poesia

Matheus José (1988 -)

90903782_300354547603042_4616965009975541760_n

Matheus José, Minas Geraes, autor do livros: A Cachoeira do Poema na Fazenda
do seu Astral (Selo Tomate Seco, 2013), Poemas na Galáxia Pupila (Editora Urutau, 2016), e Utensílios de Resiliência e Flutuabilidade (Editora Poesia Primata, 2017). Graduando
Letras na Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri. É integrante da
Oficina de Experimentação do Poema e performa O Recital do Poema em Tempos de
Barbárie.

*

diante das situações nada dóceis
entra dentro do poema como se entrasse
numa gruta cheia de quartzos
entra dentro do poema como se entrasse
numa tontura, num espanto;
entra, com teimosia, dentro do poema
como se entrasse dentro de uma magia
como se entrasse na mandíbula de um hipopótamo
enquanto o século rosna, inferniza, morde,
esbraveja, atormenta
experimenta com veemência sua capacidade de sentir,
de sentir das sensações mais inquietantes até as mais sublimes,
sentir esta extraordinária fogueira dentro do corpo
dentro da língua
dentro do hábito
de uma linguagem que vai além de exprimir ou se comunicar,
necessita-se de algo mais ritualístico,
como a guerra, como a violência, como o abraço,
uma experiência desesperadora ou não,
como o contemporâneo,
com signos em constante rotação na órbita do cotidiano,
na órbita do indivíduo
girando em torno
não apenas o Sol ao redor
mas mundo todo, ou seja,
o que surpreende e barbariza, tudo, ao redor da sua cabeça,
referindo-se a um indivíduo tal qual um intertexto estressado
e em potencial,
que percebe, que interpreta
os rizomas das tuberosas, as gotículas da chuva;
hipopótamo alucinado deitado na folha de erva doce.

§

 

aproximar-se de um poema que te arremesse dentro de um ecossistema,
que te arremesse dentro de algum bioma mais sutil
ou mais incômodo.
um poema que te pegue pelo braço, te chacoalhe
e te leve para dentro e para fora,
quando tudo estoura ou quando tudo flutua.
aproximar-se de um poema
é aproximar-se
de um fantástico reservatório de energia;
que possui a força da chuva de raios, relâmpagos,
do bruto e violento enunciado.
é sobre a capacidade de sentir,
mesmo dentro do núcleo do alvoroço,
envolvido na conturbação, no meio do absurdo,
como um pomar no meio do espanto,
como um canteiro de ervas medicinais no meio do caos
e espantado com tudo e com todos,
se aproximando de um poema;
essa vegetação rupestre que reveste a Serra do Espinhaço,
essa oportunidade de ter novamente a incrível
e delinquente
sensação
de possuir uma alma no meio desse catastrófico e mágico planeta.

§

 

diante daquilo
que fascina e apavora num mesmo átimo de segundo.
as delícias do intempestivo, do imprevisível, do esquisito,
com toda sua fúria e toda sua magnitude,
a violência na paisagem,
a sutileza na linguagem,
a fantástica borboleta que bate as enormes asas no seu rosto
deixando-o repleto de pólen
e de uma substância extraordinária
que move
como placa tectônica
move o planeta.
O poema
território
de expor aquilo que é reprimido,
lugar de respirar mais ofegante, da caligrafia mais trêmula,
tendo que interpretar o escuro no meio de tanta luminosidade.
entendendo o absurdo
numa língua que convive com a barbárie.
estranhando tudo, mas achando estupendo perceber
aquilo que pulsa e aquilo que extravasa constantemente.
sentado em uma pétala,
entre o fascínio e o espanto,
com o rosto grudado em algum verbo
num silêncio que manifesta uma outra espécie de linguagem,
um hipopótamo em levitação
quando tudo ao derredor oscila.

*

Padrão

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s