poesia

3 poemas inéditos de Adriano Scandolara

Adriano Scandolara (1988) é um poeta e tradutor de Curitiba, atualmente residente em São Paulo. Foi um dos editores e membros fundadores do escamandro, mas acabou se afastando por motivos de sanidade mental. É autor de Lira de Lixo (Patuá, 2013, esgotado, mas disponível aqui em pdf) e PARSONA (Kotter/Ateliê, 2017), um livro de poesia conceitual construído sobre a Via Láctea, de Olavo Bilac. Como tradutor, já traduziu um monte de gente, como se pode ver nos arquivos do blog, mas especialmente os poemas de Shelley, que saíram no volume Prometeu Desacorrentado e outros poemas (Autêntica, 2015), e Milton, cujo Sansão Agonista permanece na gaveta. Recentemente concluiu o doutorado pela UFPR sobre poesia moderna, filosofia da linguagem e muitas coisas loucas e ainda não sabe bem o que fazer da vida depois. Os seguintes poemas são inéditos, e é uma alegria tê-lo de volta agora como autor.

guilherme gontijo flores

* * *

Anistia

Se for bater, não me venha
com essa de estou só
cumprindo ordens, foi pra isso
que você lhes entregou
teu corpo, tuas pernas,
mãos, a língua, o cu
desça
o braço com gosto, esta
é tua obra – e, pra dar
amnésia, mire na cabeça,
a obra é anônima e você
já lhes entregou também
teu nome, em todo caso,
apenas
um borrão
esse teu sorriso de filho da puta.

E continue golpeando mais
e mais
e mais até
encontrar nesse saco de ossos que você,
necrófago, anseia abrir,
chupar o tutano que te falta,
uma resposta na torção
desdentada da boca
passado certo ponto – além da amnésia,
o músculo em cãibra, as falanges já
quebradas de tanto bater,
aprende-se a amar o punho cerrado.

§

O lixeiro conhece teus segredos mais sórdidos

O que te traz aqui? você já
fez terapia antes? o que te aflige?
você culpa alguém por isso? você pode
descrever pra mim
tua relação com teus pais? você pode
fisgar o Leviatã com um anzol
ou amarrar uma corda à sua língua?
onde você estava quando
foi feliz pela última vez? e quando
foram deitadas as bases da terra
e as estrelas da manhã cantaram em coro?
o que você sentiu?
você já entrou às origens do mar, passeou
no mais profundo do abismo, até os tesouros da neve
e viu os tesouros da saraiva que eu retenho
até o tempo da angústia, até o dia da peleja
e da guerra? o que fazem
os teus pais?
a chuva tem pai?
ou as gotas do orvalho? de que ventre
procede o gelo? e quem gerou
a geada do céu? quem prepara
aos corvos seu alimento,
quando seus filhotes gritam a Deus
e andam vagueando, por não terem o que comer?
você pode prender as cadeias das Plêiades?
soltar os cordéis de Órion? correr o zodíaco
pelas estações ou guiar a Ursa com seus filhotes?
você usa drogas?
o que é o homem?
e o que você quer dizer quando diz
que se sente vazio?
ou remonta o abutre ao teu mando e põe no alto o seu ninho?
dali descobre a presa, seus olhos a avistam de longe
e seus filhos chupam o sangue,
e onde há mortos, ali está ele
que não sabe mais
quem é?

Escuta: o caminhão na rua,
porque não havia sistema de coleta
os antigos jogavam seu lixo
no chão e o cobriam
com novas camadas de terra,
as lascas de cerâmica, embalagens
plásticas, camisinhas, celulares
explodidos,
erguendo
as cidades verticalmente,
que permite ao arqueólogo saber
quem era quem
e onde viveu, amou e morreu, a história
como livro do que é minúsculo,
do que foi jogado fora.

§

Tabu

Mesmo quando sobre o silêncio, evidente
contradição, a palavra o
destrói —
mas que voz
é esta, que locutor reside
homuncular
em tua cabeça e recita
o jornal em tuas mãos? acaso é a mesma
nos obituários e classificados
sem a menor mudança de
tom?

daí que estas letras, menos
óbvio, não vieram da pena do escriba
no pergaminho, seu menor erro arriscando
o fim do mundo —
estas coisas mortas,
sombras sobre areia, não têm força
contra o silêncio, precisam
que esse crime você
cometa por elas

e seja castigado:
um homem certa vez
recitou estes versos e um caminhão o atropelou,
outro perdeu sua esposa e filhos,
mas talvez nada aconteça
ou a mudança
seja pequena, só trazendo
consequências quando você não mais lembrar

e em todo caso você é cético demais,
com razão, para crer em tabus, mas
se me pedirem a leitura em voz alta, recomendo
que cale por um minuto
e faça depois
o sinal de Harpócrates.

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