poesia, tradução

Três poemas uterinos de Anne Sexton, por Mariana Basílio

anne sexton

Anne Sexton (1928 – 1974) é uma das mais celebradas poetas estadunidenses do século XX. Autora de mais de 10 livros de poesia e prosa, venceu o Prêmio Pulitzer de Poesia em 1967. A vida de Sexton foi marcada por sua luta contra a depressão. Ela começou a escrever na década de 1950, incentivada pelo seu analista. Os temas de seus poemas incluem sua longa batalha contra a depressão e as tentativas de suicídio, detalhes de sua vida pessoal, filhos, temas feministas e intimistas – como a questão uterina para vida da mulher, o aborto, a masturbação. Anne também colaborou com músicos, formando um grupo de jazz chamado Her Kind (título de um dos seus poemas), que adicionava música à sua poesia. Em prosa, sua peça teatral Mercy Street foi produzida em 1969, e inspirou uma canção homônima de Peter Gabriel.

Ela decidiu morrer em 4 de outubro de 1974, após um almoço ao lado da amiga Maxine Kumin, quando revisavam o manuscrito de The Awful Rowing Toward God, que seria publicado em março de 1975.

Sua obra também inclui livros como:  To Bedlam and Part Way Back (1960), All My Pretty Ones (1962), Live or Die (1966), Love Poems (1969), Mercy Street (1969), Transformations (1971), The Book of Folly (1972), The Death Notebooks (1974).

Para minha tradução da poesia completa de Anne Sexton, trabalho iniciado em 2017,  procuro sempre um equilíbrio entre seus versos livres, observando a força dos seus vocábulos e metáforas, e quesitos como métrica e ritmo, focando sobretudo no sentido de sua poesia, na fluidez e densidade dessa poesia confessional, procurando manter as surpresas e as sutilezas dos seus versos na língua portuguesa, acompanhando a essência de Sexton: uma poesia híbrida, moderna, fluente, densa, intimista, potente – repleta de reflexões sociais e  pessoais – em movimentos que ultrapassam seu tempo, e que a tornaram uma das vozes mais ilustres da poesia americana do século XX.

Para esta colaboração, apresento uma tríade de poemas inéditos na escamandro, os famosos poemas The abortion, Menstruation at forty, e In Celebration of My Uterus. Um tema que é contínuo em seus livros, uma unidade importante da poesia de Sexton, é a reflexão das dimensões da mulher em seu papel gerativo, na vida que ela escolhe e não escolhe viver, estar e representar, e se emancipar.

Anteriormente, a autora apareceu pela primeira vez no escamandro em 2014, em apresentação de Adriano Scandolara para uma tradução de Bernardo Beledeli Perin, e reapareceu neste blog anos mais tarde em outros três poemas traduzidos por Beatriz Regina Guimarães Barboza, escolhidos do final de sua trajetória.

Espero assim, com esta nova contribuição, colaborar para o aumento do seu reconhecimento pelo público lusófono e brasileiro.

Mariana Basílio

*

O aborto

Alguém que deveria ter nascido
se foi.

Assim como a terra sua boca enrugou,
cada botão inchado de seu nó,
eu troquei meus sapatos, e dirigi para o sul.

Passando pelas Montanhas Blue, vê-se a
Pensilvânia se curvando infinitamente,
vestindo, como um gato de giz de cera, seu pelo verde,

suas estradas afundadas como uma tábua de lavar cinzenta;
onde, na verdade, o chão racha malignamente,
uma tomada escura de onde o carvão foi se vertendo,

Alguém que deveria ter nascido
se foi.

a grama como uma cebolinha eriçada e robusta,
e eu me perguntando quando o chão se quebraria,
e eu me perguntando como algo frágil perdura;

lá na Pensilvânia, eu conheci um homem pequenino,
não Rumpelstiltskin, mesmo, mesmo…
ele tomou a plenitude que o amor deu início.

Voltando ao norte, até o céu se tornou tão fino
como uma alta janela olhando para lugar nenhum.
A estrada era tão plana, como um papel alumínio.

Alguém que deveria ter nascido
se foi.

Sim, mulher, tal lógica irá levar
à perda sem morte. Ou diga o que você quis dizer,
sua covarde… esse bebê a me sangrar.

 

The abortion

Somebody who should have been born
is gone.

Just as the earth puckered its mouth,
each bud puffing out from its knot,
I changed my shoes, and then drove south.

Up past the Blue Mountains, where
Pennsylvania humps on endlessly,
wearing, like a crayoned cat, its green hair,

its roads sunken in like a gray washboard;
where, in truth, the ground cracks evilly,
a dark socket from which the coal has poured,

Somebody who should have been born
is gone.

the grass as bristly and stout as chives,
and me wondering when the ground would break,
and me wondering how anything fragile survives;

up in Pennsylvania, I met a little man,
not Rumpelstiltskin, at all, at all…
he took the fullness that love began.

Returning north, even the sky grew thin
like a high window looking nowhere.
The road was as flat as a sheet of tin.

Somebody who should have been born
is gone.

Yes, woman, such logic will lead
to loss without death. Or say what you meant,
you coward… this baby that I bleed.

§
Menstruação aos quarenta

Eu estava pensando num filho.
O ventre não é um relógio
nem um sino tocando,
mas no décimo primeiro mês de vida
eu sinto o novembro
do corpo, bem como o do calendário.
Em dois dias será o meu aniversário
e como sempre a terra terminou a sua colheita.
Desta vez eu caço a morte,
a noite a que eu me inclino,
a noite que eu desejo.
Bem, então –
fale disso!
Ele estava no ventre este tempo todo.

Eu estava pensando num filho…
Você! O nunca conseguido,
o nunca semeado ou desatado,
você, dos genitais que eu temia,
o talo e o fôlego do filhotinho.
Eu te darei os meus olhos ou os dele?
Você será o David ou a Susan?
(Esses dois nomes eu escolhi escutando).
Você pode ser o homem que seus pais são –
os músculos das pernas de Michelangelo,
mãos da Iugoslávia
em algum lugar o camponês, Eslavo e determinado,
em algum lugar o sobrevivente, cheio de vida –
e seria ainda possível
tudo isso com os olhos de Susan?

Tudo isso sem você –
dois dias passados em sangue.
Eu mesma morrerei sem batismo,
uma terceira filha com que não se importaram.
A minha morte virá no dia do meu santo.
O que há de errado com o dia do meu santo?
É só um anjo do sol.
Mulher,
tecendo uma teia sobre você mesma,
um veneno fino e emaranhado.
Escorpião,
má aranha –
morra!

A minha morte pelos pulsos,
dois crachás,
sangue vestido como flor de corpete,
para florescer,
uma à esquerda e outra à direita –
É um quarto morno,
o lugar do sangue.
Deixe a porta aberta nas dobradiças!

Dois dias para a sua morte
e dois dias até a minha.

Amor! Essa rubra doença –
ano após ano, David, você me deixaria louca!
David, Susan, David, David!
plena e desgrenhada, sibilando pela noite,
sem nunca envelhecer,
esperando sempre por você na varanda…
ano após ano,
minha cenoura, meu repolho,
eu teria te possuído antes de todas as mulheres,
chamando seu nome,
chamando-te meu.

 

Menstruation at forty

I was thinking of a son.
The womb is not a clock
nor a bell tolling,
but in the eleventh month of its life
I feel the November
of the body as well as of the calendar.
In two days it will be my birthday
and as always the earth is done with its harvest.
This time I hunt for death,
the night I lean toward,
the night I want.
Well then –
speak of it!
It was in the womb all along.

I was thinking of a son…
You! The never acquired,
the never seeded or unfastened,
you of the genitals I feared,
the stalk and the puppy’s breath.
Will I give you my eyes or his?
Will you be the David or the Susan?
(Those two names I picked and listened for.)
Can you be the man your fathers are –
the leg muscles from Michelangelo,
hands from Yugoslavia
somewhere the peasant, Slavic and determined,
somewhere the survivor bulging with life –
and could it still be possible,
all this with Susan’s eyes?

All this without you –
two days gone in blood.
I myself will die without baptism,
a third daughter they didn’t bother.
My death will come on my name day.
What’s wrong with the name day?
It’s only an angel of the sun.
Woman,
weaving a web over your own,
a thin and tangled poison.
Scorpio,
bad spider –
die!

My death from the wrists,
two name tags,
blood worn like a corsage
to bloom
one on the left and one on the right –
It’s a warm room,
the place of the blood.
Leave the door open on its hinges!

Two days for your death
and two days until mine.

Love! That red disease –
year after year, David, you would make me wild!
David! Susan! David! David!
full and disheveled, hissing into the night,
never growing old,
waiting always for you on the porch…
year after year,
my carrot, my cabbage,
I would have possessed you before all women,
calling your name,
calling you mine.

§

Celebração do Meu Útero

Cada um em mim é um pássaro.
Estou batendo todas as minhas asas.
Eles queriam te arrancar
mas eles não irão.
Eles disseram que você estava imensuravelmente vazio
mas você não está.
Eles disseram que você estava prestes a morrer
mas eles estavam errados.
Você canta como uma estudante.
Você não está rasgado.

Doce peso,
na celebração da mulher que eu sou
e da alma dessa mulher que eu sou
e da criatura central e de seu deleite,
eu canto para você. Eu ouso viver.
Olá, alma. Olá, taça.
Ata, cobre. Tampa que contém.
Olá à terra dos campos.
Bem-vindas, raízes.

Cada célula tem uma vida.
Aqui há o bastante para satisfazer uma nação.
É bastante que o povo possua estes bens.
Qualquer pessoa, qualquer comunidade diria disso,
“Está tudo tão bem neste ano que poderemos plantar de novo
e esperar uma colheita.
Uma praga tinha sido prevista e foi eliminada.”
Muitas mulheres unidas estão cantando sobre isso:
uma amaldiçoando a máquina na fábrica de sapatos,
uma cuidando de uma foca no aquário,
uma aborrecida nas rodas do seu Ford,
uma cobrando no guichê do pedágio,
uma enlaçando um bezerro no Arizona,
uma montando no seu violoncelo na Rússia,
uma mexendo as panelas do fogão no Egito,
uma pintando da cor da lua as paredes do seu quarto,
uma morrendo, mas recordando de um café da manhã,
uma estirando-se na sua esteira na Tailândia,
uma limpando o bumbum do seu filho,
uma olhando pela janela do trem
no meio de Wyoming e uma está
em algum lugar e algumas estão por todo lado e todas
parecem estar cantando, ainda que algumas não saibam
cantar nota alguma.

Doce peso,
em celebração da mulher que eu sou
deixe-me levar uma echarpe de três metros,
deixe-me batucar pelas de dezenove anos,
deixe-me levar as tigelas para as oferendas
(se for o caso).
Deixe-me analisar o tecido cardiovascular,
deixe-me calcular a distância angular dos meteoros,
deixe-me chupar os caules das flores
(se for o caso).
Deixe-me fazer certas figuras tribais
(se for o caso).
Por esta coisa que o corpo necessita
deixe-me cantar
para a ceia,
para os beijos,
para o certeiro
sim.

 

In Celebration of My Uterus

Everyone in me is a bird.
I am beating all my wings.
They wanted to cut you out
but they will not.
They said you were immeasurably empty
but you are not.
They said you were sick unto dying
but they were wrong.
You are singing like a school girl.
You are not torn.

Sweet weight,
in celebration of the woman I am
and of the soul of the woman I am
and of the central creature and its delight
I sing for you. I dare to live.
Hello, spirit. Hello, cup.
Fasten, cover. Cover that does contain.
Hello to the soil of the fields.
Welcome, roots.

Each cell has a life.
There is enough here to please a nation.
It is enough that the populace own these goods.
Any person, any commonwealth would say of it,
“It is good this year that we may plant again
and think forward to a harvest.
A blight had been forecast and has been cast out.”
Many women are singing together of this:
one is in a shoe factory cursing the machine,
one is at the aquarium tending a seal,
one is dull at the wheel of her Ford,
one is at the toll gate collecting,
one is tying the cord of a calf in Arizona,
one is straddling a cello in Russia,
one is shifting pots on the stove in Egypt,
one is painting her bedroom walls moon color,
one is dying but remembering a breakfast,
one is stretching on her mat in Thailand,
one is wiping the ass of her child,
one is staring out the window of a train
in the middle of Wyoming and one is
anywhere and some are everywhere and all
seem to be singing, although some can not
sing a note.

Sweet weight,
in celebration of the woman I am
let me carry a ten-foot scarf,
let me drum for the nineteen-year-olds,
let me carry bowls for the offering
(if that is my part).
Let me study the cardiovascular tissue,
let me examine the angular distance of meteors,
let me suck on the stems of flowers
(if that is my part).
Let me make certain tribal figures
(if that is my part).
For this thing the body needs
let me sing
for the supper,
for the kissing,
for the correct
yes.

§

Mariana Basílio (Bauru – São Paulo, 198). Prosadora, poeta, ensaísta e tradutora. Mestre em Educação pela Universidade Estadual Paulista (Unesp). Autora dos livros de poesia Nepente (2015), Sombras & Luzes (2016), e Tríptico Vital (Patuá, 2018. Prêmio ProAC 2017, Finalista Residência Literária Sesc 2018, Finalista Prêmio Guarulhos 2019). Colabora em portais e revistas nacionais e internacionais, tendo traduzido nomes como May Swenson, Alejandra Pizarnik, Edna St. Vincent Millay, Sylvia Plath e William Carlos Williams. É também autora das plaquetes de poemas, As Três Mal-Amadas (Kizumba Edições, 2018), e As Mãos que Ressoam o Absurdo (edição artesanal, 2019). Com patrocínio do prêmio ProAC 2019, do Governo de São Paulo, publicará em 2020 seu quarto livro de poesia, Mácula (Patuá). Mantém o site http://www.marianabasilio.com.br.

*

 

Padrão

2 comentários sobre “Três poemas uterinos de Anne Sexton, por Mariana Basílio

  1. Milton Rosendo disse:

    Belíssimo e cuidadoso trabalho de tradução. Mal posso esperar para ler a edição da poesia completa.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s