poesia

1 poema de Rafael Fernandes

fotografia Rafael Fernandes 08.04.2020

Rafael de Oliveira Fernandes nasceu em São Paulo, em 1981, é formado em Direito pela USP, escritor, autor dos livros de poemas Menino no telhado e Cadernos de espiral (ed. 7letras) e dos romances Vista parcial do Tejo e Baseado em fantasmas reais (ed. Patuá).

*

Recordando Maria

Recordar seu rosto era pensar em quadros
que nunca secavam.
Eles eram filmes em que eu podia ver
as cores escorrendo.
E ouvir os sons como podemos ouvir
a água.
Era como assistir a um dia chuvoso
passando na janela.
Não as pessoas caminhando na rua
ou as folhas numa praça.
Mas a substância da vida que constitui
um dia.
Era ter uma lembrança viva.
Seus traços estariam nos quartos e ruas
de minha memória mas não deixariam
de ser seu rosto.
Seria como observar a chuva carregando
os papéis nas calhas, as latinhas na calçada,
passando por cada pedaço de asfalto e vão de madeira
e saber, contudo,
que não deixaria de ser chuva depois que passa.
Eu poderia ver os caminhos d’água
escorrendo pelo vidro.
E os próprios dias passando,
escorrendo por ele e indo embora
sem os perder todavia.
Seria capaz de conservá-los
como a chuva que entra em nossos poros
e ainda permanece em nossas roupas molhadas
muito tempo depois
da enxurrada.

Eu olharia para a janela
muito tempo depois
e enquanto os dias não parassem
de passar pelo vidro
eu saberia que poderia guardar sua voz
suas cores
seu sorriso
como se olhasse para um quadro
do seu rosto
e visse nele contudo
não a sua imagem,
uma cópia de você,
mas a modelo que está sendo pintada.
Seria como vê-la por dentro a partir
da sua superfície.
Como se não a visse refletida num rio
ou num lago,
mas como se você fizesse parte dele
estivesse ali mergulhada.
E eu percebesse seus movimentos,
as emoções do seu rosto
através do movimento das águas.
Por outro lado aquilo que não fizesse parte
de você
não faria mais parte de mim,
como a ausência do seu contorno
a falta do seu olhar
a tristeza que eu sentiria com a sua falta.
Ela não se conservaria em mim porque
não faz parte
de você, da sua substância.
É o avesso dela na verdade.
Como os vazios no meio da poeira
são o avesso dos caminhos da chuva
depois que ela seca
Como o leito seco de um rio é o seu avesso
e não conserva sua substância líquida.
Nem sua vida ou os peixes,
as plantas que ali estiveram.
Seria como as lágrimas que secam
deixando sulcos na pele,
como se um pedaço daquele rosto tivesse subitamente
se apagado.

*

 

 

 

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