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Roger Robinson, por André Capilé & Prisca Agustoni

Roger Robinson author photo by Naomi Woddis

Roger Robinson [Londres/Trinidad] é um poeta, músico e performer que vive entre a Inglaterra, onde nasceu, e Trinidad, onde passou boa parte da vida levado por seus pais. Conforme diz, para o sítio meet the poet: “Quando eu tinha quatro anos meus pais me levaram para morar em Trinidad. Trinidad é uma ilha minúscula onde todo mundo fala o tempo todo. Principalmente sobre outras pessoas, comida e música; no fim das contas, o que importava era sempre haver histórias. Às vezes, eram mágicas e, por outras, somente inventadas, mas eram sempre histórias divertidas”.

Seu livro mais recente, ainda sem tradução no Brasil, chama-se A Portable Paradise (Peepal Tree Press) e foi vencedor do prêmio T. S. Eliot 2019, anunciado em Londres em janeiro de 2020. Ele é o segundo escritor da herança caribenha a ganhar o prêmio, depois de Derek Walcott, que ganhou o prêmio de 2010.

Toda uma nova constituição de poetas do Caribe, ou influenciados diretamente por tal produção poética, começam a aparecer com maior força, dados os avanços dos estudos diaspóricos e traduções de variados autores, como Cesáire, Glissant, o próprio Walcott, entre outros. Embora insuficiente ainda, não somente em terras brasileiras, vê-se um turno de forças mais evidenciado nos estudos antilhanos de Fred Moten, na NYU, bem como em campos mais atentos à poesia caribenha na Europa.

Robinson lida com uma variedade de temas ligados à família e ancestralidade, bem como as relações perigosas no ofício da arte, embora tenha sido bastante comentado por uma série de poemas que tratam sobre o trágico incêndio da Torre Grenfell em Londres. Os três poemas coligidos aqui, justamente, nos entregam uma pequena amostra das temáticas acima arroladas. São eles “Dolls”, que trata do incêndio mencionado, mostrando forte carga no uso de uma linguagem mista, em que certo coloquialismo ganha bom enredo; “Stubb’s Whistlejacket”, em que o poema narra, de forma tesa e precisão emocional, a constituição do quadro homônimo de Stubbs; e, finalmente, “A Portlable Paradise”, poema que dá título a seu último livro, em que a presença de uma voz ancestral dá a tônica.

Tendo a minha curiosidade atiçada por Prisca Agustoni, demos curso ao início de uma conversa tradutória, entre a complexificação da materialidade dos pronomes, até o uso técnico das dimensões sonoro-métricas no ofício tradutório. Dividimos a tradução, eu & ela, desse “residente britânico com sensibilidade Trini”, pro início de um papo que se promete a mais. Eu, de aqui, agradeço a Guilherme Gontijo Flores, outro com quem estão sedimentadas conversas intermináveis sobre poemas, poesia e tradução, que apontou valiosas dicas de estilo, em passo e outro, bem como a Paulo Henriques Britto, com quem trato, vai já década e tal, de pequenos ajustes da língua e da tecnologia do poema.

* * *

Dolls

If I could, like the gods of fate, somehow rearrange the events, I
would start with Muhammed’s fridge that exploded and started the
fire. I would give Muhammed some clue that all was not right with
it – perhaps his hummus goes off prematurely or the water collects
under the vegetable crisper. Something to make Muhammed replace
the fridge. Then I would give those who died on the top floors a
reason not to be home. I would have had the fire on the day of Carnival
and encouraged those on the top floors be a part of the festivities. I’d
let the husbands who left their wives and families home to earn some
money on night shifts or driving cabs find a little extra money in their
accounts, so that night they’d have taken their children out for
shawarma and orange juice down Marble Arch, while they smoked
shisha and talked about how good their lives felt. All the children who
died would have visited their grandparents that day, here or abroad. I’d
make the cladding that burned like dry straw be fireproofed to
international standards; let life and love continue in Grenfell.

Bonecos

Se eu pudesse, feito os deuses das sinas, de algum modo remontar os eventos, eu
começaria com a geladeira de Muhammed que explodiu e começou o
incêndio. Eu daria a Muhammed a pista de que nem tudo estava bem com
ela – talvez o homus estragando mais cedo ou a água acumulada
sob as verduras na gaveta. Um lance que fizesse Muhammed trocar
a geladeira. Então eu daria àqueles que morreram no andar de cima uma
razão pra não estarem em casa. Eu faria com que o incêndio ocorresse no Carnaval
e atiçaria aqueles do andar de cima a tomarem parte nas festas. Eu faria com que
os maridos que largaram mulher & filhos em casa pra ganhar
um troco nos serões ou como taxistas, a fim de um trocado a mais em suas
contas, naquela noite eles tivessem levado seus filhos pra lanchar
shawarma e suco de laranja sob o Marble Arch, enquanto eles fumavam
xixa e falavam sobre como estar de boa com a vida. Todas as crianças que
morreram visitariam seus avós naquele dia, aqui ou no estrangeiro. Eu faria
o revestimento que queimava feito palha seca ser à prova de fogo dentro dos
padrões internacionais; que a vida e o amor perdurassem em Grenfell.

§

Stubb’s Whistlejacket

Looking at Stubb’s horse in the dark
it becomes clear he was no glamoriser of muscle,
no fetishist of fur and skin.
Convinced that the body was host
to the horse’s spirit, he began making martyrs
of horses, subjecting them to jugular death,
beads of sweat rolling down
their barrelled torsos,
their eyelashes fluttering with a flourish,
as he pumped them with warm tallow
till their pulsing veins and arteries
slowly came to a halt.
Suspending them in a standing or trotting pose
by a series of hooks and tackles,
amid buckets of clotting blood,
first stripping off the skin,
he worked his way through, muscle
by muscle, bone by bone, dissecting
and defining limbs.
Turning the pages in this book of horse,
even in the dark of the museum
I can feel this horse breathing.

“Whistlejacket” de Stubbs

Vendo o cavalo de Stubbs no escuro
fica claro que não era de glamorizar os músculos,
nem fetichista de peles e pelos.
Convicto de que o corpo era o anfitrião
para o espírito do cavalo, ele começou a fazer cavalos
mártires, sujeitando-os à morte jugular,
escorrendo rosários de suor
por seus torsos embarrilados,
por seus cílios tremulando em floreios,
quando ele os bombeava com sebo morno
até que suas veias e artérias pulsantes
lentamente viessem a colapso.
Içando-os numa pose de trote ou repouso
por uma série de ganchos e apetrechos,
entre baldes de sangue coagulado,
primeiro arrancando a pele,
ele abria caminho, músculo
por músculo, osso por osso, dissecando
e definindo membros.
Virando as folhas deste livro de cavalos,
mesmo no escuro do museu
eu consigo sentir esse cavalo respirando.

§

A Portable Paradise

And if I speak of Paradise,
then I’m speaking of my grandmother
who told me to carry it always
on my person, concealed, so
no one else would know but me.
That way they can’t steal it, she’d say.
And if life puts you under pressure,
trace its ridges in your pocket,
smell its piney scent on your handkerchief,
hum its anthem under your breath.
And if your stresses are sustained and daily,
get yourself to an empty room – be it hotel,
hostel or hovel – find a lamp
and empty your paradise onto a desk:
your white sands, green hills and fresh fish.
Shine the lamp on it like the fresh hope
of morning, and keep staring at it till you sleep.

Um Paraíso Portátil

E se eu falar do Paraíso,
estou falando da minha avó
que me disse pra sempre carregá-lo
oculto comigo, pra que
ninguém soubesse além de mim.
Aí eles não podem te roubar, ela dizia.
E se a vida te bota na pressão,
traça seus cumes na algibeira,
cheire o pinho do perfume dela em teu lenço,
cantarola este hino no teu sopro.
E se tuas tensões são diárias, constantes,
segue pra um quarto vago – de pensão,
pousada ou casebre – pegue uma lâmpada
e despeje teu paraíso na mesa:
tuas areias claras, costas verdes, peixe fresco.
luze a lâmpada nele como a esperança fresca
da manhã, e olhe vidrado até você dormir.

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