poesia, tradução

“Canções para Joannes”, de Mina Loy, por Alvaro A. Antunes

Mina Loy nasceu Mina Gertrude Löwy em 27/12/1882, em Londres, e morreu Mina Loy em 25/09/1966, em Aspen, Colorado, EUA. Sua obra poética está coligida em duas edições complementares [1,2]. Há uma biografia sólida [3], monografias [p.e., 4,5], e uma rica coletânea de ensaios [6], além de, claro, vários artigos dispersos. Escreveu prosa também [7,8]. Confesso que, apesar de lê-la há décadas, seu mistério permanece, para mim, do tamanho de toda a poesia. Os rótulos com que a exibem ao nosso olhar faminto são, principalmente: feminista, futurista e modernista. Não que ela não os tenha originado, mas são como todos tais rótulos, redutores, e, no caso dela, me parecem desfigurá-la com requintes de simplicidade.  O que a faz única, penso, é a sua inteligência fina, elusiva, brava, afiada e felina, oblíqua, prenhe de lacunas esquivas. Não a lemos, principalmente, pela música ou pela imagística, embora, quando quer, ela as saiba. Pound nos saiu com a ideia de logopeia para, em parte, parece, alfinetá-la farfalla. E é nela que esse Cheshire Cat terminológico revela mais que somente seu sorriso. Ler Canções para Joannes, essa sequência de 34 poemas, descortina com suficiente clareza certos (se, por certo, não todos os) aspectos do que Pound queria dizer, e que definiu como ‘a dança da inteligência entre palavras e ideias e modificações de palavras e ideias’, citando Marianne Moore como outra a praticá-la e Laforgue como precursor.  Sua poesia foi, desde cedo, vista como intensamente cerebral, mas é ao mesmo tempo visceral, em Canções para Joannes por certo. E experimental, num sentido que me parece melhor entender como exploratório, estritamente: poemas nunca dantes. Mina Loy foi ultra entre ultras, radical entre radicais, adiante da adiante-guarda e, em máxima velocidade de fuga, deixou esse circo-círculo, e a poesia, em seu rastro com seu lendário amour fou e fuga com o mítico Arthur Cravan, que, ao desaparecer em Salina Cruz, México, em 1918, sem quê nem porquê, por fim, pôs fim às sementes que restassem dentro dela. Continuou a escrever, sim, mas brasas, não achas em chamas. Cancões para Joannes se passa num período anterior à sua chegada a Nova Iorque e à sua imersão nos círculos artísticos de ponta da época (no seu caso, os que tinham como bases as pequenas-revistas modernistas, Others, Dial e Little Review). Mina Loy, moça, viveu em Munique, estudando. Mudou-se pra Paris, casou com um primeiro homem errado, teve uma filha (que morreu infante). Mudou-se pra Florença, onde viveu entre 1907 e 1916, teve um filho (que morreu menino) e uma filha (que finalmente foi longeva). Em Florença, topou com o futurismo e os futuristas: Carlo Carrà e, adversários e ambos amantes seus, ambos homens errados, Giovanni Papini e Filippo Tommaso Marinetti. Pensa-se que ‘Joannes’ é um amálgama de Papini e Marinetti.  Atribuiu a Marinetti a descoberta do que ela, seguindo-o, chama de ‘vitalidade’, mas, como sugeri acima, penso, há pouco dele (e menos de Papini) em Mina Loy: onde a audácia daquele tende ao fátuo, a dela faz-se faca anti-hipocrisia (se bem que ela jamais sucumba a posturas parvas ou automatismos didáticos). Seu poema ‘Apologia do Gênio’ (traduzido aqui na escamandro por Guilherme Gontijo Flores em 05/02/2014), me parece separar aquele joio deste trigo. Que mais? Sempreviva, sempre esquiva.

[1] Loy, Mina. The Last Lunar Baedeker. ed. Roger L. Conover. Highlands: The Jargon Society, 1982.
[2] Loy, Mina. The Lost Lunar Baedeker. ed. Roger L. Conover. Farrar, Strauss & Giroux: New York, 1996.
[3] Burke, Carolyn. Becoming Modern: The Life of Mina Loy. New York: Farrar, Straus and Giroux, 1996
[4] Kouidis, Virginia M.. Mina Loy: American Modernist Poet. Baton Rouge: Louisiana State UP, 1980.
[5] Scuriatti, Laura. Mina Loy’s Critical Modernism. Gainesville:University of Florida Press,2019
[6] Shreiber, Maeera & Tuma, Keith (eds.) Mina Loy: Woman and Poet. Orono: The National Poetry Foundation, 1998
[7] Loy, Mina. Insel. ed. Arnold, Elizabeth. Melville House Publishing: New York, 2014.

Alvaro A. Antunes foi professor de ciência da computação no Reino Unido, onde vive há muito, e onde há pouco se aposentou. Nos anos 80, traduziu para a extinta Interior Edições: The Aspern Papers/Os Papéis de Aspern (Henry James); The Hunting of the Snark/A Caça ao Turpente (Lewis Carroll); Canti/Cantos (Giacomo Leopardi) e uma recriação indireta dos fragmentos de Safo. Traduziu a versão de Ezra Pound de The Seafarer para o SLMG e esparsos de Novalis, Pushkin, Pound e Catulo para Musa Rara.

* * *

Aqui o PDF com a primeira aparição de Songs to Joannes, na revista Others, vol 3, no 6 em abril de 1917.

Canções para Joannes
(tradução de Alvaro A. Antunes, março de 2020, para pagar promessa, feita anos faz, a Carlito Azevedo e a Daniel Chomski)

I

Desova de Fantasias
Assoreando o louvável
Porco Cupido seu focinho rosado
Fuçando lixo erótico
“Era uma vez”
Arranca uma erva[1] branca e ponta-estrela[2]
Entre aveias bravas[3] bordadas[4] na membrana-mucosa

Queria o eu que iria[5] num fogo de bengala
Eternidade num rojão celeste
Constelações num oceano
Cujos rios mais doces não correm
Que um fio de saliva

Estes são lugares suspeitos

Tenho que viver no meu lampião[6]
Aparando[7] o tremeluz[8] subliminar
Virginal aos foles
Da Experiência
Vidro colorido

II

A bolsa-baga[9]
Onde uma dualidade devassa
Empacotava
Todas as completações[10] de meus impulsos infrutuosos
Algo com a forma de um homem
À vulgaridade fortuita do que meramente observador
Mais assim de se dar corda um mecanismo
Se exaurindo contra o tempo
Perante o qual não me compasso[11]
As pontas dos meus dedos dormentes cafunando[12] teus cabelos
Capacho de um Deus
No umbral da tua mente

III

Poderíamos ter nos acoplado[13]
No monopólio de um momento acamado
Ou rachado carne uma com o outro
Na mesa da comunhão profana
Onde o vinho s’entorna[14] em lábios promíscuos

Poderíamos ter dado à luz uma borboleta
Com as últimas do dia
Impressas em sangue nas asas dela

IV

Uma vez num mezzanino
O céu estrelado
Abarcava[15] uma família inimaginável
Abortos que se pássaros
Com gargantas humanas
E olhos de Siso[16]
Que vinham com vestidos17 cor rubi-abajur[18]
E cabelos de lã

Uma nina[19] um neném
Num porte-enfant forrado
Com fita de seda amarrado
Às suas asas de gansa

Não fossem as sombras abomináveis
Eu teria vivido
Entre a mobília macabra[20] deles
Pra lhes ensinar a me contar seus segredos
Antes que eu os adivinhasse
—Dando cabo da ninhada inteira

V

A meia-noite esvazia a rua
De todos menos nós
Três
Não sei decidir qual o caminho de volta
À esquerda um menino
—Uma asa foi lavada pela chuva
A outra nunca mais será limpa —
Tocando campainhas pra lembrar
Os que estão aconchegados
À direita um asceta aureolado
Fiando casas
Sonda feridas à procura de almas
—Os pobres não podem se lavar em água quente—
E nao[21] sei que direção tomar
Já que você[22] se mandou pra casa pra si[23]—primeiro

VI

Conheço o Manipulador[24] intimamente
E não fosse pelas pessoas
Com quem você se preocupa[25]
Você poderia me olhar no olho
E o Tempo voltaria aonde antes[26]

VII

Meu par de pés
Têm um ar de lajotas
Que são algo que sobrou do teu caminhar
O vento entulha a escória da rua branca
Nos meus pulmões e minhas narinas
Pássaros entusiasmados[27]
Prolongando o voar noite adentram
Sem jamais alcançar — — — — — —

VIII

Eu sou o armazém ciumento dos tocos de vela
Que iluminaram teu aprender adolescente
— — — — — — — — — —
Nas costas dos olhos de Deus
Poderiam
Existir outras luzes

IX

Quando abrimos
Nossas pálpebras ao Amor
Um cosmos
De vozes coloridas
E mel gargalhada[28]

E espermatazoides
No cerne de Nada[29]
No leite da Lua

X

Pereca e rã-quente[30]
Um pequeno rosamor[31]
E penas voam

XI

Caro mio[32] à tua mercê
Nosso Universo
Não passa de
Um cebola sem cor
Você se despe
Bainha[33] por bainha
Permanecendo
Um cheiro que desalento
Nas[34] tuas mãos nervosas

XII

Vozes arrebentam no perímetro da paixão
Desejo Suspeita Homem Mulher
Solvem na úmida carnificina

Carne de[35] carne
Extrai a delícia inseparável
Beijando os ofegos para pegá-la

Seria[36] verdade
Que te isolei e ungi[37]
Inviolado numa cristalização absoluta
De tudo o sacudir a multidão
Me ensinou a por querer viver pra repartir

Ou seria você
Somente a outra metade
Da necessidade de um ego
Flagelando orgulho com compaixão
Ao raso som de dissonância
E bumbo d’ar[38] fugindo do pulmão

XIII

Vem cá perto de mim Tenho uma coisa
Que te contar e não posso contar
Uma coisa que está tomando forma
Uma nova dimensão
Um novo uso
Uma nova ilusão

Nos abrange E está nos teus olhos
Uma coisa brilhante Uma coisa só pra você
Uma coisa que não devo ver
Está nos meus ouvidos Uma coisa muito ressoante
Uma coisa que você não deve ouvir
Uma coisa só pra mim
Sejamos muito ciumentos
Muito desconfiados
Muito conservadores
Muito cruéis
Ou pode ser que ponhamos fim às aspirações se acotovelando
Destronemos egos inviolados

Onde dois ou três se soldaram
Se tornarão deus
— — — — — — —
Ah é isso mesmo
Fique longe de mim Por favor me dê um empurrão
Não me deixe eu te entender Não me venha com saquei[39]

Ou pode ser que caiamos juntos
Despersonalizados
Idênticos
No terrífico Nirvana
Eu você — você — eu

XIV

Hoje
Perpétua perecível visível imperceptível
A ti
Eu trago a virgindade nascente de
—Mim mesma para o momento

Amor não ou a outra coisa
Só o impacto de corpos acesos
Soltando faíscas um no outro
Em caos

XV

Raramente Aspirando ao Amor
Fantasia desferiu-os[40] como deuses
Dois ou três homens pareceram apenas humanos

Mas só você
Sobre-humano ao que parece
Eu tinha que ser pega no débil remoinho
Da tua humanidade disparatada[41]
Pra te amar o mais[42]

XVI

Poderíamos ter vivido juntos
Nas luzes do Arno
Ou ido roubar maçãs debaixo[43] do mar
Ou brincado
De esconde-esconde enamorados e teias de aranha
E uma canção de ninar numa lata de latão

E conversado até não termos mais línguas
Com que conversar
E não termos nunca visto tão bem bom[44]

XVII

Não dou a mínima para
Onde as pernas das pernas dos móveis estão andando
Ou o que se esconde nas sombras que seus passos[45]
Ou o que me olharia
Se as fechaduras não os fechassem[46]

Vermelho uma cor quente no campo de batalha
Pesada nos meus joelhos como uma manta
Conta contra[47]
Contei a franja da toalha
Até que duas borlas uma emaranhada à outra
Que o quarto quadrado caia
De um vácuo redondo
Dilatando minha respiração

XVIII

Da cisão
De colina de[48] colina
O ínterim
De estrela de estrela
A nascente
Estática
Da noite

XIX

Nada conserva tanto
Quanto um cutelo bem gelo
Nota do O D V C[49]
Trinchá-la clara
O ar que dá-la
Pólen perfumado
Espaço

Branco contar
De saciar
Bebível
Pelos dedos
Água corrente
Caules de grama
Crescem com[50]

Desgovernar
de pirilampos
Quadrilha no ar
Trombando
Uma no outro
De novo conglutinando-se
Em recapturados pulsos
De luz

Você também
Tinha alguma coisa
Naquela época
De um verdor de vaga-lume
— — — — — — —
Mas lentamente encharcado
À defluorescência[51]
De chuva

XX

Deixe a Alegria ir consolo-alada[52]
Alvoroçar a quem interessar possa ela[53]

XXI

Acumulo noites contra você
Pesadas de pesadelos floroclusos[54]
— — — — — — — — — —
Empilhar tardes
Encaracolada contra o solitário
Nu que é o[55] do
Sol

XXII

Coisas verdes crescem em
Saladas
Para o renascer
Do forrageador[56] cerebral

Sobre submissas barrigas
De montanhas
Rolando no sol
E flã[57] florináceo[58]
Pausas[59]
Pros meus tamancos tolos[60]
Por certas vias sem você
Eu vou
Desajeitadamente
Como andam as coisas

XXIII

Gargalhada em solução
Constelações estateladas
Promessas irredimíveis
De consumações púberes
Apodrecem
Ao recorrente alvejar da
Lua
Na pura branca
Maldade da dor

XXIV

A procriadora verdade de Mim
Se exauriu
Em pestilentas
Gotas de lágrima
Leves luxúrias e lucidezes
E mentiras prenhes de prece
Desnorteadas pela aspereza abominável
Do teu sorriso de canto-de-rua[61]

XXV

Lambendo o Arno
A rosada mindinha[62]
Língua da Aurora
Interfere com nossos cílios
— — — — — — —
Nossos polegares
Rodam e rodam[63]
Mais velozes
E viram máquinas

Até que o sol
Acalma-se o brilhar
Derrete alguns de nós
Em cubículos aterradores
Que a Paixão perfurou
Em mornidão

Alguns poucos entre nós
Crescem ao nível de frescas planícies
Cortando nosso ponto de apoio
Com olhos de aço

XXVI

Descartando nossos melindres menores
De olhos rasgados

Sorrateiros encostamos
Na Natureza
— — — aquela colérica pornógrafa

XXVII

Núcleo Nada
Inconcebível conceito
Insensitivo repouso
As mãos de raças
Descolam-se e caem
Imodificável plástico

O conteúdo
Da nossa efêmera conjunção
Em alheamento de Muito
Fluiu para avizinhamento de — — — —
NADA[64]
Tinha um homem e uma mulher
Impedindo passagem
Enquanto o Insolúvel
Esfregava com nossas mortes diárias
Olhos impossíveis

XXVIII

Os degraus vão subindo uma eternidade
E são brancos
E o primeiro degrau é a última branca
Eterna idade[65]

Conclusões coloridas
Cheirava a brancura
Sintética
De minha
Emersão
E estou queimada bem branca
No retraimento
Climatérico do teu sol
E promessas e palavras todas brancas
Difundem
Ilimitável monótono

Branco onde não tem nada pra ver
Mas uma toalha branca
Seca o suor opalescente[66]
—Névoa nascer[67] de viver—
Do teu
Corpo estiolado
E a branca aurora
Do teu Novo Dia
Se fecha pra mim

Impensável aquele branco lá longe
— — — É fumaça da tua casa

XXIX

Evolução choca-se com
Igualdade sexual
Brejeiramente[68] erra o cálculo de
Similitude
Seleção desnatural
Parindo tais filhos e filhas
Que destramelam uns às outras
Criptônimos inescrutáveis
Sob a lua

Dê-lhes uma brecha e berram brônzeos
Como chamamento chamegante[69]
Ou aos homófonos afanados[70]
Transpor a gargalhada
Deixa eles suporem que lágrimas
São galantos[71] ou melado
Ou qualquer coisa
Senão insuficiências humanas
Implorando vértebras dorsais

Deixa encontro ser retorno
Ao antípoda
E Forma um borrrão[72]
Qualquer coisa
Senão seduzi-los
Àquele um[73]
Como simples satisfação
Ao outro

Deixa-os trombarem
Do que lhes são incógnitos
Em orgasmo sísmico
Pra muito maior
Diferenciação
Em vez de ver
Distorção de seu-próprio[74]
Retrair-se ao estrangeiro ego

XXX

Em algum
Plágio prenatal
Bufões fetais
Aprenderam truques
— — — — —

De pantomima arquitípica
Enfilando emoções
Laçadas no alto ar
— — — —

Para os olhos cegos
Com que a Natureza nos conhece
E a maioria da Natureza é verde
— — — — — — — — — —

Que garantia
Para a proto-forma
A gente tenteia
Nossa ética souvenir para
— — — — — —

XXXI

Crucifixão
De um intrometido
Querer interferir assim
Nas intimidades
Do teu isolamento insolente

Crucifixão
Da eclosão de um ego
Ilegal
No teu equilíbrio
Cariátide de uma ideia

Crucifixão
Braços destruídos
Extremidades indiciais
Em vácuo
Para a queda incontida

XXXII

A lua é[76] fria
Joannes
Onde o Mediterrâneo — — — — —

XXXIII

O pedante de paixão — — — —
À tua penúria professorial

Proto-plasma ia louco varrido
Nos evoluindo — — —

XXXIV

Amor — — — o preeminente literateur[78]

§§§

Notas a ‘Canções para Joannes’

[1] ‘weed’: estritamente, ‘erva daninha’, mas, mais contemporaneamente, ‘erva’ (diamba), assim deixada ambígua
[2] ‘star-topped’: ‘com estrelas na ponta’, mas distenderia a música
[3] ‘wild’: ‘silvestre’, ‘selvagem’, mas a música de ‘bravas’
[4] ‘sewn’: ‘costuradas’, mas ‘bordadas’ tem a música duma sílaba a menos
[5] ‘queria’/’que iria’: pela rima interna (‘I’/’eye’),
[6] ‘lantern’: difícil decodificar, ‘lampião’ (de rua, talvez) talvez
[7] ‘aparando’: o ambíguo de cortar o excesso e evitar que caia
[8] ‘flicker’: ‘tremeluzir’, mas, de novo, dichten=condensare
[9] ‘skin-sack’: ‘saco de pele’, mas a aliteração se perde, ‘bolsa-baga’, por bagos e bagagem, mas, mais explícito, o que Loy, possivelmente, condenaria
[10] ‘completações’: forma não unanimemente aceita, mas Loy confronta os lexicógrafos do inglês logo a seguir com ‘infructuous’
[11] ‘More … paced’: Loy (em quem pensando, Pound cunhou o termo d’arte ‘logopéia’, a tal dança do intelecto entre as palavras, i.e., o uso conceitual da língua talvez forçando os eixos léxicos, morfológicos e sintáticos à beira do cataclisma) dança com as preposições aqui, e eu trôpego tropeço e peço perdão e passagem
[12] ‘fretting’: ambíguo entre passar a mão nos cabelos se mescla com estar ansiosa com algo, ‘cafunando’ é uma perturbação lexical, talvez meiga demais para Loy?
[13] ‘coupled’: novamente, entre casar e acasalar, mas se ‘acoplado’ pende pro bruto, o original também, talvez, consistentemente com o Porco Cupido
[14] ‘s’entorna’: aqui e em toda parte, tento replicar as micro-turbulências de aparência na versão original em ‘Others’ (q.v., e.g., nao, espermatazóides) mas não todas (e.g., ‘woolen’ por ‘woollen’ permanece ‘lã’); o posterior estabelecimento do texto é inconsistente quanto ao que supõe ser erro de composição ou não, assim decidi aderir ao texto em ‘Others’.
[15] ‘abarcava’: parco pra ‘vaulted’, mas ‘abobadava’, ouço, “abobòra”
[16] ‘Sisos’: por pura molecagem, rimando semanticamente com ‘wisdom tooth’, ‘dente de siso’
[17] ‘vinham com vestidos’: uma inflação lamentável, mas, ouço, menos que ‘vestiam vestidos’
[18] ‘lamp-shade’: Loy, por muito tempo, criou e vendeu abajurs
[19] ‘bore a baby’: ‘carrega um bebê’, mas a aliteração
[20] ‘macabro’: um tanto tosco pra ‘fearful’?
[21] ‘nao’: para a micro-turbulência de ‘dont’
[22] ‘you’: uso ‘você’ e ‘si’, mas ‘teu’/’tua’ e ‘te’, que é este meu português vira-latas
[23] ‘Since you got home to yourself’: logopéia fina, tão difícil de desempacotar quanto indesejável, a versão aqui pende ao pífio ao tentar sem tentá-lo
[24] ‘Wire-Puller’: o marionetista, o que controla o desenrolar das coisas, o que manipula à distância, ‘Manipulador’ fica aquém
[25] keep an eye on: preocupar-se com é intenso demais?
[26] ‘set back’: como ‘keep an eye on’, ah, a plasticidade elétrica dos verbos frasais do inglês
[27] ‘entusiasmados’: parco pra ‘exhilarated’, mas ‘excitados’, e.g., conotaria demais
[28] ‘laughing’: ‘gargalhada’ é excêntrico, como é o léxico de Loy, pela assonância
[29] ‘de Nada’: por ‘do Nada’, porque é parte da hipersensibilidade logopaica que Loy nos impõe que os artigos, definidos e não, se tornem pequenas bombas semânticas apenas dormindo
[30] ‘Shuttle-cock and battle-door’ é um trocadilho (com um jogo chamado ‘battledore and shuttlecock’, ‘raquete e peteca’, um precursor do moderno badmínton) com, penso, conotações sexuais quais permeiam o poema: a intrusão de um hífen em ‘shuttle-cock’, acentua isso (‘shuttle’ é mover-se para lá e para cá, ‘cock’ é pênis) e ‘battle-door’ também (‘battle’ é ‘dar combate’, ‘door’, pelo contexto, hímen talvez); disso tudo ‘pereca’ (sugerindo ‘perereca’) em vez de ‘peteca’ e ‘rã-quente’ (idem) em vez de ‘raquete’.
[31] ‘pink-love’: se ‘pink’ o tradicional metônimo de ‘mulher’, ‘pink-love’, amor por mulheres; contemporaneamente, ‘pink’ é gíria de ‘vagina’, mas não, que se registre, quando Loy escrevia; assim ‘rosamor’ pra adensar a névoa semântica
[32] ‘Dear one’: ‘querido’, mas Joannes, supomos todos, é um compósito de Giovanni Papini e Filippo Tommaso Marinetti
[33] ‘bainha’ mais para espada (mas veja abaixo), não tanto de vestimentos, mas vestimentos usados como proteção, couraça, i.e., ‘sheath’, não ‘hem’, ou ‘cuff’, e ‘sheath’, antes da popularização de ‘condom’, era ‘camisa de vênus’
[34] ‘about’: aqui, ‘em torno de’, ou ‘a respeito de’, mas a música?
[35] ‘from’: ‘de’, dança de preposições em que tropeço
[36] ‘Is it’: Loy, percebeste já, não pontua; aqui, a forma indica interrogagação que tento indicar com o especulativo em ‘Seria’
[37] ‘I have set you apart’: difícil, ‘te distingui’?, ‘te priviligiei’?, preferi (contra meu instinto) expandir aqui, para a música, ainda que intrusiva
[38] ‘boom’: é ‘boom’ mesmo, mas (q.v. 37) expandi, para a música; e marcar a elisão não é estranho a Loy (q.v. ‘spill’t’)
[39] ‘Don’t realise me’: difícil, possivelmente ‘não me venha com essa que entende’
[40] ‘dealt’: um amplo campo semântico: dispensou, deu como se dá cartas, desferiu
[41] ‘drivelling’: ‘dizendo tolices, disparates’, mas um adjetivo em português?
[42] ‘amar o mais’: dança do intelecto
[43] ‘debaixo do mar’: não ‘no’
[44] ‘bem bom’: expando, perdão
[45] ‘the shadows they stride’: aqui, é a lacuna onde a preposição (e.g., where, in/over/under/at which) que eletriza a linguagem e faz o intelecto dançar
[46] ‘fechaduras’ pra preservar a aliteração, mas ‘shutter’ é, aqui, aba de janela, por isso há na traducão, especial traição
[47] ‘Count counter’: ambíguo, pode ser imperativo, ‘Conte contador’, mas ‘contador’ em português conota déb/crédito, que aqui não cabe
[48]: outra preposição de hidrogênio, e de novo, dois versos adiante
[49] ‘Q H U’: que Mina é só mistério pra guardar-se assim tão firme? Esse nó Alexandre algum até agora. Roger Conover pensou que pudesse ser um duchampismo (descendente do L.H.O.O.Q. = “Elle a chaud au cul” = “Ela tem o rabo quente”) mas não se sugeriu decodificação convincente. Pensei em ‘Cue! Hate you!’ e traduzi ‘O D V C’, por ‘Odeio você’, ou ‘Odeio! Vê se!”. Un jeu, bien entendu.
[50] ‘to’: ‘com’, outra preposibomba
[51] ‘raylessness’: léxico generativo, assim ‘defluorescência’, mas há perda aqui
[52] ‘consolo’: pra conotar um fascinus dos romanos, o falo, amiúde alado
[53] ‘a quem interessar possa ela’: outra turbulência, aplicada aqui a um clichê do burocratês
[54] ‘shut-flower’: ao justaposto, a valise ‘florocluso’
[55] ‘core’: ‘cerne’, ‘núcleo’, mas algo me parece merecer ênfase aqui, assim, me intrometo um calembour
[56] ‘forrageador’: palavra que ouco canhestra, mas que se?, e aqui (e em toda parte) note como o desvendamento em inglês e em português diferem por força da ordem adjetivo-substantivo no inglês, vice-versa no português
[57] ‘flummery’ é um mingau, papa, manjar branco, donde ‘flã’
[58] ‘flowered’ é florido, mas conota ‘flour’, farinha, donde a valise, talvez bruta demais
[59] ambíguo se substantivo ou verbo
[60] ‘tamancos tolos’, pela aliteração
[61] ‘street-corner smile’: penso que uma turbulência de ‘corner-mouth smile’, ‘sorriso de canto de boca’
[62] ‘little’, aqui, é pequena, mas ‘mindinha’ sugere, penso, o quê de sentimento que suspeito
[63] ‘twiddle’ é, mais precisamente, aquele rodar binário dos polegares um contra o outro quando impaciente
[64] ‘O conteúdo … NADA’: esta passagem um campo minado de micro-dispositivos gramaticais, Loy mais uma vez usa artigos e preposições (e as ausências daqueles e destas) como bisturis, dissecando, expondo
[65] ‘for ever’/’Forever’: invertido em ‘eternidade’/’Eterna idade’
[66] ‘cymophonous’: frequentemente corrigido pra ‘cymophanous’, i.e., de som pra imagem, que o Webster de 1864 define como ‘tendo uma luz ondulada, flutuante; opalino, opalescente’
[67] ‘Mist rise’: difícil, tomei por analogia com ‘sunrise’, ‘sol nascer’
[68] ‘Prettily’: se idiomático, grosseiramente; se irônico, brejeiramente, digamos
[69] ‘Carressive’: não dicionarizada, com um quê de ‘aggressive’, donde a valise ‘chamegante’ de ‘carícia’=’chamego’ e ‘agressiva’=’fumegante’.
[70] ‘hiccoughs’: ‘soluços’ mas para o OED um erro de ortografia comum pra ‘hiccup’, usei ‘afanados’ pela aliteração com ‘homófonos’
[71] i.e., Galanthus nivalis
[72] três erres em ‘borrrão’ para os dois erres de ‘blurr’
[73] ‘To the one’: aqui também, a minúcia de preposições, artigos, pronomes
[74] ‘Own-self’: uma construção um pouco espinhenta em inglês, donde o espinhento português
[75] ‘Stringing emotions \ Looped aloft’: difícil, com uma aliteração cheia de graça
[76] ‘é’: talvez ‘está’
[77] o hífen no original também é peculiar
[78] a ortografia em textos em inglês é instável

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