poesia, tradução

Ilya Kaminsky (1977-), por Rubens Akira Kuana

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Ilya Kaminsky nasceu em 1977 em Odessa, antiga União Soviética, atual Ucrânia. Ele perdeu a maior parte de sua audição aos quatro anos de idade, quando um médico diagnosticou erroneamente caxumba como um resfriado. Sua família recebeu asilo político nos Estados Unidos em 1993, estabelecendo-se em Rochester, Nova Iorque. Após a morte de seu pai em 1994, Kaminsky começou a escrever poemas em inglês. O poeta relata o evento em uma entrevista: “Eu escolhi o inglês porque ninguém da minha família ou dos meus amigos sabia inglês – ninguém com quem conversava podia ler o que eu escrevia. Eu mesmo não dominava a língua. Era uma realidade paralela, uma liberdade insanamente bela. Ainda é”.

Kaminsky é bacharel em ciência política pela Georgetown University. É autor dos livros Dancing in Odessa (Tupelo Press) e Deaf Republic (Graywolf Press). Este último, lançado em 2019 nos EUA, foi criticamente aclamado, nomeado como um dos melhores livros de poesia do ano passado. Os poemas aqui apresentados fazem parte deste livro. Como se trata de um livro que explora o formato clássico da epopeia – com personagens fixos e cenários recorrentes – a seleção dos poemas baseou-se na coerência narrativa: isto é, evitar grandes spoilers e, ao mesmo tempo, manter um paralelo à integridade do livro. Portanto, a ordem dos poemas abaixo é a mesma ordem em que se encontram no livro. Sugere-se que essa pequena seleção seja lida como um trailer ou fotografias de um álbum de família incompleto.

* * *

 

Question

What is a man?
A quiet between two bombardments.

Questão

O que é um homem?
Uma quietude entre dois bombardeios.

§

Nós vivemos felizes durante a guerra

E quando eles bombardearam a casa das outras pessoas,
nós

protestamos
mas não o suficiente, nos opusemos a eles mas não

o suficiente, eu estava
na minha cama, ao redor da minha cama a América

caía: casa invisível após casa invisível após
casa invisível.

Eu levei uma cadeira para fora e assisti ao sol.

No sexto mês
de um desastroso reino na casa da grana

na rua da grana na cidade da grana no país da grana,
nosso grande país da grana, nós (perdoem-nos)

vivemos felizes durante a guerra.

We Lived Happily during the War

And when they bombed other people’s houses, we
Protested

but not enough, we opposed them but not
enough. I was

in my bed, around my bed America
was falling: invisible house by invisible house by invisible house—

I took a chair outside and watched the sun.

In the sixth month
of a disastrous reign in the house of money

in the street of money in the city of money in the country of money,
our great country of money, we (forgive us)

lived happily during the war.

§

 

Soldados Miram em Nós

Eles atiram
enquanto o bando de mulheres foge dentro das narinas dos holofotes

—que Deus tenha uma foto disso —

no ar brilhante da praça, soldados arrastam o corpo de Petya e sua cabeça
bate nas escadas. Eu

sinto através da camisa da minha esposa o formato
da nossa filha.

Soldados arrastam Petya escada acima e os cães sem teto, magros como filósofos,
compreendem tudo e latem e latem.

Eu, agora na ponte, sem a camuflagem da fala, um corpo
envolvendo o corpo da minha esposa grávida—

Esta noite
nós não morremos e não morremos,

a terra está fixa,
um helicóptero encara minha esposa—

Na terra
um homem não pode mostrar o dedo para o céu

porque cada homem já é
um dedo virado para o céu.

Soldiers Aim at Us

They fire
as the crowd of women flees inside the nostrils of searchlights

—may God have a photograph of this—

in the piazza’s bright air, soldiers drag Petya’s body and his head
bangs the stairs. I

feel through my wife’s shirt the shape
of our child.

Soldiers drag Petya up the stairs and homeless dogs, thin as philosophers,
understand everything and bark and bark.

I, now on the bridge, with no camouflage of speech, a body
wrapping the body of my pregnant wife—

Tonight
we don’t die and don’t die,

the earth is still,
a helicopter eyeballs my wife—

On earth
a man cannot flip a finger at the sky

because each man is already
a finger flipped at the sky.

§

 

O que são Dias

Como homens de meia idade,
os dias de maio
caminham até prisões.
Como homens jovens eles caminham até prisões,
sobretudos
jogados por cima de seus pijamas.

What Are Days

Like middle-aged men,
the days of May
walk to prisons.
Like young men they walk to prisons,
overcoats
thrown over their pajamas.

§

 

Em um Tempo de Paz

Habitante da terra por quarenta e poucos anos
certa vez me encontrei em um país pacato. Eu vejo os vizinhos abrirem

seus celulares para ver
um policial exigindo a carteira de motorista de um homem. Quando o homem alcança sua carteira, o policial
atira. Na janela do carro. Atira.

É um país pacato.

Colocamos nossos celulares no bolso e vamos.
Ao dentista,
buscar as crianças na escola,
comprar xampu
e manjericão.

O nosso país é um país em que um menino assassinado pela polícia fica na calçada
por horas.

Nós vemos em sua boca aberta
a nudez
de toda nação.

Nós vemos. Vemos
outros verem.

O corpo do menino fica na calçada exatamente como o corpo de um menino—
É um país pacato.

E isto corta os corpos dos nossos cidadãos
sem esforço, do jeito que a esposa do Presidente apara suas unhas do pé.

Todos nós
ainda temos que fazer o desgastante trabalho de consultas no dentista,
de lembrar-se de fazer
uma salada de verão: manjericão, tomates, é uma alegria, tomates, um pouco de sal.

Este é um tempo de paz.

Eu não escuto tiros,
contudo vejo os pássaros se refrescando nos quintais dos subúrbios. Quão claro
é o céu
conforme a avenida gira em seu eixo.
Quão claro é o céu (perdoem-me) quão claro.

In a Time of Peace

Inhabitant of earth for fortysomething years
I once found myself in a peaceful country. I watch neighbors open

their phones to watch
a cop demanding a man’s driver’s license. When the man reaches for his wallet, the cop
shoots. Into the car window. Shoots.

It is a peaceful country.

We pocket our phones and go.
To the dentist,
to pick up the kids from school,
to buy shampoo
and basil.

Ours is a country in which a boy shot by police lies on the pavement
for hours.

We see in his open mouth
the nakedness
of the whole nation.

We watch. Watch
others watch.

The body of a boy lies on the pavement exactly like the body of a boy—
It is a peaceful country.

And it clips our citizens’ bodies
effortlessly, the way the President’s wife trims her toenails.

All of us
still have to do the hard work of dentist appointments,
of remembering to make
a summer salad: basil, tomatoes, it is a joy, tomatoes, add a little salt.

This is a time of peace.

I do not hear gunshots,
but watch birds splash over the backyards of the suburbs. How bright is the sky
as the avenue spins on its axis.
How bright is the sky (forgive me) how bright.

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