poesia, tradução

"A"-19 de Louis Zukofsky, um trecho por Beethoven Alvarez

Louis Zukofsky (1904 – 1978) foi um poeta americano, filho de imigrantes russos judeus, que carregou o peso de ter vindo depois de T.S. Eliot, Ezra Pound e William Carlos Williams. E não sou eu que digo isso, foi o próprio Pound que escreveu isso numa carta pro L.Z. (numa das quase 600 que trocaram ao longo da vida, que dá pra ler nesse volume).

Entre 1927 (quando L.Z. tinha 23 e Pound, 42) e 1933, foram mais de 300 cartas, até finalmente se encontrarem pessoalmente na Itália. A história dessa amizade e filiação poética vai muito além disso (e inclui muito mais afeto e desilusão), mas, dessa época, um fato importante foi que Pound convenceu Harriet Monroe, editora da Poetry, a deixar L.Z. editar uma edição especial em 1931, que ele intitulou de Objectivists’ 1931.

Zukofsky tinha começado a escrever ainda na década de 1920, muito influenciado por Pound e William Carlos Williams, mas, foi na década de 1930, depois da publicação dessa edição da Poetry, que fica conhecido como uma espécie de líder de um grupo de poetas que intitulou de “objetivistas” (embora nunca se tenha falado de um “objetivismo” como movimento).

Para L.Z. e os objetivistas o poema deveria ser entendido como um objeto, sincero e inteligente, que permitisse ao poeta enxergar e fazer enxergar o mundo, como um espelho. Ver o poema como esse objeto exigia chamar a atenção para o próprio poema, o que podia ser feito com a fragmentação sintática deliberada e pelas quebras de linha que perturbam o ritmo normal da fala. Essas ideias L.Z. desenvolveu continuamente. 

Porém, embora tenha feito certo sucesso, sua poesia era tida como obscura, experimental e intelecual demais (era?). L.Z. acabou ficando um tanto eclipsado pela popularidade de Eliot, Yeats e outros poetas americanos de influências simbolistas. Zukofsky continuou trabalhando, produziu algumas antologias, um profundo estudo sobre Shakespeare (antes já tinha sido o primeiro a publicar uma análise sobre os Cantos, de E.P.) e uma tradução integral da poesia de Catulo num método, no mínimo, controverso. Além de se manter escrevendo poemas.

Sua obra mais marcante, com certeza, é poema épico “A”. É seu magnum opus (e bota magnum nisso), que L.Z. começou a escrever ainda em 1927 e terminou 40 anos depois, em 1968. Composto por 24 cantos, equivalentes às 24 horas do dia, o poema tem 803 páginas (sem considerar os índices; se considerarmos os índices do final, o livro tem 826 páginas e começa exatamente com a letra A e termina com a palavra Zion).

Um conhecido crítico, Hugh Kenner, chamou “A” de o “mais hermético poema em inglês, um poema que os estudiosos vão estar ainda tentando elucidar no século 22”. (Isso quem diz foi Barry Ahearn, um dos maiores conhecedores da obra de L.Z., na Introdução da edição de 2011 de “A”.)

E é um trecho do canto “A”-19 que apresento agora traduzido. E já digo: se você não entender muita coisa de início, eu juro, a culpa não é só minha. É necessário fazer um esforço hermenêutico grave pra penetrar o intricado jogo de sentidos e de falta deles, de ritmos, de melodias (a poesia de Zukofsky é altamente musical), de vozes, de alusões, citações, referências e o escambau. Mas o próprio L.Z. dá a chave de leitura, ou, melhor, de apreciação desse canto: aqui será uma espécie de tributo a Mallarmé. 

É preciso dizer que L.Z. empregou aqui e em várias passagens de “A”, como fez com Catulo, a chamada “tradução homofônica”, que acaba por criar um texo como uma imagem sonora do outro, em que a semântica está fortemente subordinada ao sistema fônico. Busquei fazer o mesmo, mas além de transpor o texto em inglês para o português homofonicamente, em várias passagens, que vão parecer ter pouca correspondência, eu fiz isso direto com o texto em francês (de poemas de Mallarmé). Dá uma olhada em algumas notas sobre isso aqui.

Do ponto de vista formal e descritivo, Kenneth Cox, exatamente num estudo chamado “Tribute to Mallarmé” (2001), explica que o “A”-19 é composto por um prelúdio de 8 quartetos + 72 estrofes de 13 versos cada (a última possui 12 linhas).

Todos os versos são formados por duas palavras, exceto o verso final de cada estrofe, que tem três (embora haja irregularidades aqui ou ali).

São então 2³ (= 8) quartetos de 2³ (= 8) palavras cada no prelúdio, e 2³ x 3² (= 72) estrofes de 3³ (= 27) palavras cada no corpo do poema. A estrofe final possui 2² x 3 (= 12) versos e 2³ x 3 (= 24) palavras.

Aqui vai a tradução do prelúdio + 9 estrofes (que é uma parte 1 do poema) + 4 estrofes da parte final (incluindo a última), ou seja, o prelúdio + 13 estrofes (achei o número alvissareiro, L.Z. acha que 13 é um número da sorte).

Ponha um Bach pra tocar e ouça um trechinho dessa canção.

Beethoven Alvarez é professor de Língua e Literatura Latina da UFF em Niterói. Traduz Plauto. O “A”-21 de L.Z. é uma tradução de Plauto.

* * *

“A”-19

Mais uma
canção – você
quer outra
encóre eu

ouço la-
tente atrás
tarde
do assistente

sua lua
sofrendo de
luzes . lúmens
cuidado pinheiros

e na
porta flocos
de neve
flutuam acima

através e
passa torna
sobre sobe
em espuma

pinhas essas
gelam melhor
qualquer sol
no amanhã

sons tocados
em dedos
luz cai
tocados corações

mais umas
palmas – fama
cobram um
outro cartãozinho.

Azar não
se colagem
inanis vacua
crina remenda
azul juba
flagelo frio
rótas rôtas
cacos a
perversa triste
em orgulho
que odeia
infortúnio Apraz
fútil e range

menos discreto
que ela
lábios raiam
na xícara
primeiro beijo
bento dia
os lábios
não beberam
inda onde
o tardar
é sopro:
arme vem
de mártir rir-se

será se
pode ser
alma posse
por tempo
ilumina-se mesmo
príncipe eleito
paixão saúde
crina seda
ou quimera
ao bálsamo
dos tempos
uma anti-matéria
à sua vista

um ave
duma vez
só ouviu
viu-o longe
nua jubilação
tua história
cinza separa
o fogo
heroi fracote
parece ofensa:
puxasse uma
infante sopa
com irmã corta

pro seu
marido sapateiro
que recriaria
sapatos (se
pés vocês
valem) reviver
amizades monótonas
sua vida
olho separa
ele de
suas roupas
e como
deus vá nu

canção de
sua floresta
a verdade
de sua
face do
seu hino
obra paciência
atlas ervas
ciência ritual
quando insensível
autoridade turva
era humilhado
sem nenhum motivo

seus impalpáveis
conscientes duplos
quando não
olhará alucinado
ar com
divisões sábio
ramo de
litígio que
provoca mas
até que
flores crescem
tão grandes
por suas razões

cruel aspereza
sem símbolos
literalmente Dom
Quixote com
formas nos
pés retornando:
(Duas vidas
desconhecidas uma
da outra
declaram com
e sem
festa um
futuro à parte

do acaso
cantou esposa
cantou filho)
Perguntei-lhe tinha
4 anos
‘por quê
violino?’ respondeu
“Porque eu
gosto muito”
Depois–“você
não sabe
você é
um sapo dorminhoco.”

[…]

De vinhas
bençãos: por
que ter
paciência pra
diferenciar números
aleatórios (meu
13 dá
sorte) e
se !
voz por
Demétrio ‘Egito
. . cantando harmonias
de sete vogais

louvando deuses’
(antes do
fonema) ‘. . sequência
ouvia-se isso
. . vozes substituindo
flauta e
lira ditongo
ditongos encontram-se
. . variedade . . elevação
. . forte . . suave
hoíên não
só diferentes
letras diferentes timbres

ocorrência de
mesmas vogais
um pouco
de canto
trinados canto
empilhado (assim
por dizer)
sobre cantos’
me lembrando
‘Die Elenden
sollen essen’
primeira canção
de Bach (Leipzig)

[…]

Mallarmé (não
o chapéu)
a face
um convertido
parece poder
fazer alguém
envergonhar-se do
canto D’onde
sofrer foi
para sempre
riscado
. nove
logo logo vinte

“A”-19

An other
song – you
want another
encóre I

hear back-
stage the
stagehand’s
late
the stage’s

moon his
sufferance of
lights footcandles
mind pines

at a
door snow
flakes drift
down up

thru and
past turn
over under
on froth

pine needles
frost tomorrow’s
sun better
than any

tune bōwed
fingered drawn
lights dimmed
bōwed heart

another
bŏwed – fame
crowds an
other valentine.

No ill-luck
if bonding
tohu bohu
horsehair mends
azure mane
flogs cold
races rut
shards the
perverse desolate
with pride
who curse
misfortune Place
it futile range

less discreet
than her
lips dawned
on china
benign day’s
first kiss
the lips
not drinking
yet where
to tarry
is breath:
arm even
the martyr’s assay

will may
may be
soul owned
by time
illumine itself
primordial elect
penchant salute
horsehair silk
play to
the balm
of time
an anti-matter
of its sigh

bird one
hears once
of all
alive comber
naked jubilation
its story
cinder sparing
the fire
fierce shying
idleness offense:
purchase woman
child broth
quarryman cut out


for his
marriage cobbler
who’d recreate
shoes (feet
if
you
will) revive
everyday’s amities
his live
eye separate
him from
his togs
so he
walk naked god


song of
his wood
the truth
of a
face of
it hymn
work patience
atlas herb
science ritual
while insensible
authority trouble
to humiliate
ore and motility


their impalpable
conscionable double
when no
eye’ll hallucinate
air with
divisions sage
sprig the
litigious who
tease but
till the
blossom grow
too large
for their reasons


fierce shyness
no symbol
literally Don
Quixote with
shoe trees
come home:
(Two lives
unknown to
each other
profess with
and without
salon a
future apart the


like hazard
sang wife
sang child)
Asked him
4-year old
‘why the
violin?’ responded
“Individually I
love it”
Finally – “you
don’t understand
you’re like
a sleeping frog.”

[…]

The wistaria’s
blessing: why
you should
have patience
ranging random
numbers (my
luck is
13) and
if !
voice thru
Demetrius ‘Egypt
. . singing harmonies
of seven vowels


hymning gods’
(before phoneme)
‘. . sequence men
listened to
. . voices replacing
flute and
lyre diphthong
clashing diphthong
. . variety . . elevation
. . rough . . smooth
hoiain not
only different
letters different breathings


concurrence of
like vowels
a bit
of song
trills song
piled (so
to say)
on songs’
reminding me
‘Die Elenden
sollen essen’
Bach’s first
music (Leipzig Cantorate)

[…]

Mallarmé (not
the hat)
the face
a covert
look might
make one
shy of
song
From
thence sorrow
be ever
raz’d nine
so soon twenty

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