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Sessão Vagalume|Laura di Corcia (1982—), por Prisca Agustoni

Laura Di Corcia, nasceu em Mendrisio, Suíça, em 1982, formou-se em Letras Modernas em Milão. Poeta, jornalista cultural, professora e ensaísta. Organizou a biografia de Giancarlo Majorino, Vita quasi vera di Giancarlo Majorino (La vita felice, 2014). É de 2015 sua estréia como poeta, Epica dello spreco, pela editora Dot.com Press. Os poemas aqui traduzidos foram extraídos da sua segunda publicação, In tutte le direzioni (2018, Lietocolle, Gialla), apresentado ao Festival de PordenoneLegge. O livro foi finalista do Prêmio Maconi e do Prêmio Fogazzaro.

Prisca Agustoni

* * *

1.

Violavano la notte, custodivano
nelle mani chiare
perle come bombe.

Quelli occhi trasparenti avrebbero mai potuto
celebrare il mistero della morte?
pensavano le donne, di fronte lo specchio.

Li uccisero senza fremere
le loro dita erano bianchissime.

In fila indiana no si voltarono
avevano fatto il loro lavoro
il mondo era um mantello sbiadito.


1.

Violavam a noite, guardavam
nas mãos claras
pérolas como bombas.

Aqueles olhos transparentes poderiam
celebrar o mistério da morte?
pensavam as mulheres, diante do espelho.

Foram mortos sem tremer
seus dedos eram muito brancos.

Em fila indiana não se viraram
tinham realizado seu trabalho
o mundo era um manto apagado.

§

2.

Tradurre è gettare la schiena sui sassi
guardare l’orologio compiere un giro su se stesso.

Portavamo bestiami dalle montagne alle pianure
le rocce profumavano di salvia.

È stato um grido a squarciare l’ipocrisia
a trasformare il nettare in cinghiale.

Abandonammo il campo con la pioggia:
rimasero le mucche, a testimoniare l’erba.


2.

Traduzir é jogar as costas sobre as pedras
ver o relógio dar uma volta sobre si mesmo.

Levávamos o gado das montanhas para a planície
a rocha perfumava a sálvia.

Foi um grito que rasgou a hipocrisia
que transformou o néctar em javali.

Abandonamos os campos com a chuva:
ficaram as vacas, testemunhando a grama.

§

3.

Abbiamo eretto barriere, steccati
nelle nostre menti, ma è bastato sfiorarsi
perché tutto tacitassero le mani, dapprima,
poi le braccia e anche le spalle.

La mente costruisce cumuli di cose,
montagne di mattoni, iati, i corpi,
invece, tendono alla caduta, sprofondano
nell’energia dell’atomo, si arrendono
alla discesa e annichiliscono il piombo.

Non so se hai capito con che disperazione
mi sono aggrappata al tuo collo,
annullando tutto ciò che non era presente.


3.

Erguemos barreiras, cercas
em nossas mentes, mas foi suficiente roçar-se
para que tudo silenciassem, primeiro as mãos,
logo os braços e as costas também.

A mente constrói cúmulos de coisas,
montanhas de tijolos, hiatos, os corpos,
no entanto, tendem à queda, mergulham
na energia do átomo, se rendem
à descida e aniquilam o chumbo.

Não sei se você entendeu com que desespero
me agarrei a seu pescoço,
anulando tudo o que não estava presente.

* * *

Prisca Agustoni nasceu na Suíça italiana, viveu muitos anos em Genebra e desde 2003 vive entre a Suíça e o Brasil, onde leciona literatura italiana e comparada na Universidade Federal de Juiz de Fora e onde trabalha também como tradutora.  Poeta, escreve e se auto traduz em italiano, francês e português. Colabora com o jornal italiano IL SOLE 24 ore, com resenhas de literatura, e também com alguns festivais literários suíços. Como tradutora recebeu apoio da Pro Helvetia para traduzir em português uma antologia do poeta suíço-italiano Fabio Pusterla (Macondo, 2017) e está com outros projetos de tradução em curso.

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