poesia

Quatro poemas inéditos de Marcelo Ariel

Marcelo Ariel (1968, Santos-SP) é poeta, crítico e performer. Autor de ME ENTERREM COM A MINHA AR 15 (Dulcineia Catadora, 2003), TRATADO  DOS ANJOS AFOGADOS (Letra Selvagem, 2007) entre outros. Seu livro mais recente OU O SILÊNCIO CONTÍNUO — POESIA REUNIDA 2007-2019, lançado pela Kotter em 2019, contém trinta anos de sua produção poética. Atuou como ator-roteirista no filme PÁSSARO TRANSPARENTE, de Dellani Lima, e gravou o disco de spoken word SCHERZO RAJADA CONTRA O NAZISMO PSÍQUICO em 2012. Atualmente coordena cursos de criação literária em São Paulo. 

* * *

1.

Evandro Carlos Jardim

A razão de ser da linha
está em cada um de nós

A linha não existe
sem uma direção

seu destino
é sempre o objeto

o objeto é sua razão

A linha não nos engana
como a harmonia que
discernível na forma
se esconde
na construção

do desenho
que somos
existindo com
o mundo
como a eternidade
existe em um segundo.

2.

Carl Sagan visita o túmulo de Emilly Bronte

Os deuses são alegorias do humano
Os humanos caricaturas impotentes dos deuses

Haverá em outro século a consciência que nos livrará deste senso comum sem espaço comum
das grandes cidades, dos deuses, do Deus

E se as ideias que criamos do amor
se revelarem insuficientes para amar a existência ?

Amantes tentarão em vão fugir do tempo
em que estão para dissolver os sonhos
no desejo invencível de uma realidade

onde será nítida a proximidade
entre o movimento da espuma e o das explosões solares

entre as estrelas cadentes e os olhos fechados
durante o beijo

3.

Desde que você a veja

As crianças não foram iluminadas o suficiente
há um momento em que a possessão por si mesmas impediu isso

Estamos mais próximos dos cães
que dos leões

Os loucos são
faróis acesos no fundo
de abismos oceânicos

As crianças podem nos ensinar como

Anjos se fossem visíveis
iriam nos aterrorizar
por anos

Crianças e loucos
saem da mente
inicial para o outra
entre a água e o animal
para que Santos e santas encontrem
um sentido para a noção de eu
escoar falsamente
pelo ralo da não- mente

As crianças que um dia foram apenas vontade
se comunicando diretamente com o ato e depois gestos desvinculados da vontade
caindo através dos fatos
que dizem sem palavras
tudo o que existe depois da palavra você
é você

quem diria que
no sorriso louco das crianças
o animal e o anjo

ainda
desamparadamente humanos
nos olhassem tão de frente
de abismos tão rasos

Este poema já acabou três vezes
disse a infância para si mesma

e permanece
desde que você a veja

4.

Espinosa para crianças

Não sei dizer onde termina
o meu corpo
e começa a água

disse a água viva
para a estrela do mar

e eu não sei dizer
como estou parada e em movimento

disse a estrela do mar
para o Coral

nós somos a água
disse a água
para a Estrela cadente

que havia caído
no mar

Quando eu era
o céu
negro
antes
de ser
o céu
azul
antes
de ser
este céu
transparente
eu
era
você

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Um comentário sobre “Quatro poemas inéditos de Marcelo Ariel

  1. Pingback: Quatro poemas inéditos de Marcelo Ariel — escamandro | THE DARK SIDE OF THE MOON...

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