale disso!
Ele estava no ventre este tempo todo.

Eu estava pensando num filho…
Você! O nunca conseguido,
o nunca semeado ou desatado,
você, dos genitais que eu temia,
o talo e o fôlego do filhotinho.
Eu te darei os meus olhos ou os dele?
Você será o David ou a Susan?
(Esses dois nomes eu escolhi escutando).
Você pode ser o homem que seus pais são –
os músculos das pernas de Michelangelo,
mãos da Iugoslávia
em algum lugar o camponês, Eslavo e determinado,
em algum lugar o sobrevivente, cheio de vida –
e seria ainda possível
tudo isso com os olhos de Susan?

Tudo isso sem você –
dois dias passados em sangue.
Eu mesma morrerei sem batismo,
uma terceira filha com que não se importaram.
A minha morte virá no dia do meu santo.
O que há de errado com o dia do meu santo?
É só um anjo do sol.
Mulher,
tecendo uma teia sobre você mesma,
um veneno fino e emaranhado.
Escorpião,
má aranha –
morra!

A minha morte pelos pulsos,
dois crachás,
sangue vestido como flor de corpete,
para florescer,
uma à esquerda e outra à direita –
É um quarto morno,
o lugar do sangue.
Deixe a porta aberta nas dobradiças!

Dois dias para a sua morte
e dois dias até a minha.

Amor! Essa rubra doença –
ano após ano, David, você me deixaria louca!
David, Susan, David, David!
plena e desgrenhada, sibilando pela noite,
sem nunca envelhecer,
esperando sempre por você na varanda…
ano após ano,
minha cenoura, meu repolho,
eu teria te possuído antes de todas as mulheres,
chamando seu nome,
chamando-te meu.

 

Menstruation at forty

I was thinking of a son.
The womb is not a clock
nor a bell tolling,
but in the eleventh month of its life
I feel the November
of the body as well as of the calendar.
In two days it will be my birthday
and as always the earth is done with its harvest.
This time I hunt for death,
the night I lean toward,
the night I want.
Well then –
speak of it!
It was in the womb all along.

I was thinking of a son…
You! The never acquired,
the never seeded or unfastened,
you of the genitals I feared,
the stalk and the puppy’s breath.
Will I give you my eyes or his?
Will you be the David or the Susan?
(Those two names I picked and listened for.)
Can you be the man your fathers are –
the leg muscles from Michelangelo,
hands from Yugoslavia
somewhere the peasant, Slavic and determined,
somewhere the survivor bulging with life –
and could it still be possible,
all this with Susan’s eyes?

All this without you –
two days gone in blood.
I myself will die without baptism,
a third daughter they didn’t bother.
My death will come on my name day.
What’s wrong with the name day?
It’s only an angel of the sun.
Woman,
weaving a web over your own,
a thin and tangled poison.
Scorpio,
bad spider –
die!

My death from the wrists,
two name tags,
blood worn like a corsage
to bloom
one on the left and one on the right –
It’s a warm room,
the place of the blood.
Leave the door open on its hinges!

Two days for your death
and two days until mine.

Love! That red disease –
year after year, David, you would make me wild!
David! Susan! David! David!
full and disheveled, hissing into the night,
never growing old,
waiting always for you on the porch…
year after year,
my carrot, my cabbage,
I would have possessed you before all women,
calling your name,
calling you mine.

§

Celebração do Meu Útero

Cada um em mim é um pássaro.
Estou batendo todas as minhas asas.
Eles queriam te arrancar
mas eles não irão.
Eles disseram que você estava imensuravelmente vazio
mas você não está.
Eles disseram que você estava prestes a morrer
mas eles estavam errados.
Você canta como uma estudante.
Você não está rasgado.

Doce peso,
na celebração da mulher que eu sou
e da alma dessa mulher que eu sou
e da criatura central e de seu deleite,
eu canto para você. Eu ouso viver.
Olá, alma. Olá, taça.
Ata, cobre. Tampa que contém.
Olá à terra dos campos.
Bem-vindas, raízes.

Cada célula tem uma vida.
Aqui há o bastante para satisfazer uma nação.
É bastante que o povo possua estes bens.
Qualquer pessoa, qualquer comunidade diria disso,
“Está tudo tão bem neste ano que poderemos plantar de novo
e esperar uma colheita.
Uma praga tinha sido prevista e foi eliminada.”
Muitas mulheres unidas estão cantando sobre isso:
uma amaldiçoando a máquina na fábrica de sapatos,
uma cuidando de uma foca no aquário,
uma aborrecida nas rodas do seu Ford,
uma cobrando no guichê do pedágio,
uma enlaçando um bezerro no Arizona,
uma montando no seu violoncelo na Rússia,
uma mexendo as panelas do fogão no Egito,
uma pintando da cor da lua as paredes do seu quarto,
uma morrendo, mas recordando de um café da manhã,
uma estirando-se na sua esteira na Tailândia,
uma limpando o bumbum do seu filho,
uma olhando pela janela do trem
no meio de Wyoming e uma está
em algum lugar e algumas estão por todo lado e todas
parecem estar cantando, ainda que algumas não saibam
cantar nota alguma.

Doce peso,
em celebração da mulher que eu sou
deixe-me levar uma echarpe de três metros,
deixe-me batucar pelas de dezenove anos,
deixe-me levar as tigelas para as oferendas
(se for o caso).
Deixe-me analisar o tecido cardiovascular,
deixe-me calcular a distância angular dos meteoros,
deixe-me chupar os caules das flores
(se for o caso).
Deixe-me fazer certas figuras tribais
(se for o caso).
Por esta coisa que o corpo necessita
deixe-me cantar
para a ceia,
para os beijos,
para o certeiro
sim.

 

In Celebration of My Uterus

Everyone in me is a bird.
I am beating all my wings.
They wanted to cut you out
but they will not.
They said you were immeasurably empty
but you are not.
They said you were sick unto dying
but they were wrong.
You are singing like a school girl.
You are not torn.

Sweet weight,
in celebration of the woman I am
and of the soul of the woman I am
and of the central creature and its delight
I sing for you. I dare to live.
Hello, spirit. Hello, cup.
Fasten, cover. Cover that does contain.
Hello to the soil of the fields.
Welcome, roots.

Each cell has a life.
There is enough here to please a nation.
It is enough that the populace own these goods.
Any person, any commonwealth would say of it,
“It is good this year that we may plant again
and think forward to a harvest.
A blight had been forecast and has been cast out.”
Many women are singing together of this:
one is in a shoe factory cursing the machine,
one is at the aquarium tending a seal,
one is dull at the wheel of her Ford,
one is at the toll gate collecting,
one is tying the cord of a calf in Arizona,
one is straddling a cello in Russia,
one is shifting pots on the stove in Egypt,
one is painting her bedroom walls moon color,
one is dying but remembering a breakfast,
one is stretching on her mat in Thailand,
one is wiping the ass of her child,
one is staring out the window of a train
in the middle of Wyoming and one is
anywhere and some are everywhere and all
seem to be singing, although some can not
sing a note.

Sweet weight,
in celebration of the woman I am
let me carry a ten-foot scarf,
let me drum for the nineteen-year-olds,
let me carry bowls for the offering
(if that is my part).
Let me study the cardiovascular tissue,
let me examine the angular distance of meteors,
let me suck on the stems of flowers
(if that is my part).
Let me make certain tribal figures
(if that is my part).
For this thing the body needs
let me sing
for the supper,
for the kissing,
for the correct
yes.

§

Mariana Basílio (Bauru – São Paulo, 198). Prosadora, poeta, ensaísta e tradutora. Mestre em Educação pela Universidade Estadual Paulista (Unesp). Autora dos livros de poesia Nepente (2015), Sombras & Luzes (2016), e Tríptico Vital (Patuá, 2018. Prêmio ProAC 2017, Finalista Residência Literária Sesc 2018, Finalista Prêmio Guarulhos 2019). Colabora em portais e revistas nacionais e internacionais, tendo traduzido nomes como May Swenson, Alejandra Pizarnik, Edna St. Vincent Millay, Sylvia Plath e William Carlos Williams. É também autora das plaquetes de poemas, As Três Mal-Amadas (Kizumba Edições, 2018), e As Mãos que Ressoam o Absurdo (edição artesanal, 2019). Com patrocínio do prêmio ProAC 2019, do Governo de São Paulo, publicará em 2020 seu quarto livro de poesia, Mácula (Patuá). Mantém o site http://www.marianabasilio.com.br.

*

 

Padrão
poesia, tradução

"A"-19 de Louis Zukofsky, um trecho por Beethoven Alvarez

Louis Zukofsky (1904 – 1978) foi um poeta americano, filho de imigrantes russos judeus, que carregou o peso de ter vindo depois de T.S. Eliot, Ezra Pound e William Carlos Williams. E não sou eu que digo isso, foi o próprio Pound que escreveu isso numa carta pro L.Z. (numa das quase 600 que trocaram ao longo da vida, que dá pra ler nesse volume).

Entre 1927 (quando L.Z. tinha 23 e Pound, 42) e 1933, foram mais de 300 cartas, até finalmente se encontrarem pessoalmente na Itália. A história dessa amizade e filiação poética vai muito além disso (e inclui muito mais afeto e desilusão), mas, dessa época, um fato importante foi que Pound convenceu Harriet Monroe, editora da Poetry, a deixar L.Z. editar uma edição especial em 1931, que ele intitulou de Objectivists’ 1931.

Zukofsky tinha começado a escrever ainda na década de 1920, muito influenciado por Pound e William Carlos Williams, mas, foi na década de 1930, depois da publicação dessa edição da Poetry, que fica conhecido como uma espécie de líder de um grupo de poetas que intitulou de “objetivistas” (embora nunca se tenha falado de um “objetivismo” como movimento).

Para L.Z. e os objetivistas o poema deveria ser entendido como um objeto, sincero e inteligente, que permitisse ao poeta enxergar e fazer enxergar o mundo, como um espelho. Ver o poema como esse objeto exigia chamar a atenção para o próprio poema, o que podia ser feito com a fragmentação sintática deliberada e pelas quebras de linha que perturbam o ritmo normal da fala. Essas ideias L.Z. desenvolveu continuamente. 

Porém, embora tenha feito certo sucesso, sua poesia era tida como obscura, experimental e intelecual demais (era?). L.Z. acabou ficando um tanto eclipsado pela popularidade de Eliot, Yeats e outros poetas americanos de influências simbolistas. Zukofsky continuou trabalhando, produziu algumas antologias, um profundo estudo sobre Shakespeare (antes já tinha sido o primeiro a publicar uma análise sobre os Cantos, de E.P.) e uma tradução integral da poesia de Catulo num método, no mínimo, controverso. Além de se manter escrevendo poemas.

Sua obra mais marcante, com certeza, é poema épico “A”. É seu magnum opus (e bota magnum nisso), que L.Z. começou a escrever ainda em 1927 e terminou 40 anos depois, em 1968. Composto por 24 cantos, equivalentes às 24 horas do dia, o poema tem 803 páginas (sem considerar os índices; se considerarmos os índices do final, o livro tem 826 páginas e começa exatamente com a letra A e termina com a palavra Zion).

Um conhecido crítico, Hugh Kenner, chamou “A” de o “mais hermético poema em inglês, um poema que os estudiosos vão estar ainda tentando elucidar no século 22”. (Isso quem diz foi Barry Ahearn, um dos maiores conhecedores da obra de L.Z., na Introdução da edição de 2011 de “A”.)

E é um trecho do canto “A”-19 que apresento agora traduzido. E já digo: se você não entender muita coisa de início, eu juro, a culpa não é só minha. É necessário fazer um esforço hermenêutico grave pra penetrar o intricado jogo de sentidos e de falta deles, de ritmos, de melodias (a poesia de Zukofsky é altamente musical), de vozes, de alusões, citações, referências e o escambau. Mas o próprio L.Z. dá a chave de leitura, ou, melhor, de apreciação desse canto: aqui será uma espécie de tributo a Mallarmé. 

É preciso dizer que L.Z. empregou aqui e em várias passagens de “A”, como fez com Catulo, a chamada “tradução homofônica”, que acaba por criar um texo como uma imagem sonora do outro, em que a semântica está fortemente subordinada ao sistema fônico. Busquei fazer o mesmo, mas além de transpor o texto em inglês para o português homofonicamente, em várias passagens, que vão parecer ter pouca correspondência, eu fiz isso direto com o texto em francês (de poemas de Mallarmé). Dá uma olhada em algumas notas sobre isso aqui.

Do ponto de vista formal e descritivo, Kenneth Cox, exatamente num estudo chamado “Tribute to Mallarmé” (2001), explica que o “A”-19 é composto por um prelúdio de 8 quartetos + 72 estrofes de 13 versos cada (a última possui 12 linhas).

Todos os versos são formados por duas palavras, exceto o verso final de cada estrofe, que tem três (embora haja irregularidades aqui ou ali).

São então 2³ (= 8) quartetos de 2³ (= 8) palavras cada no prelúdio, e 2³ x 3² (= 72) estrofes de 3³ (= 27) palavras cada no corpo do poema. A estrofe final possui 2² x 3 (= 12) versos e 2³ x 3 (= 24) palavras.

Aqui vai a tradução do prelúdio + 9 estrofes (que é uma parte 1 do poema) + 4 estrofes da parte final (incluindo a última), ou seja, o prelúdio + 13 estrofes (achei o número alvissareiro, L.Z. acha que 13 é um número da sorte).

Ponha um Bach pra tocar e ouça um trechinho dessa canção.

Beethoven Alvarez é professor de Língua e Literatura Latina da UFF em Niterói. Traduz Plauto. O “A”-21 de L.Z. é uma tradução de Plauto.

* * *

“A”-19

Mais uma
canção – você
quer outra
encóre eu

ouço la-
tente atrás
tarde
do assistente

sua lua
sofrendo de
luzes . lúmens
cuidado pinheiros

e na
porta flocos
de neve
flutuam acima

através e
passa torna
sobre sobe
em espuma

pinhas essas
gelam melhor
qualquer sol
no amanhã

sons tocados
em dedos
luz cai
tocados corações

mais umas
palmas – fama
cobram um
outro cartãozinho.

Azar não
se colagem
inanis vacua
crina remenda
azul juba
flagelo frio
rótas rôtas
cacos a
perversa triste
em orgulho
que odeia
infortúnio Apraz
fútil e range

menos discreto
que ela
lábios raiam
na xícara
primeiro beijo
bento dia
os lábios
não beberam
inda onde
o tardar
é sopro:
arme vem
de mártir rir-se

será se
pode ser
alma posse
por tempo
ilumina-se mesmo
príncipe eleito
paixão saúde
crina seda
ou quimera
ao bálsamo
dos tempos
uma anti-matéria
à sua vista

um ave
duma vez
só ouviu
viu-o longe
nua jubilação
tua história
cinza separa
o fogo
heroi fracote
parece ofensa:
puxasse uma
infante sopa
com irmã corta

pro seu
marido sapateiro
que recriaria
sapatos (se
pés vocês
valem) reviver
amizades monótonas
sua vida
olho separa
ele de
suas roupas
e como
deus vá nu

canção de
sua floresta
a verdade
de sua
face do
seu hino
obra paciência
atlas ervas
ciência ritual
quando insensível
autoridade turva
era humilhado
sem nenhum motivo

seus impalpáveis
conscientes duplos
quando não
olhará alucinado
ar com
divisões sábio
ramo de
litígio que
provoca mas
até que
flores crescem
tão grandes
por suas razões

cruel aspereza
sem símbolos
literalmente Dom
Quixote com
formas nos
pés retornando:
(Duas vidas
desconhecidas uma
da outra
declaram com
e sem
festa um
futuro à parte

do acaso
cantou esposa
cantou filho)
Perguntei-lhe tinha
4 anos
‘por quê
violino?’ respondeu
“Porque eu
gosto muito”
Depois–“você
não sabe
você é
um sapo dorminhoco.”

[…]

De vinhas
bençãos: por
que ter
paciência pra
diferenciar números
aleatórios (meu
13 dá
sorte) e
se !
voz por
Demétrio ‘Egito
. . cantando harmonias
de sete vogais

louvando deuses’
(antes do
fonema) ‘. . sequência
ouvia-se isso
. . vozes substituindo
flauta e
lira ditongo
ditongos encontram-se
. . variedade . . elevação
. . forte . . suave
hoíên não
só diferentes
letras diferentes timbres

ocorrência de
mesmas vogais
um pouco
de canto
trinados canto
empilhado (assim
por dizer)
sobre cantos’
me lembrando
‘Die Elenden
sollen essen’
primeira canção
de Bach (Leipzig)

[…]

Mallarmé (não
o chapéu)
a face
um convertido
parece poder
fazer alguém
envergonhar-se do
canto D’onde
sofrer foi
para sempre
riscado
. nove
logo logo vinte

“A”-19

An other
song – you
want another
encóre I

hear back-
stage the
stagehand’s
late
the stage’s

moon his
sufferance of
lights footcandles
mind pines

at a
door snow
flakes drift
down up

thru and
past turn
over under
on froth

pine needles
frost tomorrow’s
sun better
than any

tune bōwed
fingered drawn
lights dimmed
bōwed heart

another
bŏwed – fame
crowds an
other valentine.

No ill-luck
if bonding
tohu bohu
horsehair mends
azure mane
flogs cold
races rut
shards the
perverse desolate
with pride
who curse
misfortune Place
it futile range

less discreet
than her
lips dawned
on china
benign day’s
first kiss
the lips
not drinking
yet where
to tarry
is breath:
arm even
the martyr’s assay

will may
may be
soul owned
by time
illumine itself
primordial elect
penchant salute
horsehair silk
play to
the balm
of time
an anti-matter
of its sigh

bird one
hears once
of all
alive comber
naked jubilation
its story
cinder sparing
the fire
fierce shying
idleness offense:
purchase woman
child broth
quarryman cut out


for his
marriage cobbler
who’d recreate
shoes (feet
if
you
will) revive
everyday’s amities
his live
eye separate
him from
his togs
so he
walk naked god


song of
his wood
the truth
of a
face of
it hymn
work patience
atlas herb
science ritual
while insensible
authority trouble
to humiliate
ore and motility


their impalpable
conscionable double
when no
eye’ll hallucinate
air with
divisions sage
sprig the
litigious who
tease but
till the
blossom grow
too large
for their reasons


fierce shyness
no symbol
literally Don
Quixote with
shoe trees
come home:
(Two lives
unknown to
each other
profess with
and without
salon a
future apart the


like hazard
sang wife
sang child)
Asked him
4-year old
‘why the
violin?’ responded
“Individually I
love it”
Finally – “you
don’t understand
you’re like
a sleeping frog.”

[…]

The wistaria’s
blessing: why
you should
have patience
ranging random
numbers (my
luck is
13) and
if !
voice thru
Demetrius ‘Egypt
. . singing harmonies
of seven vowels


hymning gods’
(before phoneme)
‘. . sequence men
listened to
. . voices replacing
flute and
lyre diphthong
clashing diphthong
. . variety . . elevation
. . rough . . smooth
hoiain not
only different
letters different breathings


concurrence of
like vowels
a bit
of song
trills song
piled (so
to say)
on songs’
reminding me
‘Die Elenden
sollen essen’
Bach’s first
music (Leipzig Cantorate)

[…]

Mallarmé (not
the hat)
the face
a covert
look might
make one
shy of
song
From
thence sorrow
be ever
raz’d nine
so soon twenty

Padrão
xanto

XANTO | Jogo perigoso: aumentar as ideias no coração dos alegres, por Ana Luiza Rigueto

“Qual é o perigo?”, foi a pergunta dirigida a Adília Lopes durante uma entrevista em 2005, em referência ao título de seu primeiro livro, “Um jogo bastante perigoso”, publicado em Portugal vinte anos antes (com primeira edição no Brasil pela Editora Moinhos, 2018). Adília responde que “viver é perigoso”. O jornalista Carlos Vaz Marques insiste, “e a poesia?”. Então ela assente, pois “custou a cabeça de muita gente”.

Adília Lopes já mencionou que é “gasosa” a sua parte poeta, a persona que escreve. Algo volátil, expansiva, alegre. Não o alegre do “Sorriso Maravilhado Parvo”, como escreve Gonçalo M. Tavares no poema Sobre a alegria, em seu “O livro da dança”, mas o alegre alegre, cujo “coração bate no meio do jogo, aumenta as/ Ideias dos alegres, as ideias dos alegres são o coração.”

Em “Use um alicate agora”, livro de estreia da poeta santista Natasha Felix, publicado em 2018 pelas Edições Macondo, há um poema intitulado “Um jogo perigoso”. No poema, lídia opera o gesto de espremer espinhas/degolar cabeças, “é rainha de copas”.

UM JOGO PERIGOGO
Natasha Felix (íntegra)

1.
lídia espreme espinhas no elevador
é rainha de copas degola cabeças
inclina 45 graus à esquerda isso facilita
aproxima o corpo violenta o corpo isso facilita

2.
j. olha para lídia como não olha para mim
lídia olha para j. como olha o gato empalado na
avenida. j. pensa lídia até que bonita.
esforçadamente bonita. lídia deixa de olhar
j. e passa a olhar os calos das próprias mãos.
eu olho j. como j. não olha lídia. não posso
olhar lídia como olho j. jamais. olho j. como
crescem os calos como morrem os gatos
como os pés se perdem no chão.

3.
não há maneiras de j. existir além da pele

Em “As aventuras de Alice no país das Maravilhas”, de Lewis Carroll, publicado em 1865, no Reino Unido, o capítulo O campo de croqué da Rainha começa assim: “Uma grande roseira branca crescia junto à entrada do jardim; suas flores eram brancas, mas três jardineiros estavam à sua volta, pintando-a de vermelho.” É que as rosas brancas foram plantadas por engano, e se a Rainha descobrisse, eles teriam as cabeças cortadas. A Rainha chega e Alice é convidada, então, para o jogo de croqué. Recebe um flamingo, que usará de bastão para acertas as bolas, que são ostras. Logo o jogo lhe parece muito difícil, pois tudo nele é vivo e ninguém respeita as regras. Além disso, de minuto em minuto, a Rainha ordena “cortem a cabeça dele!”, ou “cortem a cabeça dela!”

É engraçado pensar que o poema de Natasha Felix se refira simultaneamente a “Um jogo bastante perigoso” e a “Alice no país das maravilhas”. Como quem, vendo a maravilha no perigo do jogo, assume o risco – deixar a lâmina conhecer a pele implica no corte.

“Jogo” pode querer dizer uma atividade de divertimento, uma prática esportiva, um conjunto de peças e instrumentos ou mesmo uma aposta. Pelo conjunto de ações, tempos e afetos envolvidos nessas práticas é que talvez os sentidos de “jogar” sejam comumente aproximados ao de “relacionar-se” com alguém.

No poema de Natasha, lídia “inclina 45 graus à esquerda isso facilita/ aproxima o corpo violenta o corpo isso facilita”. Como rainha de copas ela está de algum modo acima das regras, detém o poder da execução. A ação imposta ao corpo e a ênfase no método remetem ao jogo de poder, dominação e violência a que são submetidas as mulheres e seus corpos – dados do dossiê do Instituto Patrícia Galvão, organização feminista de comunicação, indicam que uma mulher é vítima de estupro a cada 9 minutos. No poema, a violação da pele na degola da espinha desdobra, pela linguagem, o que pode afetar um corpo de mulher.

Na segunda parte do poema, j. é um homem mas também a letra que abrevia a palavra “jogo”. lídia deixa de olhar j. para olhar calos em suas mãos. A trivialidade de lídia transitando entre violência e tédio torna-se um procedimento banal. j. chega a lembrar-lhe um gato na avenida atravessado por uma estaca de aço. É com indiferença que, dessa imagem, lídia se volta pros seus calos – formados nas mãos pela mecânica violenta do atrito.

Para j., “lídia até que bonita./ esforçadamente bonita”. Ainda que lídia o encare (ou o deixe de encarar) com violenta indiferença, ele a fita com espécie de “simulacro de prazer”, como escreve Adília em outro poema de seu “Um jogo bastante perigoso”. Como se j. (o homem ou o jogo) fosse esvaziado de ideias, coração sem batimentos ou alegria real, um homem parvo.

Há um terceiro elemento neste poema, o “eu” que toma parte da cena – jogo de olhar e não ser olhado, ou não ser correspondido. Esse eu olha j. “como/ crescem os calos como morrem os gatos/ como os pés se perdem no chão.” Ou seja, olha para ele com a mesma violência com que são feitos os calos, empalados os gatos e derrubado o corpo que por um momento perde o chão. Sem corresponder o olhar que j. lhe dirige, lídia recusa o movimento erótico: j. fixa nela, objeto a ser consumido, seu narcisismo. Evidencia-se, então, a ausência do desejo. Na terceira parte do poema, com o verso “não há maneiras de j. existir além da pele”, j. sustenta uma satisfação sem mediação ou interlocução, voltada a si mesmo, nos limites de si, sobre a própria pele.

Voltemos ao livro de Adília, para o poema chamado A rosa com bolores. Nele, Adília fala de um ramo de rosas, natureza morta, que tem sempre perto de si. Em momentos raros, acontece de um bolor pousar nas pétalas das rosas. O gesto parece evocar a questão de eros – ou a agonia de eros, como descreve o filósofo alemão nascido na Coréia do Sul, Byung-Chul Han, no livro “Agonia do Eros”, publicado pela Editora Vozes em 2017. O que aparentemente seria o início de uma paixão converte-se em desaparecimento do outro.

AS ROSAS COM BOLORES
Adília Lopes (trecho)

é muito raro
mas eu gosto de coisas preciosas
e sou paciente
deixo de dormir
para observar o crescimento
desigual e lento do bolor
a pouco e pouco o bolor
vai cobrindo a pele da rosa
ou antes
alimentando-se da pele da rosa
adquire o feitio da rosa
não está por baixo do bolor
desapareceu
é preciso estar sempre atenta
porque no instante em que
o bolor não pode alastrar mais
a não ser alastrando-se sobre
si próprio
e alimentando-se de si próprio
ou seja suicidando-se
naquele acto de infinito amor
por si próprio
que é afinal todo o suicídio

Não se trata de uma relação com a radical singularidade do outro. Mas uma busca de satisfação narcisista que se esgota pelo desdobramento a partir de si, para si. O excesso de proximidade que culmina no desaparecimento da pele da rosa, prevalecendo a “pele” do bolor, essa eliminação absoluta da distância entre um “eu” e um “outro”, também está presente no poema de Natasha Felix: a existência de j. só é possível pela pele – a sua própria. Para Byun Chul Han, “não se pode amar o outro a quem se privou de sua alteridade; só se poderá consumi-lo.”

Depois de observar a rosa ser consumida pelo bolor e beijá-la a boca antes que desaparecesse para sempre, Adília encerra o poema como quem assistiu a tediosa reprise de um programa na TV, avisando que vai dormir: “porque estou muito cansada/ as rosas com bolores cansam-se”.

Adília e Natasha parecem tomar parte da mesma circunstância – aquilo que seria uma crise de eros – mas de modo distinto. Adília detecta e assiste aos jogos com certo enfado, e oscila entre encanto e renúncia momentânea. Natasha participa dos jogos, entra na cena e através da experiência supõe sua lógica. Há, em ambas as poetas – poetisas, como prefere Adília – uma erótica que se performa através da linguagem, seja pela afirmação do corpo adentrando a cena seja por alusão de sentido às relações travadas.

Parecem convocar a pensar o lugar do corpo entre coisas e em que medida é preciso proteger-se, um pouco reverberando os versos do “Poema sujo”, de Gullar, em que ele diz: “-Que faço entre coisas?/De que me defendo?”. Adília e Natasha não ditam a melhor maneira de “jogar”. Tampouco parece uma opção evitar os riscos que esse movimento implica. Ser “gasosa” e arriscar a própria pele seriam, necessariamente, topar com o outro e, nisso, aumentar os batimentos e as ideias no meio do coração dos alegres. Eis um perigo.

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poesia

Mila Teixeira

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Mila Teixeira (Rio de Janeiro, 1993) é poeta, prosadora, dramaturga e artista visual. Estudou Audiovisual na UFRJ e trabalha como roteirista. Sua primeira peça, Inscrição na Areia, foi montada em Londres e será montada na capital da Escócia em 2020. Acaba de finalizar seu primeiro livro, 12 Poemas Sobre Perda e atualmente está trabalhando na sua próxima peça, O Que Aprendi Roubando Queijo no Mercado. Gosta de escrever em transportes públicos.

*

agora, um poema sobre destino

quero contar pra você
de quando uma jovem carioca
que havia acabado de chegar
à maioridade
isabela o nome dela
por que bela se manca, por que manca se bela?
morreu assim que saiu de uma consulta
com uma astróloga
que lhe disse:
você tem que ser mais flexível
ah!
o sotaque da astróloga era portenho
nasceu em mendoza
sabe-se que gostava de (em ordem alfabética):
astrologia – um tanto quanto óbvio
beijo na boca – quem não gosta?
chicletes de tutti-frutti – tinha muitas cáries
italianos – nunca superou o primeiro marido e se masturbava diariamente pensando nele, que dó
john coltrane – ouvia às tardes, em oração
muamba ilegal – não me pergunte, não tenho nada a ver com isso, eu não sei de nada
sarapatel – sua comida preferida, acredite se quiser
zinixyz – uma marca de vinho, nunca bebi porque tem esse nome pouco atrativo

a astróloga chamou a ambulância assim que viu o corpo de isabela estatelado
no meio da rua
era muito infeliz para alguém tão jovem, parece que tropeçou no meio do caminho
disse a astróloga à sua terapeuta

nunca deixou de pensar em isabela
§

inutilidades

toda coleção carrega em si
seu percentual inútil
não preciso do que tenho em
grandes quantidades
mesmo assim
me satisfaço a cada novo item
coleciono:
réplicas de animais em miniatura
quero muito um elefante uma baleia uma girafa uma onça pintada
para quê?
canecas de museus que visito
uma já seria suficiente e os recipientes de
cerâmica se acumulam no armário da cozinha
para quê?
cartões
talvez minha coleção mais cruel
as réplicas adornam
as canecas são utilizadas é preciso beber
os cartões ficam na minha gaveta perdem sua função
não escrevo neles tampouco os tiro do plástico
eles não receberão palavras de afeto
declarações de amor ou
pedidos de desculpas
apenas ficam na minha gaveta

também coleciono amores frustrados
mas seria de uma cafonice só
começar a falar disso nesse
poema
deixemos para o próximo
§

vou ligar pro m. e dizer:

aquele seu livro?
uma porcaria
aquele poema? tão
ofensivo você deveria
ter vergonha
ele vai ficar
em silêncio vou continuar
relutei e li o outro
demorei a ler porque me
apaixonei pelo eu
lírico perdidamente

vou desligar se ele
me ligar não vou
atender
me encontra em dez anos
m., evita os lugares que
frequento
evita minhas fotografias
minhas bitucas de cigarro
me encontra em
dez anos com novos
poemas e sem
barba porque você é feio sem
barba
e eu te gosto feio
§

a escritora mila teixeira

não se chama mila
seu nome verdadeiro é haya, ela não sabe o que significa
só sabe que é um nome judeu e que sua avó gritava haya o tempo todo

a escritora mila teixeira
não deveria ser teixeira
ela deveria ter um sobrenome estranho
que sua mãe deixou pra lá por ser impronunciável em terras tupiniquins

a escritora mila teixeira
nem escritora é
ela é uma black block com saudade de coquetel molotov
faz explosivos caseiros como ninguém

a escritora mila teixeira sofre de crise de identidade e na verdade é haya mikhailovitch, procurada pela polícia desde junho de 2013

*

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poesia

Um poema inédito de André Luiz Pinto

André Luiz Pinto da Rocha nasceu em 1975, Vila Isabel, Rio. Doutor em Filosofia pela UERJ, é autor de: Flor à margem (1999), Um brinco de cetim / Un pediente de satén (Maneco, 2003), Primeiro de Abril (Hedra, 2004), ISTO (Espectro Editorial, 2005), Ao léu (Bem-te-vi, 2007), Terno Novo (7Letras, 2012), Mas valia (Megamíni, 2016), Nós, os Dinossauros (Patuá, 2016), Migalha (7Letras, 2019) e o mais recente, Na rua, em parceria com Armando Freitas Filho (Galileu Edições, 2019). Seus poemas foram tema nos documentários André Luiz Pinto: Prazer, esse sou eu e Autobiografias poético-politicas, em 2019, ambos de Alberto Pucheu.

* * *

O guru

Tenho horror a oficinas de poesia.
Parecem aqueles serviços
de coaching.
Mas, talvez por ter
chegado aos 40
& ainda me achasse completo idiota
na arte do verso
decidi experimentar.
O guru disse
que eu não conversava
com minha
criança interior
que ela queria
ser liberta mas não
a deixava. Quando comecei o curso
achei que me metera
em mais outra religião
mas já no fim
da primeira sessão
quando fazíamos
a poderosa técnica
de olhar
para o espelho
quebrado
falei, diante
dos outros alunos
meus irmãos
agora:
cai fora!
Trata-se
de ritual
que ajuda a gente
a se livrar das energias impuras
Abre o chacra
para a visão cósmica
que a poesia
exige. O guru não
explicou assim
de forma tão teórica
mas deixava
claro para os incautos
que quando se diz
‘cai fora’, é aí
que acontece.
O guru disse também
que eu fedia à raiva
que havia muita mágoa
dentro. E eu
nem sabia
que dava
para notar
essas coisas.
Disse que
com treino
& dedicação, chegaria lá.
Um exercício
que ensinou era observar as pessoas
Tenho, por
ex., 2 amigos –
e eles queriam
porque queriam me converter
para o budismo.
Eu dizia que os cristãos
também tentaram comigo essa proeza.
Só que esses tinham
a arma da poesia.
Mostravam com seus poemas
que o budismo ensinava
a viver – porém, antes
de eu ceder, algodoei os ouvidos
com a cera do cinismo
e só assim fui capaz
de responder:
até parece.
Tem dias
que a vida é dura
& a cruz nos
tenta. Por muito tempo
cultivei o demônio
de Sócrates
como melhor resposta.
Hoje, contudo, sei
que agir assim
é uma forma
de defesa.
Aprendi
que cada um se vira com
o que tem.
Tive também um tio
que disse
algo parecido
quando eu botava
as pessoas
contra
a parede: “acha que agindo
assim as pessoas vão te entender? Tem gente
que pira só de se sentir ameaçada em sua fé”. “E é isso
o que você quer?”. “Um abstêmio
pulando feito sapo numa cama
de pregos?”. Uma coisa
que o meu guru
não queria
era que eu julgasse
as pessoas. Queria que eu as
olhasse – apenas. Passei a observar
as crianças…
Gosto da maneira
como encaixam as palavras
Meu guru disse
que eu devia reaprender
a olhar o mundo
se quisesse sobreviver.
Insistiu também na minha autoindulgência.
Reiterou a opinião de amigos.
O guru disse
o que eu precisava
ouvir – que o
mundo é pegar
ou largar, espécie
de metáfora programada
sem data
de término.
Insistiu também na ideia
de perdão.
Que o perdão
acalma
e acalmar
é mais importante
para a poesia
do que se imagina.
Perdoar
eu
disse
é que são
elas.
Mas você devia
perdoar, respondeu o guru
com a maior calma
do mundo.
Fiz então uma lista
de dores que podiam ser
esquecidas.
Lembrei do editor
que para humilhar teria perguntado
ao poeta se sabia escrever
e este teria respondido preenchendo um cheque:
“serve?”. Outra história
é a de Wallace Stevens.
Quando Wallace morreu,
quiseram lhe prestar
homenagem entrevistando
os mais próximos.
O engraçado é que ninguém
que trabalhava
com Wallace
sabia que ele era poeta.
A resposta
da secretária foi
a melhor: “você está dizendo
que Wallace Stevens, meu chefe,
era poeta? Se ele não tivesse
enfartado eu
nem suspeitaria
que tinha
coração”.
É disso
que estou
falando
desse pequeno mal
distraidamente
misturado
a um mal maior.
Perdoar já
é difícil
& eu não sei se vale
à pena.
Sei que devia
ser menos raivoso
o que pode
ser proveitoso
para mim.
Sei que tinha outra coisa
para dizer, mas do jeito
que está, deixa.
Resta frequentar
essas oficinas
fazer parte
do discreto
charme, com médicos,
embaixadores, filhas de militares, jornalistas.
Como Edward Norton
em Clube da luta, das coisas
que me tiram o sono
a pior é
a alegria.
É esse
o meu incômodo
E eu sinto que não
é só comigo.
Está em cada um
de vocês.
O guru mesmo de vez em quando
apronta as suas. A paixão que nutre
por uma fiel o fato de ele cultivar
entre os pupilos a promessa
de que um dia serão
publicados. Outros ainda tomam
o guru pelo diabo.
Sempre gostei dessas histórias
em que para garantir
o sucesso recorre-se
a fantasmas.
Conheço um escritor
que O conjurou
para obter sucesso.
Estava sozinho.
Preparou o apartamento
Acendeu duas velas
na frente do espelho.
Foi aí que notou que enquanto
procedia o ritual
sua imagem não refletia
o rosto, mas
as costas
como se o espelho
estivesse por detrás. Apagou
imediatamente as velas
e se pôs
a dormir.
Não é qualquer um
que tem coragem
eu já visitei
também uma encruzilhada
Só não deu certo.
Hoje sei que o diabo
não procura
qualquer pessoa
só as
com talento.
Burrice comprar algo
que se tem.
Eu não tenho nada
para oferecer
O que tenho é basicamente
o que você vê
Uma mentalidade pouco refinada
que sorri quando bate
um vento
alguém que está
a maior parte
do tempo sem entender.

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poesia

3 poemas inéditos de Adriano Scandolara

Adriano Scandolara (1988) é um poeta e tradutor de Curitiba, atualmente residente em São Paulo. Foi um dos editores e membros fundadores do escamandro, mas acabou se afastando por motivos de sanidade mental. É autor de Lira de Lixo (Patuá, 2013, esgotado, mas disponível aqui em pdf) e PARSONA (Kotter/Ateliê, 2017), um livro de poesia conceitual construído sobre a Via Láctea, de Olavo Bilac. Como tradutor, já traduziu um monte de gente, como se pode ver nos arquivos do blog, mas especialmente os poemas de Shelley, que saíram no volume Prometeu Desacorrentado e outros poemas (Autêntica, 2015), e Milton, cujo Sansão Agonista permanece na gaveta. Recentemente concluiu o doutorado pela UFPR sobre poesia moderna, filosofia da linguagem e muitas coisas loucas e ainda não sabe bem o que fazer da vida depois. Os seguintes poemas são inéditos, e é uma alegria tê-lo de volta agora como autor.

guilherme gontijo flores

* * *

Anistia

Se for bater, não me venha
com essa de estou só
cumprindo ordens, foi pra isso
que você lhes entregou
teu corpo, tuas pernas,
mãos, a língua, o cu
desça
o braço com gosto, esta
é tua obra – e, pra dar
amnésia, mire na cabeça,
a obra é anônima e você
já lhes entregou também
teu nome, em todo caso,
apenas
um borrão
esse teu sorriso de filho da puta.

E continue golpeando mais
e mais
e mais até
encontrar nesse saco de ossos que você,
necrófago, anseia abrir,
chupar o tutano que te falta,
uma resposta na torção
desdentada da boca
passado certo ponto – além da amnésia,
o músculo em cãibra, as falanges já
quebradas de tanto bater,
aprende-se a amar o punho cerrado.

§

O lixeiro conhece teus segredos mais sórdidos

O que te traz aqui? você já
fez terapia antes? o que te aflige?
você culpa alguém por isso? você pode
descrever pra mim
tua relação com teus pais? você pode
fisgar o Leviatã com um anzol
ou amarrar uma corda à sua língua?
onde você estava quando
foi feliz pela última vez? e quando
foram deitadas as bases da terra
e as estrelas da manhã cantaram em coro?
o que você sentiu?
você já entrou às origens do mar, passeou
no mais profundo do abismo, até os tesouros da neve
e viu os tesouros da saraiva que eu retenho
até o tempo da angústia, até o dia da peleja
e da guerra? o que fazem
os teus pais?
a chuva tem pai?
ou as gotas do orvalho? de que ventre
procede o gelo? e quem gerou
a geada do céu? quem prepara
aos corvos seu alimento,
quando seus filhotes gritam a Deus
e andam vagueando, por não terem o que comer?
você pode prender as cadeias das Plêiades?
soltar os cordéis de Órion? correr o zodíaco
pelas estações ou guiar a Ursa com seus filhotes?
você usa drogas?
o que é o homem?
e o que você quer dizer quando diz
que se sente vazio?
ou remonta o abutre ao teu mando e põe no alto o seu ninho?
dali descobre a presa, seus olhos a avistam de longe
e seus filhos chupam o sangue,
e onde há mortos, ali está ele
que não sabe mais
quem é?

Escuta: o caminhão na rua,
porque não havia sistema de coleta
os antigos jogavam seu lixo
no chão e o cobriam
com novas camadas de terra,
as lascas de cerâmica, embalagens
plásticas, camisinhas, celulares
explodidos,
erguendo
as cidades verticalmente,
que permite ao arqueólogo saber
quem era quem
e onde viveu, amou e morreu, a história
como livro do que é minúsculo,
do que foi jogado fora.

§

Tabu

Mesmo quando sobre o silêncio, evidente
contradição, a palavra o
destrói —
mas que voz
é esta, que locutor reside
homuncular
em tua cabeça e recita
o jornal em tuas mãos? acaso é a mesma
nos obituários e classificados
sem a menor mudança de
tom?

daí que estas letras, menos
óbvio, não vieram da pena do escriba
no pergaminho, seu menor erro arriscando
o fim do mundo —
estas coisas mortas,
sombras sobre areia, não têm força
contra o silêncio, precisam
que esse crime você
cometa por elas

e seja castigado:
um homem certa vez
recitou estes versos e um caminhão o atropelou,
outro perdeu sua esposa e filhos,
mas talvez nada aconteça
ou a mudança
seja pequena, só trazendo
consequências quando você não mais lembrar

e em todo caso você é cético demais,
com razão, para crer em tabus, mas
se me pedirem a leitura em voz alta, recomendo
que cale por um minuto
e faça depois
o sinal de Harpócrates.

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poesia, tradução

Perdidos na tradução: Robert Frost por Rodrigo Madeira

Poetry is what gets lost in translation.
Robert Frost

Embora tenha nascido na Califórnia (São Francisco, 1874) e vivido em diferentes cidades ao longo da vida, a obra e imagística de Robert Frost ficará para sempre associada à paisagem natural e humana da Nova Inglaterra, no nordeste gelado dos Estados Unidos. Frost, ainda que tenha em seus poemas “bucólicos” a mais poderosa expressão de sua inteligência poética, lembra – no comovente registro da solidão e da melancólica fugacidade da vida – os impasses existenciais dos retratos eminentemente urbanos de Edward Hopper.

De fato, “Beto Geada” sempre me pareceu um Hopper da poesia norte-americana (Cummings, o reverso desse anverso, seria, é claro, o Jackson Pollock). Há em um poema como “Nothing Gold Can Stay” a mesma economia de recursos, a mesma e definitiva síntese presente em “Sun in an Empty Room”, de Hopper.

Ao mesmo tempo, a poesia de Frost apresenta, nas dobras do cotidiano, aquelas velhas situações-limite tão caras à psicologia individualista dos norte-americanos: suas encruzilhadas mitológicas, dos desbravadores do Far West e da filosofia de Thoreau às crossroads de bluesmen faustianosNo caso de Frost, um sujeito solitário diante de “portais” (por assim dizer) que se abrem e fecham nos amplos espaços naturais da Nova Inglaterra. Não à toa, ao lado de Walt Whitman, Robert Frost – muito mais do que Pound, Eliot, Carlos Williams ou Wallace Stevens – é o poeta mais popular e amado dos EUA.

No Brasil, no entanto, excluído do paideuma concretista e menoscabado por acadêmicos e tradutores em geral, muito provavelmente em função do tradicionalismo formal de suas formas fixas e de certa atemporalidade temática ao mesmo tempo antiexperimental e antierudita, este autor fundamental do modernismo norte-americano passou ao largo de esforços tradutórios mais sistemáticos – afora traduções esparsas, Frost ganhou versões brasileiras em uma única e longínqua seleção de poemas (“Poemas Escolhidos de Robert Frost”, Editora Lidador, tradução de Marisa Murray, nos idos de 1969).

Vai aqui, portanto, uma pequena mostra de sua obra: seis dos mais emblemáticos poemas frostianos.

Aperte o defrost. Sirva-se à vontade. Experimente na língua portuguesa.  

Rodrigo Madeira

* * *

NADA QUE É DE OURO PERMANECE

O verde mais cedinho é ouro.
Dos tons o mais fugaz tesouro.
A folha então é flor que aflora,
Apenas porém por uma hora.
Depois a folha perde a flor.
Assim é que o Éden virou dor,
Assim enfim o dia cresce.
Nada que é de ouro permanece.

NOTHING GOLD CAN STAY

Nature’s first green is gold,
Her hardest hue to hold.
Her early leaf’s a flower;
But only so an hour.
Then leaf subsides to leaf.
So Eden sank to grief,
So dawn goes down to day.
Nothing gold can stay.

§

FOGO E GELO

Para alguns o mundo acaba em fogo,
Para alguns em gelo.
O desejo que provei, não pouco,
Me faz fechar com os que dizem fogo.
Mas se o fim em dobro hei de sofrê-lo,
Sei o bastante da raiva humana
Pra dizer que destruir com gelo
Tem lá seu apelo
E também funciona.

FIRE AND ICE

Some say the world will end in fire,
Some say in ice.
From what I’ve tasted of desire
I hold with those who favor fire.
But if it had to perish twice,
I think I know enough of hate
To say that for destruction ice
Is also great
And would suffice.

§

O CAMINHO NÃO TRILHADO

A estrada se partiu no bosque amarelado
E lamentando não poder seguir por ambas
E ser apenas um, fiquei ali parado
E olhei uma das vias, o olhar alongado,
Até que ela fugisse na curva entre as ramas;

Então tomei a outra, possível também,
E sendo ela talvez a mais convidativa,
Porque clamava a grama pelos pés de alguém,
Mesmo que, em relação a isso, outros vaivéns
A tivessem gastado na mesma medida

E que, aquela manhã, naquelas duas vias
Houvesse ainda tantas folhas por pisar.
Ah, deixei a primeira para um outro dia!
Mas, se um caminho sempre a outros levaria,
Duvidei de que um dia eu pudesse voltar.

Mais à frente hei de dar, saudoso, o meu relato;
Entre o passado e mim, uma distância imensa:
A estrada se partiu no bosque amarelado –
Tomei dos dois caminhos o menos trilhado,
E justamente isso fez a diferença.

THE ROAD NOT TAKEN

Two roads diverged in a yellow wood
And sorry I could not travel both
And be one traveler, long I stood
And looked down one as far as I could
To where it bent in the undergrowth;

Then took the other, as just as fair,
And having perhaps the better claim,
Because it was grassy and wanted wear;
Though as for that the passing there
Had worn them really about the same,

And both that morning equally lay
In leaves no step had trodden black.
Oh, I kept the first for another day!
Yet knowing how way leads on to way,
I doubted if I should ever come back.

I shall be telling this with a sign
Somewhere ages and ages hence:
Two roads diverged in a wood, and I –
I took the one less traveled by,
And that has made all the difference.

§

PARANDO À MARGEM DA MATA NUMA NOITE DE NEVE

Acho que sei de quem é a mata,
Fica na vila sua casa;
Não me verá, pois, circunspecto,
Olhando essa mata nevada.

Minha égua acha estranho decerto
Parar sem cocheiras por perto
Entre a mata e o lago gelado
Na noite mais negra do inverno.

Em sinos de arreio vibrados,
Minha égua pergunta – algo errado?
E se ouvem, no mais, na calada
Só neves e ventos soprados.

Escura, funda, bela é a mata,
Mas trago a palavra empenhada
E, antes que eu durma, há tanta estrada.
E, antes que eu durma, há tanta estrada.

STOPPING BY WOODS ON A SNOWY EVENING

Whose woods these are I think I know.
His house is in the village, though;
He will not see me stopping here
To watch his woods fill up with snow.

My little horse must think it queer
To stop without a farmhouse near
Between the woods and the frozen lake
The darkest evening of the year.

He gives his harness bells a shake
To ask if there is some mistake.
The only other sound´s the sweep
Of easy wind and downy flake.

The woods are lovely, dark, and deep,
But I have promises to keep,
And miles to go before I sleep,
And miles to go before I sleep.

§

JUNTANDO FOLHAS

As pás recolhem as folhas
Como a colher ou a mão,
E um saco cheio de folhas
É leve como um balão.

O dia todo eu farfalho
Fazendo um baita alarido,
Como uma lebre ou um cervo
Que pronto houvessem fugido.

Mas me escapam ao enlace
O que em montes é disposto,
Transbordando dos meus braços
E voando no meu rosto.

Se várias e várias vezes,
Até lotar um galpão,
Eu carrego e descarrego,
Que me resta disso então?

Quase nada têm de peso,
E sendo assim desbotadas
Do contato com a terra,
Têm por cor um quase nada.

Quase nada de proveito.
Mas a safra é safra feita,
E quem há de dizer onde
Vai parar esta colheita? 

GATHERING LEAVES

Spades take up leaves
No better than spoons,
And bags full of leaves
Are light as balloons.

I make a great noise
Of rustling all day
Like rabbit and deer
Running away.

But the mountains I raise
Elude my embrace.
Flowing over my arms
And into my face.

I may load and unload
Again and again
Till I fill the whole shed,
And what have I then?

Next to nothing for weight,
And since they grew duller
From contact with earth,
Next to nothing for color.

Next to nothing for use.
But a crop is a crop,
And who’s to say where
The harvest shall stop?

§

BRAÇADA

Pra cada embrulho que agachando abraço,
Um outro embrulho escorre pelos braços.
E escorregando o litro, o pão francês –
Formas difíceis de abarcar de vez –
Eu nada, ainda assim, deixo pra trás.
O que fazem as mãos e a mente faz,
Ou mesmo o coração, é o meu melhor
Pra equilibrar tijolos como for.
Me agacho pra evitar que caiam todos;
Então me sento, a pilha toda em torno.
Eu tive que soltar tudo na estrada
E começar de novo, outra braçada.

THE ARMFUL

For every parcel I stoop down to seize
I lose some other off my arms and knees,
And the whole pile is slipping, bottles, buns –
Extremes too hard to comprehend at once,
Yet nothing I should care to leave behind.
With all I have to hold with hand and mind
And heart, if need be, I will do my best
To keep their building balanced at my breast.
I crouch down to prevent them as they fall;
Then sit down in the middle of them all.
I had to drop the armful in the road
And try to stack them in a better load. 

Rodrigo Madeira (Foz do Iguaçu, 1979). Poeta e aforista. Vive em Curitiba desde 1992. Autor dos livros Sol sem pálpebras, Pássaro ruim e Baldio.

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