poesia

Um poema inédito de André Luiz Pinto

André Luiz Pinto da Rocha nasceu em 1975, Vila Isabel, Rio. Doutor em Filosofia pela UERJ, é autor de: Flor à margem (1999), Um brinco de cetim / Un pediente de satén (Maneco, 2003), Primeiro de Abril (Hedra, 2004), ISTO (Espectro Editorial, 2005), Ao léu (Bem-te-vi, 2007), Terno Novo (7Letras, 2012), Mas valia (Megamíni, 2016), Nós, os Dinossauros (Patuá, 2016), Migalha (7Letras, 2019) e o mais recente, Na rua, em parceria com Armando Freitas Filho (Galileu Edições, 2019). Seus poemas foram tema nos documentários André Luiz Pinto: Prazer, esse sou eu e Autobiografias poético-politicas, em 2019, ambos de Alberto Pucheu.

* * *

O guru

Tenho horror a oficinas de poesia.
Parecem aqueles serviços
de coaching.
Mas, talvez por ter
chegado aos 40
& ainda me achasse completo idiota
na arte do verso
decidi experimentar.
O guru disse
que eu não conversava
com minha
criança interior
que ela queria
ser liberta mas não
a deixava. Quando comecei o curso
achei que me metera
em mais outra religião
mas já no fim
da primeira sessão
quando fazíamos
a poderosa técnica
de olhar
para o espelho
quebrado
falei, diante
dos outros alunos
meus irmãos
agora:
cai fora!
Trata-se
de ritual
que ajuda a gente
a se livrar das energias impuras
Abre o chacra
para a visão cósmica
que a poesia
exige. O guru não
explicou assim
de forma tão teórica
mas deixava
claro para os incautos
que quando se diz
‘cai fora’, é aí
que acontece.
O guru disse também
que eu fedia à raiva
que havia muita mágoa
dentro. E eu
nem sabia
que dava
para notar
essas coisas.
Disse que
com treino
& dedicação, chegaria lá.
Um exercício
que ensinou era observar as pessoas
Tenho, por
ex., 2 amigos –
e eles queriam
porque queriam me converter
para o budismo.
Eu dizia que os cristãos
também tentaram comigo essa proeza.
Só que esses tinham
a arma da poesia.
Mostravam com seus poemas
que o budismo ensinava
a viver – porém, antes
de eu ceder, algodoei os ouvidos
com a cera do cinismo
e só assim fui capaz
de responder:
até parece.
Tem dias
que a vida é dura
& a cruz nos
tenta. Por muito tempo
cultivei o demônio
de Sócrates
como melhor resposta.
Hoje, contudo, sei
que agir assim
é uma forma
de defesa.
Aprendi
que cada um se vira com
o que tem.
Tive também um tio
que disse
algo parecido
quando eu botava
as pessoas
contra
a parede: “acha que agindo
assim as pessoas vão te entender? Tem gente
que pira só de se sentir ameaçada em sua fé”. “E é isso
o que você quer?”. “Um abstêmio
pulando feito sapo numa cama
de pregos?”. Uma coisa
que o meu guru
não queria
era que eu julgasse
as pessoas. Queria que eu as
olhasse – apenas. Passei a observar
as crianças…
Gosto da maneira
como encaixam as palavras
Meu guru disse
que eu devia reaprender
a olhar o mundo
se quisesse sobreviver.
Insistiu também na minha autoindulgência.
Reiterou a opinião de amigos.
O guru disse
o que eu precisava
ouvir – que o
mundo é pegar
ou largar, espécie
de metáfora programada
sem data
de término.
Insistiu também na ideia
de perdão.
Que o perdão
acalma
e acalmar
é mais importante
para a poesia
do que se imagina.
Perdoar
eu
disse
é que são
elas.
Mas você devia
perdoar, respondeu o guru
com a maior calma
do mundo.
Fiz então uma lista
de dores que podiam ser
esquecidas.
Lembrei do editor
que para humilhar teria perguntado
ao poeta se sabia escrever
e este teria respondido preenchendo um cheque:
“serve?”. Outra história
é a de Wallace Stevens.
Quando Wallace morreu,
quiseram lhe prestar
homenagem entrevistando
os mais próximos.
O engraçado é que ninguém
que trabalhava
com Wallace
sabia que ele era poeta.
A resposta
da secretária foi
a melhor: “você está dizendo
que Wallace Stevens, meu chefe,
era poeta? Se ele não tivesse
enfartado eu
nem suspeitaria
que tinha
coração”.
É disso
que estou
falando
desse pequeno mal
distraidamente
misturado
a um mal maior.
Perdoar já
é difícil
& eu não sei se vale
à pena.
Sei que devia
ser menos raivoso
o que pode
ser proveitoso
para mim.
Sei que tinha outra coisa
para dizer, mas do jeito
que está, deixa.
Resta frequentar
essas oficinas
fazer parte
do discreto
charme, com médicos,
embaixadores, filhas de militares, jornalistas.
Como Edward Norton
em Clube da luta, das coisas
que me tiram o sono
a pior é
a alegria.
É esse
o meu incômodo
E eu sinto que não
é só comigo.
Está em cada um
de vocês.
O guru mesmo de vez em quando
apronta as suas. A paixão que nutre
por uma fiel o fato de ele cultivar
entre os pupilos a promessa
de que um dia serão
publicados. Outros ainda tomam
o guru pelo diabo.
Sempre gostei dessas histórias
em que para garantir
o sucesso recorre-se
a fantasmas.
Conheço um escritor
que O conjurou
para obter sucesso.
Estava sozinho.
Preparou o apartamento
Acendeu duas velas
na frente do espelho.
Foi aí que notou que enquanto
procedia o ritual
sua imagem não refletia
o rosto, mas
as costas
como se o espelho
estivesse por detrás. Apagou
imediatamente as velas
e se pôs
a dormir.
Não é qualquer um
que tem coragem
eu já visitei
também uma encruzilhada
Só não deu certo.
Hoje sei que o diabo
não procura
qualquer pessoa
só as
com talento.
Burrice comprar algo
que se tem.
Eu não tenho nada
para oferecer
O que tenho é basicamente
o que você vê
Uma mentalidade pouco refinada
que sorri quando bate
um vento
alguém que está
a maior parte
do tempo sem entender.

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Um comentário sobre “Um poema inédito de André Luiz Pinto

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