poesia

Beatriz Ribeiro

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Beatriz Ribeiro é poeta negra, periférica e mãe solo. Escreve poemas desde os 12 anos, encontrou nos livros e na poesia o seu refúgio, o seu “país das maravilhas” pessoal onde tudo era possível, uma cura aos abusos sexuais que sofria, o bullying na escola, o racismo,  machismo, entre os outros obstáculos. Seu sonho  é inspirar outras mulheres que como ela são subjugadas e passam por diversas lutas todos os dias. As poemas abaixo compõe seu livro O mistério por detrás das Asas, ainda inédito. 

*

Reino dos bichos e dos animais é o meu nome
– Stela do Patrocínio

Análise do pombo

Eu sou o pombo
O pombo voando sem destino certo
Voando pela cidade vendo a vida das pessoas acontecerem
Eu sou o pombo agradecido
Pelas migalhas que me destes,
Porque na minha cabeça de pombo é o que mereço.
Eu sou o pombo rejeitado, cuja presença incomoda.
Pois sou sujo tal como um rato
Olham-me e me veem asquerosamente feio,
Riem de mim, podem rir.
Nada tenho eu contra a tua risada debochada
Teve um tempo que passei longas horas imaginando
Como deveria ser uma águia com seus olhos e pelagens admiradas.
Sou o pombo solitário.
Se eu morro apenas passam por cima de meu cadáver
Sem dó, nenhuma comoção.
O pombo não merece compaixão, nem amor alheio.
Eu sou o pombo subjugado e entristecido,
Mas quando ninguém repara eu fecho os olhos e vou voar,
Para longe da tua risada ecoante, para longe do seu desprezo.
E encontro nas nuvens, do sonho e do pensamento,
O consolo para essa vida que é tal como
Uma ferida pulsante que não para de doer.

§

Os Urubus

Os urubus são o renascimento,
Os urubus comem o resto da vida
Eles separam o fútil corpo
Do livre e esplendido espirito
No entanto,
Não se podem contemplar os Urubus.

A magia deles é segredo!
Os servos das divindades,
Que como a abelha faz com a flor
Recolhe nossas almas
Para o paraíso.

§

A galinha

Eu nasci para servir
Em um sistema que me sacrifica para fins religiosos
Arrancam minhas penas para vestimentas
Arrancam minha placenta e fritam meus filhos em óleo quente
Enchem-me de hormônios para que e fique maior
Na hora da morte quebram meu frágil pescoço
Usam-me até não ter mais como usar
Fui castigada desde sempre, pois tenho asas,
Mas não posso usá-las para fugir disso tudo
A morte para mim é um alívio
Porque só assim serei livre e poderei voar…

§

Phoenix

Acabei de sair dos meus ninhos pretos
Estico minhas asas gentilmente abrindo
Isso deveria ser bom?
Mas você não sabe como é difícil para mim acordar todos os dias
Manhãs sem fim, meu destino é ser infinito
Até depois do fim
Então eu vivo, não só esta noite
Mas sempre como se fosse um jovem para sempre
Ter o ingênuo primeiro amor,
O deslumbramento de uma primeira festa,
O coração disparado e mentiroso
Perguntavam-me – E tu já beijaste uma garota?
Afligia-me o suor esfriava e eu dizia
Orgulhoso e pomposo – Mas é claro que sim!
Toda vez que perco um amor eu caio de um penhasco!
E fico neste ciclo, até que meu amor pare de partir

*

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poesia, tradução

Max Hölzer (1915 – 1984), por Natan Schäfer

© Rimbaud Verlag

Max Hölzer (1915 – 1984) nasceu em Graz (Áustria). Formado em Direito, foi leitor e tradutor em diversas editoras alemãs. Juntamente com Edgar Jené (sobre quem Paul Celan publica em 1948 o ensaio “O sonhos dos sonhos”, em alemão “Der Traum von Träume”), de 1950 a 1952 editou a revista Surrealistischen Publikationen, onde publica pela primeira vez após a Segunda Guerra traduções de Breton, Péret, Lautréamont dentre outros. Dono de uma obra esparsa apenas reunida e reeditada pela Rimbaud Verlag a partir de 1989, Hölzer e sua obra são muitos importantes para a compreensão dos acidentados meandros dos vasos comunicantes surrealistas nos territórios de língua alemã que, ao contrário do que muitos insistem em repetir, não foi uma Batalha de Itararé, ou seja, está longe de não ter sido. Além disso sua obra, que se constitui paralelamente à reconstrução destes países, amplia a discussão da Imagem e do pensamento analógico e simbólico nesses mesmos territórios e além, acenando para a possibilidade de ascendência após um período de lama.

Apresento aqui uma trinca de poemas em prosa do livro Gênese de uma constelação (na edição da Rimbaud Verlag acompanhado por obras do pintor K.O. Götz), profundamente marcados pelo ditado do desejo em íntima relação com o mundo visto e vivido. Os textos foram tirados de Entstehung eines Sternbilds. Surrealistische Prosa. Stierstadt im Taunus: Eremiten Presse, 1958. 2ª ed. Aachen: Rimbaud Verlag, 1992.

Agradeço ao Guilherme Gontijo Flores e ao pessoal do escamandro pelo espaço aberto.

Boas jornadas!

Natan Schäfer (1991) nasceu em Ibirama, Santa Catarina. É mestre em Estudos Literários pela UFPR e por Lyon 2 e capitaneia a Contravento Editorial. Atualmente vive em Berlim.

* * *

 

“Lilli-De” III, 1992, 70 X 100 cm. Guache sobre papel cartão. K.O. Götz.

I – Gênese de uma constelação

O touro estica o focinho mas não emite ruído algum. Movimenta-se na sua própria noite ao longo da praia, de pé nas patas traseiras. As órbitas de seus olhos cheias de areia. Na sua testa, entre os chifres, um estoque de ondas e nuvens. A menina que vai à sua frente tem penas de pombos na cintura. Nenhum passo é capaz de soltar as pontas dos dedos das garras com as quais ela conduz o touro. Talvez jamais tenha sido dia. Uma explosão inaudível faz o mar e a praia naufragarem. Mas eles não tropeçam. A menina dança o touro ofuscado em seu peito. Ele penteia seu coração.

I – Entstehung eines Sternbilds

Der Stier reckt das Maul, aber kein Laut dringt hervor. Er bewegt sich in der eigenen Nacht, aufrecht auf den Hinterbeinen, den Strand entlang. Seine Augenhöhlen füllt Sand. Auf seiner Stirn, zwischen den Hörnern, ist ein Vorrat von Wellen und Wolken. Das Mädchen, das vorangeht, hat Taubengefieder um die Hüften. Kein Schritt löst die Fingerspitzen von den Klauen, an denen sie den Stier führt. Vielleicht ist es nie Tag gewesen. Eine unhörbare Explosion läßt Meer und Strand versinken. Aber sie straucheln nicht. Das Mädchen tanzt dem geblendeten Stier durch die Brust. Er kämmt ihr Herz.

§

II – Babilônia

O céu azul está cheio de açúcar empacotado. As pessoas fazem compras sem deixar rastros, como nenhum selvagem jamais o fez. Sobre trilhos. Lá vai uma que teve as orelhas entupidas por assobios. O relógio lhe espreme a boca para fazê-la calar. Não é como num balneário. A passagem é uma pedra que fica pesada em sua cama. No horizonte rodopia um pouco de poeira, ao qual se dirige o primeiro suspiro da amada. Uma nuvem se estende de uma margem à outra do céu. Guerra e paz, verrugas e riachos. Ele não se deixa mais invadir pela sanguinolenta ameaça. O próximo trem lhe atropela; ele mesmo não terá notado. Trânsito dominical. A confusão de línguas salvou seus cristais na caixa de fumaça da locomotiva, sobre as confortáveis salas de espera que mentem.

II – Babylon

Der blaue Himmel ist voll gewogenen Zuckers. Man kauft ein, spurlos wie ein Wild. Auf Schienen. Da ist einer, der den Pfiffen sein Ohr verstopft. Die Uhr preßt er auf den Mund, um sie zum Schweigen zu bringen. Ist es nicht wie ein Badeort. Die Fahrkarte ist ein Stein, der sich schwer macht in seinem Bett. Am Horizont wirbelt ein wenig Staub, der erste Atemzug der Geliebten, der ihm gilt. Eine Wolke hängt von Rand zu Rand des Himmels. Krieg und Frieden, Warzen und Rinnsale. Er läßt sich die blutige Drohung nicht mehr einfallen. Der nächste Zug überfährt ihn; er wird es selbst nicht bemerkt haben. Sonntagsverkehr. Die Sprachverwirrung hat ihre Kristalle in Rauchkammern gerettet, über den komfortablen Wartehallen, die lügen.

§

III – Bem e mal

O Elba faiscando sob obscuras nuvens ensolaradas. Guindastes aracnídeos pendem flácidos no ar. O cansaço cobrindo um poema desumano me puxa para a água. Mergulho com a força de uma hélice. O bizarro branco dos barcos se espalha pelas paredes do ancoradouro congelado. Chaminés listradas de preto, verdes e dourado. Os golpes das sirenas, o caos das antenas, vergas, enxárcias e mastros, dolfins e boias erguendo-se das águas, como um carimbo alcatroado voando em círculos: caligrafia da vida que divido a ferro afiado como se fosse um poleame incandescente. Paus de carga abertos em ângulo obtuso e o dedo cinabre dum gigante distante nas brumas portuárias em fuga ascendente. As quilhas tortas para o lado, para baixo e as paredes fuliginosas ou enferrujadas, recuando inagarráveis. Mergulho acariciado por rítmicas medusas dançantes e florescentes, conchas abrem seus colos de madrepérola e enquanto vou perdendo a consciência devagar guindastes e arames se enrijecem apontando para cima e aproxima-se, quase flutuando sobre o seio das águas profundamente crispado e rasgado, uma encosta de esmeralda, nua — vítreo barco a vapor do prazer.

III – Gut und Böse

Die Elbe liegt funkelnd unter düsterer Sonnenwolke. Spinnenkrane hängen schlaff in der Luft. Überdruß, der ein unmenschliches Gedicht verhüllt, zieht mich ans Wasser. Ich tauche mit der Kraft einer Schiffs-Schraube. Das bizarre Weiß der Schiffe, gebänderte Schlote, der Rauch und aufgeregte Sirenenstöße, die geometrische Wirrsal der Atennen, Rahen, Stage und Maste, aus dem Wasser ragend die Dalben und Bojen, wie Stempel geteert und umflogen: Schrift des Lebens, das ich wie einen heißen Block mit Eisesschärfe spaltete. Ladebäume, breitwinklig gespreitzt, und fern im Hafendunst der zinnoberrote Finger eines Riesen fliehen nach oben. Zu Seiten gebogene Kiele, abwärts, und rußschwarze oder rostige Wände, zurückweichend, grifflos. Ich tauche, von rhythmisch tanzenden und erblühenden Medusen gestreift, Muscheln öffnen ihren Perlmuttschoß, und während ich langsam das Bewußtsein verliere, steifen sich oben Krane und Drähte und es nähert sich, fast schwebend über der tiefgefurchten, aufgerissenen Wasserbrust, die Smaragdhänge entblößt, der Lustdampfer aus Glas.

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Poesia Brasileira Contemporânea

Lino Machado

Filho de pais portugueses, Lino Machado nasceu no ano de 1957 no Rio de Janeiro, Brasil. Desde 1993 trabalha na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), lecionando no Departamento de Línguas e Letras, do Centro de Ciências Humanas e Naturais (CCHN).
Possui graduação em Português Literaturas (1979), mestrado em Literatura Portuguesa (1988) e doutorado em Literatura Portuguesa pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1996).
Tem experiência na área de Letras (Pós-graduação inclusive), atuando principalmente nos seguintes temas: Literatura Portuguesa, filosofia e semiótica de Charles Sanders Peirce, intersemiose, diálogo literatura-artes visuais, intertextualidade, filosofia da ciência.
Além de artigos vários, publicou os livros As palavras e as cores, sobre Carlos de Oliveira (1999), Sob uma capa (2010), Entre dois vetores (2014) e Viés-cegueira (2020) – este três últimos, volumes de poesia.
De 01 de Agosto de 2014 a 31 de Julho de 2015 efetuou um Pós-Doutorado na Pontifícia Universidade Católica de Minas Geras (PUC-MG), sob a orientação do Prof. Dr. Júlio Pinto, um dos grandes conhecedores de semiótica peirciano no Brasil. De tal Pós-Doutorado resultou o extenso trabalho Trimedi(a)ções: Peirce, física quântica, literatura. Embora uma aproximação entre o criador do pragmatismo e a mecânica dos quanta possa parecer inusitada à primeira vista, ela vem sendo apontada desde, ao menos, 1958 (inclusive por pensadores do calibre de Karl Popper), ainda que sem um maior aprofundamento de tal paralelo, tentado, precisamente, no Pós-Doutorado em questão.
Aposentou-se como Professar Titular na Ufes. Email para contato: linomachado36@yahoo.com

* * *

O que parece

Estou num ponto de ônibus
………..ou da vida
esperando o próximo
………..………..………..oxigênio passar.

Exagero, claro,
como quem aguarda o terremoto
que faça em fran
galhos
aquele formigueiro
no quadrado de grama da calçada.

Não porque deteste as formigas
ou a calçada
com todo o resto,
mas pelo fato estranho
de que, mesmo com recursos
escassos, este mundo urbano
e zoológico
é sempre de um excesso
formidável.

§

Aceita o conselho

Cerca de grandes muros quem te sonhas.
Fernando Pessoa

Constrói muros assim
contra todos os ventos e contatos.
Tenta depois morar
no interior deles ………..egoísta da vida
evitando contatos
não se esquecendo de estar
sob um ótimo teto
contra todas as estrelas,
contatos e ventos.

Ergue muros altos do tipo,
sonhando não ser mais esmurrado
pelo mundo
que teima em bater às nossas portas.
Sim, senhor, teme
este mundo deveras teimoso,
mas também às vezes trêmulo
com os seus próprios terremotos,
os tsunamis e o resto
que se agite de um modo ou de outro.

Põe de pé uns muros dessa espécie
e espera que ninguém
da tua, da nosso espécie
queira atuar
no interior deles ferozmente,
nos canteiros do jardim,
mesmo que eles só existam
na imaginação,
com flores e ervas que sejam figuras
plantadas nuns chãos de neurônios.

Levanta muros do tipo
sem mais demora
diante de mansões, apartamentos, barracos,
gostem ao não
expostos a ventos, contatos,
com sorte
contando com boas redes de esgotos.
Apenas lamenta um item
mais do que chato,
apto a provocar um curto-circuito
nos nervos:
este ou aquele vírus
que volta e meia não é parado por muros,
Troias vencidas sem cavalos.

Lamenta ainda:
vírus
que são um detalhe entre vários
num planeta (não reclame)
de fato bilionário deles,
se não triou de maiores valores
na vida
com suas bolsas e campeonatos.

Sem dúvida, amigo,
lidamos com altos, médios, baixos,
fazendo apostas
entre astros e abismos,
alegrias e pandemônios.

Naves, navios, barquinhos
(mesmo os de papel)
não naufraguem agora!

 

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poesia, tradução

Giorgio Manganelli, por Armando Martinelli

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Giorgio Manganelli foi um escritor, tradutor, jornalista e crítico literário, nascido em Milão, em 15 de novembro de 1922; e faleceu em Roma, em 28 de maio de 1990. Ativista da resistência italiana (Partigiano) durante a segunda guerra mundial, integrante do partido Comunista, presidente do Comitê de Libertação, ele também foi um dos líderes do movimento literário de vanguarda na Itália na década de 1960, chamado Grupo 63
(caracterizado pela forte experimentação). Nesse período publicou um trabalho
“Hilarotragoedia” (1964), traduzido pela editora Imago (1993), em tradução de Nilson Moulin. Seu livro mais conhecido “Centuria – cem pequenos grandes romances”, lançado em 1979, ganhou o Prêmio Viareggio, e chegou ao Brasil em 1995 pela editora Iluminuras, em tradução de Roberta Barni. Manganelli também é lembrado por sua atividade tradutora: traduziu histórias completas de Edgar Allan Poe e autores como T. S. Eliot, Henry James, Ezra Pound, Robert Louis Stevenson, Byron Manfred entre outros. Dos mais de cinquenta livros de Manganelli, no Brasil, além dos dois citados acima, há também “Pinóquio: um livro paralelo”, publicado em 1982 na Itália, e por aqui em 2002, pela Companhia das letras, em tradução de Eduardo Brandão. Ítalo Calvino diz a seu respeito, ao comentar “Hilarotragoedia”: “um escritor diferente de qualquer outro, um inventor inesgotável e irresistível no jogo da linguagem e das ideias”.

Após ter lido o livro de contos Centúrias – cem pequenos grandes romances (Edições 70), indicado pelo amigo e poeta Diego Pansani, parti em pesquisa virtual por outras obras do  italiano Giorgio Manganelli. Entre as buscas, deparei-me com alguns de seus poemas e, desde então, tenho unido duas paixões: a língua italiana (herança de meu pai e avós), com a poesia. Nos poemas de Manganelli fui atingido fortemente pela combinação crua de elementos fantásticos e sentimentos pulsantes. E sigo instigado a desvendar, cada vez mais, esse universo denominado por muitos críticos como o real manganelliano. Para homenagear os trinta anos de falecimento do autor, fiz a tradução de três dos seus poemas.

Armando Martinelli

*

I
Scrivi, scrivi;
se soffri, adopera il tuo dolore:
prendilo in mano, toccalo,
maneggialo come un mattone,
un martello, un chiodo,
una corda, una lama;
un utensile, insomma.
Se sei pazzo, come certamente sei,
usa la tua pazzia: i fantasmi
che affollano la tua strada
usali come piume per farne materassi;
o come lenzuoli pregiati
per notti d’amore;
o come bandiere di sterminati
reggimenti di bersaglieri.

II
Usa le allucinazioni: un
ectoplasma serve ad illuminare
un cerchio del tavolo di legno
quanto basta per scrivere una cosa egregia –
usa le elettriche fulgurazioni
di una mente malata
cuoci il tuo cibo sul fuoco del tuo cuore
insaporiscilo della tua anima piagata
l’insalata, il tuo vino
rosso come sangue, o bianco
come la linfa d’una pianta tagliata e moribonda.

III
Usa la tua morte: la gentilezza
grafica gotica dei tuoi vermi,
le pause elette del nulla
che scandiscono le tue parole
rantolanti e cerimoniose;
usa il sudario, usa i candelabri,
e delle litanie puoi fare
un bordone alla melodia – improbabile –
delle sfere.

IV
Usa il tuo inferno totale:
scalda i moncherini del tuo nulla;
gela i tuoi ardori genitali;
con l’unghia scrivi sul tuo nulla:
a capo.

I
Escreva, escreva
se você sofre, use sua dor
pegue-a pela mão, toque-a
como se manuseia um tijolo,
martelo, um prego,
uma corda, uma lâmina;
uma ferramenta, enfim.
Se você é louco, como certamente é
use a sua loucura: os fantasmas
que preenchem sua existência
use-os como plumas dos travesseiros;
ou como lençóis finos
para uma noite amor;
ou como bandeiras de extermínio
dos regimentos de atiradores.

II
Use suas alucinações: um
ectoplasma serve para iluminar
um círculo na mesa de madeira
quanto precisa para escrever uma coisa amável –
use as claridades elétricas
de um mente doentia
cozinhe sua comida com o fogo do coração
tempere sua alma ferida
a salada, o vinho tino
vermelho como sangue, ou  branco
como a seiva de uma planta cortada e moribunda.

III
Use a sua morte: a gentileza
dos gráficos góticos dos seus vermes
as pausas eleitas do nada
que acentuam suas palavras
ofegantes e cerimoniosas;
use sua mortalha, seus candelabros,
as ladainhas que pode compor
– um zumbido a uma melodia – improvável
das esferas.

IV
Use seu inferno total:
esquente os tocos de sua alma;
congele as ardências genitais;
com a unha, escreva no seu vazio:
Um Parágrafo.

§

da Poesie

Io mi divido
in giacca e calzoni e cintura
e ancora mi disgiungo
in cravatta e camicia
e mi scindo in cranio, in polmoni,
in visceri e pube,
e mi distinguo
in ogni cellula
che senz’amore s’accosta
ad altra cellula.
Così, casualmente, sussisto:
poi chiedo in prestito
la forza che congiunge
l’uno all’altro i miei volti possibili
all’improvviso sacramento
d’una chitarra,
al riso dell’amico,
allo squillo consueto del telefono,
nell’attesa distratta
d’una voce che perdoni la mia spalla,
la mia gamba, la mia dolce cravatta:
nell’oziosa attesa
del sacramento della nascita. 

Conosco la pace del pensoso dinosauro,
la coerenza delle zanne della tigre:
dove non c’erano parole
dove non ci sono parole,
nel centro del centro del centro
delle cose sorde, vitali, sanguinose,
dove si enumerano stomaco,
unghie, genitali,
intestini lunghissimi, zampe,
e le lacrime sono lacrime
per sangue che esce da carne lacerata,
per l’orrore forte della morte,
dove si redigono cataloghi
di urli, di minacce, di carne,
del male carnale solamente
dove non c’è amore né lussuria,
ma la voglia gagliarda della vita,
il centro dell’inguine
che matura insensato nelle cose. 

Abbiamo tutta una vita
da NON vivere insieme.
Sugli scaffali di Dio
s’impolverano i gesti possibili:
le mosche cherubiche insozzano
le nostre carezze;
stanno appollaiati come gufi
i sentimenti impagliati.
“Merce inesitata” – griderà l’angelo d’ottone –
dieci casse di vite, di possibili.
E avremo anche una morte da morire:
una morte casuale, innecessaria,
distratta, senza te. 

Io non ho prova della mia esistenza
se non per questo
dolore continuo dell’orecchio,
una lettera d’amico,
il gusto denso della birra
contro le gengive.
Fuori dal sigillo
della paura ininterrotta
non ho altro indizio
della mia continuità.

De poemas

Eu me divido
em jaqueta, calças e cintos
então me desfaço
em gravata e camisa
e me separo em crânio, em pulmões,
em vísceras e virilha
e me distingo
em cada célula
que sem amor se encosta
a outra célula
assim, casualmente, subsisto:
depois peço em empréstimo
a força que une
um ao outro os meus rostos possíveis
a um inesperado sacramento
de um violão,
ao riso do amigo
ao toque habitual do telefone,
na espera distraída,
uma vez que perdoe as minhas costas
a minha perna, a minha doce gravata:
na ociosa espera
do sacramento do nascimento.

Conheço a paz do pensativo dinossauro,
a coerência das presas do tigre:
onde não haviam palavras,
onde não existem palavras
no centro do centro do centro
das coisas surdas, vitais, sanguinolentas,
onde se enumeram estômago,
unhas, genitais
intestinos longuíssimos, patas
as lágrimas são lágrimas
por sangue que sai da carne dilacerada
para o grande horror da morte
onde se redigem catálogos
de gritos, de ameaça, de carne
do mal carnal somente
onde não tem amor e nem luxúria
mas a vontade corajosa da vida
o centro das pernas
que amadurece as coisas insensatas.

Temos toda uma vida
para não viver juntos.
Sobre as prateleiras de Deus
se empoeiram os gestos possíveis
as moscas querubins mancham
as nossas carícias – estão empoleiradas como corujas
os sentimentos empalhados.
“Mercadoria encestada” – gritará o anjo de bronze –
dez caixas de vida, de possíveis.
E teremos também uma morte a morrer:
uma morte casual, desnecessária,
distraída, sem você.

Eu não tenho da minha existência
se não por isso
dores contínuas de ouvido
uma carta de amigo
o gosto forte da cerveja
contra as gengivas
fora do sigilo
do medo ininterrupto
não tenho outro indício
da minha continuidade.

§

Desideravo vederti:

desidero la fantasia dei tuoi capelli
a inaugurare grida
di libertà in ore troppo lente; la rivolta
dei tuoi polsi terrestri
che muovono inizi di bandiere,
e accusano l’indugio, la disperazione
cauta, il tempo.
Mi occorre l’urlo d’uno sguardo
ed oltre la violenza del tuo esistere
io esigo il gesto d’un tuo riso.

Queria te ver:

Desejo a fantasia do seu cabelo
a inaugurar em gritos
de liberdade em horas muito lentas; a revolta
dos seus pulsos terrestres
início sinuoso de bandeiras,
e acusar o atraso, o desespero
cauteloso, o tempo.
Preciso do grito de um olhar
e além da violência da sua existência
Exijo o gesto do seu riso.

§

Armando Martinelli é jornalista e escritor. Publicou em algumas coletâneas, e seu primeiro livro – Recital das Reticências saiu em 2018 pela editora Urutau. Mestrando em Divulgação Científica e Cultural pelo Labjor (IEL) na Unicamp, entre pesquisas e textos acadêmicos, segue finalizando seu segundo livro, também de poesia, previsto para ser lançado até o final de 2020.

*

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Poesia Brasileira Contemporânea

Sheila Dálio

Sheila Dálio (1983) é mestranda em teoria literária pela UNESP, em Assis, SP. Nasceu em São Manuel, interior de São Paulo. Atualmente está entre os alguns que se agarram à poesia como uma tábua de salvação. 

* * *

I – Gesto

de cócoras sobre a carniça não pensava,
comia. Vejo de juntar em minhas mãos.
Esculpir essa carne de minha carne;
torço retorcido com o rosto de
Caim.

§

II – Marabu

A máscara de flandres veio caminhando
para grudar-se em minha boca.
Olho aos céus e vejo Marabu:
Grande. Feia. Magra.
Fomos nós que apressamos a noite?
Foram Eles?
Contaram-me os mistérios dolorosos: Deus, pendurado num arame,
retira o ar soprado em mim.

§

III – Máquina de costura

Percorre um vazio
entre a linha e a agulha
nele tuas angústias
passavam como gafanhotos
em delírios envoltos. Ossatura.
Ao corpo da máquina
tão perto teu rosto.
Costura,
costura,
costura
[o tecido, as veias, o sangue]
impossível mudar
tua desventura.
Na membrana das linhas
arruinadas – o corte.
Ao lado esquerdo, o vestido:
preto
três botõezinhos
e o ar que me entope.

§

IV – Mangue

escuta o som das saias
no mangue de Recife
as marcas quentes na areia
nas suspensas
ondas do seu ventre
escuta
a esquecida velha
acenando ao mar
a lágrima
caída
na concha apodrecida
escuta
(um barco chegou)
cinco homens
cinco redes
cinco anzóis
cinco furos
cinco mulheres
escuta
depois do último
cataclisma
o silêncio das saias
balançando no mangue
quente do seu ventre

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poesia, poesia afro-uruguaia, tradução

Virginia Brindis de Salas, por Anelise Freitas, Ma Njanu e Marcela Batista.

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Virginia Brindis de Salas (1908-1958) foi uma poeta afro-uruguaia a quem se atribui a autoria de dois livros de poesia: Pregón de Marimorena (1946) e Cien cárceles de amor (1949). Como permaneceu (e ainda, de certa forma, permanece) sob a neblina densa do esquecimento, sua obra e vida é repleta de lacunas e de controvérsias. Uma delas é sobre a autoria de sua obra. Alberto Britos Serrat afirma, em sua antologia de 1990, “Antologia de poetas negros uruguayos” que a obra de Brindis de Salas é um plágio. O que se sabe é que Pregón de Marimorena foi o primeiro livro de poemas publicado por uma mulher negra na América do Sul. Circula ainda que a poeta teria um terceiro poemário, intitulado Cantos de Lejanía, mas essa publicação nunca veio à luz.

Brindis de Salas trabalhou durante algum tempo como doméstica de uma importante poeta branca uruguaia que, apesar de aparentar ser sua amiga, foi uma das responsáveis por incutir em Virginia uma insegurança sobre sua capacidade de ser uma escritora, uma vez que era uma mulher negra e pobre. Outra tentativa de invisibilizar sua obra foi a exclusão de seu nome da antologia de Alberto Britos Serrat, citada acima. Entretanto, essa teoria do plágio de sua obra foi rechaçada por pesquisadores empenhados no estudo de sua obra, como Richard L. Jackson, Marwin A. Lewis e a estudiosa Caroll Mills Young, que constataram que os poemas são, de fato, da autoria de Brindis de Salas.

Além de poeta, pertenceu ao círculo de intelectuais, jornalistas e escritores negros (CIAPEN), no Uruguai, e contribuiu com o periódico Nuestra Raza, entre 1939 e 1948, periódico dirigido por alguns poetas afro-uruguaios, como Pilar Barrios. Brindis de Salas era conhecida por difundir e propiciar o ativismo político e social do movimento negro e das favelas do Uruguai, contribuindo com publicações de poetas negres, bem como em relação à denúncia das condições miseráveis as quais viviam o povo uruguaio de cor e das classes mais baixas.

Brindis de Salas foi uma vanguardista ao tratar da literatura negra afrodiaspórica com uma riqueza e destreza imensa de imagens, que dispensam as menores alegorias; a respeito da nossa identidade tanto racial e social, como de gênero — fato extremamente inovador considerando o contexto patriarcal herdado das formações coloniais. Lamentamos que sua obra seja ainda tão pouco lida e apreciada pela crítica brasileira, mas nos levantamos para traduzir seus poemas a fim de vê-los circular e ganhar a imensidão que é própria da poética contundente de Virgínia Brindis de Salas.

Os poemas abaixo foram traduzidos pelas poetas e tradutoras Anelise Freitas, Ma Njanu e Marcela Batista.

* * *

A LA RIBERA AMERICANA

Cuántos años vieron mojar mis pies
las aguas salitrosas
que bordan la ribera americana.

La carne de mi cuerpo
bañada en agua hermana,
bautismo de este río
que como mar se ensancha
para buscar en la ribera
de América, su senda ancha.

Cuántos barcos al pasar por el ancón
y por la playa
abrieron, desmesurados
grandes ojos
y entre el cantar de marineros en su borda
a toda la ribera del itsmo saludaron.

Mi piel quemada, que besar quisieron,
ebria de soles matinales
se ha sumergido mar adentro
saturada de sales
y de encuentros.

Vamos por la ribera
de esta América indígena y mulata
en pos de la vereda
que todo lo mata.

El pecho fuerte y los brazos siempre abiertos;
macho y hembra,;
multitud, barcos y puertos;
y una bandera
de un solo color
hinchada al viento;
y las gentes en los barcos
a babor y estribor
con sus torsos desnudos
teñidos de sangre por escudo.

Que el pecho inflame
la paz redentora
y diga a todos: id ahora;
que nuestra sangre se derrame
sin demora.

Hijos del suelo americano
blancos y negros hermanados;
tomad mi cuerpo,
gustad el sabor de mi carne morena;
quebrad el espasmo de la gruta del miedo
que vuestra carne encierra!

Sed nuevos prometeos;
venid como Espartaco
que América en su nervio
desata sus canciones
que dicen los deseos
de un mundo amplio, nuevo,
sus nuevas rebeliones!

Quiero posar mi pie morena
en la ribera de los lares
de América, infinita
y verla que del suelo
se levanta
en sus talleres,
sus fábricas,
sus minas
y de un formidable pulmón
de voces femeninas,
que aprieta el fuelle
con manos masculinas,
oír la canción
en los caminos y en los muelles,
plena de redención!

À MARGEM AMERICANA

Quantos anos vieram molhar meu pés
as águas salobras
que bordeiam a margem americana.

A carne de meu corpo
banhada em água irmã
batismo desse rio
que como o mar se alarga
para buscar na margem
da América, sua rota larga.

Quantos barcos de passagem pelo recôncavo
e pela praia
abriram, desmesurados
grandes olhos
e entre o canto de marinheiros em sua popa
a toda a margem do istmo saudaram.

Minha pele queimada, que quiseram beijar,
ébria de sóis matinais
se submergiu mar adentro
saturada de sais
e de encontros.

Vamos pela margem
desta América indígena e mulata
no sentido da vereda
que a tudo mata.

O peito forte e os braços sempre abertos;
macho e fêmea;
multidão, barcos e portos;
e uma bandeira
de uma cor só
inflada ao vento;
e o povo nos barcos
bombordo e estibordo
com seus troncos desnudos
tingidos de sangue como escudo.

Que o peito inflame
a paz redentora
e diga a todos: vão agora;
que nosso sangue se derrame
sem demora.

Filhos do solo americano
brancos e negros irmanados;
tomem meu corpo,
gostem do sabor da minha carne negra;
quebrem o espanto da gruta do medo
que sua carne encerra!

Sejam novos Prometeus;
venham como Espártaco
que América em seu nervo
desata suas canções
que dizem os desejos
de um mundo amplo, novo,
suas novas rebeliões!

Quero pousar meu pé negro
na margem dos lares
da América, infinita
e vê-la que do solo
se levanta
em suas oficinas,
suas fábricas,
suas minas
e de um formidável pulmão
de vozes femininas,
que aperta o fole
com mãos masculinas,
ouvir a canção
nos caminhos e no molhe,
plena de redenção!

 

§

 

NEGROS

Alarde de dientes blancos
Elevándose en la roja pulpa de las sandías.
Hombres que cantan y cantan sus penas,
Con el alma asomada a la boca.
Entre los cañaverales
El ojo avizor del hombre blanco
Al final,
A la noche hosca…
La oscurece el bongó.

NEGROS

Alarde de dentes brancos
Elevando-se na rubra polpa das melancias.
Homens que cantam e cantam seu penar,
Com a alma aflorada na boca.
Entre os canaviais
O olho alerta do homem branco
Ao final,
A noite inóspita…
Escurece o bongô.

§

NAVIDAD PALERMITANA

Cielo con muchas estrellas
Y luna blanca y redonda.
Qué linda que fué en Palermo
La noche de Navidad.
Enfarolada de cañas
Y de vinachos guerreros
La negrada entusiasmada
Hacía repicar los cueros.
Candombe de Navidad,
Candombe de sol caliente,
Reminiscencia africana
Que reviven los morenos
En nuestra fiesta cristiana.
Recinto de los esclavos
Del viejo Montevideo,
En donde por vez primera
Repicó mi tamboril.
Con mi candombe te evoco,
Con mi candombe te canto
Porque hoy los negros son libres
En esta tierra Oriental.

NATAL PALERMITANO

O céu com tantas estrelas
E a lua branca bem cheia.
Tão linda estava em Palermo
A noite desse Natal.
De cana estou manguaçada
E de marafo os guerreiros
Os pretos se entusiasmavam
Fazendo o couro comer
Candombe desse Natal,
Candombe de sol caliente,
Reminiscência africana
Revivem todos os pretos
Em nossa festa cristã.
O terreiro dos escravos
Da velha Montevidéu.
Lá, pela primeira vez,
Repicou meu atabaque.
Com meu candombe te evoco
Com meu candombe te canto
Pois hoje os negros são livres
Nesta terra Oriental.

§

SEMBLANZA

¿De dónde provienes tú
pasionable y exaltada?

Tu sangre vió los ardores
de la Nigeria especiante.

Convada
y de ébano arrogante
el mapa de tu mirada.

Tus axilas aromadas
vegetación de la seiba.

Paso de culebra
tus caderas,
muchacha negra.

SEMELHANÇA

De onde tu vens
apaixonada e exaltada?

Teu sangue viu os fervores
da Nigéria apimentada.

Curvado
e de ébano altivo
o mapa do teu olhar.

Tuas axilas perfumadas
a vegetação da seiva.

Passo de serpente
teus quadris,
garota negra.

§

PREGÓN NÚMERO UNO

Toma mi verso
Marimorena
yo sé que lo has de beber
como una copa de alcohol,
a cambio de él
quiero tu angustia
Marimorena.

Quiero tu angustia,
quiero tu pena,
toda tu pena
y el tajo de tu boca
cuando ríes
como una loca
Marimorena,
toda ebria
más que de vino,
de miseria.

Tu voz,
que nunca arrulló
a tus hijos
ni a tus nietos
y es voz de paria
arrulla mimosamente
toda la prensa diaria.

Y no hay quien te haga callar
por dos vintenes un diario
no hay quien deje de comprar
para aliviar tu sudario.
Déjame ver tu cara
Marimorena,
que la atención acapara
causando lástima y pena.

Cuánto te deben
Marimorena,
esos que escriben
y que tú pagas
con tus vintenes,
con tus pregones,
por la mañana
y por la tarde
miles de veces;
en cambio tú
pagas con creces;
su periodismo,
su propaganda politiquera
todais sus lacras, su egoísmo,
sus fementidas torpes carreras.

Marimorena
todos los días vende los diarios;
tiene una pena
Marimorena
y es su sudario.

GRITO NÚMERO UM

Aceite meu verso
Marimorena
eu sei que tens de bebê-lo
como um copo de álcool,
em troca disso
quero a tua angústia
Marimorena.

Quero tua angústia
quero tua dor,
toda a tua dor
e o corte da tua boca
quando você ri
como uma louca
Marimorena,
toda bêbada
mais do que de vinho:
de miséria.

Tua voz,
que nunca embalou
seus filhos
nem seus netos
é a voz marginal
que aconchega
toda notícia da cidade.

E não há quem te faça calar
um jornal por dois trocados
não há quem pare de comprar
para aliviar teu cansaço
Deixe-me ver teu rosto
Marimorena,
que se chama a atenção
causando tristeza e piedade.

Quanto eles te devem
Marimorena,
aqueles que escrevem
e que você está pagando
com seus trocados,
com seus gritos
pela manhã
pela tarde
milhares de vezes;
você paga muito bem
e com lucro:
seu jornalismo,
sua propaganda política,
todas suas cicatrizes,
seu egoísmo,
suas ilusórias correrias desastradas.

Marimorena
todos os dias vende os jornais;
há uma sentença nisso
Marimorena
e é a sua morte.

§

CRISTO NEGRO

Metralla contra metralla
“que amor con amor se paga”.
¿Un camello? Ojo por ojo;
¿a qué parábolas del cielo?

Cristo negro manoseado
por la audacia y por la fuerza,
dejarás tu mansedumbre
de cordero y tu vergüenza.

Y fuerza contra la fuerza
ruede el látigo por tierra,
quita la hiel y tu miedo;
caiga piedra sobre piedra.

Sangre y llaga mucho enseñan.
Mejor amo es la Justicia
que las lágrimas del valle
del esclavo venerable.

Como al lirio le trajeron
a la tierra, a ti te dieron:
en el pecho, en las mejillas,
del señoreo mancillas.

MetraLla contra metralla
“que amor con amor se paga”

CRISTO NEGRO

Metralha contra metralha
“amor com amor se paga”
Um camelo? Olho por olho;
a quais parábolas do céu?

Cristo negro manipulado
pela audácia e pelo furor,
deixarás tua mansidão
de cordeiro e teu pudor.

E força contra a força
caia o chicote por terra,
tire o fel e teu medo;
caia pedra sobre pedra.

Sangue e chaga muito ensinam.
Melhor amo é a Justiça
que as lágrimas do vale
do escravo venerável.

Tal como o lírio trouxeram
à terra, a ti deram:
no peito, na feição,
máculas da usurpação.

Metralha contra metralha
“amor com amor se paga”

* * *

 

Anelise Freitas é poeta, tradutora, revisora, professora e editora do selo Capiranhas do Parahybuna. Mestra e doutoranda em Estudos Literários pela UFJF, graduou-se em Letras (com habilitação nas Línguas Portuguesa e Espanhola e suas respectivas literaturas) e em Comunicação Social. Entre 2014 e 2018, fez parte do corpo editorial das Edições Macondo. Como poeta, publicou cinco livros, sendo os mais recentes Sozé (Edições Macondo, 2018) e Mamafesto – Parte I (Capiranhas do Parahybuna, 2018). Seus poemas integram revistas e antologias do Brasil, Portugal, Inglaterra e Argentina; e exposições em Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo e Bahia.

Ma Njanu é poeta, ensaísta, ìyàwó e educadora popular. Nasceu em Fortaleza-CE. Publicou a obra na boca do dragão da américa latina (2020), de forma independente e também Cantos Breves (2015); participa de antologias, zines e outras publicações. É militante da Rede de Mulheres Negras do Ceará – RMNC, idealizadora do Clube de Leitoras na periferia de Fortaleza e da Pretarau – Sarau das Pretas, coletiva de artistas negras, a qual integra e também é produtora cultural. Seu perfil no Instagram onde publica poemas é @euliricamarginal.

Marcela Batista é poeta, tradutora, revisora e editora do selo Capiranhas do Parahybuna. Mestre em Estudos Literários e graduada em Português e Espanhol, se interessa pela poesia de mulheres latino-americanas. Como poeta, publicou sua primeira plaquete, Caderninho Vermelho (Capiranhas do Parahybuna, 2018); participou da Antologia Corderos en la espuma (Vox/Lux, 2018) e de diversos eventos literários na Argentina, Brasil e Colômbia.

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poesia

Renato Mazzini (1981—)

Renato Mazzini (1981) nasceu, vive e escreve em Santa Fé do Sul, interior de SP. Publicou os livros de poemas Paisagem com dentes (Oficina Raquel, RJ. 2009), Aqui começa a Antártida (Patuá, SP. 2015) e História inconclusa de la velocidad (Zindo y Gafuri, Buenos Aires. 2016). Os poemas aqui publicados fazem parte do livro inédito O último verão de nossos inimigos.

* * *

Los Andes

O cavalheiro acende
um cigarro, traga, oferece
a seu interlocutor
e pede que lhe arranque
a faca que cravaram nele,
entre o peito e
o pescoço, (para neutralizar
o coração e o cérebro,
ele pensa) e com profundidade
bastante para dificultar
a tarefa. O dia está
escondido entre rochas
altas e fumaça de hálito.
Somos cinco no pequeno
restaurante andino, que
nada deve a uma taberna
eslava escura qualquer, por
exemplo, exceto pela falta
do clima de morte.
Do lado de fora, minha nova
amiga lhama e eu paramos e
contemplamos:
dizem que há
um novo animal rondando
as montanhas; chama-se
sol, mas não acreditamos nele

§

Nóstromo

Quebrada a combinação,
o que restou no cofre
entre mímicas involuntárias
de falas e rostos
e filmagens mentais em 35mm,
foi a lembrança detalhada
de todo o percurso de dor
e lesões oculares.
De uma madrugada de
tempestade em que, abre aspas,
os relâmpagos tentavam comunicar
alguma coisa, fecha aspas, até
acordar abraçado
a um travesseiro em pedaços,
os sistemas aparentemente
incoerentes entre si, insistindo
em distribuir a seguinte
informação, abre aspas, talvez
você desconheça a identidade
do verdadeiro inimigo,
fecha aspas, ou, na primeira
versão que interpretamos,
as vidraças e eu, abre aspas,
o som não se propaga no vácuo,
mas realmente deveria, fecha aspas.
Isso soma mais algumas dúvidas
à mente cansada que
acorda, num escuro quase perfeito,
machucado apenas
por algumas flechas de luz
vazando os tacos da janela de
madeira, e não havendo
energia elétrica nem para o
ferro de passar, concluir que
talvez fosse melhor,
abra aspas, reorganizar todos
os pensamentos, fecha aspas,
antes de inalar a primeira carga
do dia de ar aos pulmões e ficar,
enquanto acende uma boca
de fogão com o último fósforo
não-molhado, pensando sobre
a microexasperação
de cada coisa.

§

Retrofuturismo

1. Você e a propensão
a observar mais detidamente
esta época quebrada do ano.

2. O cais dentro de suas
preocupações, as embarcações
estranhas, os navios com proas
ósseas, os monstros marinhos.

3. Dizer essa gravidade sombria
pesa todos os dias sobre mim.


4. Uma existência inteira
configurada a partir de
um golpe de caratê mal
coreografado num filme
da década de 80.

5. A perfeita equivalência
entre o que se deve perder
e o que se mantém, ilhas
enfileiradas e equidistantes,
e você ignora todos
os mecanismos disso:

7. Não importa:

6. Estamos felizes e amanhã
outro dia nascerá como
uma grande bola de demolição.

§

Velhos

Um ponto que a escuridão não alcance,
(que a escuridão não alcance)

Um ponto que a escuridão não alcance
(repetindo várias vezes, talvez aconteça)
O conhecimento áspero do calabouço
calcifica no entorno do seu coração
(grave, retilíneo) talvez isso quebre,

talvez isso se parta, talvez uma rachadura
viabilize a respiração, talvez isso quebre,

(talvez se parta), quem sabe uma rachadura
(repetindo várias vezes, talvez aconteça)

estamos falando de cicatrização interna
estamos falando de um café bebido às pressas
numa rodovia e de um cortejo de gárgulas

que talvez sejam cegos sob a luz do dia
(talvez sejam cegos sob a luz do dia, talvez)

§

Volta

Se o mundo se mantém
vitralizado sob seu jugo,

paciência. Deve haver
filtros mais tristes.

A sabedoria de um chinês
que nos vendeu cartelas

de ovos e ressignificou
a nossa vida permanece

o ponto alto das férias de
1993, entre tantas outras

cartas marcadas de nosso
jogo de atuações: aliviar

essa opressão no peito,
essa congestão de mentiras

não parece uma alternativa
viável; devemos nos manter

silenciosos e concentrados
olhando um banco de parque

em que bicicletas rondam
sem chegar a existir

§

Taxonomia do dever cumprido
(para meu filho, no futuro)

(44 & 4)
Aquilo se chama cosmo
É piche & são pregos
É feito de vazio e solidão
E, portanto, é nosso.
*
(54 & 14)
Isso se chama vento,
e emana da garganta
de um deus enquanto
tomamos café

§

La tristezza durerà

Piglia disse alguma coisa como
“viver num quarto de hotel é o
melhor modo de não cair na
ilusão de ter uma vida”. Isso
me faz querer dar algumas voltas
pelo bairro e respirar o mais fundo
que consigo. Retorno trazendo
algumas sacolas de hortaliças
e assobiando uma canção morta
há muito tempo. Subir as escadas
ressalta a beleza dura de estar
nesse mundo. A comunhão
entre chave e fechadura, o ranger
das dobradiças, pequenos manuais
de opacidade diária. Deposito
as compras na mesa e pergunto
ao gato, sempre reticente em
sua tigela de ração: quem é o cara
vestido de diabo sentado lá em
baixo?

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poesia, Poesia Brasileira Contemporânea

Leonardo Marona

marona

Leonardo Marona (Porto Alegre-RS) nasceu no dia 4 de fevereiro de 1982, em Porto Alegre. Publicou os livros: Pequenas biografias não-autorizadas (poesia, 7Letras, 2009); l’amore no (poesia, 7Letras, 2011); Conversa com leões (contos, Oito e meio, 2012); Óleo das horas dormidas (poesia, Oficina Raquel, 2014); Cossacos Gentis (romance, Oito e meio, 2015); Herói de Atari (poesia, Garupa Edições 2017); Dr. Krauss (novela, Oito e meio, 2017); Uma baronesa às quatro da madrugada (poesia, Ed. Urutau, 2018).

seguem poemas inéditos, logo abaixo.

* * *

pequena hora

apenas na pequena hora quando o futuro
diz “não tenho como saber” e me encontro
completamente sozinho e sinto vindo do cu
até o berço da espinha ou nuca que coloquei
muitas vezes desprotegida diante de animais ruins
e que pensam e sentem e estão também a sós como eu
que não sou ruim mas funciono de forma a desapontar-me
toda vez menos na pequena hora um instante fugidio
em que preciso fechar os olhos mesmo que esteja vendo
algo bonito e pensar sim eu também posso fazer algo
que salve a vida porque eu sigo em farrapos mas
construo minha grande arte coisa absurda.

mas somos muitos que ainda
perdemos tempo e estamos por aqui
flutuando vez por outra um morre
e de certa forma sabemos abrir
nossas gavetas e criar pergaminhos
confusos para voltar a patinar
alguns com idílio outros com presas na garganta
mas sabemos a ordem do caos
colocamos nossas pedrinhas na uretra de deus.

e vazamos eretos sempre no plural
porque tenho medo do momento singular
pequeno instante em que a pequena força
que me sustenta nos abandonar finalmente
então vestiremos as luvas no centro
de uma paixão abdominal de que sou raro
hospedário mas atrás de mim há larvas
para crescerem junto à crença pré-histórica
da pequena hora como um sacrifício de fogo
em prol da humanização do que surgirá ainda
como um milagre e agora foge enquanto grita
“eu persigo” – na direção de uma floresta densa.

§

mãos e cordas – outra década

sei que nossa corda é firme,
mas é preciso mãos para puxá-la.
vejam só como se parece
uma corda firme largada
no chão do fim de uma década,
no chão do fim de uma feira,
da feira que dura uma década.

olhem bem para o chão
pela última vez no que se fecha
e abre um novo ciclo provisório.
a mesma corda sempre firme
mais parece um clown
embrulhado de maldade
sem o carinho cheio de suor
das mãos que choram medo
e transpiram frustração translúcida.

alguém que caiu no meio da festa
e não houve tempo de perceberem,
essa corda é firme, mas sem mãos
ela fica assim como o cigarro
que a chuva molhou enquanto
alguém ainda pensava no amor.

pode ser também a mesma corda
da qual desistiu o palhaço suicida
e que ficou ali, no fim da feira,
largada enquanto ele seguiu
com a cara triste da qual se ri
o mais digno fiel da procissão.

seguir talvez seja puxar a corda,
com cuidado para que não estique
a ponto de estarmos curados,
de não mais precisarmos da corda.
e nunca mais veríamos as mãos
e nunca mais diríamos preciso
da sua mão para puxar a corda.

uma corda precisa de pelo menos
duas mãos para não ser um chicote.
a uma corda é preciso uma disputa
e somente um tipo de disputa existe:
a que vale para erguer o derrotado
e será a calma de deuses coléricos
quando olharem finalmente para nós.
por enquanto somos mãos e cordas
e a terrível vontade de simbolizar
o amor que não sabemos entender.

§

a cachorrinha cagou tudo: uma novela paulistana

percebo que estão todos insanos,
amo profundamente minha vida
por alguns instantes passageiros.

eu também, ao amar, não estou
longe da insanidade, ao contrário.
abro-me a ela então ela opta por
alguém ao meu lado, alguém mais
maduro, alguém que se defenderá
melhor que eu neste mundo cruel.

a insanidade, comumente, escolhe
mais bem preparados hospedeiros
do que eu poderia ser, com minha
para todo sempre confusa ideia do
que exatamente estamos fazendo.

e quem sabe agora que os sensatos
dizem não há mais futuro com que
nos preocuparmos e iremos todos,
loucos e sóbrios, para a funda vala,
é justo que agora, justamente agora,
os guias plácidos da última década,
que miravam uma fantasia gratuita
para que houvesse um amor calmo
entre seres humanos de fato únicos,
eu os veja completamente pelados
agarrados ao velho mastro de guerra,
uma velha guerra para sempre perdida,
cegos na proa de um navio amotinado.

seria justo pensar nisso enquanto subo
a avenida angélica – que nome bonito
para uma grande rua num lugar onde
não se pode entender mais nada então
vamos todos para este lugar à procura
do que não se pode entender em nós.

subo, portanto, a angélica, que eu uso
como a espinha dorsal do meu amor
por esta cidade que me acolhe como
a baba de um camelo sedento ao sol,
de um deserto imaginário que convida
a todos os adeptos dos livros velhos,
para gozar elegantemente a dissolução
– o que ainda assim é o amor e a sede.

subo atrás de novos amigos e amigas,
quem diria você, com idade de perder
os dentes e entender as coisas da vida,
fazendo amigos num lugar incomum
e não entendendo nada, deixando-se
espancar docemente no ringue da vida,
um cassius clay bailarino das opções
brincalhonas, finalmente não levando
quase nada muito a sério a não ser este
que sempre será o caminho que friza:
é preciso levar a corda solta – e confiar
no burro silencioso dos passos escuros.

é uma noite medonha que mais uma vez
se anuncia e em nossas entranhas vibra
talvez a nossa única chance de perdurar.
por enquanto rasgamos juntos as roupas,
no grande vazio onde assaltamos os trens
em chamas rumo a lugar nenhum, ainda.
bancos parecem lanchonetes, os parques
são usados para telefonemas de trabalho
enquanto eu tiro e cheiro minhas meias,
piso os pés no chão e me sinto preparado
como um brancaleone capaz de se fazer
de morto, mas também de esperançoso.

lanchonetes parecem bancos, aguardam
noutra esquina talvez os ganchos que por
ora soltam tua carne por outra mais fresca.
mas nos meus sonhos só vejo as mãos que,
assustadas, agarram o não sei que de vivo
que trazemos ainda em nossas veias ruins.

outra vez lamenta futuro a nova década,
não consigo pensar em nada além de que
escapamos o tempo todo e estamos juntos,
agarrados, não há outra palavra, à suspeita
sintonia fina dos nossos destinos a perigo.

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Adriano Nascimento

Adriano Nascimento nasceu em Januária/MG. É professor universitário. Publicou o livro de poemas Contraluz (2018). Mora em Belo Horizonte/MG. Os quatro poemas abaixo são inéditos.

* * *

TULE
A santa equilibra
três punhais
no peito de tule.
Sobre sua cabeça,
8 estrelas de prata.
Aqui se levanta cedo
e se morre tarde.
Não há o que ver.
Das montanhas
não há segredo.
Em silêncio, as pedras ardem.

§

Meu tio morto
me sorri na foto.
Não pergunto.
Nem ele.
Seguimos os dois
em cerimoniosa
contrição.

§

MÃOS
Frio de pedra, dos dedos:
nuvem nas bordas,
a carne dos olhos – carvão.
Nos seixos – outro;
a curva da luz.
Da neblina escorre o espinho,
sol fatiado.
Manhã posta,
seguimos a chuva
até depois do mar.

§

O verão curvou a tarde de espantos.
E aqui, onde as mangas estragam,
o mormaço sobe a garganta, a alma goteja.
Dá pra ver o longe das montanhas
entre os pingos e a luz.
Apertando bem os ossos, quase se esbarra
naquilo que, mesmo sem ter nascido,
envelheceu.
Uma litania para o azedo ácido,
a linha gelatinosa acesa.

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Peter Rühmkorf (1929 – 2008), por Natan Schäfer

picture alliance / United Archiv

Peter Rühmkorf (1929 – 2008), nasceu em Dortmund (Alemanha). A partir dos anos 1940, Rühmkorf inicia uma obra que será marcada pelo longo e duro trabalho de luto do pós-guerra, mas também pelo suíngue do jazz. De 1976 a 2006 é responsável, ao lados músicos Michael Naura e Wolfgang Schlüter, por uma série de eventos batizada “Jazz & Lyrik” (reunidos num CD homônimo lançado em 2009 pela Hoffmann und Campe Verlag, de Hamburgo), similar aos recitais da Beat Generation americana. É considerado até hoje como um dos grandes poetas alemães do pós-guerra. Teve sua obra completa publicada pela Rohwolt Verlag em 2016 (org. Bernd Rauschenbach).

Trago este “Só não dá”, que em tempos de distanciamentos e descalabros aponta para os caminhos que vêm pela frente; o texto é tirado de Das Erscheinen eines jeden in der Menge. Lyrik aus der BRD/ Lyrik aus Westberlin seit 1970. Verlag Philipp Reclam, Leipzig: 1983.

Para quem quiser ouvir uma sessão do “Jazz & Lyrik”, aqui um link https://www.youtube.com/watch?v=6wSgratMvPk .

Muito obrigado ao Guilherme Gontijo Flores e ao pessoal do escamandro por mais essa oportunidade.

Força!

Natan Schäfer (1991—) nasceu em Ibirama, Santa Catarina. É mestre em Estudos Literários pela UFPR e por Lyon 2 e capitaneia a Contravento Editorial. Atualmente vive em Berlim.

* * *

Só não dá

Era uma vez e não tem mais nada à vista
(sequer um osso à vista)
Exército do General Varo na floresta de Teutoburgo —
Assim é capaz que logo a gente
se vá.
— s e v á —
Assim é capaz que logo a gente se vá.

Não diz não, meu querido, assim não dá.
Não diz nunca, assim não dá não.
Então diz logo: adieu, Kochan —
no verão a chuva começa
a nevar.
— a n e v a r —
No verão a chuva começa a nevar.

E vocês que já cantaram vitória;
a meio-pau cantaram vitória,
você que subiram a primeira serra,
se cuidem!, a grande crise vem
é agora.
— é a g o r a —
Se cuidem, a grande crise vem é agora.

E ela não vai passar assim fácil.
Não, o mundo não é assim fácil, não.

Que é de cima que ela vai ser revolvida
é o que você não, quando pára quieto,
— não segura —
é o que você, quando pára quieto, não segura.

O capitalismo faz do mundo purê.
E esse purê se deixa bater.
Com vontade, impecável —
Mas você destoa
e berra.
— e b e r r a —
Mas você destoa e berra.

Porém só berrar não te faz sagaz.
Berrar só não faz o mundo sagaz.
Não seja como todo mundo
Embora às vezes tenhas que ser muitos:
s ó
s ó
s ó não dá.

Es war einmal und ist nicht mehr zu sehn
(da ist nicht mal ein Knochen mehr zu sehn)
Herrn Varus Heer im Teutowald —
So kann es sein, daß wir sehr bald
vergehn.
— v e r g e h n —
So kann es sein, daß wir sehr bald vergehn.

Sag du mein Lieber nicht, das kann nicht sein.
Sag lieber nie, das kann ja gar nicht sein.
Sonst sagst du bald: adieu, Kochan —
im Sommer fängt der Regen an
zu schnein.
— z u s c h n e i n —
Im Sommer fängt der Regen an zu schnein.

Ihr aber, die ihr schon von Siegen schwätzt;
auf halber Höhe schon vom Siegen schwätzt,
da ihr den ersten Berg erklommt,
paßt auf! die große Krise kommt
erst jetzt.
— e r s t j e t z t —
Paßt auf, die große Krise kommt erst jetzt —

Und die nimmt nicht so einfach ihren Lauf.
Nein-nein, die Welt nimmt nicht so ihren Lauf.

Die wird von oben umgewälzt
das hältst du, wenn du Ruhe hältst,
— n i c h t a u f —
Das hältst du, wenn du Ruhe hältst, nicht auf.

Der Kapitalismus macht die Welt zu Brei.
Und läßt sich auch noch rühren dieser Brei.
Mit Lust und unverbesserlich —
Du aber unterscheide dich
und schrei.
— u n d s c h r e i —
Du aber unterscheide dich und schrei.

Doch Schrein alleine macht dich noch nicht klug.
Alleine schreien macht die Welt nicht klug.
Du sollst nicht so wie alle sein
Doch manchmal mußt du viele sein:
a l l e i n
a l l e i n
a l l e i n i s t n i c h t g e n u g.

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