poesia, tradução

Friedrich Hölderlin, por Gabriel Rübinger-Betti

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Friedrich Hölderlin (1770-1843) é considerado um dos nomes mais importantes da primeira fase do Romantismo Alemão. Nasceu em Lauffen am Neckar, em 20 de março de 1770. Em sua juventude, Friedrich Hölderlin era considerado um dos aspirantes mais promissores da filosofia e da literatura alemã, sendo amigo íntimo de Hegel e de Schelling e tendo convivido com Goethe, Novalis e Schiller. Seus primeiros escritos consistem em hinos e odes de tom grandiloquente, inspirados por uma singular visão de mundo da cultura grega, a qual seria muito apreciada por Nietzsche mais tarde. Entretanto, após sucessivas conturbações em sua vida pessoal, em especial o fracasso de sua relação amorosa com Susette Gontard, a sua condição mental se deteriora, sendo diagnosticado com esquizofrenia aos 30 anos de idade. Nessa época, Hölderlin dedica-se à escrita de hinos fortemente influenciados por Píndaro, dentre os quais se insere o presente, alguns em estado fragmentário. Seu quadro clínico piora, e, aos 36 anos de idade, os médicos diagnosticam sua condição como incurável. Foi então que Ernest Zimmer, um carpinteiro que admirava Hölderlin por conta de seu romance Hyperion, leva-o para viver consigo em sua casa, numa velha torre reformada às margens do rio Nécar. Hölderlin ainda viveria mais 37 anos na companhia de Zimmer, com uma produção poética relativamente prolífica. Nesses poemas tardios são explorados temas mais singelos, como o passar do tempo e a mudança das estações. Hölderlin passa a assinar seus poemas com o nome Scardanelli e lhes subscreve datas fantasiosas, não apenas no passado, mas também no futuro. Hölderlin faleceu em Tübingen, em 7 de junho de 1843, aos 73 anos de idade.

Em tempos de quarentena, a leitura de Hölderlin tem um sabor novo. Em Patmos, o poeta canta: “Perto está Deus / e difícil de ser tocado. / Mas onde há perigo / cresce também o que salva”. Associarmo-nos ao poeta, isolado em sua torre, às margens do rio Nécar, franqueando os seus últimos versos ao passar das estações, é quase inevitável.

Gabriel Rübinger-Betti é poeta e tradutor, nascido em Juiz de Fora – MG. Atualmente se dedica à tradução de poesia alemã. Na escamandro, publicou traduções de Maria Luise Weissmann.

* * *

Como em um dia de festa

Como em um dia de festa, a ver o campo
parte o lavrador, pela manhã, quando
de tórrida noite já caíram os refrescantes raios
incessantes e ainda ao longe ressoa o trovão,
e em sua margem retorna a torrente,
e o solo, refrescado, verdeja,
e do céu a ditosa chuva
à videira goteja, e a resplandecer
sob um sol silente se erguem as árvores do bosque:

assim se erguem em um tempo oportuno
aqueles que não por um só mestre foram educados,
mas pela maravilhosa e onipresente, em leves abraços,
a poderosa e divinamente bela Natureza.
Por isso, quando ela parece adormecer entre as estações
no céu ou entre as plantas ou entre os povos
também se entristece o semblante dos poetas;
eles parecem estar sós, mas sempre estão a pressentir,
pois ela mesmo, a pressentir, também descansa.

Mas agora amanhece! Esperava e vi chegar,
e, para o que vi, que o sagrado seja minha palavra.
Pois ela, ela mesmo, a que é mais velha que as eras
e maior que os deuses do Ocidente e do Oriente,
a Natureza, agora se desperta com o bramir das armas,
e, das alturas do Éter até os profundos abismos,
conforme a lei perene, como outrora, do celeste Caos engendrada,
sente-se mais uma vez o Entusiasmo,
que a tudo cria, de modo novo.

E assim como nos olhos do homem rebrilha um fogo,
quando este concebe algo grandioso; assim, agora,
pelos sinais e pelos feitos do mundo,
de novo um fogo incendeia nas almas dos poetas.
E o que outrora aconteceu, ainda que pouco sentido,
apenas agora é revelado,
e as que, a sorrir, nossos campos cultivaram
em forma de servo, agora reconhecemos,
as vivificantes forças dos deuses.

Perguntas por elas? Na canção sopra seu espírito
quando ela brota do sol diurno e da cálida terra,
das borrascas do ar e outras,
preparadas nas profundezas do tempo
mais significantes e perceptíveis para nós,
a vagar entre o céu e a terra e entre os povos.
São pensamentos do espírito comum,
quietamente a findar na alma do poeta,

que, há muito acostumada com o infinito,
é de súbito atingida, e se estremece com a memória,
e ela, inflamada pelo sagrado raio, dá à luz
o fruto nascido no amor, obra dos deuses e homens,
a canção, testemunho de ambos.
Assim caiu, segundo os poetas, o raio sobre
a casa de Sêmele, quando ela desejou ver o deus com seus olhos,
e então ela, ferida pelo divino, deu à luz
o fruto da tormenta, o sagrado Baco.

Pois isso agora bebem o fogo divino
os filhos da terra, sem perigo.
Mas a cabe nós, poetas, manter
a cabeça nua sob as tormentas divinas,
e o raio vindo do Pai, ele mesmo, com a própria mão
aparar, e entregar ao povo, oculta
na canção, a dádiva divina.
Pois se tivermos os corações puros,
como as crianças, e se as nossas mãos forem inocentes,

o raio puro do Pai não o queimará,
e, profundamente abalado, partilhando os penares
do mais forte, o coração permanecerá firme
nas cadentes tempestades quando o deus se aproxima.
Mas ai de mim! Quando de [ ]

Ai de mim! [
]

E se eu disser, [
]
que eu vim para contemplar os deuses,
e eles mesmos me lançarão abaixo para os vivos,
eu, o falso sacerdote, lançado às trevas, para que eu possa
cantar uma canção de aviso aos capazes de ouvir.
Lá [ ]

§

Wie wenn am Feiertage …
(1800)

Wie wenn am Feiertage, das Feld zu sehn,
Ein Landmann geht, des Morgens, wenn
Aus heißer Nacht die kühlenden Blitze fielen
Die ganze Zeit und fern noch tönet der Donner,
In sein Gestade wieder tritt der Strom,
Und frisch der Boden grünt
Und von des Himmels erfreuendem Regen
Der Weinstock trauft und glänzend
In stiller Sonne stehn die Bäume des Haines:

So stehn sie unter günstiger Witterung,
Sie die kein Meister allein, die wunderbar
Allgegenwärtig erzieht in leichtem Umfangen
Die mächtige, die göttlichschöne Natur.
Drum wenn zu schlafen sie scheint zu Zeiten des Jahrs
Am Himmel oder unter den Pflanzen oder den Völkern
So trauert der Dichter Angesicht auch,
Sie scheinen allein zu sein, doch ahnen sie immer.
Denn ahnend ruhet sie selbst auch.

Jetzt aber tagts! Ich harrt und sah es kommen,
Und was ich sah, das Heilige sei mein Wort.
Denn sie, sie selbst, die älter denn die Zeiten
Und über die Götter des Abends und Orients ist,
Die Natur ist jetzt mit Waffenklang erwacht,
Und hoch vom Äther bis zum Abgrund nieder
Nach festem Gesetze, wie einst, aus heiligem Chaos gezeugt,
Fühlt neu die Begeisterung sich,
Die Allerschaffende, wieder.

Und wie im Aug’ ein Feuer dem Manne glänzt,
Wenn hohes er entwarf; so ist
Von neuem an den Zeichen, den Taten der Welt jetzt
Ein Feuer angezündet in Seelen der Dichter.
Und was zuvor geschah, doch kaum gefühlt,
Ist offenbar erst jetzt,
Und die uns lächelnd den Acker gebauet,
In Knechtsgestalt, sie sind erkannt,
Die Allebendigen, die Kräfte der Götter.

Erfrägst du sie? im Liede wehet ihr Geist
Wenn es der Sonne des Tags und warmer Erd
Entwächst, und Wettern, die in der Luft, und andern
Die vorbereiteter in Tiefen der Zeit,
Und deutungsvoller, und vernehmlicher uns
Hinwandeln zwischen Himmel und Erd und unter den Völkern
Des gemeinsamen Geistes Gedanken sind,
Still endend in der Seele des Dichters,

Daß schnellbetroffen sie, Unendlichem
Bekannt seit langer Zeit, von Erinnerung
Erbebt, und ihr, von heilgem Strahl entzündet,
Die Frucht in Liebe geboren, der Götter und Menschen Werk
Der Gesang, damit er beiden zeuge, glückt.
So fiel, wie Dichter sagen, da sie sichtbar
Den Gott zu sehen begehrte, sein Blitz auf Semeles Haus
Und die göttlichgetroffne gebar,
Die Frucht des Gewitters, den heiligen Bacchus.

Und daher trinken himmlisches Feuer jetzt
Die Erdensöhne ohne Gefahr.
Doch uns gebührt es, unter Gottes Gewittern,
Ihr Dichter! mit entblößtem Haupte zu stehen,
Des Vaters Strahl, ihn selbst, mit eigner Hand
Zu fassen und dem Volk ins Lied
Gehüllt die himmlische Gabe zu reichen.
Denn sind nur reinen Herzens,
Wie Kinder, wir, sind schuldlos unsere Hände,

Des Vaters Strahl, der reine, versengt es nicht
Und tieferschüttert, die Leiden des Stärkeren
Mitleidend, bleibt in den hochherstürzenden Stürmen
Des Gottes, wenn er nahet, das Herz doch fest.
Doch weh mir, wenn von
[ ]

Weh mir![
]

Und sag ich gleich,[
]
Ich sei genaht, die Himmlischen zu schauen,
Sie selbst, sie werfen mich tief unter die Lebenden,
Den falschen Priester, ins Dunkel, daß ich
Das warnende Lied den Gelehrigen singe,
Dort

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