poesia, tradução

Magloire-Saint-Aude, por Natan Schäfer

 

Clément Magloire-Saint-Aude (1912 – 1971) foi um poeta surrealista haitiano. Sua obra se encontra reunida no livro Dialogue de mes lampes et autres textes (org. François Leperlier), publicado pela editora Jean Michel Place em 1998. Para apresentá-lo aos leitores deste escamandro, passo a palavra a André Breton:

“Em doze a quinze versos, não mais, compreendo seu desejo: a pedra filosofal ou quase, a nota inaudita que doma o tumulto, o dente único onde a roda da angústia engrena no êxtase. Desde a Esfinge, buscamos alguém que tenha sido capaz, dentro de tais limites, de parar o que passa. Na poesia francesa às vezes Scève, Nerval, Mallarmé, Apollinaire… Mas você bem sabe que tudo é desleixado hoje em dia. Há somente uma exceção: Magloire-Saint-Aude.
Quando me pergunto, para a impressão de qual obra contemporânea não haveriam caracteres suficientemente belos? — sendo a linguagem e a atitude poética para mim constantemente levadas ao seu ponto supremo, infalivelmente volto a duas finíssimas plaquetes: Diálogo das minhas velas e Tabu, publicadas no Haiti (1941) por Magloire-Saint-Aude. O fato destes quase duzentos versos não terem seduzido nenhum editor francês é testemunha de uma falha no senso de qualidade.
Aqui, enfim, mais confidências ineficazes. O soberbo desdém do poeta, no berço de quem a fada caribenha se encontrou com a “fada africana” surpreendida por Rimbaud, e do qual jamais esquecerei as cadências de uma noite — bateleiros da ilha prodigiosa —, felizmente o abriga de nossos rumores, impassível e fora de alcance ao lado de uma garrafa de rum”. (Breton, André. “Magloire-Saint-Aude”, in: La clé des champs. Jean-Jacques Pauvert: Paris, 1967).

Agradeço ao pessoal do escamandro pela publicação e ao grande amigo e mestre Sergio Lima pela leitura pioneira destas traduções e pelos sopros que avivam a chama ascendente.

Bom maravilhamento!

Natan Schäfer

* * *

DIÁLOGO DE MINHAS VELAS/DIALOGUE DE MES LAMPES (1941)

Vazio

Da comoção com as frases,
Meu lenço às minhas velas.

Agachado nos olhos apagados,
A pena o poema exceto as causas.

Limitado aos avessos sem descanso,
Édith branca minha face eu mesmo

Saciando meus olhos
Do comboio dos meus olhos ressuscitados…

Vide

De mon émoi aux phrases,
Mon mouchoir pour mes lampes.

Recroquevillé dans mes yeux effacés,
La peine le poème hormis les causes.

Limité aux revers sans repos,
Édith blanche ma face moi-même.

Rassasiant mes yeux
Du convoi de mes yeux ressuscités…

§

Lágrima

Sem deus frágil lívido o coração
Tranquilo sopro vigilante em cinco línguas.

Purificado, baixo, sobre a minha chave.

Ao adormecido de face sem rosto,
Congelado o nada pelas janelas
E sozinho no meu pescoço.

Cinzas de pele cega em eternidade.

Larme

Sans dieu livide fragile le coeur,
Tranquille souple veilleur en cinq langues.

Purifié, bas, sur ma clé.

Au dormeur de face sans visage,
Glacé néant par les fenêtres
Et seul sur ma gorge.

Cendres de peau aveugle en éternité.

§

Silêncio

O tufo calcário nos dentes nas sortes nos choques rútilos
Em nove vilarejos.

Madalenas em rendas de gonda.

Nada, o poeta, lento dolente
Para morrer em Guadalajara.

Silence

Le tuf aux dents aux chances aux chocs auburn
Sur neuf villes.

Magdeleines en dentelles de gaude.

Rien le poète, lent dolent
Pour mourir à Guadalajara.

§

Frases

Sete vezes minha garganta,
Dezessete vezes a gargantilha.

O vento corcovado do fel.

Informe, frio,
Os olhos sem águas, como a fatalidade.

Phrases

Sept fois mon col,
Dix-sept fois le collier.

Le vent bossu du fiel.

Informe, froid,
Les yeux sans eau, comme la fatalité.

§

TABU/TABOU (1941)

VI

Solene como o corcunda de pedra
No oásis das interinas pazes,
Olhos abertos
Olhos na terra,
Não lhes pertenço
O ensaio, o zelo, o rito.

VI

Solennel tel le bossu de pierre,
À l’oasis des calmes intérimaires,
Les yeux ouverts,
Les yeux à terre,
Je ne suis de vous
L’essai, le zèle, le rite.

§

X

Na minha taipa de picumã
A areia dos anos.
Vasto que do tema e da imagem
Não é partilhado se nas cidades
Quer-me o cabresto,
Me sinto, e sou, em dois estados,
Dado ao destino, à água dos meus suores.

X

À mon mur de suie,
Le sable des années.
Vaste qui du propos et de l’image
N’est partagé si aux cités
Me veut le licou,
Je me sais, me suis, à deux stades,
Au destin, à l’eau de mes sueurs.

§

TALISMÃS/TALISMANS (1968)

Talismãs
a Vincent Bounoure
e a Jorge Camacho


A onda das horas
No frontispício do fogo.
Ecos de faíscas
voltadas ao espelho do tempo.
Chocalhos guizos velos
Entoando trégua o canto do mensageiro.

Talismans
à Vincent Bounoure
et à Jorge Camacho

La houle des heures
Au frontispice du feu.
Échos des étincelles
Vers le miroir du temps.
Les grelots les hochets les toisons
Sonnent la halte le chant du messager.

 

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