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XANTO|Thomas Bernhard e o monolito opaco do ódio, por Alex Sugamosto

Vi a Terra imperecível como o Sol
Quando regressei ao sono, em busca do meu pai,
Que trouxe a mensagem do último vento
À minha miserável condição, que molestava sua glória,
A glória de que ele dizia: <<Os grandes destinos
São um fracasso para amanhã…>>
Podridão, Thomas Bernhard

A cena é conhecida: ao som do Réquiem de György Ligeti, macacos acordam assustados com a presença de um monolito negro. A música se distende em tensões e os macacos transitam do pavor para a adoração. Logo acima do monolito, em um movimento nauseante de câmera, conseguimos enxergar o sol e a lua. 2001- Uma odisseia no espaço, o filme em que se passa a cena mencionada, não explica o significado do monolito e tampouco sua origem ou a teleologia de sua fascinação. É preciso, entretanto, examinar suas características para entender o objeto: trata-se de um bloco opaco supostamente caído do espaço. Sem ranhuras, cravado na terra, ele retém a luz e bane a energia do sol de seu interior.

Apresento a imagem do monolito, pois ela me parece exata para sintetizar a literatura do austríaco Thomas Bernhard. Niclaas Thomas Bernhard nasceu em 1931 e teve uma infância problemática que, entretanto, influenciaria toda sua obra: o pai cometeu suicídio e a mãe o entregou para viver com os avós em Viena (posteriormente, os avós se mudaram com a criança para Salzburgo). Depois de uma série de tentativas educacionais malsucedidas, Bernhard foi encaminhado para estudar em um internato nazista. Em 1949, uma tuberculose o deixou à beira da morte e ele chegou, inclusive, a receber a extrema-unção. Só conseguiu sobreviver, segundo suas próprias palavras, por um esforço de vontade. Também em 1949, Bernhard teve que lidar com uma perda significativa: a morte de seu avô, o escritor Johannes Freumbichler que era uma espécie de guia intelectual e mentor artístico do jovem Thomas. Em Origem, romance autobiográfico, Thomas Bernhard descreve o caráter pedagógico do avô: “Meu avô materno me salvou do embotamento e do fedor monótono da tragédia terrena, na qual bilhões e bilhões de pessoas já sufocaram. Cedo o bastante e sem me poupar de dolorosos castigos, ele me arrancou do pântano universal: para minha sorte, primeiro a cabeça, depois o resto. Cedo o bastante, e na realidade foi o único a fazê-lo, ele me fez atentar para o fato de que o ser humano possui uma cabeça e para o que isso significa: que a capacidade de andar deve se fazer acompanhar, tão logo seja possível, da capacidade de pensar”. Fedor, tragédia, podridão e nojo serão palavras que acompanharão o escritor austríaco até a sua morte, aos 58 anos, derivada da doença pulmonar infantil.

Há, entretanto, uma outra palavra que definiria a totalidade de sua literatura: ódio. Com uma carreira marcada por polêmicas, desentendimentos e um profundo desprezo pela Áustria, Bernhard dirigiu toda sua força produtiva para demonstrar o quanto abominava a pequenez, as tentativas de controle, a mesquinharia e a ignorância. Abrir os livros de Thomas Bernhard é, segundo a certeira expressão de Geoff Dyer, ficar vulnerável a uma espécie de intoxicação; e é justamente o efeito narcótico de seus livros que transforma o leitor em um dos macacos de Kubrick: se todas aquelas palavras de repulsa podem produzir um medo espontâneo, quando não uma espécie de letargia, pouco a pouco as condenações do autor começam a fazer sentido e as vozes que se intercalam para cuspir na condição humana passam a ser as nossas próprias vozes internas.  

Construídos em imensos blocos sem parágrafos, divisões de capítulos ou separações de seções, os romances de Thomas Bernhard refletem a sua relação com o ar. Assim, uma vez começado o livro é impossível sair dele e o leitor precisa tomar fôlego para acompanhar uma sequência contrapontística de “eu disse, dissera, ele disse, pensara, ele pensou, pensei” que deságua na autodestruição da narrativa, do narrador e do próprio romance. Franz-Josef Murau, o protagonista de Extinção, deixa explícito seu desejo: “…Extinção é como chamarei esse relato, dissera a Gambetti, pois nesse relato extingo efetivamente tudo, tudo o que escrever nesse relato será extinto, minha família inteira nele será extinta, sua época será nele extinta, Wolfsegg será extinta em meu relato, à minha maneira, Gambetti”.

Sendo considerado pela crítica como autor canônico e um dos mais importantes escritores de língua alemã do século XX — ao lado de Günter Grass e Heinrich Böll — Thomas Bernhard, entretanto, resiste à banalização justamente por conta de suas escolhas estéticas.

Ao comentar a obra de Bernhard, George Steiner o celebra como “artesão supremo da prosa alemã, depois de Kafka e Musil”. Não é pouca coisa para um crítico tão exigente como Steiner. Na mesma esteira da celebração, contudo, há uma firme admoestação sobre o papel artístico do ódio: – “O problema do ódio é que ele tem fôlego curto. Quando o ódio gera uma inspiração verdadeiramente clássica — em Dante, em Swift, em Rimbaud, vem em surtos, por curtas distâncias. Prolongando, torna-se uma serra monótona e sem fio zunindo e arranhando interminavelmente”.

É vã, portanto, a tentativa de procurar luz, alegria ou consolações na obra de Thomas Bernhard. A fascinação que seus livros produzem certamente derivam do importante tema do banimento simbólico da luz que perpassa a mitologia de diversos povos. Dessa forma, o monolito de Bernhard, com suas serras ladeadas por paredes, não pode atender nossa expectativa literárias mais elementar: o anseio por claridade.

Acima dele, entretanto, brilham as candeias em todas as formas de vida que sobreviveram ao encanto terrível de sua prosa.

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Alex Sugamosto é professor de Filosofia, Escritor e Mestre em Ciências da Religião.

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