poesia, tradução

Regina Célia Colônia / Regina Colonia-Willner (1940—)

Apesar do meu interesse recente e de uma série de buscas sobre Regina Célia Colônia, sei muito pouco sobre ela. É autora de quatro livros: Sumaimana (poesia, 1974, reeditado em 1984, e sei que traduzido ao menos ao francês como Sumaymana), Canção para o Totem (contos, 1975), Sob o Pé de Damasco, sob a Chuva (contos, 1984) e Os Leões de Luziânia (contos, 1985). Participou também da antologia Muito prazer (1982, organizada por Márcia Denser). Uma página da Wikipédia diz o seguinte:

“Regina Célia Colônia-Willner (Rio de Janeiro, 1940) é uma escritora, poeta, jornalista e diplomata brasileira. Ganhou em 1976 o 18.º Prêmio Jabuti, na categoria Contos, com seu livro Canção para o Totem.
Passou a infância em diversos países da América do Sul, acompanhando seus pais e convivendo com povos ameríndios das regiões do Chaco, dos Andes e da Amazônia. A sua poesia cria efeitos líricos a partir da semântica da língua quíchua.
Trabalhou para o Jornal do Brasil de 1969 a 1970, quando entrou para a carreira diplomática. Serviu no Senegal, em Portugal e nos Estados Unidos, sendo vice-consulesa em Atlanta.”

Eu tomei conhecimento da sua poesia através do trabalho do Ricardo Domeneck na Modo de Usar & Co. Por causa disso fui arrumar um exemplar de Sumaimana e roê-lo um pouco. O livro, que teve boa recepção e recebeu elogios de ninguém menos que Drummond e Cabral, entre outros, teve até uma segunda edição, mas hoje parece bastante esquecido, ou pelo menos indevidamente sem edições. Trata-se de uma poesia impressionante, tensionada de redondilhas maiores que se desdobram em serpentes visuais e construções que recusam a continuidade das toadas rimadas da poesia mais tradicional; ao mesmo tempo, ela faz um atravessamento de mundos e poéticas, passando pelos quechua, mas também por algumas etnias indígenas localizadas no Brasil, enquanto engole também o movimento do modernismo em suas várias fases. Não é à toa que, mais recentemente, Max de Carvalho (na antologia La poésia du Brésil), Patrick Quillier (na antologia Retendre da corde vocale) e Ricardo Domeneck chamaram atenção para a sua poesia buscando ganhar um pouco mais de informações sobre ela. É um trabalho teso, translúcido e, paradoxalmente, capaz de produzir o encantatório; tem a um só tempo tensão do cerebralismo conceitual e arquitetural e a abertura àquilo que é fluido.

Enquanto escrevia estas palavras, revirando a internet com seu nome e suas obras, consegui avançar um pouco. Primeiro descobri esta entrevista com ela, publicada em 1990, no Modern Language Journal, em que ela fala de ainda escrever poesia e também indica a presença de um romance a caminho, que parece nunca ter sido publicado.
Mas a parte que mais interessa vem agora. Encontrei poemas novos dela, publicados online na Cortland Review, nos números 52 (2011) e 65 (2014). Os poemas estão aparentemente escritos diretamente em inlgês e ela ali assina como Regina Colonia-Willner. Com este nome estou tentando agora descobrir um pouco mais sobre ela, que parece continuar vivendo nos EUA e ter feito um PhD em Neurociência; mas a última postagem de sua lavra no Facebook é de 2 de janeiro de 2015. Ali consigo saber que ela estava ativa em outras revistas (como a Catamaran Literary Reader, que é impressa) e eventos literários.
Abaixo transcrevo um poema longo e belíssimo de seu primeiro livro (infelizmente o blog não tem mais permitido o trabalho de espaçamentos e recuos, que ficaram aqui perdidos), que não encontrei transcrito na internet, junto com três poemas em inglês que achei, seguidos das minhas traduções. É possível conferir mais coisas no link da Modo de Usar & Co. que coloquei acima e também um conto que saiu na Colóquio Letras, em 1983, onde vemos que a sua prosa é também poesia. Na esperança de ver mais poesia sua e mais divulgação de poesia sua no Brasil.

Guilherme Gontijo Flores

* * *

Sumaimana

Sumaimana é o que veio
mais lindo que o lindo,
veio
primeiro

gotorire, caiapó,
abrindo a festa na mata
ou pela estrada dos Andes
nomeando o céu que não antes
se sabia

à terra dos altiplanos
às varzeas de maracaibo
cujas negras tetas hoje
o horizonte acaricia



Sumaimana é o que trouxe
para as crianças do estreito
o peixe da patagônia,
o osso do anzol redondo
e seus pés de haver gigantes
tão macios se faziam

Sumaimana conversa
com as pedras
a chuva dorme
sobre seu ombro



Sumaimana sabia
a força dos pássaros
ia
fundindo platina e ouro
milhares de tempos antes
de Cristo
— Sumaimana é o homem
do peito florescido

(Sumaimana, meu corpo
é todo um ouvido
atento
teu passo nesta terra que é tua)



Sumaimana, no entanto,
traz o medo da baleia
— seu coração poderoso
nas noites de lua cheia —
que avisam os quipos
contam
as estrelas perguntadas
e as verdes coisas internas,
beiços de pau,
fontes claras
de um campo maior que o centro
da saudade que te ama,
desta ideia de amazonas,
de brasis mais viageiros,
de maias, de salasacas,
campesinos tiahuanacos,
caracas, chimus, araras,
uros,
changos,
guaranis,
wapitchanas, aymarás



Sumaimana é a cartilha
mais linda Chavín chegada
ao coração do povo
que aprende a pedra do centro,
as tartarugas sagradas
de quem se grou o mundo,
dragão verde, tigre branco



(gosto de estar pelos campos
da cartilha de meu povo)

espaço entre céu e terra
de Imbabura a Cotacachi
sua flauta equatoriana
Sumaimana

nos teares de Otavalo
todas as cores do arco-íris,
Sumaimana

onde as plantas se preparam,
Sumaimana

pela plaza 24 de mayo as candeias altas,
Sumaimana

a pedra
de lua veio
para moer a cevada



teu sorriso é teu sorriso
e teu rosto é o do meu povo,
por nada no mundo havia
de esquecer quanto te amo



Sumaimana é o que veio
mais lindo que o lindo,
veio
pelo Orubambo descendo
sua canoa

em maio como em setembro
no país dos quatro pontos
cardeais — Tahuantinsuyo —
Sumaimana é o que amarra
o sol por um ano ainda
e as tranças da namorada
com toda a ternura quechua



Sumaimana é o que veio
primeiro

do mais íntimo da terra,
do oceano mais guerreiro,
pela riqueza do fogo
entre as madeiras e o baile
dos ventos na cordilheira

Sumaimana, o primeiro.

§

Wild beauty

You do not need to believe
each one of your thoughts.
Sometimes they slide
as Chagall lovers in the wind.
Yet wild
beauty teaches us.

Did you know that children
grow faster in spring?
That your bones
are twice as tough as granite?
That our left lung
is smaller than the right
because there needs to be room
for the heart?

You do not have to trust
the structure where you live
for its elements
— the roof, the science paper, the flags
fluttering out of your passport upstairs —
may embrace for a time in a place,
but none
might corral the newness of identity.

You can stand tall, though,
on the ground where giraffes feed
from the top of acacia trees
by the waterfall,
where we dance therefore we are,
and we cry therefore we change
in the wild freedom
beyond grasping.


Selvagem beleza

Não precisa acreditar
em cada pensamento teu.
Eles por vezes deslizam
que nem amantes de Chagall ao vento.
E ainda a selvagem
beleza nos ensina.

Sabia que as crianças
crescem mais rápido na primavera?
Que os teus ossos
resistem duas vezes mais que o granito?
Que o nosso pulmão esquerdo
é menor que o direito
porque precisa dar espaço
ao coração?

Não precisa confiar
na estrutura onde moras
pois seus elementos
— o telhado, o artigo científico, as bandeiras
voando do teu passaporte no andar de cima —
podem abraçar um tempo algures,
mas nenhum
pode cercar a novidade da identidade.

Dá pra ficar alto, teso,
no chão onde as girafas se alimentam
da copa das acácias
junto à cachoeira,
onde dançamos, logo existimos,
e choramos, logo mudamos
na liberdade selvagem
incapturável.

§

The long diagonal

From Atlanta to Seattle, the long flight
trouts beneath the April moon. The young

Buddhist monk in me drums nails with gusto
into the coffin’s lid. Darkest green

spruce and snow: among the clouds,
the mountain.

Beyond Seattle, the ocean vibrates
like a flight of geese at dawn.


A longa diagonal

De Atlanta a Seattle, o longo voo
trota sob a lua de abril. O jovem

monge budista batuca as unhas com gosto
na tampa do caixão. Escuríssimo verde

abeto e neve: entre as nuvens,
o monte.

Além de Seattle, vibra o oceano
feito um voo de gansos na aurora

§

Gallop

With my hand still fragrant from the horse’s face,
I took the bread—the horse’s heart
still galloping in mine.

I took, with that same right hand the bread,
the Kairos,
and the newness of its fragrance floated
over the rooftops,
over the mulberry trees,
into the world.


Galope

Com a mão cheirosa ainda pela cara do cavalo,
peguei o pão – o coração do cavalo
no meu ainda galopando.

Peguei com a mesma mão direita o pão,
o Kairos,
e a novidade do seu cheiro flutuou
sobre os telhados,
sobre as amoreiras,
no mundo.

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