poesia, tradução

Yusef Komunyakaa, por Viviane Nogueira

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Yusef Komunyakaa é um poeta e professor estadunidense nascido em Bogalusa, Louisiana, em 1947. Durante os anos de 1969 e 1970 Komunyakaa serviu na Guerra do Vietnã como correspondente, e posteriormente como editor, do jornal militar The Southern Cross.  Após o serviço militar estudou na Universidade do Colorado, Colorado Springs. Komunyakaa obteve seu Master in Arts em Escrita pela Colorado State University (1978) e um Master in Fine Arts em Escrita Criativa pela Universidade da Califórnia (1980). Ensinou poesia no sistema escolar público de Nova Orleans e escrita criativa na Universidade de Nova Orleans, na Universidade de Indiana. Em 1997 se tornou professor de inglês na Universidade de Princeton. Yusef Komunyakaa é professor do Programa de Escrita Criativa da Universidade de Nova York.

Em seus poemas trabalha através de uma narrativa autobiográfica temas como raça, guerra e jazz. Recebeu em 1994 o Pullitzer pelo livro Neon Vernacular: New and Selected Poems (1994), e entre outros prêmios, o Ruth Lilly Poetry Prize (2001), o Shelley Memorial Award da Poetry Society of America (2004), e o Wallace Stevens Award da Academy of American Poets (2011). Entre suas obras estão os livros: Dedications & Other Darkhorses (1977); Lost in the Bonewheel Factory (1979);  I Apologize for the Eyes in My Head (1986); Dien Cai Dau (1988), Warhorses (2008); Taboo: The Wishbone Trilogy, Part 1 (2006); Pleasure Dome: New & Collected Poems, 1975-1999(2001); Talking Dirty to the Gods (2000); and Thieves of Paradise (1998). Suas coletâneas de poesia mais recentes incluem The Chameleon Couch (2011);  Testimony: A Tribute to Charlie Parker (2013) e Emperor of Water Clocks (2015).

Agradeço a Ana Rusche, Francesca Cricellli e Maíra Mendes Galvão pelas revisões e pelo incentivo.

Viviane Nogueira

*

We Never Know

He danced with tall grass
for a moment, like he was swaying
with a woman. Our gun barrels
glowed white-hot.
When I got to him,
a blue halo
of flies had already claimed him.
I pulled the crumbed photograph
from his fingers.
There’s no other way
to say this: I fell in love.
The morning cleared again,
except for a distant mortar
& somewhere choppers taking off.
I slid the wallet into his pocket
& turned him over, so he wouldn’t be
kissing the ground

Nunca sabemos

Ele dançou com o capim alto
por um momento, como se bailasse
com uma mulher. O cano de nossas armas
brilhou incandescente.
Quando o encontrei,
uma auréola azul
de moscas já lhe reivindicava.
Puxei a fotografia amarrotada
de seus dedos.
Não há outro jeito
de dizer isso: me apaixonei.
A manhã clareou novamente,
exceto por um morteiro distante
& helicópteros alçando voo em algum lugar.
Deslizei a carteira para dentro de seu bolso
& o virei para cima, para que não
beijasse mais o chão.

§

 

You And I Are Disappearing–Bjorn Hakansson

The cry I bring down from the hills
belongs to a girl still burning
inside my head. At daybreak

she burns like a piece of paper.

She burns like foxfire
in a thigh-shaped valley.
A skirt of flames
dances around her
at dusk.

We stand with our hands

hanging at our sides,
while she burns
like a sack of dry ice.

She burns like oil on water.
She burns like a cattail torch
dipped in gasoline.
She glows like the fat tip
of a banker’s cigar,

silent as quicksilver.

A tiger under a rainbow
    at nightfall.
She burns like a shot glass of vodka.
She burns like a field of poppies
at the edge of a rain forest.
She rises like dragonsmoke
    to my nostrils.
She burns like a burning bush
driven by a godawful wind.

Você e eu estamos desaparecendo

O lamento que eu trago das colinas
pertence a uma garota que ainda queima
em minha cabeça. No romper do dia

ela queima como um pedaço de papel

queima fogo-fátuo
num vale em forma de coxa
Uma saia de chamas
dança ao seu redor
no cair da noite.

Ficamos com as mãos

soltas ao lado do corpo
enquanto ela queima
como um saco de gelo seco.

Queima como óleo na água.
Queima como uma tocha de taboa
mergulhada em gasolina.
Ela brilha como a ponta grossa
do charuto de um banqueiro,

silenciosa como mercúrio.
Um tigre sob o arco-íris
no anoitecer.
Ela queima como um shot de vodka.
Queima como um campo de papoulas
na borda de uma floresta tropical.
Se ergue como fumaça de dragão
até minhas narinas.
Ela queima como sarça ardente
movida por um vento de merda

§

Believing In Iron

The hills my brothers & I created
never balanced, & it took years
To discover how the world worked.
We could look at a tree of blackbirds
& tell you how many were there,
But with the scrap dealer
Our math was always off.
Weeks of lifting & grunting
Never added up to much,
But we couldn’t stop
Believing in iron.
Abandoned trucks & cars
Were held to the ground
By thick, nostalgic fingers of vines
Strong as a dozen sharecroppers.
We’d return with our wheelbarrow
Groaning under a new load,
Yet tiger lilies lived better
In their languid, August domain.
Among paper & Coke bottles
Foundry smoke erased sunsets,
& we couldn’t believe iron
Left men bent so close to the earth

As if the ore under their breath
Weighed down the gray sky.
Sometimes I dreamt how our hills
Washed into a sea of metal,
How it all became an anchor
For a warship or bomber
Out over trees with blooms
Too red to look at.

Acreditar no Ferro

Os montes que meus irmãos & eu criamos
Nunca fecharam as contas & foram anos
para descobrir como o mundo funciona.
Podíamos olhar para uma árvore de melros-pretos
& lhe dizer quantos estavam lá,
Mas com o homem do ferro velho
Nossas contas estavam sempre erradas.
Semanas levantando & grunhindo
Nunca rendiam muito,
Mas não podíamos parar de
Acreditar no ferro.
Caminhões & carros abandonados
Depostos no chão
Por dedos grossos e nostálgicos de trepadeiras
Fortes como uma dúzia de meeiros.
Voltávamos com nosso carrinho de mão
Gemendo debaixo de uma nova carga,
Ainda que os lírios vivessem melhor
Em seu lânguido domínio de agosto.
Entre papel & garrafas de Coca-cola
A névoa das chaminés apagava poentes,
& não podíamos crer que o ferro
deixava os homens tão perto do chão
Como se o minério em seu fôlego
Rebaixasse o céu cinzento.
Às vezes sonhava com nossos montes
Desaguando um mar de metal,
Como tudo isso se fez âncora
Para um navio de guerra ou bombardeiro
Por cima de árvores em flor
Rubras demais para serem olhadas.

§

Instructions for Building Straw Huts         

First you must have
unbelievable faith in water,
in women dancing like hands playing harps
for straw to grow stalks of fire.
You must understand the year
that begins with your hands tied
behind your back,
worship of dark totems
weighed down with night birds that shift their weight
& leave holes in the sky. You must know
what’s behind the shadow of a treadmill—
its window the moon’s reflection
& silent season reaching
into red sunlight hills.
You must know the hard science
of building walls that sway with summer storms.
Locking arms to a frame of air, frame of oak
rooted to ancient ground
where the door’s constructed last,
just wide enough for two lovers
to enter on hands & knees.
You must dance
the weaverbird’s song
for mending water & light
with straw, earth, mind, bright loom of grain
untortured by bushels of thorns.

Instruções para Construir Cabanas de Palha

Há de se ter
uma fé inabalável na água,
nas mulheres que dançam como mãos tocam harpas
para que da palha cresçam hastes de fogo.
Há de se entender o ano
que começa com tuas mãos presas
às costas,
adoração de entidades sombrias
sobrecarregadas com aves noturnas que mudam de peso
& deixam buracos no céu. Há de se saber
o que está atrás da sombra de uma moenda —
sua janela o reflexo da lua
& a estação silenciosa alcançando
as colinas do sol vermelho.
Há de se saber a ciência exata
de construir paredes que balançam com as tempestades de  verão.
Encerrar os braços numa moldura de ar, de madeira
enraizada em solo antigo
onde a porta é construída por último,
com a largura exata para que dois amantes
entrem de joelhos & mãos.
Há de se dançar
o canto dos tecelões
para remendar água & luz
com palha, terra, mente, tear brilhante de grãos
sem a tormenta de alqueires de espinho.

§

Viviane Nogueira tem 24 anos, é poeta, bacharela em psicologia pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. É mediadora do clube de leitura Leia Mulheres Osasco e autora da plaquete Onde estão os holofotes da tragédia (2018, com ilustrações de Steffano Lucchini) e do livro Uma casa se amarra pelo teto (Edições Macondo, 2019).

*

 

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